Os 5 mais da democracia israelense

27/05/2016 | Conflito; Sociedade

A democracia israelense está sob ameaça constante. Todos os dias, ela é submetida a testes de estabilidade.

Exemplos não faltam. O polêmico e recente episódio do disparo de um soldado israelense contra um terrorista neutralizado, a incitação ao ódio contra palestinos em um casamento judaico e a pichação a uma escola de bilingue de crianças árabes e judias são alguns dos recentes casos de tensão relacionados ao conflito.

Não bastasse, o Estado de Israel também lida com questões delicadas no que diz respeito ao seu caráter judaico-religioso. A inexistência de casamentos civis, a restrição de transportes aos sábados, o monopólio ultra-religioso em questões de Kashrut, o acesso separado de homens e mulheres ao Muro das Lamentações, entre outros, geram atritos entre o caráter judaico e o caráter democrático do estado.

Seria bom se isso fosse tudo. A presença de uma minoria árabe dentro de Israel  é outro fator que levanta suspeitas em relação a verdadeira face da democracia israelense, como visto recentemente, por exemplo, no episódio em que um parlamentar disse que não gostaria que mulheres árabes dividissem quarto com sua esposa em hospitais públicos.

Ou seja, é árdua a tarefa de manter Israel como um estado democrático, tendo em vista o ambiente de conflito com os palestinos, o seu caráter judaico e a presença de uma minoria árabe – um quebra-cabeça instável e difícil de arrumar.

Apesar dos desafios, a democracia israelense segue firme. E, mesmo longe da perfeição, ela é bem desenvolvida e estruturada. Sua construção foi (e continua sendo) posta à prova em diversas situações. Uma série de marcos históricos ajudaram no seu desenvolvimento e seu fortalecimento.

Se tivéssemos que destacar os principais marcos, quais escolheríamos?  

Uma pesquisa que contou com a participação de mais de 10.000 israelenses, realizada pelo jornal israelense Yediot Ahronoth, resolveu responder a esta pergunta, levando em conta uma pré-lista de 25 eventos candidatos.

Vejamos abaixo qual foi o “top 5”, e de que forma eles influenciaram a democracia de Israel.

5º lugar – A prisão de um ex-presidente e de um ex-primeiro-ministro

Todos são iguais perante a lei, literalmente.

O ex-presidente Moshe Katzav foi preso por assédio sexual. O ex-primeiro Ministro Ehud Olmert por corrupção. Terroristas judeus são condenados a longos anos na cadeia. O assassino do ex-primeiro ministro Isaac Rabin, por exemplo, foi condenado a prisão perpétua. O milionário Danny Dankner foi preso por fraude.

A mensagem é clara. A justiça não diferenciará entre poderosos e plebeus, ricos ou pobres, judeus ou árabes. Óbvio que nem tudo é perfeito, e a quem diga que mesmo assim seguem as injustiças.

Pode até ser, mas a mensagem após a prisão de duas das figuras públicas mais importantes do país é clara e direta: aqui a lei vale para todos.

4º lugar – A Guerra dos Seis Dias e o início dos assentamentos

Divisões sociais e ideológicas

Até a Guerra dos Seis Dias, o povo sempre esteve unido, focado em um único objetivo: sobreviver. Passada a guerra, e estabelecida a euforia da vitória esmagadora, algo havia ficado claro para todos, Israel é uma realidade que veio para ficar.

 

SIX DAY WAR. DEFENSE MINISTER MOSHE DAYAN, CHIEF OF STAFF YITZHAK RABIN, GEN. REHAVAM ZEEVI (R) AND GEN. NARKIS IN THE OLD CITY OF JERUSALEM.

Agora que a ameaça externa havia sido reduzida, estava na hora de prestar contas internamente. É o começo, por exemplo, de movimentos sociais como os “panteras negras”, reivindicando a melhoria das condições dos judeus imigrantes provenientes do norte da África e de países do Oriente Médio.   

As divisões ideológicas aumentaram muito em proporções. O grupo dos que acreditavam na ocupação dos territórios recém conquistados na guerra, frente ao grupo dos que entendiam a colonização como um erro estratégico e uma atitude contra-produtiva.

