Obrigado por tudo, Shulamit!

26/01/2014 | Política

Faleceu no dia de ontem (24/01) Shulamit Aloni, aos 85 anos. Seu nome pode ser desconhecido para os leitores, Aloni não é noticiada pelos jornais israelenses há um tempo, afinal. Desde 1996 retirada da vida pública, suas aparições foram raras desde então, em geral quando publicou livros sobre o tema dos direitos humanos. Mas a repercussão de sua morte nos mostra que sua herança política é imensa: os diários eletrônicos Haaretz e Ynet publicaram uma longa lista de personalidades políticas que lamentaram seu falecimento e valorizaram seus feitos públicos: desde militantes do seu partido (Meretz), passando por políticos de outros partidos e movimentos sociais como Itzhak Herzog (Trabalhista), Dov Chanin (Chadash) e Yariv Oppenheimer (Paz Agora), passando por partidos de centro (Yesh Atid) até chegar a membros do Likud, como o Ministro da Defesa Moshe “Buggi” Yalon, que a citou como defensora da democracia, apesar das diferenças de opinião entre ambos.

Não seria para menos: Shulamit Aloni, filha de judeus poloneses, nasceu em Tel-Aviv em 1928 e foi membro do movimento juvenil sionista socialista HaShomer HaTzair. Participou da guerra de 1948 como membro do Palmach (força de elite da Haganá, principal milícia judaica na Palestina britânica), quando chegou a ser presa pelos jordanianos. Formou-se em direito na Universidade Hebraica de Jerusalém, e trabalhou como professora durante seus estudos. Posteriormente licenciou-se e pôde lecionar como profissão permanente.

No fim dos anos 1950, Aloni ingressou na juventude do Mapai (Partido Trabalhista Israelense), destacando-se pela defesa dos direitos humanos, e elegeu-se parlamentar entre 1961-65. Neste período popularizou-se por ser autora da lei que criou o Departamento de Reclamações do Público para auxiliar o “Mevaker HaMedina”[ref]Cargo público de Investigador Crítico do Estado, responsável por fiscalizar o Estado e consequentemente, o governo[/ref]. Descontente com os rumos do partido e desafeta de Golda Meir, desfiliou-se em 1973 e criou o partido Ratz (Partido dos Direitos do Cidadão), disputando as eleições de 1975 e alcançando três assentos na Knesset. Aloni foi um dos primeiros políticos no país a criticar a ocupação à Faixa de Gaza e à Cisjordânia, e a defender os direitos da mulher. Foi ministra sem pasta do primeiro governo Rabin (1974), mas retirou-se da coalizão quando os nacionalistas-religiosos (Mafdal) passaram a fazer parte da mesma.

Shulamit Aloni, desde então, destacou-se por uma feroz luta legalista a favor dos direitos humanos, que lhe renderam popularidade: em 1988 conseguiu que a Knesset descriminalizasse o homossexualidade no Código Penal. Na mesma década, conseguiu integrar o movimento Paz Agora ao seu partido, o que lhe rendeu popularidade. Em 1988 o Ratz conseguiu cinco cadeiras na Knesset, duas a mais que o antes popular Mapam.

Mas o mais relevante que fez Aloni foi reunir os três principais partidos que se posicionavam no campo da esquerda sionista e que faziam oposição ao governo de união nacional (Trabalhistas-Likud), criando o Meretz. Aloni foi uma das mentoras da fusão entre Ratz (seu partido, que destacava-se por defender os direitos humanos), Mapam (sionistas socialistas, enfraquecidos com a queda da URSS e a crise dos kibutzim) e o primeiro Shinui (que defendia a separação entre religião e Estado), que juntos deram origem ao atual Meretz. Aloni foi a número 1 do novo partido nas eleições de 1992, quando alcançaram a histórica marca de 12 assentos. Rabin, eleito primeiro ministro, a ofereceu o prestigiado cargo de Ministro das Relações Exteriores, recusado prontamente. Aloni preferiu ser Ministra da Educação, onde até hoje é considerada referência. Aloni questionou as viagens institucionais do ensino médio à Polônia, multiplicou a verba para a educação e reformou o currículo escolar (sobretudo no que se refere ao ensino de cidadania). Criticada pela direita religiosa e nacionalista, elogiada pelas esquerdas em geral, seu mandato é tema de estudos de acadêmicos até hoje. Após divergências com o Shas, foi convencida a renunciar por Rabin, que temia a queda de seu governo. Dando prioridade ao processo de paz, Aloni optou por assumir os Ministérios de Artes, Ciência e Tecnologia e de Comunicação no mesmo governo.

