Onde a esquerda israelense errou?

23/03/2015 | Eleições; Política

As eleições ficaram para trás e chegou o momento de analisar os erros estratégicos da esquerda. Certamente há muitas lições a serem aprendidas. Aqui estão sete delas.

1)   A direita não está tão fragmentada quanto parece. De fato, no momento em que há um risco iminente de que a esquerda ascenda ao poder, os eleitores de direita sabem o endereço de seus votos – o Likud. As eleições demonstraram que o partido segue sendo o pilar de sustenção do campo político nacionalista.

Os 30 mandatos conquistados, junto a queda de quórum parlamentar dos partidos Israel Nossa Casa e A Casa Judaica, serve como evidência de que a segmentação da direita não passa de um mito.

Nesse contexto, cabe ainda ressaltar que o voto estratégico não é um privilégio eleitoral da esquerda – o eleitorado direitista também sabe renunciar às suas preferências quando há necessidade.

2)   Benjamin Netanyahu representa algo que transcende suas políticas. Não importa quão crítica seja a esquerda em relação as políticas do primeiro ministro israelense; para parte da população, ele está além de fracassos e êxitos. Ele representa o líder nacional responsável pela preservação de princípios consolidados desde os tempos de Menachem Begin.

A esquerda deve entender que ataques pessoais a Benjamin Netanyahu significam uma afronta à identidade desses israelenses. Por esse motivo, a campanha “só não Bibi” não obteve o impacto desejado. Ela não era concebida como um projeto destinado a tirar um indivíduo do poder, mas como uma tentativa de deslegitimizar um conjunto de valores essenciais para parte dos cidadãos.

3)   A questão de segurança nacional ainda é relevante. Durante todo processo eleitoral – cerca de três meses – os partidos de centro-esquerda focaram suas campanhas em questões sócio-econômicas. Com isso, conquistaram espaço e estabeleceram uma real alternativa.

No entanto, a sociedade israelense deve a sua formação à posições em relação ao conflito árabe-israelense. Ela necessita de uma resposta para as ameaças existenciais que afligem seu cotidiano. No Oriente Médio, onde a população é diariamente consumida por notícias sobre Hamas, Hezbolah, Irã e ISIS (também conhecido como Daesh ou Estado Islâmico), terrorismo não é um conceito vago ou abstrato. A esquerda falhou ao tentar reduzir as eleições a questões sócio-econômicas e criou um discurso dissonante. Enquanto muitos israelenses perguntavam sobre as propostas da União Sionista para o terrorismo na região, Herzog parecia responder “nós solucionaremos os problemas sociais e econômicos do país”.

4)   A esquerda israelense está distante do eleitor da periferia. Tzipi Livni, analisando as falhas de seu partido, colocou perfeitamente: “Nós entendemos os problemas daqueles que vivem em Sderot, Ashdod e Ashkelon; nós temos as soluções para eles, mas não sabemos como apresentá-las”. Definitivamente não sabem. A esquerda não sabe o que o israelense da periferia vive, pensa e sente. Sobre o que ele conversa e o que assiste na televisão. A esquerda é vista como uma caricatura – o branco, ashkenazi, de classe média-alta que observa a população do seu pedestal, fazendo cálculos e lendo belas teorias.

Essa arrogância e prepotência mantêm a esquerda desconectada da realidade de muitos. Não é de se surpreender, portanto, que o Likud continue sendo a resposta natural para os problemas daqueles que mais sofrem com a situação do país. A esquerda não os conhece e a recíproca é verdadeira. Para um bloco ideológico que deseja um dia voltar a governar, a melhor estratégia nesse momento é o diálogo, a aproximação e o entendimento.

5)   Os partidos de centro não devem estar imunes à ataques por serem potenciais membros da coalizão. Durante toda a sua campanha, o Likud atacou sem hesitar o partido do ex-âncora do Canal 2, Yair Lapid. “Um partido passageiro”, como Netanyahu insistentemente colocava. Quando necessário, soube também atacar o partido de Moshe Kahlon, dissidência do Likud e candidato a representação da direita para assuntos sócio-econômicos. Não apenas quando Miri Regev o chamou de “traidor” e Gilad Erdan o taxou de “esquerdista”, mas também quando Benjamin Netanyahu brilhantemente lhe ofereceu o Ministério da Fazenda dias antes das eleições. A esquerda, por sua vez, abdicou-se de tentar angariar votos de Lapid e Kahlon. Sua preocupação com futuras coalizões pode ter lhe custado de 3 a 5 mandatos.

