O último dia de Itzhak Rabin em Tel Aviv

06/11/2015 | Conflito; Política; Sociedade

O cineasta israelense Amos Gitai é um cara bom de timing: fez a première de seu novo filme, “Rabin, the Last Day”, exatos 20 anos depois do assassinato do premiê israelense Itzchak Rabin, no último dia 4 de novembro. E o fez no Heichal Hatarbut, o maravilhoso auditório de Tel Aviv, localizado a algumas centenas de metros do local do crime, com lotação máxima. O filme chegará em algum momento no Brasil, onde Gitai, o mais importante cineasta israelense da atualidade (ou talvez de todos os tempos) é conhecido. Vai atrair um público já cativo, do qual se aproximou com os difíceis “Kadosh” (1999), “O Dia do Perdão” (2000) e “Free Zone” (2005). E, claro, vai provocar polêmica.

Gitai dessa vez embrenhou-se no universo dos documentários. Seguiu novamente o seu estilo – cenas longas, um tanto sombrias, um tanto monótonas –, dessa vez em um “docudrama” que mescla cenas reais e dramaturgia ao longo de nada menos do que 153 minutos. Claro que havia de se esperar por um conteúdo crítico. Mas ele foi além, imprimindo sua opinião a respeito da política e da sociedade israelenses. Não sou crítica de cinema, e por isso digo apenas por mim mesma: acho que ele perdeu pontos nessa hora.

RABIN, THE LAST DAY (2015) by Amos Gitai [trailer] from Richard Lormand on Vimeo.

Para quem conhece a história do assassinato de Rabin de orelhada, ele dá uma longa aula de história. Os elementos estão todos lá: o clima de ruptura da sociedade israelense frente aos Acordos de Oslo, a forma como Rabin encarou seu desafio, a sucessão de erros que colaborou para o sucesso do atentado, a oposição de religiosos extremistas a seu governo e a violência com que esse assunto foi conduzido no país. No entanto, por ele ter se rendido tanto ao formato de documentário, esperava uma visão um pouco menos parcial. As nuances dos personagens não serão claras a quem conhece pouco Israel e suas dissidências internas. No fim, parece que tudo resume-se à velha guerra entre o bem e o mal – mas quem está por aqui sabe que existem camadas e camadas de tons cinzas separando o branco do preto. Essa discussão não foi proposta por Gitai e me frustei por ele ter aberto mão da oportunidade de tentar monstrar o “cubo mágico” da sociedade israelense.

Mas preciso confessar que, assim como qualquer autor é um manipulador, também estou sendo manipuladora agora, deixando para dizer que há muitas qualidades no filme. Preciso dizer que “Rabin” é um bom longa e que merece ser visto, em especial por quem se interessa pelo controverso universo israelense. É interessante acompanhar os interrogatórios da Comissão Shamgar, que não apresentam nenhuma conclusão e que, portanto, fazem com que o público tente pensar com sua própria cabeça: o assassinato foi ou não um complô contra Rabin e a paz que ele parecia representar? Também é interessante assistir às cenas reais e entender a sucessão de erros cometidos pelos responsáveis pela segurança do primeiro-ministro. Além disso, sou fã do infatigável (e incrivelmente lúcido) Shimon Peres, que abre o filme dando uma longa entrevista em sua própria pele, tocante de tão sincera.

Agora, cabe a você ir ao cinema e tirar sua própria conclusão.

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “O último dia de Itzhak Rabin em Tel Aviv”

  • Marcelo Starec

    07/11/2015 at 06:38

    Oi Miriam,

    Muito bom saber!…Vou assistir na primeira oportunidade, com toda certeza!…Bem, tenho de concordar inteiramente contigo nessa questão do maniqueísmo – considero o maniqueísmo, em qualquer assunto, como um tipo de extremismo sempre causador do mal…Ele não permite que se compreenda o mundo real, mas te leva a compreensão básica de uma criança…Esses são os “mocinhos, aqueles são os bandidos”…ou “a esquerda sempre quer o bem da humanidade” vs. “a direita quer sempre o mal”…ou vice versa, tanto faz…A realidade é sempre muito mais complexa, difícil de compreender e normalmente nos leva a uma reflexão maior do que todos gostariam de ter – mas é a realidade que precisa ser compreendida!…Sinto que, infelizmente, no caso de Yitzchak Rabin, um homem que tanto fez por Israel, ainda há muito o que se pensar sobre o que seria exatamente o seu legado…Ficamos com a última fotografia dele, até mesmo devido ao trágico e inaceitável assassinato que ele sofreu, de um homem que apostou muito na paz, nos últimos momentos de sua vida…Daria certo?…Estaríamos hoje em uma situação melhor?…Infelizmente, creio que não, apesar de todas as nobres intenções…mas que precisamos encontrar um caminho para construirmos as pontes para a paz, isto com certeza!…Sinto isso até mesmo como uma obrigação…e para encontrarmos isso creio nos seguintes caminhos: 1) Construção de pontes entre as sociedades israelense e palestina (independente de governos!); uma agenda, aí sim de governo, que force com que sejam construídas na sociedade palestina as instituições necessárias ao bom funcionamento, no futuro, de um Estado pacífico e viável, que possa vir a coexistir ao lado de Israel (escolas, justiça etc. etc. etc…); a vinculação da ajuda humanitária palestina ao cumprimento de pontos fundamentais com a devida cobrança de resultados…Assim, em longo prazo, tudo isso efetivamente ocorrerá – e um acordo precisa prever e monitorar tudo isso, pois caso contrário será tão somente mais um acordo, que não chegará a nenhuma solução boa….

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      08/11/2015 at 00:30

      Daria certo?
      Boa pergunta mesmo.
      Obrigada pela mensagem simpática.
      Shavua tov!
      Miriam

  • Paulinho

    07/11/2015 at 17:24

    Foi exibido no festival de cinema do Rio mês passado (ou retrasado), mas eu não consegui ver. Espero que entre em cartaz por aqui.

    • Miriam Sanger

      08/11/2015 at 00:30

      Oi, Paulinho.
      Se seguir os passos dos filmes anteriores do diretor, entra sim.
      Abraço,
      Miriam

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