Operação Margem de Proteção: começo, meio e possíveis fins

25/07/2014 | Conflito

A Operação Margem de Proteção se estende à sua terceira semana. Vale recordar ao leitor alguns antecedentes: a tensão com o Hamas se intensificou após o sequestro dos três jovens israelenses[ref]Recordo o acontecimento, leia aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.[/ref], seguido da operação de resgate efetuada pelas FDI, quando estas prenderam mais de 300 militantes (a maioria do Hamas), entre eles 54 dos que foram liberados em troca do soldado Gilad Shalit em 2011. Embora o Hamas não tenha assumido a autoria do sequestro e assassinato dos três jovens, o serviço secreto israelense diz ter certeza da participação do grupo que controla a Faixa de Gaza desde 2007[ref]Se você quiser ler mais sobre a história do conflito, clique aqui.[/ref]. O grupo islâmico afirmou serem estas prisões um rompimento do cessar-fogo, firmado em novembro de 2012, e voltou a disparar foguetes contra o território israelense[ref]Os foguetes jamais deixaram de cair no território israelense, mesmo após o cessar-fogo. O seu lançamento, no entanto, era bastante reduzido[/ref]. A força aérea israelense bombardeou alguns pontos em Gaza, e os lançamentos de foguetes do Hamas intensificaram-se a ponto de chegar a 65 no intervalo de uma hora[ref]Relembre os primeiros dias da operação aqui, aqui, aqui e aqui.[/ref]. Na madrugada do dia 8 de julho o governo israelense decide dar início à Operação Margem de Proteção, cujo objetivo declarado era retornar à tranquilidade que pairava nos dias anteriores.

Cidade de Gaza
Cidade de Gaza
Hamas
Hamas

O leitor mais informado certamente sabe que entre Israel e o Hamas nunca houve qualquer sinal de entendimento, por total falta de interesse das duas partes. Israel acusa o Hamas (com razão) de não reconhecê-lo e esforçar-se em destrui-lo por meio de ações terroristas, além de ter criado uma máquina de guerrilha em Gaza desde que apoderou-se do local em 2007. O Hamas, fundado em 1987, jamais negou estas acusações, e afirma ter como objetivo claro destruir Israel e o sionismo, de modo que haja somente um Estado entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo: a Palestina islâmica. O grupo radical cresceu muito nos últimos anos, em virtude de um processo de moderação do seu principal adversário no campo político palestino: o Fatah. Tal processo levou grande parte dos radicais, ex-apoiadores do Fatah, a trocá-lo pelo Hamas, sobretudo após o reconhecimento de Yasser Arafat ao Estado de Israel. Além disto, o Hamas (e boa parte do povo palestino) acusam o Fatah de corrupção, baixando sua popularidade ainda mais. O Fatah e o Hamas entraram em uma guerra civil em 2007, que resultou em uma divisão de poderes por localidades: um governa a Cisjordânia, enquanto o outro controla a Faixa de Gaza. Os territórios são bem distintos: em Gaza não há nem exército nem colônias israelenses desde 2005. Na Cisjordânia há exército, colônias e postos de controle. O que te parece pior? Por incrível que pareça, a situação em Gaza é bem desfavorável: um número (limitado) de palestinos da Cisjordânia tem permissão para trabalhar tanto nas colônias quanto do lado israelense da fronteira. Palestinos da Cisjordânia conseguem viajar para o exterior com muito mais facilidade, e há cooperação entre os governos de Israel e da AP. Na Faixa de Gaza há um bloqueio israelense-egípcio[ref]O Egito incorporou-se ao bloqueio no ano passado, quando o ex-presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi derrubado pelo exército, que reocupou a presidência e convocou eleições.[/ref], que seleciona o que (e quem) pode entrar ou sair de Gaza, afirmando evitar a entrada de armas e qualquer equipamento que favoreça o terror. O bloqueio sem dúvidas afeta a economia de Gaza, ninguém nega o fato[ref]O bloqueio israelense à Gaza é legal de acordo com a Convenção de San Remo (1995). Veja aqui em espanhol ou em inglês. Organizações de direitos humanos questionam a duração do bloqueio mesmo durante os períodos de cessar-fogo, algo não estipulado pela convenção.[/ref].

