Os cães da guerra

06/07/2014 | Conflito; Opinião; Sionismo

Artigo conjunto de Yair Mau e Marcelo Treistman.


Em certo momento da peça Júlio César, de Shakespeare, a multidão sai pelas ruas querendo vingar o assassinato de César, depois de inflamados por Marco Antônio. Encontram um poeta, e perguntam seu nome. “Meu nome é Cina”, e a multidão “despedacem-no, ele é um conspirador!” Cina desesperado responde que é um poeta, não o conspirador de mesmo nome! A massa não quer nem saber, “não importa, o seu nome é Cina”, e que o despedaçariam então pelos maus versos que escreve.

Nos últimos dias em Israel, a maior parte da sociedade foi surpreendida pela fúria de alguns indivíduos que, ensandecidos, procuravam “o conspirador cina” pelas ruas de Jerusalém. Queriam fazê-lo pagar com a sua própria vida pelos pecados que cometera. Para esta turba de animais, não importava nem um pouco se estariam julgando e punindo o “Cina” correto. Apenas o nome parecido, a cor da pele parecida, o sotaque parecido, já seria o bastante para condená-lo a morte. Para eles de nada importava se a vítima fosse apenas um poeta, não o “conspirador”.

Em alguns artigos do Conexão Israel (pe djora, olho por olho), trouxemos algumas tristes declarações, posts, discursos e artigos do lado israelense surgidos em meio ao sequestro e posteriormente ao assassinato de três adolescentes judeus por terroristas palestinos.

Recebemos diversos comentários raivosos, acusando-nos de antissemitas, antissionistas, panacas, terroristas, self-hating-jews. Os mais carinhosos, nos qualificavam apenas de ingênuos.

O Conexão foi criado porque observamos um vácuo de informações que chegavam à sociedade brasileira acerca de Israel. Nunca quisemos fazer pura e simples Hasbará, isto é, defender Israel incondicionalmente. Esta prática de defesa sem auto-crítica causa um dano enorme a todo nosso povo.

O que diferencia a massa desgovernada ilustrada na peça Júlio César de uma sociedade democrática baseada no cumprimento de leis são as concessões que fazemos ao grupo em nome da nossa segurança. Uma das mais importantes concessões que fazemos é a impossibilidade de se fazer justiça com as próprias mãos. Ninguém deseja viver em um local, cidade ou país, em que um grupo ensandecido possa confundir-lhe com o “Cina” da vez. Que te julgue sem direito amplo a defesa. Que te puna sem o devido processo legal.

Não é o sistema de governo que forma a sociedade. É a sociedade que define o sistema de governo. Não são as leis que formam a sociedade, é ela, a sociedade, que define a sua legislação. Não é a força militar que sustenta a sociedade. É a sociedade que define que tipo de exército deseja ter.

A larga maioria da sociedade israelense deseja que o país siga firme no trilho da democracia. Somos um Estado verdadeiramente democrático e somos uma sociedade que escolheu viver sob o império de leis democraticamente instituídas.

Entretanto, a manutenção desse caráter democrático do Estado depende de uma constante supervisão e controle. A sensibilidade democrática é muito “dolorida” e qualquer coisa ela grita. Este “grito” necessário nada mais é do que a tentativa de impedir que bandos desrespeitem a lei (que garante a segurança de todos) em nome de uma justiça particular.

Nós não escondemos os nossos terroristas, racistas e xenófobos debaixo do tapete. Não nos vangloriamos que existam pessoas assim entre nós. É nosso dever como sociedade, como comunidade, como povo, apontar o dedo na cara destes indivíduos para dizer em alto e bom som: “Nós não somos como vocês. Não queremos ser como vocês. Vocês não tem espaço na nossa sociedade”.

Abaixo separamos alguns exemplos de como a sociedade israelense está reagindo à loucura dos últimos dias e semanas. A maior parte dos israelenses quer deixar claro que não é possível exigir vingança num dia e dizer no dia seguinte que somos a única democracia do Oriente Médio. O racismo e a sede de vingança são incompatíveis com um “Estado judaico e democrático”.

Ação

Assistam ao vídeo abaixo, filmado no centro de Jerusalém dia primeiro de julho. O hebraico é simples, todos gritam “morte aos árabes”.

Uma comunidade no Facebook, chamada “o povo de israel exige vingança” atraiu mais de 35 mil membros em dois dias, antes de ser fechada pela rede social. Para eles, o mais justo a se fazer agora é vingar a morte dos três garotos judeus, matando seus assassinos, suas famílias, seus vizinhos, e qualquer outro palestino que passar pelo caminho.

