O último capítulo da história de Ron Arad?

22/02/2016 | Conflito.

Depoimento em tribunal libanês revela que o navegador israelense Ron Arad estaria morto desde 1988, quando teria sucumbido aos maus-tratos e à tortura no cativeiro. Esta revelação pode dar desfecho a um dos mais longos dramas israelenses, no ano em que completa três décadas de duração.

Em 16 de outubro de 1986, um caça F-4 Phantom II da força aérea israelense sobrevoava o sul do Líbano, em missão para bombardear alvos da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) perto da cidade de Sidon, quando uma das bombas a bordo explodiu prematuramente, gerando danos irreversíveis na aeronave, que teve de ser pousada. Uma equipe das Forças de Defesa de Israel (IDF) conseguiu resgatar o piloto, Yishai Aviram, mas Arad foi capturado por milícias do partido xiita libanês Amal.

A partir daí, o governo, o exército e os serviços de inteligência iniciaram esforços para rastrear o paradeiro de Ron Arad e alcançar na diplomacia ou no braço seu retorno, registrando sua localização e identificando as mãos que o mantinham a cada momento. Há confirmações de que Arad foi levado para Beirute e continuava sob a guarda da Amal até 1987, quando três cartas manuscritas e duas fotografias foram divulgadas, comprovando que o navegador ainda vivia.

A partir de 1988, entretanto, já não se sabia ao certo onde Ron Arad estava, quem o mantinha prisioneiro a Amal teria repassado o prisioneiro para o Hezbollah, mas também havia suspeitas de que ele estaria nas mãos da Guarda Revolucionária Iraniana ou se ainda estaria vivo. Inúmeros chefes do Estado-maior das IDF, ministros da Defesa e primeiros-ministros foram indagados ao longo das últimas três décadas pela família Arad e por grupos de pressão surgidos na sociedade israelense para que revelassem se o Estado de Israel possuía quaisquer informações adicionais.

Uma das fotos de Ron Arad no cativeiro
Uma das fotos de Ron Arad no cativeiro

Em todos os contatos oficiais e extra-oficiais do governo de Israel com o regime da família al-Assad e com a organização terrorista xiita Hezbollah, o nome de Ron Arad é lembrado. Seu retorno (morto ou vivo) é mencionado em listas de possíveis exigências para um acordo com a Síria, e como contrapartida para a libertação de prisioneiros inimigos. Mas a verdade é que as informações recebidas ao longo da década de 1990 e do início dos anos 2000 passaram a ser cada vez mais contraditórias e cada vez menos confiáveis.

Novas cartas manuscritas surgiam, e imagens inéditas era divulgadas, mas era impossível não perceber que todas as provas de que Ron Arad ainda estaria vivo eram facilmente identificáveis com o final dos anos 1980. Lembro-me de estar no kibutz Hatzerim em outubro de 2004 e participar de uma cerimônia de lembrança pelo 18º aniversário da captura do navegador. Na ocasião, foi mencionado o trágico fato de que Yuval, a filha que Ron Arad nunca conheceu, estava prestes a ser convocada para o exército, sem que este conseguisse cumprir a garantia de trazer seu pai de volta.

Após a Segunda Guerra do Líbano, no verão de 2006, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, declarou pela primeira vez que a organização não conhecia o paradeiro de Ron Arad e que o presumia morto. A morte do navegador também foi confirmada pelos mediadores das Nações Unidas que participaram das negociações de trocas de prisioneiros e corpos entre os terroristas xiitas e o Estado de Israel em 2008. Restava esclarecer a data e as condições em que Arad teria morrido.

Neste sábado, 20 de janeiro de 2016, a imprensa libanesa reportou um fato que pode confirmar as amplas suspeitas de que Arad esteja realmente morto e todas as informações sobre seu paradeiro desde 1988 não passavam de factoides, fabricados para manter o nome do navegador presente no diálogo nacional e usá-lo como barganha em negociações com Israel. Na última sexta-feira, dia 19, um tribunal militar libanês julgou membros do Partido Nacional-Social da Síria (PNSS, participante ativo da Guerra Civil Libanesa), acusados de colaboração com Israel.