Al-Sisi
Al-Sisi

Após a Operação Pilar Defensivo, em 2012, Israel afrouxou um pouco o bloqueio a Gaza, como parte do acordo de cessar-fogo. Metal pesado e concreto passaram a entrar na região em quantidades muito maiores, sob a alegação que o local precisava ser reconstruído após nove dias de bombardeios ininterruptos. Israel exigiu, em troca, que o lançamento de foguetes cessasse imediatamente, e que o Egito auxiliasse o país no bloqueio. A segunda parte do acordo não fora cumprida (embora firmada) até que Mursi fosse derrubado. O bloqueio, apesar de permitir a entrada de material de construção, intensificou-se ainda mais em 2013, na medida em que o novo governo egípcio considera o Hamas uma versão palestina da Irmandade Muçulmana, sua adversária. O novo presidente do Egito, Abdel Fatah al-Sisi (foto), não tem o interesse em fortalecer o Hamas, e sim em aproximar-se do mundo ocidental. Em outras palavras, podemos afirmar que num espaço de pouco menos de um ano o Hamas recebeu uma quantidade enorme de aço e concreto, por um lado, e por outro, contava com a complacência do governo egípcio de Mursi. De um ano para cá, no entanto, o cerco aumentou, enquanto as negociações por paz entre Israel e a AP foram reestabelecidas. O controle do Hamas na Faixa de Gaza enfrentava cada vez mais problemas econômicos[ref]O jornalista Guga Chacra escreveu em seu blog uma amostra das relações internacionais de Israel e o Hamas com o resto dos países do Oriente Médio. Clique aqui e confira[/ref], quando, ao mesmo tempo, o Departamento de Estado dos EUA pressionava o governo israelense e os palestinos para chegarem a um acordo. O Hamas, neste período, entrava em crise econômica e via a possibilidade de um governo palestino costurar um acordo de paz com Israel, que certamente não abarcaria um único Estado islâmico entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. Isolado politicamente após a queda de Mursi, não restava ao Hamas muitas possibilidades para melhorar a sua situação se não conseguir um novo acordo com Israel. Mas o Hamas não pensa em reconhecer o Estado de Israel, nem sequer cogita sentar-se com Netanyahu e dialogar. O caminho para chegar a um novo acordo é a guerra, que provocará um cessar-fogo em algum momento, e parte das exigências do grupo serão postas à mesa.

Faixa de Gaza
Faixa de Gaza

Pouco importa se foi o Hamas ou não o principal mentor do sequestro e assassinato dos jovens israelenses. O fato é que o grupo beneficiou-se deste acontecimento para pressionar Israel. A partir do momento em que Israel iniciava suas ações de resgate, foguetes voltaram a cair constantemente em solo israelense. Tais foguetes pareciam ser a nova arma do Hamas. No início da década passada, o grupo utilizava homens-bomba, que explodiam-se em atentados suicidas em áreas urbanas de Israel, levando consigo vítimas fatais. Como resposta, Israel fechou as fronteiras. O Hamas, então, investiu no lançamento de foguetes: até 2007, estes praticamente só atingiam a cidade de Sderot e os kibutzim (plural de kibutz) ao redor de Gaza; na Operação Chumbo Fundido chegavam já a Ashdod, Ashkelon e Beer-Sheva, e em 2012 já ameaçavam Tel-Aviv e Jerusalém. Israel, então, desenvolveu o sistema Domo de Ferro, para interceptar estes foguetes (que hoje já são capazes de atingir Haifa, no norte). O Hamas, então, decidiu investir em túneis subterrâneos. Estes não são, de forma alguma, uma novidade. O Hezbollah já os usa desde a década de 1980. A série televisiva “Prisioneiros de Guerra” (que será transmitida pela TV a cabo no Brasil), inspiradora de Homeland, já tratava deste tema com uma história iniciada nos anos 1980. O próprio Hamas já utilizou túneis em diversas ocasiões, a mais famosa quando sequestrou o próprio Gilad Shalit. O que surpreendeu, desta vez, parece ser a cidade subterrânea que o Hamas construiu, com grande parte do aço e concreto que chegou a Gaza entre 2012 e 2013. Pouco importam os nove mil foguetes que as FDI estipulam que o Hamas tivesse em mãos: uma hora eles terminarão, e o perigo real que eles representam à população israelense já não é mais tão grande como era antes do Domo de Ferro. Mas os túneis, sim, representam grande perigo[ref]Outra nova tentativa do Hamas foi fazer com que mergulhadores, carregados de explosivos, cruzassem a fronteira pelo mar e chegassem até as praias israelenses. As sentinelas (observadoras) especiais da marinha os perceberam e as FDI conseguiram abortar a tentativa[/ref]. Há um grande número de kibutzim e pequenas vilas espalhados ao redor da Faixa de Gaza. Estipula-se que vivam nesta região em torno de 20 mil pessoas. Minha esposa, até o ano passado, trabalhava justamente em seis destes kibutzim. Minha sogra trabalha em outro deles. Tenho amigos com famílias vivendo ali, também. Imagine você o que 15 terroristas, como nos mostram o vídeo abaixo, poderiam fazer neste local. [kkytv id=”Phz6dLYoomc”]

