Olho por olho

02/07/2014 | Conflito, Política, Sociedade.

Resisti a escrever este artigo.

Incrédulo, comentava com meus colegas de Conexão Israel sobre o que estava testemunhando. Enquanto eles me estimulavam a escrever, eu optava pela tática do avestruz – afundar a cabeça na areia e esperar até que a crise passe para poder retomar minha convivência com a sociedade. No meu caso, a areia é composta de estudos e Copa do Mundo.

Nesta segunda-feira, a partir do momento em que a imprensa estrangeira noticiou que boatos indicavam que haviam sido encontrados os corpos dos três adolescentes desaparecidos, iniciaram-se os primeiros rumores em Israel. No país, a liberdade de imprensa tem uma única restrição: qualquer matéria sobre segurança deve ser aprovada previamente pelo censor militar. Desta maneira, ainda que a imprensa local já soubesse do que ocorreu, não tinha autorização para divulgar os fatos ao público. Quando a vinheta do plantão interrompeu o jogo entre França e Nigéria, todos nós entendemos do que se tratava.

A população precisou de um par de horas para digerir o que aconteceu.

Em seguida, meu choque foi substituído por uma imensa sensação de vergonha. A Copa do Mundo, naturalmente, foi substituída em todos os canais da televisão por mesas redondas sobre a segurança nacional e nossa relação com os palestinos. Alguns deputados dos partidos oposicionistas de esquerda pediam que o governo reagisse com racionalidade e não com emoção. As deputadas Zehava Galon (Meretz) e Shelly Yachimovitch (Partido Trabalhista) exigiam que os culpados fossem presos e punidos, mas sugeriam que uma ampla ação militar levaria apenas à rápida escalada da violência e não faria surtir o efeito desejado.

Ayelet Shaked, a playmate da extrema-direita.
Ayelet Shaked, a playmate da extrema-direita.

Os deputados dos partidos direitistas da coalização, entretanto, optaram por “jogar para a torcida”. A deputada Ayelet Shaked, do partido nacional-religioso HaBait HaYehudi, declarou que “um povo cujos heróis assassinam nossas crianças deve ser tratado no mesmo nível”. Líder do mesmo partido, o ministro da Economia (Emprego, Comércio e Indústria), Naftali Bennet, defendeu uma ampla operação militar contra o Hamas, “porque se nós não iniciarmos a guerra, o Hamas o fará”.

Por sua vez, o ministro da Defesa, Moshe Yaalon, do Likud de Benjamin Netanyahu, que efetivamente comandaria a tal guerra conclamada por Bennet, preferiu ser mais contido e também defendeu uma operação militar poderosa, mas precisa. Como cereja no bolo, sugeriu que a principal retaliação ao povo palestino seja a construção de mais três assentamentos, a serem batizados em homenagem aos três adolescentes assassinados.

E é exatamente nessa questão proposta pelo ministro da Defesa que eu gostaria de focar: a punição coletiva a ser imposta ao povo palestino. Ninguém mais acredita que punir um povo inteiro seja uma decisão que visa meramente influenciar suas escolhas políticas nas eleições vindouras a fim de prejudicar uma ou outra facção. As pessoas estão com a faca entre os dentes, com os olhos cheios de sangue, querendo vingar-se a qualquer custo.

Este incitamento por parte daqueles que foram eleitos exatamente para conduzir o povo com tranqüilidade nestes momentos de tensão fez surtir o efeito esperado: uma explosão popular de ódio. Nas horas que se seguiram, assisti embasbacado aos meus amigos, colegas e conhecidos manifestando-se nas redes sociais.

Os exemplos abaixo não são forjados, não são adaptações de discursos alemães da década de 1930, nem de minisséries sensacionalistas dos canais de televisão do mundo árabe. As frases que reproduzirei, e traduzirei quando necessário, são passíveis de inquérito por racismo em qualquer democracia ocidental, mas foram escritas por pessoas que eu conheço, com as quais já me sentei pra tomar uma cerveja. E nem discutimos sobre política, mas sobre futebol ou cinema.

Clique sobre as imagens para ampliá-las.