Antes camufladas pelo inimigo em comum e pela luta pela sobrevivência, as divisões internas impactam a democracia israelense desde então. Até hoje, a divisão ideológica sobre qual deve ser o posicionamento em relação aos territórios ocupados na guerra de 1967 segue como ponto principal de discussão política no país.

3º lugar – Eleições de 1977 – Mudança de partido no poder

A alternância no poder é necessária, saudável e fundamental

Durante os trinta primeiros anos, os rumos do país sempre foram definidos pelos mesmos personagens: judeus de origem ashkenazi, vindos nas primeiras ondas de imigração do período anterior a criação do Estado.

A insatisfação com os eventos da Guerra do Yom Kipur, somados as questões explicadas no item anterior levaram a democracia israelense, pela primeira vez em sua história, a colocar a oposição no poder. E assim foi realizada, sem grandes turbulências, a primeira alternância de partidos, e foram dados passos largos em direção a consolidação da democracia.

2º lugar – Assassinato do primeiro-ministro Isaac Rabin por um judeu extremista

O perigo da intolerância e do extremismo

O episódio é triste. Um choque para a sociedade israelense. E suas influências perduram até hoje, mais de vinte anos depois. O assassinato do então primeiro-ministro Isaac Rabin por um judeu religioso extremista, por motivos de discordância ideológica e política, abalou a sociedade israelense e a fez repensar suas bases.

Muitas das medidas de combate a movimentos radicais judaicos, hoje em dia, são frutos da lembrança do assassinato de Rabin, que segue vivo no imaginário do israelense e, volta e meia, está novamente em pauta. Por exemplo, quando membros do parlamento se posicionam de maneira radical frente a grupos que pensam de forma diferente.

Não bastasse isso,o evento acabou por decretar o fim dos acordos de Oslo, ao ser decisivo na derrota do partido trabalhista nas eleições de 1996, trazendo a tona um novo protagonista no cenário político israelense: Benjamin Netanyahu.

1º lugar – Declaração de Independência   

Judaico e democrático

A Declaração de Independência de Israel tinha a ingrata missão de definir o caráter democrático de um estado judaico, justificando seu direito de existência como tal.

Uma missão muito complexa (há quem diga impossível), especialmente considerando-se a época e o contexto histórico em que ela foi escrita. Todos os dilemas expressos durante este texto deveriam ser abordados, sem contradições, e respeitando os valores éticos e tradicionais do povo judeu.

O resultado é um documento que segue até hoje como o guia moral, nacional-cultural e democrático que ajudou a moldar a sociedade israelense como ela é.

Ele é constantemente desafiado por setores da sociedade, como exemplificado no início deste texto, mas sua manutenção é a pedra fundamental para aqueles que acreditam que possa haver uma democracia-judaica no Estado de Israel.

 

Comentários    ( )

Um comentário para “Os 5 mais da democracia israelense”

  • Marcelo Starec

    27/05/2016 at 20:24

    Oi Amir,

    Muito bom o artigo! Qual país do mundo não tem algum problema? Nenhum, com certeza. E frente a todos os tantos desafios que o Novo Estado Judeu sofreu em apenas 68 anos, acho fantástico ter logrado êxito em uma área tão complexa, como a democracia!…Explico – em 1948, os líderes árabes ordenaram um maciço ataque contra o pequeno e recém nascido Israel. O objetivo, muito claro, era “jogar os judeus ao mar” o que, traduzindo para uma linguagem simples, fazer um genocídio. E essa guerra, realizada dentro de Israel, teve o apoio de muitos árabes residentes dentro do país. Israel venceu! É uma grande virtude de uma nação recém criada ter oferecido cidadania e direitos iguais a todos os árabes que lá estavam – e cumprir a promessa ao longo do tempo…Quantos países, em semelhante situação, teriam agido assim?…Temos problemas? Sim, claro! Somos gente e com certeza não somos perfeitos! Mas hoje, você vê, em qualquer canto de Israel, árabes muçulmanos se divertindo ao lado de judeus, com suas famílias e sem nenhum receio de ser incomodados. É esse respeito, no dia a dia, no meu entender, a maior prova do valor democrático da sociedade israelense!

    Um abraço,

    Marcelo.

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