Mapa das comunidades próximas à fronteira com Gaza. (a)
Mapa das comunidades próximas à fronteira com Gaza. (a)

Foram já quatro tentativas, todas elas percebidas a tempo pelas sentinelas do exército. Em uma delas, os terroristas trajavam fardas militares, a fim de confundir o próprio exército. Por sorte a soldada encarregada percebeu algo estranho e avisou ao alto comando, que os abateu. Frente a esta ameaça, Bibi Netanyahu e seu gabinete, que já haviam evitado por dez dias uma operação terrestre, decidiram invadir Gaza. O objetivo passou a ser destruir os túneis subterrâneos. Estipula-se que haja 60 túneis dentro de Gaza, mais do que, aparentemente, a inteligência do exército supunha. A maioria deles tendo como destino final o território israelense. O exército já identificou 35 e destruiu 25 deles. A força aérea, a marinha e os canhões posicionados na fronteira não podem dar conta da destruição destes túneis. Os norte-americanos disponibilizaram sua tecnologia (já adaptada para o modelo israelense, mas com custo altíssimo), mas somente após o início da ofensiva israelense. Já morreram 32 soldados e oficiais israelenses desde a ofensiva terrestre, e a quantidade de palestinos mortos por dia é o dobro do que antes da invasão (400 dos 800 mortos até agora, em metade dos dias). Analistas israelenses não estabeceram um consenso: queria Netanyahu invadir Gaza por vias terrestres? Alguns creem que sim, que estava apenas esperando um bom motivo e os túneis caíram como uma luva. O Primeiro Ministro, que trabalha a sua imagem de “defensor da segurança nacional”, sabe que em Israel, numa situação destas, medidas enérgicas e repressivas são populares. Uma pesquisa do Canal 2 de televisão mostrou dados interessantes: enquano 53% da população rejeitava o iminente cessar-fogo na véspera do início da operação terrestre (contra 35%), 65% apoiavam a forma como Netanyahu direcionava a operação (contra 28%). Há uma contradição aí: se o Primeiro Ministro estava a ponto de assinar um cessar-fogo impopular, como pode ser que sua forma de lidar com o conflito seja aprovada pela maioria da população? Outro número nos deixa ainda mais confusos: 55% da população era a favor do início de uma operação terrestre, (contra 32%). Ou seja: Netanyahu não fazia o que a maioria queria, mas para a maioria agia bem. Isto, talvez, justifique a opinião de outros analistas (e eu estou mais inclinado a concordar com eles), de que Netanyahu não desejava um prolongamento terrestre da operação, mas viu-se em uma encruzilhada quando as imagens dos túneis começaram ser mostradas à toda a população pelas emissoras de televisão. Netanyahu sabe que será questão de tempo até o Hamas reconstruir os túneis que as FDI destruirão agora. Além disso, sabe que necessita de um grande número de reservistas, que representam um altíssimo custo para um governo que enfrenta um deficit no orçamento. Outro agravante, são as vidas de soldados em risco, algo que em Israel não se difere muito de civis em risco, uma vez que o serviço militar é obrigatório e universal, e parte do contingente é de reservistas, muitas vezes pais e mães, que deixam suas famílias apreensivas nestes momentos. Outro fator a ser pesado é o fato de que a opinião pública mundial certamente se voltará contra Israel (pelo menos parcialmente), o que representa um problema para as relações exteriores. Por fim, mas não menos importante, há o risco de termos um soldado sequestrado, o que, politicamente, seria um desastre. E não parece ser segredo que esta é uma das grandes motivações do Hamas para atrair o exército para dentro da Faixa de Gaza.