Eu vejo todos estes (maus) exemplos e só uma cena me vem à cabeça. Quando o jornal dinamarquês Jyllands-Posten divulgou, em 30 de setembro de 2005, caricaturas do profeta Maomé, o mundo muçulmano sentiu-se ultrajado. Segundo o Islã, qualquer reprodução, honrosa ou vexatória do profeta é proibida. O mundo ocidental, então, horrorizou-se diante da reação muçulmana: embaixadas dinamarquesas em diversos países foram alvo de protestos e ataques. A mim, mais do que o teor da reação propriamente dita, me causou estranheza a incapacidade daquelas hordas de compreenderem que a responsabilidade sobre a publicação das caricaturas, ainda que tenham sido permitidas por um ambiente de liberdade de expressão e plena compreensão de conceitos como ironia e sátira, recai principalmente sobre seus autores e os editores que as autorizaram.

As pessoas que preferem reagir ao assassinato dos rapazes seqüestrados rotulando todo o povo palestino como assassino, terrorista, verme e clamam por sua aniquilação – que aliás é crime de guerra, pois genocídio – sem diferenciar terroristas de trabalhadores e pais de família, podem até considerar-se civilizadas. A verdade é que nada mais fazem do que igualar-se aos idiotas medievais do episódio acima, ou de tantos outros, como o ataque às embaixadas americanas em retaliação à divulgação via YouTube do filme Innocence of Muslims, em setembro de 2012.

No dia seguinte à localização dos corpos do três jovens israelenses, a terça-feira, percebi que, ao contrário do assustadores exemplos de Pe Djora descritos pelo Yair Mau em seu artigo anterior, estas declarações não ficariam limitadas ao campo das idéias. Acordei e fiquei sabendo que a Força Aérea havia bombardeado durante a madrugada mais de trinta alvos do Hamas na Faixa de Gaza, que retaliações haviam ocorrido ao longo da noite e outras eram esperadas ao longo do dia. Precisava estar à tarde em Beer-Sheva, a capital do sul do país e maior cidade dentro do raio de alcance da maioria dos foguetes lançados pelo Hamas. Fui e voltei com medo. Ainda que nada tenha acontecido, o susto maior se deu quando retornei a Jerusalém, no inicio da noite.

Viver em Jerusalém é vivenciar Israel em sua totalidade. É morar a poucos minutos da Cidade Velha e de seu Muro das Lamentações, é sentir o cheiro da chalá sendo assada nas padarias nas horas que precedem o Shabat, é andar pelas ruas que testemunharam a História a caminho da Cinemateca para assistir às pré-estréias dos filmes dos diretores israelenses. Mas é também lidar diariamente com as tensões da sociedade israelense: religiosos contra laicos, ultraortodoxos contra sionistas, judeus contra árabes. Este último embate é quase que uma exclusividade nossa – poucas são as cidades israelenses de população realmente mista.

Todas estas questões somam-se à posição da cidade como capital do país e resultam em uma realidade: Jerusalém é uma cidade de protestos. Quem já morou aqui sabe que é sempre bom estar a par do que ocorre pela cidade a todo instante, a fim de evitar ruas bloqueadas inesperadamente e possíveis atrasos. Com um agravante: lar de uma grande população ultra-ortodoxa que não trabalha, Jerusalém também se dá ao luxo de ter protestos durante o dia, no horário comercial. Aqui não tem apenas “depois do expediente, todo mundo na Rio Branco protestando”, mas também “sai de casa agora e vamos bloquear a entrada da cidade no meio da terça-feira”.

E foi exatamente isso que ocorreu. No exato momento em que, a menos de 40 quilômetros de Jerusalém, as famílias enterravam os corpos dos três rapazes, dezenas de milhares de jovens, em sua maioria extremistas de direita e religiosos-nacionalistas, muitos membros da Juventude das Colinas sobre a qual o João Koatz Miragaya já falou, iniciaram uma manifestação não-autorizada sob a ponte estaiada por onde passa o trilho do bonde, na principal entrada da cidade[ref]Cercada pelos territórios palestinos ocupados a norte, leste e sul, Jerusalém comunica-se com o resto do país majoritariamente por sua saída ocidental[/ref]. Quando meu ônibus retornou de Beer-Sheva, a polícia já havia conseguido desobstruir a via, não sem entrar em choque com os manifestantes.

Mas esta não era uma boa notícia.