Após ser derrotada nas primárias do partido em 1996 por Yossi Sarid, Aloni decidiu não disputar mais eleições para a Knesset, mas não abandonou a luta por direitos humanos. Em 2000 recebeu o Prêmio Israel por suas contribuições para a sociedade israelense através de sua luta por direitos humanos. Autora de seis livros, mãe de três filhos, Shulamit era viúva desde 1988. Ontem faleceu e deixou órfãos seus milhares de seguidores ideológicos.

Durante a campanha que fiz para o Meretz nestas últimas eleições, um senhor passou por nós e disse: “eu não votarei este ano, mas se vocês me trouxessem de volta a Shulamit Aloni meu voto seria de vocês”. Minha companheira de militância lhe respondeu: “infelizmente não podemos mais trazê-la”. Ontem, de fato, eu tive esta certeza. Fica a impressão de que é necessário que a esquerda sionista se renove, e que apareçam mais nomes que defendam os direitos humanos como Shulamit Aloni. Antes que seja tarde demais.

Foto de capa retirada do site https://picasaweb.google.com/sfp.wasns/SukatAvelim

Comentários    ( 9 )

9 comentários para “Obrigado por tudo, Shulamit!”

  • João K. Miragaya

    26/01/2014 at 15:49

    Eu entendo que a redução da esquerda israelense e os constantes aumentos no desrespeito aos direitos humanos são nocivos para a democracia no país. Acredito que pessoas como Shulamit são necessárias para nos garantirem a continuidade da democracia. Bibi concorda comigo. Você não?

  • Raul Gottlieb

    26/01/2014 at 16:37

    Eu não tenho certeza que os direitos humanos estejam sendo desrespeitados em Israel. Na verdade, duvido que isto esteja acontecendo além do óbvio dever da defesa do Estado.

    Eu tenho grandes dúvidas quanto à capacidade da esquerda em defender os diretos humanos, pois seu objetivo de igualdade econômica gera com dolorosa frequência uma sociedade totalitária na qual um grupo se advoga a prerrogativa de distribuir à força a riqueza construída pelo coletivo.

    Sendo evidente que este grupo é muito sujeito a descambar para a corrupção generalizada. Os exemplos estão aí em todos os cantos que você olhe: URSS, China, Coréia do Norte, Venezuela, Cuba, etc. etc.etc. ad nauseam. Exceções existem, mas são exceções.

    Eu tenho certeza que a esquerda, mesmo onde ela funciona (isto é, nos livros), não é a única ideia de liberdade que o homem foi capaz de produzir.

    Eu tenho certeza que os defensores da economia liberal não querem escravizar os homens. Encontra-se lá o mesmo ideal de liberdade que se encontra na esquerda. Só que por outros meios, que geram riqueza e são factíveis porque reconhecem que os homens não são todos iguais.

    Enoja-me a pretensão da esquerda de se considerar a única defensora dos direitos humanos no mundo. É de uma arrogância ímpar querer ser a ‘unica dona da virtude. Principalmente tendo em vista a sua folha corrida.

    Ontem e hoje os jornais de Israel estamparam a notícia das cartas de Himler que estavam guardadas num cofre em Tel Aviv. Numa delas a esposa do nazista declara a sua frustração pela invasão da Rússia “Ele [Stalin] era nosso aliado …”, lamenta senhora. Para mim isto faz todo o sentido. Ambos os regimes compartilhavam mais semelhanças do que diferenças.