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Um dos mais de 30 túneis descobertos em Gaza (b)

O leitor sabe o que eu penso sobre esta operação de modo geral[ref]Caso não saiba, leia aqui.[/ref]. Os túneis, de fato, amedrontam e representam grande perigo para os civis israelenses. A destruição destes túneis, no entanto, nos trarão alguma garantia de paz, segurança ou ao menos calma? O consenso é de que, por si só, não. Todos sabemos que o cessar-fogo com o Hamas é temporário, as operações militares não garantem absolutamente nenhuma calma por mais que alguns poucos meses. Quais seriam, então, os possíveis desfechos para este conflito atual? O que querem os dois lados num eventual cessar-fogo? O presidente egípcio apresentou uma proposta de cessar-fogo dois dias antes da operação terrestre, que agradou a Israel, aos EUA e à AP: voltaríamos todos ao acordo de 2012. O Hamas batia o pé, não estava disposto a aceitar que Israel e o Egito mantivessem o bloqueio restrito como é, e exigia a soltura dos presos capturados nas buscas pelos três jovens, há mais ou menos um mês. Os dois lados não entraram em um acordo. O Hamas não confia no Egito como interlocutor, e Israel não confia na Turquia, outro que se ofereceu para mediar os dois lados. O Qatar aparece como possível personagem neste cenário. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, esteve recentemente em Israel, e afirmou que o cessar-fogo não parece estar próximo de concretizar-se. O líder militar do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou nesta quarta-feira que está pronto para um cessar-fogo imediato, desde que Israel dê fim ao bloqueio. Isto nos mostra que o Hamas sente-se realmente prejudicado pelo cerco marítimo e terrestre feito por Israel e Egito. A economia aparentemente está em ruínas, a ponto de o líder do Hamas “esquecer-se” de sua exigência anterior em relação aos presos. Israel, por suposto, não pretende de forma alguma aceitar esta revindicação, pois a enxerga como um facilitador para que o Hamas adquira mais armas para o próximo confronto. Israel exige que o Hamas volte aos princípios de 2012, mas não assinará nenhum cessar-fogo antes de destruir todos os túneis existentes, mesmo que isto comprometa mais vidas.

Bandeira da Jihad Islamica
Bandeira da Jihad Islamica

Netanyahu em nenhum momento falou em derrubar o Hamas do poder[ref]Alguns de seus ministros, como o do exterior, Avigdor Liebermann (Israel Beiteynu), e o ex-vice-ministro da defesa, Dani Danon (Likud), tocaram no assunto, mas aparentemente não foram levados a sério pelo Primeiro Ministro.[/ref]. Segundo especialistas, os movimentos ISIS e Jihad Islâmica são muito mais radicais, e o governo parece adotar o princípio “ruim com o Hamas, pior sem eles”. Uma fonte do exército disse ao jornal Haaretz que Ismail Haniye, chefe do braço político do Hamas, não é um alvo das FDI. Há rumores de que o governo israelense esteja preparando-se para negociar com o Hamas a longo prazo. São apenas rumores, enfatizo. Mas há algo distinto na situação atual. A União Europeia recomendou, como parte do cessar-fogo, que Gaza seja desarmada. Desta forma Israel poderia cogitar afrouxar o bloqueio. Evidentemente o Hamas recusa a proposta, uma vez que o movimento vê no conflito a única forma de avançar em seus objetivos. Esta, no entanto, me parece uma boa alternativa para um acordo razoável de cessar-fogo. É curioso como ninguém propõe para Gaza o que já deu certo antes: tropas da ONU na região. Entre 1956 e 1966, os capacetes azuis ocuparam a Faixa de Gaza, período considerado de tranquilidade pelos dois lados. Israel necessita de soluções razoáveis, e, caso estas não sejam possíveis com o Hamas, deve-se buscá-las com outros parceiros. Chegar a um cessar-fogo com o Hamas não representa absolutamente nada, enquanto Israel não chega a uma solução para o conflito com a AP. Israel necessita chegar a um acordo com os palestinos moderados, incluí-los nos acordos de cessar-fogo, e fortalecê-los. A melhor alternativa para que todos nós, israelenses e palestinos, não soframos com foguetes, bombardeios, atentados e destruição a cada tantos meses, é chegar (a) em um acordo. As operações militares não trazem paz, trazem um cessar-fogo. Esta é a forma conveniente ao Hamas de atuar no jogo político. Nós entramos nessa, sem perceber que perdemos muito mais do que ganhamos. E vamos caminhando, de cessar-fogo em cessar-fogo, fortalecendo a participação do Hamas no campo político, e perdendo vidas, estabilidade e esperança. ——– (a) Retirada do site http://talkingnow.wordpress.com/2009/01/05/kibbutz-nir-oz-otef-aza-1st-update-jan-508/ (b) Retirada do site http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-4544468,00.html