Frustrados em sua tentativa de praticamente sitiar a capital do país, os jovens manifestantes que clamavam por “vingança” e “basta deste governo de assassinos” iniciaram sua marcha pela Rua Yaffo até a Cidade Velha. Noite dos Cristais foi o termo usando pelos meus amigos, testemunhas do que ocorria no coração da nossa cidade e era o título original deste artigo, mas acabei optando por uma alternativa menos sensacionalista. Para narrar os lamentáveis e assustadores episódios que aqui ocorreram e me tiraram de meu anterior estado de apatia, me limitarei a traduzir quatros atualizações de status compartilhadas por amigos e conhecidos, ao longo da tarde e da noite desta terça-feira.

N.E.“Ayelet Shaked decidiu que é agora. Este é seu momento, esta é sua hora. Hoje ela vai descontar seu cheque. Pais “quebrados”, muita fúria – é preciso aproveitar-se rápido antes que retornem à indiferença comum. Ayelet incitou, e as massas a seguiram.

“Um povo cujos heróis assassinam nossas crianças deve ser tratado no mesmo nível”

Eu sou uma pessoa bastante associativa. A primeira associação que me veio à cabeça foi “A Noite dos Cristais”, um dos progroms se não o maior de todos, que ocorreu porque os nazistas usaram-se no assassinato de um diplomata alemão ao Paris, morto por Herschel Grynszpan, um refugiado judeu.

#éproibidocomparar”

N.E.

A.B.

“Estava agora mesmo no supermercado Coop da Colina Francesa [N.T.: a Colina Francesa é um bairro de Jerusalém Oriental, localizado próximo ao campus da Universidade Hebraica, onde moram cidadãos árabes e judeus, muitos deles colegas de turma] e, enquanto esperava na fila, ouvi uma conversa entre dois homens judeus:

– Estou triste o dia todo.

– Porquê?

– Você não sabe porquê?

Neste momento, achei que ele fosse falar que estava triste por causa dos três rapazes seqüestrados que foram assassinados. Mas não:

– Porque ainda não matei nenhum árabe hoje.

No supermercado, cheio de funcionários e clientes árabes, ele disse isso em voz alta sem evergonhar-se.

Logo percebi no caixa ao lado uma moça (que parecia ser árabe) olhando-o enfurecida.

Todo este ódio para mim é muito claro… há raiva e fúria para com o outro lado em função do ocorrido, e com razão. E quem me conhece sabe as minhas posições. Mas não podemos justificar exibições de ódio como essa que, além do fato de generalizarem os árabes, não contribuem para melhorar a situação e semeiam ainda mais ódio no outro lado para conosco!”

A.B., a mesma A.B. do post relatado mais acima.

C.T.“Há quase quatro anos eu trabalho em Jerusalém. Já vi de tudo. O belo e o feio. Sensatez e demência. Mas o que está acontecendo neste momento, em plana Praça Sion, com milhares de kahanistas, em sua maioria rapazes e moças, galopam pela Rua Yaffo em direção à Cidade Velha berrando “Morte aos árabes!” e “Queremos vingança!”, reconheço que esperava não ver no Estado de Israel em meus dias de vida. Espero muito que não aconteça uma pequena noite dos cristais na área do Portão de Damasco mas, pela indiferença da polícia e pela feição concentrada do [ex-deputado da extrema-direita Itamar] Ben Gvir e do [presidente da ONG extremista Lehava] Bentzi Gupshtein, eu realmente não sei o que pensar.

Em volta, as pessoas olham estupefadas, um árabe cochicha no telefone e olha amedrontado para qualquer movimentação, um homem mais velho me diz:

– Espera, em mais uns anos não teremos Estado.

Outras três jovens com adesivos “Kahane estava certo” e bandeiras de Israel cruzam a praça e se juntam à multidão.

Que deus tenha piedade de nós”

C.T.

C.M.“Estação ‘Yaffo – King George’ do bonde, 23:00. Um grupo de kahanistas cantam empolgados “Morte aos árabes!”. De pé, parada, assisto de lado a esta cena aterradora. Uma moça do grupo me pede um shekel para completar a passagem. Eu me afasto dela. Assim passam-se alguns minutos. Eu vejo que estão tentando articular um alvoroço em frente à casa do primeiro-ministro, então, como boa cidadã que sou, com fé na polícia (pois é) fui sussurrar (pois é) ao pé do ouvido do policial de maior patente que encontrei.