6)   A política israelense é mais personalista que ideológica. Essa é a explicação para meteórica ascensão de Naftali Bennett e Yair Lapid em eleições passadas. E esse foi, sem dúvida, um fator fundamental na derrota da União Sionista.

Isaac Herzog, apesar de suas qualidades, não possui suficiente carisma para mexer com o emocional do eleitor israelense. Obviamente, a esquerda o apoiou, como apoiaria qualquer outro líder que se apresentasse como candidato a primeiro-ministro. No entanto, o eleitor de centro que buscava uma figura substituta a já desgastada imagem de Benjamin Netanyahu não encontrava conforto na “baby-face” de Herzog.

Não há como negar – suas gafes durante entrevistas e suas respostas vazias provocavam uma insegurança que deixava potencias eleitores exasperados. Tornaram-se frequentes as perguntas “como ele dialogará com grandes líderes?” “Como enfrentará a pressão internacional?” Nesse sentido, o líder da União Sionista tem que ganhar experiência, trabalhar a sua imagem e jamais temer a sua voz.

7)   Os conceitos “esquerda” e “direita” ainda são fundamentais. Ao adotar o nome “União Sionista”, Isaac Herzog e Tzipi Livni conseguiram parcialmente “desintoxicar” o Partido Trabalhista de sua “negativa carga esquerdista”. Foi um processo árduo e necessário, mas ainda há muito por fazer nesse sentido.

O partido que um dia foi de Shimon Peres e Itzhak Rabin possui hoje uma conotação anti-nacionalista na sociedade israelense, uma espécie de “traição ao Estado”. Por muito tempo tentou-se negar essa realidade, mas nos últimos anos tornou-se evidente que se o partido ainda possui qualquer ambição eleitoral, algo deve ser feito a respeito.

O cidadão de centro-direita, principalmente o mais jovem, concebe a esquerda como um símbolo de fraqueza, responsável pelos problemas de segurança nacional na Cisjordânia e em Gaza. A esquerda é  a possibilidade de que “as nossas sagradas terras” sejam concedidas à “árabes destinados a nos aniquilar”.

Apesar da parcial neutralização dessa imagem com a adoção do nome União Sionista, grande parte do eleitorado ainda não é capaz de colocar outra cédula eleitoral na urna. Há algo muito forte que não lhe permite fazê-lo – o conceito de esquerda.

Essas são algumas das muitas lições que a esquerda deve tirar das últimas eleições. Agora é o momento de lavar roupa suja, enquanto a lama não está impregnada na camisa. Cabe ao eleitor apenas esperar que a esquerda israelense use um bom amaciante. Afinal, não há nada pior do que roupa com cheiro de mofo.

Comentários    ( 10 )

10 Responses to “Onde a esquerda israelense errou?”

  • Marcelo Starec

    23/03/2015 at 14:10

    Oi Bruno,
    Muito interessante a sua análise!….Entendo que na percepção dos israelenses, antes de se falar em esquerda versus direita, a questão da segurança está presente. Os antigos líderes da esquerda sionista, como Golda Meir, por exemplo, conseguiam em meu entender passar uma imagem para o povo de que farão o que for possível para que eles possam estar garantidos, ou seja, possam ter o direito de existir, de viver. Eu não acho que o Herzog, a Livni ou qualquer um dos partidos do campo da esquerda de fato entendam a questão de modo diferente, mas passam essa impressão para os eleitores, no sentido de que não estão propensos a por o País em risco. Não estou de modo nenhum colocando isso como verdade, mas se o eleitor assim entende, então realmente está na hora da esquerda israelense, em meu entender é claro, deixar muito claro que não se diferencia da direita no que diz respeito a preocupação existencial, enquanto isso não ocorrer, o eleitor na hora “H” continuará decidindo em prol da segurança existencial do País vis à vis todos os demais fatores e votando em quem lhe passa essa segurança.
    Abraços,
    Marcelo.

    • Bruno Lima

      24/03/2015 at 16:57

      Obrigado Marcelo.
      Pontos interessantes.
      Abraço.

    • Ari

      29/04/2015 at 23:04

      Muito bem falado Marcelo, sou judeu e tenho direito a voto,minha família pelo menos, votou em pró direita, por ter essa questão do existencialismo do Estado de Israel mais bem esclarecida. Vejo que há uma necessidade de mudança de governo, moro no Brasil há algum tempo, acredito que a reciclagem de governo é necessaria em qualquer Estado. Falta uma oposição que esclareça melhor seus objetivos, tentando parar com o enfoque de criticar o governo anterior. Espero que compreendam.