Comentários    ( 30 )

30 Responses to “Operação Margem de Proteção: começo, meio e possíveis fins”

  • luiz rechtman

    26/07/2014 at 13:31

    João, texto instrutivo para quem não conhece o que se passa em Gaza. Faltou, na minha opinião, enfatizar a importância das centenas, sei lá, milhares de túneis na fronteira egípcia que foram fechados pelo atual governo do Egito. Contrabandistas e o hamas deixaram de ter sua maior fonte de renda. Armas e munições deixaram de entrar com a facilidade que entravam. Muitos ficaram ricos com este comércio, ao mesmo tempo que, tornaram-se os maiores fazedores de túneis de contrabando e para uso guerrilheiro do mundo. Esse asfixiamento, tanto do ponto de vista econômico como militar, mais o grande isolamento político entre diversos países árabes, levaram ao hamas a reaproximar-se do Abbas para fazerem um pacto de união (não citado e que está em vigor), visando a melhorar sua imagem e, quem sabe, no futuro dar um golpe no Fatah e dominar igualmente a Cisjordânia. Este pacto que deixou o governo israelense furioso foi, entretanto, saudado pelos EUA e europeus como se fosse um ótimo passo para restabelecimento de um dialogo em entendimentos para acordos de paz, tanto em Gaza, quanto na Cisjordânia. Resumindo, a atual guerra é crucial militar, política e economicamente, além de levantar a imagem guerreira de quem entra em luta com Israel com seus bombardeios constantes e seus túneis mortais. Acredito que, Israel, apesar de toda comoção das fotos das vítimas civis e da condenação e protestos pipocando pelos quatro cantos, deva levar para a mesa de negociações, e, mesmo antes, primeiramente, exposição do hamas perante à todos se a organização continua com seus estatutos que pregam a destruição de Israel e a criação de um Estado Islâmico para toda a “Palestina”, ou não. Segundo, um plano de desarmamento do hamas em troca do fim do bloqueio e acesso a Cisjordânia , terceiro, que o Fatah possa novamente retornar a Gaza para atuar politicamente. Acredito, que estas seriam as cartas (algumas) à serem colocadas na mesa. Caberia ao hamas entrar ou sair do jogo. Às claras e sem subterfúgios expor o hamas em relação às suas reais intenções seria mais producente do que eternizar o conflito militar. Claro que, isto dependeria mais do hamas do que de Israel. Desculpe o texto longo, um abraço Luiz.

    • João K. Miragaya

      26/07/2014 at 16:58

      Olá Luiz, obrigado pelo comentário!

      Infelizmente eu não posso incluir todos os fatores que estão em jogo neste artigo. Você sabe, o conflito é muito complexo. A equipe editorial do Conexão Israel, na sua leitura crítica, também me recomendou a inclusão de determinados pontos, mas ao mesmo tempo afirmaram que o texto estava longo. É uma pena, mas não tenho o orçamento para escrever um livro sobre a operação, e sempre faltarão fatores. Agredeço a você que tenha incluído aqui algo que eu tive de deixar de fora, pois enriquece a discussão. Estou de acordo com a sua observação. Meu único ponto de discórdia é em relação ao acordo entre Fatah e Hamas. Eu acredito que Israel desperdiçou uma boa oportunidade de quebrar o gelo, mas isso será papo para outro artigo.

      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    26/07/2014 at 13:47

    Excelente texto, João. Muito obrigado por se dar ao trabalho de fazê-lo.

