A ocupação não é sionista

18/12/2013 | Conflito; Opinião; Política

por Marcos Gorinstein

A cada dia que passa percebo que ser sionista tem se tornado uma tarefa mais e mais difícil. Os ataques vêm de todos os lados da esfera política, da direita à esquerda. Mesmo me considerando um sionista de esquerda (para muitos, radical demais), mantenho a minha defesa de dois Estados para dois povos e que qualquer discussão sobre o acordo de paz deva ser baseada nas fronteiras de 1967, ou seja, fronteiras que demarcavam o território palestino ocupado por Jordânia e Egito e que passou a ser ocupado por Israel.

Contudo a ideia desse texto não é discutir as críticas ao sionismo vindas da esquerda pelo mundo afora – que a cada dia que passa mostra mais desconhecimento do que é propriamente o sionismo e a sua história, além de manter-se fixa a conceitos utilizados por teóricos marxistas no que se refere a concepção de povo e seu direito a autodeterminação)

Nem tampouco discutirei as críticas vindas da direita que, apesar de muitas vezes criticarem a política israelense em relação aos palestinos e à Palestina, säo, em sua grande parte, carregadas de pré-conceitos, racismo e da visão ocidental de que os povos do Oriente são atrasados e merecem a “luz” do Ocidente.

O debate que gostaria de fazer vai no sentido de disputar o termo “Sionismo”. Em termos amplos e gerais, a definição de sionismo corresponde ao direito do povo judeu de construir o seu Estado na terra de Tzion, onde o povo se constituiu enquanto tal ao longo de séculos, construindo reinados, fortalecendo sua cultura e história até que foi expulso na década de 70, começando um período de quase dois milênios de diáspora. Nesse período, seja em sua literatura, música, ensaios teatrais e também orações, o povo judeu presava e vislumbrava o seu retorno a Tzion, fazendo disso uma das bases da cultura judaica diaspórica.

O movimento sionista moderno começa a levantar essa discussão de retorno a Tzion e obtém a sua primeira vitória na arena internacional quando o Reino Unido, com a Declaração Balfour, se mostra disposto a construir o Lar Nacional Judaico no território da Palestina. Também se aventou a possibilidade de construir esse Estado em Uganda (o que foi apoiado por Herzl, até hoje aclamado como o profeta do sionismo moderno), mas então o sionismo perderia o seu sentido.

Mas o ponto onde pretendo chegar é que as lideranças políticas sionistas, da esquerda à direita, sabiam da existência de uma população árabe nativa que beirava um milhão de pessoas e, também por isso, defendiam a partilha do território. A grande maioria dos grupos sionistas defendeu a partilha da Palestina aprovada pela ONU.

É claro que, para quem não tinha nenhum Estado, a partilha do território já era uma enorme vitória, mas a partilha também representava uma menor preocupação com a questão demográfica. Caso todo o território da Palestina fosse destinado à criação do Estado Sionista, de imediato os judeus seriam minoria em seu Estado, colocando tudo em risco.

O sionismo moderno sempre, majoritariamente, defendeu a partilha da Palestina, ou seja, dois Estados.

Hoje nos deparamos com questões mais profundas no que concerne o sionismo e o Estado de Israel. Os chamados pós-sionistas defendem que Israel deva ser um Estado para todos os seus cidadãos, sem discriminação. Mas não seria também essa uma das bases do sionismo? Há a contraposição entre Estado Judeu x Democracia (que segue a mesma discussão feita pelos pós-sionistas), mas para mim, se o Estado Sionista não é democrático e para todos os seus cidadãos, ele deixa de ser Judeu. Ele abandona valores Judaicos básicos de respeito ao próximo e “Tikun Olam”. Estou convencido de que hegemonia não representa maioria demográfica. Ter maior número de judeus vivendo aqui não faz de Israel um Estado Judeu.

Hoje as direitas israelenses (note que não chamei de sionista) defende a ocupação dos territórios palestinos. Investe, a cada mês, mais e mais em assentamentos ilegais que, para além de ferirem valores judaicos, ferem a teoria sionista que possibilitou a construção do Estado de Israel.

Defender a ocupação é ser antissionista, não somente por contradizer o que foi defendido pelo movimento há mais de 100 anos atrás, mas porque o sionismo defende a liberdade, valor que a ocupação não permite e porque ninguém é livre enquanto ocupa outro território e outro povo.

Assim, hoje, quando afirmo a minha identidade sionista e sou questionado se quero participar da dispusta sobre a definição do termo (em função  da terrível conotação que o sionismo tomou hoje em dia por conta da política israelense nos territórios), digo que sim.