Então, do outro lado da rua, vejo uma moça com hijjab, correndo e abaixando sua cabeça. Pensei em ir atrás dela. Após alguns segundos, o rebanho passa a persegui-la, gritando “Morte aos árabes!”. Sinceramente temi por sua vida, sinceramente achei que fossem linchá-la. Não me contive e comecei a gritar que eram filhos da puta e que eu tinha vergonha deles. Então, até o trem chegar, alguns deles gritaram para mim também, e então temi por minha vida até que chegou um turista espanhol e me perguntou qual o motivo da confusão. Lhe expliquei e fiquei feliz de não estar ali sozinha entre eles.

No momento em que subi no vagão, percebi um garoto árabe sentado sozinho, então me sentei ao seu lado. Talvez porque eu sou uma maníaca esquerdista que se acha melhor que todo mundo (hipótese bastante difundida). Quando o grupo de recistas percebeu o garoto, as portas do vagão já havia se fechado, mas eles atingiam os vidros com golpes mortais e faziam gestos obscenos para o garoto. Ele fez os mesmos gestos de volta, mas sentava-se curvado e eu acredito que também um pouco amedrontado.

Liguei para a polícia. Na minha frente no vagão encontravam-se algumas mulheres religiosas. Expliquei para elas que eu temia pela minha vida e pelas vidas de quem circula pelas ruas de Jerusalém nesta noite dos cristais sem agradar aos kahanistas. Uma das mulheres me ouviu e foi simpática. Enquanto isso, as outras mulheres gritavam “Porque você defende os árabes?” e lhes respondi também aos berros. Senti bastante medo, para falar a verdade, mas aparentemente menos do que o garoto que se sentava ao meu lado. Sorte que de repente o M.S. chegou à cena, sentou-se ao meu lado e continuou o duelo em meu lugar. Ele tentou ser simpático e explicar, à sua maneira inteligente, e em sua ingenuidade perguntou se a vida de um judeu valeria mais que a vida de um árabe. A resposta de algumas pessoas à nossa volta era que a vida do judeu vale mais, sim! No final, até o M. perdeu a paciência após a moça desferir-lhe um golpe [verbal] afirmando que ele estava se lixando para o assassinato de três judeus.

Mudamos de lugar e comecei a balbuciar os versos de “katuv be-iparon bakaron hachatum” [N.T. poesia sobre o Holocausto]. Até que chegamos a Beit HaKarem, não parei de gritar o que gostaria de ter dito em voz baixa, que em toda a minha vida não havia visto tamanho demonstração de ódio. Em toda a minha vida, não havia estado tão próxima a um linchamento.

Não tenho muitas palavras de consolo no momento, ou mesmo palavras de reconciliação.

Apenas queria compartilhar a experiência e a taquicardia que ainda estou sentindo.

E obrigado novamente ao M., por existir.”

C.M.

A polícia impediu que os extremistas cruzassem a Praça Tzahal, que separa a prefeitura da Cidade Velha, representando a fronteira entre o lado judaico e o lado árabe de Jerusalém. Os manifestantes, então, se dispersaram em pequenos grupos que invadiam estabelecimentos comerciais judaicos à procura de funcionários árabes. Ao avistarem quaisquer pessoas de pele mais escura, perguntavam o horário, para identificar a etnia da potencial vítima pelo sotaque, evitando o “linchamento desnecessário” de judeus orientais.

Policiais tiveram que expulsar extremistas que queriam espancar funcionários árabes dentro da filial do McDonald’s e conter ataques a grupos de cidadãos muçulmanos que se reuniam pelo centro da cidade ao final do dia para a refeição de quebra do jejum diário de seu mês sagrado, o Ramadã.

Enquanto eu finalizava este artigo, já na manhã da quarta-feira, surgiam as notícias do desaparecimento de um jovem árabe. Os bandos responsáveis por toda a baderna da noite anterior eram os principais suspeitos. Engoli a perplexidade, tomei um café e fui à prefeitura resolver umas burocracias do meu IPTU. De volta à minha casa, ligo para a prefeitura novamente (pagamentos não podem ser feitos pessoalmente – não é só o Brasil que padece de burocracite), pago meu IPTU e, ao final da ligação, sem que a atendente perceba que ainda não havia desligado, ouço-a comentando com alguém: “Você viu que acharam o corpo do garoto árabe? Mas quem se importa com ele?”. As investigações indicam que não tratou-se de crime de ódio.