    Eu tenho algumas adições e comentários:

    a) A guerra civil Palestina de 2007 e seus horrores (corpos dos adversários políticos assassinados sendo arrastados pelas ruas amarrados em motos, adversários políticos executados ao serem jogados de edifícios) mostra a natureza do Hamas. Israel olha para isto e se mobiliza para lutar contra eles.

    b) O mal nomeado bloqueio de Israel à Gaza é completamente legal. Israel tem direito de definir o que passa e o que não passa pelas suas fronteiras terrestres (não dizemos que o Brasil faz um bloqueio contra os carros produzidos na Argentina, apesar deles não poderem passar para cá) e o bloqueio aéreo e marítimo contra um país em estado de guerra é legítimo. Israel não exerce bloqueio contra Gaza e sim soberania em seu território.

    c) Mesmo com o mal nomeado bloqueio, Israel estende à Gaza uma ajuda humanitária que nenhum dos vizinhos sonha a estender a Israel (e suspeito que nem mesmo aos vizinhos árabes). Doentes de Gaza são tratados em hospitais israelenses e existe trânsito de mercadorias para a região. Durante a “fase aérea” da operação entraram 200 caminhões em Gaza provenientes de Israel. Israel continua fornecendo eletricidade para o território. Ou seja, Israel fornece a eletricidade que alimenta os lançadores de mísseis que o atingem pelo simples fato que desligar toda a energia constituiria num sofrimento elevado para os civis em Gaza.

    d) O problema econômico do Hamas em Gaza se deve às prioridades – mísseis, túneis e exército em vez de fábricas e infraestrutura. A região da Cisjordânia controlada pela OLP tem desenvolvimento econômico muito superior ao “Hamastão”.

    e) Existia outra alternativa para o Hamas sair do seu problema econômico sim! Ele poderia ter se juntado à OLP nas negociações com Israel. Isto seria um terremoto político – um “game changer”. Mas eles não aceitam abrir mão de seu único e “singelo” objetivo: destruir Israel e constituir um estado islâmico (não confundir com uma democracia) na região. Um estado ao estilo do califado imposto à Mosul, com mutilação genital compulsória para as mulheres de 11 a 46 anos e opressão intolerável aos cristãos.

    f) Permita-me fazer uma única crítica ao teu texto. A pergunta se a destruição dos túneis trará paz e calma é uma pergunta insensata, pois sugere que exista uma relação de causa e efeito entre dois eventos não relacionados. Equivale ao pessoal que pergunta se a prisão do assassino acabará com os assassinatos no mundo. E quando concluem que não dizem: “então a prisão não serve para nada, não vai acabar com a violência!”. Os túneis tem que ser destruídos porque eles ameaçam ao mundo democrático, a paz e a calma não tem nada a ver com isto.

    g) Esta crítica, obviamente, se estende à parte onde você afirma que um cessar fogo com o Hamas não representa nada enquanto Israel (só Israel, João?) a uma solução com o conflito com a AP. Uma coisa não tem a ver com a outra.

    g) Gosto da solução das tropas da ONU, mas apenas com tropas de países democráticos. E qual é o país que vai querer colocar os eus soldados controlando o Hamas? Eles sabem muito bem quem é o Hamas, só não dizem.

    h) Sugiro elaborar melhor o final do teu texto: Israel não pode fortalecer os palestinos moderados. Os palestinos moderados precisam prevalecer politicamente na Palestina e o acordo virá em seguida. E não cabe a Israel fazer a campanha politica deles. Israel não é um João Santana na Palestina, você sabe.

    Shabat Shalom e mais uma vez, obrigado pelo texto,
    Raul

    • João K. Miragaya

      26/07/2014 at 16:54

      Oi Raul.

      Obrigado pelo comentário. Em relação ao fim, estamos mesmo em desacordo. Eu acho que Israel, na condição de ocupante (ou bloqueador ou o que você preferir), tem maiores responsabilidades, sim. Não só eu, o Departamento de Estado dos EUA, a União Europeia, a Liga Árabe, quase todo o mundo. E é por isso que eu reafirmo que operações de 20 em 20 meses, mesmo que tenham objetivos nobres, não se justificam se durante estes 20 meses o país não faz o necessário. Pelo jeito nós dois discordamos sobre o que seria o necessário. Faz parte do jogo.