Sim, porque defendo dois Estados;

Sim, porque entendo a história do povo judeu permeada por discriminação e massacres e que não quero que seja reproduzida por nós mesmos;

Sim, porque os maiores pensadores judeus e judeus pensadores lutaram por um mundo melhor, sem ocupação de terras e mentes e;

Sim, porque TODO povo tem que ter garantido o seu direito a autodeterminação.

 

Marcos Gorinstein, carioca, 34 anos, sociólogo, é mestrando no Departamento de Estudos Românicos e Latino Americanos na Universidade Hebraica de Jerusalém.

 

Comentários    ( 12 )

12 Responses to “A ocupação não é sionista”

  • Mario S Nusbaum

    18/12/2013 at 23:19

    “mantenho a minha defesa de dois Estados para dois povos e que qualquer discussão sobre o acordo de paz deva ser baseada nas fronteiras de 1967, ”
    OK, de acordo, mas como viabilizar isso se o outro lado sempre se recusou a conversar e continua se recusando?

  • Raul Gottlieb

    19/12/2013 at 22:49

    Marcos,

    Porque os “assentamentos” (na verdade, cidades) são ilegais? Você saberia dizer qual lei está sendo violada pelas cidades judaicas na Cisjordânia?

    Dirigir os destinos de um outro povo é completamente antissionista.

    Ao mesmo tempo defender-se das agressões com todos os meios possíveis está na essência do sionismo.

    Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      22/12/2013 at 16:31

      Raul, permita-me discordar de sua correção: o termo “assentamento” é usado inclusive por quem vive nestas regiões. A palavra hebraica “ishuv” vêm de “lashevet” ou de “lehitiiashev”, que significam respectivamente sentar e assentar-se.

      Eu, particularmente, prefiro o termo usado pela mídia: hitnachalut, que significa colônia. O termo é político, sem dúvidas. Não se usa, por exemplo, o termo hitnachalut para o Neguev atualmente.

      Mesmo que você se recuse a utilizar os termos “assentamento” e “colônia”, chamo a atenção para o fato de que só quatro de todas as colônias judaicas na Cisjordânia possuem status de cidades. Estas em ordem são Modiin Ilit, Beitar Ilit, Maale Adumim e Ariel. Os outros são Conselhos Locais.

      Um abraço

  • Marcelo Starec

    20/12/2013 at 03:19

    Marcos,

    Israel é um estado atípico, no sentido de que até hoje as suas fronteiras definitivas ainda não estão definidas! Mas veja: é comum ver muçulmanos em trajes bem típicos sentados em bares na praia de Tel Aviv, tranquilamente, sem nenhuma preocupação em ser molestados. Por que motivo um judeu também não poderia fazer o mesmo em Nablus?…Muçulmanos podem viver e ter os direitos de cidadão israelense, em Israel hoje. Por que um judeu também não poderia até ser cidadão palestino, da mesma forma?

    Ademais, antes de se discutir ocupação, há que se ver que esse termo tem significados bem diferentes para cada grupo e há muitos palestinos que consideram qualquer território de Israel como “ocupação”.

    Obviamente, como o Raul colocou muito bem, dirigir os destinos de outro povo certamente não é objetivo ou interesse do sionismo, mas tão somente garantir um país cujos habitantes possam viver em paz e segurança.

    Por fim, os fatos falam por si, quando se vê que em momentos chave Israel foi capaz de ceder até o limite para chegar à paz – com o Egito e mesmo com os Palestinos, quando nos acordos de Oslo Israel cedeu em praticamente tudo, mas mesmo assim o outro lado jogou fora tal oportunidade. Assim, não me parece justa a idéia tão difundida de que a paz verdadeira viria com algumas concessões unilaterais de Israel, de forma simples e automática.

    De fato, a paz terá de ser negociada e tem como pré-requisito Israel ter fronteiras seguras e relações diplomáticas com o conjunto de países árabes, em uma solução que me parece a única possível – dois povos, dois estados, e nisso concordamos plenamente. Mas não necessariamente nas fronteiras pré-1967, pois pode-se perfeitamente definir as fronteiras de modo a otimizar esse pequeno território, buscando de modo racional a melhor solução possível para ambos, que não precisaria ser exatamente as fronteiras pré-1967. Mas, convenhamos, isso não depende apenas da vontade de Israel, mas em grande medida de uma decisão firme do outro lado em efetivamente aceitar o direito de Israel de viver ali, para sempre, com paz e segurança.

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    20/12/2013 at 15:27

    “Israel cedeu em praticamente tudo, mas mesmo assim o outro lado jogou fora tal oportunidade.”
    E até agora isso não mudou nem um pouquinho

  • Raul Gottlieb

    27/12/2013 at 17:51

    Mario – mudou sim, mas para pior. A cada concessão israelense os árabes percebem fraqueza do nosso lado. Nós queremos ser aceitos pelos árabes do OM, por isto estamos dispostos a fazer concessões. Os árabes querem hegemonia no OM (alguns no mundo) e por isto usam as nossas concessões para alavancar novas demandas.