Estas pessoas, senhoras e senhores, estes são os inconseqüentes que se apoderaram da minha causa e me acusam de não ser sionista. Mais do que isso, por não odiar os árabes, nem desejar sua morte, me acusam de ingênuo e traidor da pátria.

Tenho vergonha de pertencer ao mesmo povo que todos estes indivíduos.

Não passarão!

Imagem de capa: http://www.haaretz.com/news/national/1.602523

Comentários    ( 24 )

24 Responses to “Olho por olho”

  • Hélio Eduardo Lopes

    01/08/2014 at 06:14

    Parabéns pelo texto, rapaz…

    É difícil esta postura. Foi a primeira que vi diferente do “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Dizer não à guerra, independente do lado que se está é papel de poucos.

    Lendo seu texto me lembro do Manifesto de Gandhi, de 1938, em que trata de judeus e nazistas. E vejo tantas tristes semelhanças… Trago-o aqui, para sua leitura, pois não sei se o conhece.

    Harijan, em 26 de novembro de 1938.

    “Recebi muitas cartas solicitando a minha opinião sobre a questão judaico-palestina e sobre a perseguição aos judeus na Alemanha. Não é sem hesitação que ouso expor o meu ponto-de-vista.

    Na Alemanha as minhas simpatias estão todas com os judeus. Eu os conheci intimamente na África do Sul. Alguns deles se tornaram grandes amigos. Através destes amigos aprendi muito sobre as perseguições que sofreram. Eles têm sido os “intocáveis” do cristianismo; há um paralelo entre eles, e os “intocáveis” dos hindus. Sanções religiosas foram invocadas nos dois casos para justificar o tratamento dispensado a eles. Afora as amizades, há a mais universal razão para a minha simpatia pelos judeus. No entanto, a minha simpatia não me cega para a necessidade de Justiça.

    O pedido por um lar nacional para os judeus não me convence.

    Por quê eles não fazem, como qualquer outro dos povos do planeta, que vivem no país onde nasceram e fizeram dele o seu lar?

    A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses.

    É errado e desumano impor os judeus aos árabes. O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Os mandatos não têm valor. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico.

    O caminho mais nobre seria insistir num tratamento justo para os judeus em qualquer parte do mundo em que eles nascessem ou vivessem. Os judeus nascidos na França são franceses, da mesma forma que os cristãos nascidos na França são franceses.

    Se os judeus não têm um lar senão a Palestina, eles apreciariam a idéia de serem forçados a deixar as outras partes do mundo onde estão assentados? Ou eles querem um lar duplo onde possam ficar à vontade?

    Este pedido por um lar nacional oferece várias justificativas para a expulsão dos judeus da Alemanha. Mas a perseguição dos alemães aos judeus parece não ter paralelo na História. Os antigos tiranos nunca foram tão loucos quanto Hitler parece ser.

    E ele está fazendo isso com zelo religioso. Ele está propondo uma nova religião de exclusivo e militante nacionalismo em nome do qual, qualquer atrocidade se transforma em um ato de humanidade a ser recompensado aqui e no futuro. Os crimes de um homem desorientado e intrépido, estão sendo observados sob o olhar da sua raça, com uma ferocidade inacreditável.

    Se houver sempre uma guerra justificável em nome da humanidade, a guerra contra a Alemanha para prevenir a perseguição desumana contra uma raça inteira seria totalmente justificável. Mas eu não acredito em guerra nenhuma. A discussão sobre a conveniência ou inconveniência de uma guerra está, portanto, fora do meu horizonte. Mas se não pode haver guerra contra a Alemanha, mesmo por crimes que estão sendo cometidos contra os judeus, certamente não pode haver aliança com a Alemanha. Como pode haver aliança entre duas nações que clamam por justiça e democracia e uma se declara inimiga da outra? Ou a Inglaterra está se inclinando para uma ditadura armada, e o que isso significa?