      Um abraço e shabat shalom

    • Mario S Nusbaum

      26/07/2014 at 23:14

      João, acho que nem preciso dizer, mas concordo com o Raul e não com você. Mesmo sendo esperado, é sempre bom explicar porque.
      “Eu acho que Israel, na condição de ocupante (ou bloqueador ou o que você preferir), tem maiores responsabilidades, sim. Não só eu, o Departamento de Estado dos EUA, a União Europeia, a Liga Árabe, quase todo o mundo.”
      OK, mas tenho uma pergunta. Estou muito longe de ser um especialista em leis de guerra, na verdade não sei quase nada sobre elas. Exatamente por isso pergunto: existe alguma lei que obrigue Israel a fornecer energia para Gaza? Deixemos de lado, por mais surreal que seja, que ela é dominada (e oprimida) por um grupo terrorista cujo objetivo, CONFESSO é a destruição do país.
      Por um acaso os EUA são OBRIGADOS a fornecer energia para o Canadá? A Rússia para a China? O Brasil para a Colômbia? O que o mundo, a ONU, a Liga Árabe e você João, diriam se Israel dissesse: ok, estamos terminando com o bloqueio aéreo e marítimo e, ao mesmo tempo, cortando o fornecimento de energia. SE VIREM.

      Fingir ignorar a ENORME superioridade moral israelense é piada, de péssimo gosto.

    • João K. Miragaya

      27/07/2014 at 15:34

      Olá Mário.

      Tampouco sou especialista em leis de guerra, mas gostaria de dizer que a obrigação de Israel em fornecer energia a Gaza nada tem a ver com leis de guerra. Gaza não tem status de Estado nacional, e jamais declarou sua independência. Uma vez que Israel ocupa a condição de bloqueador dos espaços marítimo e aéreo de uma região não independente (reconhecida internacionalmente como ocupada por Israel, sobre a qual este não declarou autonomia), os serviços básicos devem ser fornecidos pelo ocupante. Caso contrário, Israel estaria infringindo direitos humanos: deixando uma população civil, que está sob seu domínio, sem recursos básicos.

      Caso Gaza fosse reconhecida por Israel como um Estado autônomo e soberano, e Israel não os bloqueasse (situação hipotética), não haveria por nossa parte absolutamente nenhuma obrigação em fornecer energia a eles. Mas infelizmente não é este o caso. Eu gostaria que Gaza e a Cisjordânia (futura Palestina) fossem independentes, autônomas e soberanas. Mas não são. Até 1967, Israel não administrava o sistema de água e luz destas regiões. Desde então, é nossa responsabilidade. Eu gostaria que não fosse, mas para isso, precisamos desvincular-nos destas zonas.

      Não sei se você sabe, mas Israel não fornece nem energia nem água de forma ilimitada nem à Gaza nem à Cirjordânia. Segundo a organização de direitos humanos B’Tzelem, há racionamento de água e energia nas duas regiões. Em Gaza o racionamento de energia é forte: antes mesmo da operação os habitantes só tinham 12 horas de energia por dia. O Hamas tem responsabilidade nesta péssima administração e prioridades malignas, sem dúvidas. Mas não podemos nos desvincular da condição de progenitores, uma vez que não lhes damos soberania e independência.

  • Mario S Nusbaum

    26/07/2014 at 23:02

    Tenho a impressão de que o Eduardo percebeu que errou BIG TIME e decidiu não comentar, por mim tudo bem, vamos em frente.
    “Entendo que o temor, mas não me parece que, para quem construiu o Iron Dome, esse túnel se trate de grandes problemas. Enfim, se é esse ponto central da justificativa em Israel para o ataque terrestres, então a coisa tá mais braba do que eu imaginava….”
    É impressionante! Espera-se de Israel algo que nem dos santos se espera, que aceite PASSIVAMENTE todas as agressões que não impliquem em sua total destruição.
    Eduardo, se as suas intenções são minimamente bem intencionadas, peço que responda: se alguém tentar cortar ambos os braços (e disser isso em alto e bom som) de um filho seu e você tiver um revólver em mãos, vai atirar nele ou pensar: bom ele vai morrer se eu atirar nele, mas meu filho vai “apenas” perder os braços?

