O Soldado que Matou o Bom Senso

11/01/2017 | Conflito.
Elor Azaria

Poucos dias depois do incidente em Hebron, no qual Elor Azaria executou um terrorista neutralizado e ferido, escrevi sobre o assunto. Citei todos os dados conhecidos na época pela investigação do caso. Depois de nove meses, nem a investigação do exército, nem da defesa encontraram qualquer fato novo. Os juízes foram unânimes no veredito: Azaria é culpado em homicídio culposo.

Eis os fatos conforme foram apurados:

  1. Elor não participou da ação que neutralizou os terroristas. Não estava lá na hora em que a dupla atacou com facas os os soldados que estavam no posto.
  2. O soldado chegou 11 minutos depois que o terrorista já estava no chão, neutralizado. A faca que segurava no momento do atentado já tinha sido afastada dele há muito tempo.
  3. De acordo com testemunhas (oficiais do exército e outros soldados no local), não havia qualquer suspeita do terrorista estar escondendo explosivos debaixo da roupa. O ambiente na cena era relaxado e tranquilo. Soldados e civis circulavam sem qualquer problema pela região.
  4. Antes de atirar, Elor falou para um colega: “Terrorista tem é que morrer”.

Dados os fatos da investigação, as conclusões dos juízes foram:

  1. Elor agiu por conta própria, sem compartilhar com suas intenções (ou eventuais suspeitas) com ninguém.
  2. Mesmo que as suspeitas de Elor tivessem sido corretas, e o terrorista estivesse em condições de se explodir, a ação do soldado pôs em perigo a todos que o circundavam. Não é esse o procedimento correto para desarmar um terrorista suspeito de carregar explosivos, especialmente sem avisar ninguém sobre o tiro a ser disparado.
  3. Houve tentativa de alterar a cena, quando a faca do terrorista voltou para próximo do seu corpo após ter sido morto.
  4. Elor Azaria mentiu durante a prestação de testemunho. Deu cinco versões completamente incompatíveis entre si para justificar sua atitude. (Este fato, acima de tudo, foi o mais importante para sua incriminação, afirmaram os juízes.)

A maior parte dos partidos relacionados à esquerda ou centro-esquerda, teve uma reação anódina, automática e desorganizada ao criticar os eventos e, por esses e outros motivos, foi quase irrelevante.

Os dois principais partidos de centro, o Yesh Atid e o Kulanu, foram cautelosos e silenciosos a respeito do assunto. Desde os primeiros sinais de problema, há nove meses atrás. Vivem num precário equilíbrio entre conquistar votos da direita e da esquerda.

Partidos nacionalistas, colonialistas e religiosos, com uma tendência mais à direita no espectro, no entanto, não perderam a oportunidade de fazer uso do caso para suas causas – as causas religiosas, nacionalistas e, de forma extremamente confusa, pelo menos para mim, militaristas. Falaram tudo que não deviam. E sabiam disso. Como eu sei que eles sabiam que falavam o que não deviam? Porque tenho o excelente exemplo do agora Ministro da Segurança, Avigdor Lieberman.

Avigador Lieberman, na época do incidente, era parte da oposição. Mas extrema direita, e de olho nos votos do Likud. Foi visitar o soldado na prisão e esbravejou em frente às câmeras que era impossível conceber um cenário em que Elor Azaria seria condenado. Era um rapaz inocente e tudo que fez foi o que tinha que ser feito. Acusou os generais do exército de terem “abandonado” o rapaz, exaltou-se e incitou contra o tribunal militar, levando consigo uma multidão que foi até lá protestar.

Mas hoje, Ministro da Defesa, disse laconicamente: “Este é um veredito severo e peço a todos que respeitemos a decisão do tribunal e mostremos restrições. O que é importante – apesar do severo veredicto – é que as instituições de defesa ajudem a família e este soldado. Aconselho o público a não criticar a IDF ou o tribunal. Devemos respeitar a decisão.”

Benjamin Netanyahu se orgulha tremendamente de Israel ser “a única democracia do Oriente Médio”. No entanto, não fez nem sequer menção de proteger as instituições, os juízes, ou até mesmo o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o general Gadi Eisenkot. Tanto os juízes do caso como o general foram acusados de traidores e tiveram ameaças de morte. Netanyahu apenas escreveu em seu Facebook que seu coração estava com a família e com o rapaz, e que defendia um indulto ao soldado. (Contrariando, assim, a opinião de juízes de um tribunal constituído em uma instituição nacional.)

Cinco ex-Chefes do Comando Maior foram a público para defender as instituições militares e o General Gadi Eisenkot, que foi criticado também por parlamentares e alguns ministros.

A direita defende um estado nacionalista e militarista. E nenhum representante da direita sequer pensou em defender o exército em público. Essa é a linha que cruza do nacionalismo para o mero populismo nacionalista.

E o populismo nacionalista é perigoso.
O populismo nacionalista leva a conclusões erradas e danosas. Logo após o atentado por atropelamento em Jerusalém no dia 8/1/17, uma testemunha afirmou que os soldados, por medo de serem processados, hesitaram em atirar no terrorista. Uma breve investigação mostra que nada menos que cinco deles atiraram para matar, quase imediatamente,assim que o cenário ficou claro. A testemunha depois afirmou que estava “abalado” (não como os soldados que, ao contrário dessa testemunha, atiraram e não pararam para pensar em política). Sem falar dos mais de 160 ataques neutralizados desde a prisão de Azaria, em que soldados, ao contrário de Azaria, fizeram o que foram treinados para fazer.

Essas comparações estúpidas entre ações individuais desmedidas apoiadas por fanáticos e soldados que às vezes cometem erros, é exatamente o que define o populismo nacionalista. E a primeira vítima é exatamente a instituição que está aí justamente para diferenciar uma coisa da outra: o sistema de judiciário.

(Ouça também o excepcional podcast de uma conversa sobre o assunto entre meus colegas Yair e Marcelão)

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