Muitos deles são adolescentes, como no vídeo acima, e como as duas boçais da imagem abaixo, que dizem: “Odiar árabes não é racismo, é uma questão de valores! #IsraelExigeVingança”. Muitos outros são soldados, um deles aparece numa imagem que diz “Deixe-nos simplesmente metralhar!!”.

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Nesta segunda-feira, o presidente mundial do movimento juvenil judaico Bnei Akiva, o rabino Noam Perel, divulgou em sua página no Facebook que “Uma nação inteira e milhares de anos de História pedem vingança. A desgraça será paga com o sangue de nosso inimigo, não com nossas lágrimas”. Parte do post original do Facebook (imagem abaixo), parece indicar que ele deseja que o exército de pessoas que estavam às buscas dos três garotos judeus se transforme num exército de vingadores.

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Um jovem árabe de Jerusalém foi encontrado morto na manhã desta quarta-feira. Muhammad tinha apenas 16 anos. As investigações da polícia ainda não divulgaram a causa da morte, mas a internet está fervilhando com especulações. Muitos assumiram rapidamente que foi um ato de vingança em resposta ao assassinato dos três garotos judeus. Outros, revoltados com essa possibilidade, encontraram uma foto do garoto e começaram a espalhar por aí o seguinte boato. A imagem abaixo diz: “Essa é a cara do viado árabe que foi assassinado hoje de manhã e que nos culparam por sua morte. O jovem árabe foi morto por assassinos árabes em um caso de ‘honra da família’, mas mídia esquerdista se apressou a nos culpar por sua morte. Compartilhem!”. Que alívio, hein, morreu porque era gay, não porque era árabe. De toda forma, repetimos, isso tudo são boatos, a polícia ainda não divulgou nada. Enquanto isso, o pau está rolando solto em Shuafat, bairro de Jerusalém oriental onde o garoto árabe morava. No momento em que escrevemos estas palavras 30 palestinos e policiais foram feridos no confronto. [Atualização de última hora: 6 judeus foram presos por suspeita de terem assassinado Muhammad, queimando-o vivo.]

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Sabe quando estudamos a Alemanha dos anos 1930 e nos perguntamos como pode ser que uma sociedade inteira resolveu assassinar um outro povo? Bem, a resposta está na nossa cara, começa assim. Muitos não gostam de comparações com o Holocausto, dizem que chamar as manifestações anti-árabes de “noite dos cristais”, como fizeram muitos dos que estiveram em Jerusalém nos últimos dias, é um desrespeito à memória do holocausto e aos sobreviventes. Isso é discutível, mas é inegável que nenhuma sociedade está imune a ideologias nazifascistas, nem os judeus. O maior dos desrespeitos à memória do holocausto é que em 2014 ainda existam pessoas que se comportam dessa forma.

Vale notar que isto não é uma anomalia passageira. A maior parte deles estava esperando em suas cavernas seu momento de glória. Não pense que isso é apenas uma “fase conturbada” na vida destes adolescentes (são também muitos adultos, afinal “o fascismo não discrimina ninguém”, hehe), embora muitos hão de se arrepender por terem divulgado seus rostos na internet, juntamente com suas opiniões iluminadas.

Reação

A família de Naftali Frankel, um dos três jovens sequestrados e assassinados, divulgou a seguinte nota. “Não sabemos exatamente o que aconteceu esta noite em Jerusalém Oriental, e o caso ainda está sendo investigado pela polícia, mas se de fato um jovem árabe foi assassinado por motivos nacionalistas, trata-se de um ato terrível e atordoante. Não existe diferença entre sangue e sangue. Assassinato é assassinato, seja do povo e idade que seja. Não há justificativa, não há perdão e não há expiação por nenhum assassinato.”

Com respeito a Noam Perel, do movimento Bnei Akiva, centenas de pessoas exigiram que ele se retratasse e renunciasse ao cargo de presidente do Bnei Akiva. Diante de sua recusa, várias sedes do Bnei Akiva, em Jerusalém, Beer Sheva e Modiin, anunciaram a criação do novo movimento, o Bnei Hillel. Preferem rachar este quase centenário movimento juvenil a serem associados a este tipo de comportamento. Estes que vos escreve aplaudem a decisão. O que o movimento Bnei Akiva no Brasil teria a dizer a respeito? [Atualização: O rabino Noam Perel se retratou pelo que disse. Leia mais nos comentários abaixo, juntamente com uma declaração da liderança do Bnei Akiva no Brasil.]

Finalmente, há as manifestações públicas de repúdio à sede de vingança. A maior delas ocorreu quinta-feira a noite em Tel Aviv com milhares de participantes, chamada “manifestação da sensatez – não à vingança, não à escalada de violência”. Milhares compareceram à manifestação, que foi organizada pelo movimento Shalom Achshav (Paz Agora) e pelos partidos de oposição.