    • Eduardo

      27/07/2014 at 01:20

      Mario: mil palestinos já morreram. Três quartos são civis. 3 civis israelenses foram mortos, e mais 40 soldados. Se você disser que vai cortar o braço do meu filho com uma faca cega e eu tiver uma M16 nas mãos, eu não vou matar todos os seus familiares e amigos e quem mais estiver no prédio onde você mora, não. Mas essas comparações não costumam ajudar muito, não. Não se espera um comportamento de santo ou passivo, apenas um comportamento que esteja minimamente de acordo com as leis internacionais. Espero, mesmo, que não cometamos mais crimes de guerra que o próprio Hamas. A “agressão” em questão, construção de túneis em direção a Israel, me parece muito, mas muito mesmo, longe de implicar a destruição de Israel. Bem como os foguetes covardemente lançados pelo Hamas. Espero que Israel haja como se não estivesse sob risco iminente de destruição, mesmo, porque a correlação de forças é tão desproporcional que ninguém que não é judeu – ou ultradireitista/evangélico – acredita que Israel esteja simplesmente se defendendo nessa guerra. São todos anti-semitas?

    • Michel - Cauton

      29/07/2014 at 18:18

      Eduardo,

      O Hamas diz em alto e bom tom sim que está tentando destruir Israel. Felizmente ele ainda não tem capacidade e por enquanto ele tenta somente assassinar o máximo de civis possível, o que israel frustra com eficiência.

      Sobre crimes de guerra e direito internacional, existe um outro texto de uma pessoa que como o João (parabéns pelo texto joão), é bem sensato em relação as suas opiniões, que merece ser lido para melhor entender as “regras que ditam o jogo”

      http://www.conexaoisrael.org/anexo-analise-direito-internacional-e-das-leis-da-guerra/2014-07-26/claudiodaylac

      um abraço

  • Marcelo Starec

    28/07/2014 at 22:26

    Oi João,
    Gostei do seu artigo! Achei bastante completo e sincero. Quanto ao final dele, eu realmente gostaria de ter essa certeza, infelizmente não tenho, mas acho um cenário possível. De fato, estamos vendo um relacionamento muito melhor entre Israel e a Autoridade Palestina (AP), o que sem dúvida está levando a uma vida melhor para os árabes que lá residem e para Israel. Ocorre que desde 2007 a AP não consegue mais sequer pisar em Gaza, dominada pelo regime de terror explicito e declarado do Hamas. Entendo que qualquer solução terá de passar por um enfraquecimento do Grupo Terrorista, em parte pela via militar (destruição dos tuneis e lançadores de mísseis) e obviamente algum tipo de acordo que leve, de forma coercitiva, esse grupo a se desarmar definitivamente e ao mesmo tempo investir recursos em Gaza, oferecendo a população uma oportunidade de, livres da opressão do Hamas, se manifestar sobre o tipo de mundo em que pretendem viver, se com paz e desenvolvimento ou sob um regime fundamentalista tirânico e sanguinário.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Roberto Miglioli

    29/07/2014 at 20:09

    Excelente texto! Eu já discuti esse assunto com outros amigos e gostaria de repetir aqui a minha opinião: a maior arma que Israel deveria usar contra o Hamas é a PROPAGANDA. Israel deveria transmitir programas de TV voltados às famílias palestinas em Gaza, com o intuito de educá-lo para a paz e repudiar o Hamas.

  • Alex Strum

    30/07/2014 at 23:59

    João, se for possível, gostaria que voce esclarecesse a seguinte dúvida.
    Em todas as sociedades, e creio que na israelense não é diferente, uma parte da população é ideologizada e se distribui ao longo do espectro esquerda-direita, e outra parte, normalmente a maior, não tem posição ideológica definida e vota na direita ou esquerda dependendo da situação do momento.
    Se bem me lembro antes do Rabin ser assassinado o governo era de centro-esquerda, pacifista; e depois, com os atentados e homens-bomba, a população acabou elegendo a direita com Sharon.
    O objetivo desta questão é entender se a população judaica de Israel, na sua maioria é de direita, como o governo atual, ou “está na direita” em consequencia dos riscos de segurança.
    Em outras palavras, num cenário sem as ameaças de Hamas e Hetzbolá, a população ainda assim elegeria um governo que defende o grande Israel, os assentamentos e a ocupação da Cisjordania?
    Como se distribuem os partidos neste espectro??
    obr e abs,
    Alex