    Sim, acho que pessoas como Shulamit Aloni e muitas outras foram de fundamental importância para manter Israel democrático. Só não vejo a derrocada que você percebe. Por isto estranhei a pressa que você tem em achar uma nova Shulamit. Elas já estão aí, aos milhares.

    Quanto ao Bibi, ele quis ser simpático. Ou demagogo. Você escolhe.

  • Raul Gottlieb

    26/01/2014 at 22:46

    E nem mesmo no contexto israelense onde ser de esquerda significa ser pró paz e ser de direita significa ser pró ocupação esta classificação se sustenta.

    A esquerdista Golda disse que o povo Palestino não existia (e a meu ver ela tinha razão na época, a identidade palestina foi construída lentamente de fora para dentro à medida que os árabes não conseguiram esmagar Israel) e o esquerdista Levi Eshkol sancionou os primeiros moradores judeus nos territórios contestados conquistados em 1967. Depois dele nenhum governo de esquerda deixou de expandir a migração dos israelenses para estes territórios.

    Enquanto isto, o direitista Begin desocupou o Sinai e o direitista Sharon desocupou Gaza.

    Então esta classificação que você faz onde a esquerda se comporta de forma diferente da direita no que diz respeito aos direitos humanos simplesmente não existe. Todos os governos israelenses os respeitam da mesma forma.

    Sim, pessoas que sigam o modelo de Shulamit Aloni são muito importantes para o país, mas não por ser de esquerda, mas apesar disto.

    Mudando um pouco (mas nem tanto) de assunto: li hoje um artigo do Khaled Abu Toame onde ele questiona como será possível o Abas, que entrou em 9 de janeiro no décimo ano do mandato de quatro anos para o qual foi eleito, assinar qualquer acordo, visto que lhe falta legitimidade para tal. É um dirigente não eleito que não convoca novas eleições porque sabe que vai perder.

    Realmente bizarro, não? Quem vai assinar o acordo que o Kerry está costurando não tem mandato para assinar nada.

    • João K. Miragaya

      30/01/2014 at 15:52

      Prezado Raul,

      Novamente você leu algo que eu não escrevi. Eu não fiz absolutamente nenhuma relação entre ser de esquerda e lutar pelos direitos humanos, apenas afirmei que a nossa personagem era conhecida por estar nos dois grupos, e que tanto a falta de pessoas de esquerda como a de pessoas que lutam pelos direitos humanos são nocivas para a democracia no país.

      Suas opiniões são sempre bem-vindas aqui, mesmo quando não possuem relação direta com o tema do artigo. Mas te esclareço que você não precisa procurar pontos de discórdia para tecer seus comentários aqui, o espaço é livre e eu sou um adepto da liberdade de expressão.

      Um abraço.

  • Raul Gottlieb

    27/01/2014 at 15:38

    Acabei de ler um texto da Shulamit Aloni encaminhado pelo IRAC (Israel Religious Action Center) do movimento Reformista onde ela reclamava (e com justiça) da discriminação que a ortodoxia atual faz contra as mulheres. O texto é recente e ela mete o pau no Peres (de esquerda) por ter ido lamber as botas do Rabbi Ovadia Yossef.

    Digo isto para deixar claro que não há relação alguma entre a ” redução da esquerda israelense e os constantes aumentos no desrespeito aos direitos humanos “.

    Quanto à Shulamit Aloni z’l, ela foi sim uma heroína.

  • Raul Gottlieb

    27/01/2014 at 15:42

    Creio que todos viram esta notícia do Globo:

    http://oglobo.globo.com/blogs/pagenotfound/posts/2014/01/26/pombo-solto-por-papa-crianca-atacado-por-gaivota-522099.asp

    O que vocês não sabem é que a gaivota da foto é Palestina.

    Israel é dividido entre pombos e falcões (pelo menos na linguagem dos jornalistas que precisam rotular tudo para manter o apelo comercial da notícia), e me ocorreu ao ver esta foto que na Palestina a maioria é gaivota.

Você é humano? *