    João – obrigado pelo esclarecimento. A pergunta continua: qual lei estariam as cidades, colônias, assentamentos, barraquinhas de pipoca de Israel ofendendo?

  • Marcos Gorinstein

    28/12/2013 at 19:53

    Oi Mario, eu penso que por muitos anos foi dificil achar um parceiro com quem pudessemos conversar do lado Palestino, mas agora podemos encontrar parceiros. A Autoridade Palestina deu demonstracoes importantes nessa cooperacao nos ultimos anos, mas Israel sempre mantem esse argumento de que nao tem parceiros. A oposicao de esquerda faz o discurso contrario, dizendo que temos que dar forca a AP para se construir o processo de paz.
    Quanto aos assentamentos, segundo as leis internacionais, sao ilegais. Tanto que ha o movimento de boicote a tudo que se e produzido e pensado por la (boicote a Universidade de Ariel). O governo tem que autorizar a construcao de qualquer colonia nos Territorios ocupados, mas muitas vezes elas comecam a ser construidas sem autorizacao. E, obviamente, qualquer casa construida nos Territorios traz enorme complicacao.

  • Raul Gottlieb

    30/12/2013 at 14:21

    Marcos,

    Qual a lei internacional que coloca os territórios na ilegalidade?

    O boicote não é prova, pois o fato de haverem 10.000 pessoas erradas não modifica o erro delas. Apenas populariza.

    Quanto à ANP ser uma parceira para a paz, isto é altamente duvidoso. Eles mantém uma política consistente de preservação do conflito. Como você percebe que eles são parceiros para a paz?

    Um bom 2014,
    Raul

  • Marcelo Starec

    07/01/2014 at 00:41

    Marcos,

    Há ainda uma questão complicada. Isto porque a ANP divide com o Hamas a autoridade sobre os territórios palestinos. Assim, ainda quando a ANP manifesta-se numa linha razoável, o Hamas costuma colocar-se, de forma clara, em sentido diametralmente oposto..

    Além disso, a postura da própria ANP costuma ser dúbia, sendo inclusive acusada por setores da mídia de fazer um discurso num tom mais amigável para o Ocidente e um outro bem diferente em Árabe, sobre os mesmos temas. Assim, realmente é muito pertinente a questão levantada pelo Raul.

    Abraço,

    Marcelo.

  • Isaque

    07/02/2015 at 18:48

    Belo texto, meu caro! Parabéns mesmo. Muito esclarecedor.
    Só faço uma ressalva: “Sim, porque TODO povo tem que ter garantido o seu direito a autodeterminação.” Na verdade, neste contexto, este dizer não serve, pois judeu não se refere a um povo, mas a um adepto de uma religião ou relativo a ela, mas nunca a um povo. Abraço e abraço a toda equipe do site. Textos muito instrutivos e moderados.

    • Marcos Gorinstein

      13/02/2015 at 10:02

      Isaque, obrigado pela sua participação. Você está completamente errado na sua afirmação de que o judeus não são um povo e, sim, uma religião. Nós judeus somos um povo, sim. Não sei aonde você baseia o seu comentário, mas ele está errado. Há vários elementos que caracterizam um povo, entre eles uma religião. A religião é somente um elemento cultural do povo judeu. Fora esse há outros elementos como história, lingua, música, enfim….Só para confundir mais um pouquinho o meio campo, eu sou judeu e ateu! Não tenho religião e não acredito em deus, mas o meu pertencimento ao povo judeu, ninguém tira. Grande abraço.

    • Isaque

      13/02/2015 at 16:21

      Olá, Gorinstein. Agradeço o tempo despendido para responder-me.
      Mas volta a informar-lhe: assim como não há povo cristãos, mas povos cristianizados, assim como não há um povo muçulmanos, mas povos convertidos ao Islã, e assim por diante, não há um povo judeu, pois judeu é termo religioso que se refere a um adepto de certa religião, e não um termo antropológico supostamente se referindo a uma etnia. Originalmente, a religião islâmica é de etnia arábica. Por isso a predominância dos muçulmanos nos países árabes. Diga-nos se souber: qual a origem étnica (“povo”) dos judeus que o deram esta predominância cultural, linguística e religiosa?
      Só para informar-te também: dizer-se judeu e ateu é uma contradição em termos. Se és judeu, então segues uma religião: o judaísmo. Se não és judeu, assim como não és cristão nem nada, então não se diga judeu mas somente ateu. 🙂
      Abraço e, novamente, belo blog.

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