    A Alemanha está mostrando ao mundo como a violência pode ser eficientemente trabalhada quando não é dissimulada por nenhuma hipocrisia ou fraqueza mascarada de humanitarismo; está mostrando como é hediondo, terrível e assustador quando isso aparece às claras, sem disfarces. Os judeus podem resistir a esta organizada e desavergonhada perseguição? Existe uma maneira de preservar a sua auto-estima e não se sentirem indefesos, abandonados e infelizes? Eu acredito que sim. Ninguém que tenha fé em Deus precisa se sentir indefeso, ou infeliz. O Jeová dos judeus é um Deus mais pessoal que o Deus dos cristãos, muçulmanos ou hindus, embora realmente, em sua essência, Ele seja comum a todos. Mas como os judeus atribuem personalidade a Deus e acreditam que Ele regula cada ação deles, estes não se sentiriam desamparados.

    Se eu fosse judeu e tivesse nascido na Alemanha e merecido a minha subsistência lá, eu reivindicaria a Alemanha como o meu lar, do mesmo modo que um “genuíno” alemão o faria, e desafiaria qualquer um a me jogar na masmorra; eu me recusaria a ser expulso ou a sofrer discriminação. E fazendo isso, não deveria esperar por outros judeus me seguindo em uma resistência civil, mas teria confiança que no final estariam compelidos a seguir o meu exemplo.

    E agora uma palavra aos judeus na Palestina:

    Não tenho dúvidas de que os judeus estão indo pelo caminho errado. A Palestina, na concepção bíblica, não é um tratado geográfico. Ela está em seus corações. Mas se eles devem olhar a Palestina pela geografia como sua pátria mãe, está errado aceitá-la sob a sombra do belicismo britânico. Um ato religioso não pode acontecer com a ajuda da baioneta ou da bomba. Eles poderiam estabelecer-se na Palestina somente pela boa vontade dos palestinos. Eles deveriam procurar convencer o coração palestino. O mesmo Deus que rege o coração árabe, rege o coração judeu. Só assim eles teriam a opinião mundial favorável às suas aspirações religiosas. Há centenas de caminhos para uma solução com os árabes, se descartarem a ajuda da baioneta britânica.

    Como está acontecendo, os judeus são responsáveis e cúmplices com outros países, em arruinar um povo que não fez nada de errado com eles.

    Eu não estou defendendo as reações dos palestinos. Eu desejaria que tivessem escolhido o caminho da não-violência a resistir ao que eles, corretamente, consideraram como invasão de seu país por estrangeiros. Porém, de acordo com os cânones aceitos de certo e errado, nada pode ser dito contra a resistência árabe face aos esmagadores acontecimentos.

    Deixemos os judeus, que clamam serem os Escolhidos por Deus, provar o seu título escolhendo o caminho da não-violência para reclamar a sua posição na Terra. Todos os países são o lar deles, incluindo a Palestina, não por agressão mas por culto ao amor.

    Um amigo judeu me mandou um livro chamado A contribuição judaica para a civilização, de Cecil Roth. O livro nos dá uma idéia do que os judeus fizeram para enriquecer a literatura, a arte, a música, o drama, a ciência, a medicina, a agricultura etc., no mundo. Determinada a vontade, os judeus podem se recusar a serem tratados como os párias do Ocidente, de serem desprezados ou tratados com condescendência.

    Eles podiam chamar a atenção e o respeito do mundo por serem a criação escolhida de Deus, em vez de se afundarem naquela brutalidade sem limites. Eles podiam somar às suas várias contribuições, a contribuição da ação da não-violência.”

  • Ulyane

    16/12/2014 at 06:43

    Sou brasileira, amo o Brasil com tudo que há de maravilhoso e bagunçado, com carnaval,violência, alegria,protestos,roubalheira dos políticos, essa montanha russa constante e tão deliciosamente brasileira.Sou cristã não fanática e pelo que leio(de curiosidade, rs) os palestinos sofrem muitas privações e humilhações de todo o tipo.Os judeus quando foram maltratados pelos nazistas sentiram a dor da humilhação,privação e perda da dignidade e da vida.Não aprenderam nada com isso? Enquanto os americanos “fornecem” armas para Israel num joguinho sujo político, a mídia israelense e um bando de fanáticos fazem discurso de ódio, os homens de bem (Utopia??!) deveriam exercitar a empatia que é capacidade de se colocar no lugar do outro e julgá´-lo segundo seu ponto de vista e sua vivência diária e sair pras ruas pedindo PAZ e Conciliação. Com certeza não será com repressão que vocês conquistarão o direito de viver em segurança. Não se levem tão a sério, árabes e judeus são primos!Que triste essa briga em família. Abraços

Você é humano? *