  • Alex Strum

    23/03/2015 at 21:42

    Marcelo, penso que ambos os lados tem a preocupação existencial mas se diferenciam na estratégia de como assegurá-la. Cada estratégia implica num risco diferente.
    A linha dura do Bibi transmite a idéia de riscos menores, mesmo que seja às custas da antipatia internacional.
    Já a esquerda que aposta em mais diálogo e abertura transmite a idéia de riscos maiores (mais vítimas de atentados) que a população parece não querer correr.
    abs,
    Alex

    • Mario S Nusbaum

      27/03/2015 at 17:55

      “Já a esquerda que aposta em mais diálogo” Diálogo com quem Alex? No tópico anterior a esse o João (autor) e eu discutimos algo que pode ser resumido assim: ele acha que se pode negociar e chegar a um acordo com o Abu Mazen, e não vê nada que mostre o contrário.
      Já eu, e aparentemente a maioria (relativa, eu sei) dos israelenses acha que não dá. O João disse também que não sei como alguém continua acreditando no Netanyahu. Eu acho que com raríssimas exceções não se deve acreditar cegamente em nenhum político, a menos, por estranho que pareça, nos mais radicais. Esses não se preocupam em ocultar suas verdadeiras intenções. Por exemplo, acredito mais no hamas e no ISIL do que no Abbas. Mas a questão é se um acordo com a AP é viável. Pois bem, leia isso:

      “Palestinian Media Watch (PMW) translated and published a video of an official PA broadcast of a Hebron school’s theater activity aimed at promoting a boycott against Israel.
      One charming boy, with a kefiyeh headdress, said:
      I came to rehearse the play in order to boycott Israeli products and fight the Jews, KILL them, and defeat them. The goal is to boycott Israeli products.”

      “PMW pointed out that the Palestinian Authority Ministry of Education last year “held a sporting event named after a terrorist who placed a bomb in a refrigerator in the center of Jerusalem, murdering 15 and injuring 60.”
      The head of the PA Sports Authority sponsored a ping-pong tournament named after Dalal Mughrabi, who led a bus hijacking that ended with the murder of 37 Israelis.” Então, acredita-se nele quando diz que quer a paz ou quando AGE na direção contrária?

  • Raul Gottlieb

    24/03/2015 at 12:59

    A Conexão vai colocar um texto analisando porque a direita venceu?

    • Bruno Lima

      24/03/2015 at 16:54

      Olá Raul,

      Acho que você é capaz de deduzir do meu texto. De qualquer forma, posso ajudar seguindo o racional do artigo.
      Por tópicos:
      1) A direita demonstrou capacidade de integração em torno de uma plataforma política.
      2) Netanyahu é, apesar de seus fracassos, um grande líder e, principalmente, um excepcional propagandista.
      3) A questão de segurança nacional ainda é muito relevante. Nesse quesito, grande parte dos israelenses sente mais confiança nas propostas do Likud do que nas de outros partidos.
      4) A direita tem um grande apelo na periferia do país.
      5) A direita em geral e o Likud em particular não hesitaram em tentar angariar votos dos partidos de centro.
      6) Sendo a política israelense mais personalista que ideológica, a direita tem grande vantagem. Naftali Bennett e Benjamin Netanyahu apresentam muito carisma.
      7) A direita representa um “naionalismo” e um “patriotismo” que compelem muitos eleitores a rejeitarem qualquer posição alternativa.

      Todas as respostas acima estão no texto, implicita ou explicitamente.
      Além disso, parece-me um tanto quanto lógico que explicações para derrota de um lado, servem (no mínimo) como indicação dos motivos da vitótia do outro.

    • João K. Miragaya

      25/03/2015 at 00:19

      Raul,

      O Conexão por si só não vai colocar nenhum texto sobre isso explicitamente no ar, mas nada impede que algum autor escreva sobre o tema. Aqui temos liberdade editorial. Se ninguém quiser escrever sobre isso, não teremos. Se alguém quiser, pode ser que tenhamos.

      Um abraço

  • Iana Abecassis

    07/04/2015 at 20:39

    Bruno você é o meu escritor preferido!
    O item 4 é a chave de tudo…
    Abraços de Manaus

    • Bruno Lima

      08/04/2015 at 09:06

      Olá Iana.

      Fico muito feliz com o elogio.
      Chag Pessach Sameach de Israel.

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