Trecho de uma das cartas manuscritas de Ron Arad à família
Trecho de uma das cartas manuscritas de Ron Arad à família

Um dos réus, Moufid Kuntar, um oficial do PNSS, relatou que Ron Arad morreu em 1988, como resultado de maus-tratos e tortura no cárcere. Kuntar e outros guerrilheiros, alguns já mortos, estão sendo julgados por passarem informações sobre o estado de Arad às autoridades israelenses, e de negociarem o envio de um osso que alegavam ser de Arad, para que exames laboratoriais confirmassem sua legitimidade. Muitas das informações transmitidas foram posteriormente provadas falsas, tendo sido fabricadas visando ludibriar Israel e levantar fundos para a organização e para seu próprio enriquecimento.

Segundo seu depoimento, Moufid Kuntar teria sido chamado em 1988 para transportar para um apartamento no distrito de Matn, próximo a Beirute, um prisioneiro que vestia apenas um macacão e não tinham forças sequer para manter-se em pé. Dois dias depois, Kuntar recebeu um telefonema do oficial responsável pelo local, informando que o homem demorara muito no banheiro e, quando os guardas arrombaram a porta para tirá-lo de lá, notaram que já estava morto, sucumbindo ao frágil estado em que a tortura lhe deixara. À época, Kuntar não teria reconhecido o homem como Ron Arad, apenas identificando-o dez anos depois, quando surpreendentemente a imprensa local publicou novas fotos que supostamente provariam que Arad ainda estaria vivo. Estas fotos divulgadas em 1998 são mais alguns dos documentos identificados como sendo em realidade de 1987/1988.

O Estado de Israel faz um esforço muito grande para trazer de volta seus soldados capturados pelos exércitos inimigos, como ocorreu em diversas trocas de prisioneiros que seguiram às guerras até a década de 1970. Ron Arad, entretanto, não foi capturado por um exército, mas por uma organização paramilitar dentro do Estado libanês, considerada organização terrorista, que não respeita as regras do jogo às quais o público israelense e mundial estavam acostumados.

Esta mesma situação se deu com Ehud Goldwasser e Eldad Regev, os dois soldados capturados pelo Hezbollah em 2006, cujos corpos foram retornados a Israel em troca de cinco prisioneiros libaneses e palestinos, além de 200 outros corpos. Gilad Shalit, capturado pelo Hamas na fronteira com a Faixa de Gaza no mesmo período, foi solto apenas cinco anos depois, em troca de 1.027 prisioneiros, majoritariamente palestinos, após grande pressão da sociedade israelense e da família do soldado. Comenta-se que a família Arad recomendou aos pais de Gilad Shalit que fizessem uma ampla campanha para forçar a trazer o soldado de volta o mais rapidamente possível.

A história de Ron Arad entrou para o inconsciente coletivo israelense e ajudou a mudá-lo. O drama vivido por esta família e a sensação de falta de desfecho para um história que já dura três décadas moldou a forma como a sociedade e suas instituições lidam com o tema dos sequestros de soldados. O governo mostra-se mais disposto a trocar números estratosféricos de prisioneiros para evitar um desfecho catastrófico, e o exército teria criado novos procedimentos, que supostamente determinam que a recuperação de um soldado sequestrado passaria a ter prioridade sobre os objetivos das missões.

Às vésperas do 30º aniversário da captura de Ron Arad, ainda é cedo para confirmar se os novos fatos tornados públicos em Beirute na última semana são verdadeiros. É mais cedo ainda para prever sua influência sobre a sociedade israelense. É importante, no entanto, que a verdade venha à tona, pois conhecê-la é um direito da família Arad e uma necessidade para todos nós.


Reportagens do HaAretz em hebraico e em inglês e do Daily Star libanês, em inglês.

Foto de capa de Rodrigo Uriartt. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/

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