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Foto de Moti Kimchi, YNET

Caro leitor. As reações que indicamos acima revigoram e ressaltam a característica democrática do nosso país. É exatamente isso que nos diferencia daquelas sociedades que vivem sob ditaduras sanguinárias e que proíbem a liberdade de expressão do seu povo.

Reparem que as manifestações não são apenas contra uma vingança arbitrária, o que já seria, em si, uma causa nobre. As manifestações nos trazem uma mensagem muito mais ampla que visa diferenciar vingança de justiça, impulsividade de ponderação, emoção de razão e subjetividade de objetividade.

Num momento em que há uma forte tendência a se fazer justiça com as próprias mãos ou em que há pedidos a favor de uma punição coletiva, estas reações tornam-se fundamentais para afirmação da legitimidade democrática do Estado judeu.

E somente assim, revelando, expondo e deixando claro quais as práticas e discursos que não aceitamos entre nós, é que teremos a força necessária para exigir um governo, leis e um exército que sejam os dignos representantes de todo o nosso povo.

A sensatez é a nossa única arma contra os cães da guerra.


Fontes: Protesto em Tel Aviv: YNET; Reação da família Frankel: Walla; Post de Noam Perel: Haaretz.co.il, Haaretz.com e Facebook; Comunidade do Facebook “o povo de Israel exige vingança”: Haaretz; Boatos sobre o jovem árabe assassinado: Mako; Peça Júlio César, de Shakespeare, aqui, Ato III, cena III.

Comentários    ( 25 )

25 Responses to “Os cães da guerra”

  • Almeida

    08/07/2014 at 17:21

    Frase do texto – O Conexão foi criado porque observamos um vácuo de informações que chegavam à sociedade brasileira acerca de Israel.

    Meu comentario – muitos artigos aqui,dependendo do autor,são usados para atacar religião e religiosos,além de na politica ter uma tendencia de esquerda.

    Se não me falha a memoria,foi de autoria do João um artigo que fala sobre ser de esquerda em Israel e quais os significados,já que não necessariamente implica que a pessoa seja comunista e tambem porque a esquerda de hoje em dia é diferente de 50 anos atrás.

    Apesar de ver varias coisas erradas acontecendo entre os religiosos,sou contra esses ataques indiscriminadamente por qualquer motivo,não estou falando do caso dos assassinos do garoto arabe e sim de uma maneira geral.

    Estou fazendo uma critica construtiva.

    • João K. Miragaya

      09/07/2014 at 10:02

      Olá Almeida.

      Eu escrevi um artigo chamado “Direita orgulhosa, esquerda envergonhada”. Pode buscá-lo no arquivo (se fizer a busca por autor encontrará mais facilmente). Não acho, no entanto, que você esteja se referindo ao meu artigo. Claudio Daylac escreveu dois artigos explicativos em sequência, mostrando o que significa ser de esquerda e de direita em Israel sob vários aspectos distintos: há direita e esquerda no mapa político, mas os conceitos transitam entre religião x Estado, conflito com os palestinos e política econômico-social.

      Eu estou de acordo com você: ser de esquerda hoje é bem diferente do que era ser de esquerda nos anos 1960.

      Apesar da independência e liberdade que cada um dos autores têm para escrever o que bem entendem, eu não estou de acordo com a sua crítica (que é construtiva). Não vi aqui ataque à religião. Pode ser que haja ataque a religiosos. Mas o que eu vejo, de fato, é a crítica consistente à coerção religiosa no Estado de Israel. Eu, particularmente, não me lembro de ter escrito nenhum artigo sobre este tema, mas estou de acordo com a maioria das opiniões defendidas por meus companheiros aqui no conexaoisrael.org.

      Se há um ataque indiscriminado, gostaria que você nos apontasse para que possamos fazer uma autocrítica, pois, caso realmente haja, esteja certo de que estarei de acordo contigo.

      Um abraço

    • Almeida

      09/07/2014 at 16:54

      Obrigado pela sua resposta João.
      Foi artigo do Claudio e provavelmente ele citou o seu anterior.
      Tendo varios autores,automaticamente vão existir opiniões diferentes.
      Porque religiosos erram e muito diga-se de passagem,não se pode condenar a todos e a religião em si.
      Sobre estado-religião,Israel não é uma teocracia mas ainda é o estado judeu.(por quanto tempo não sei,espero que para sempre)
      Passei algum tempo sem visitar aqui o site,acho que vou passar a escolher os artigos pelos autores e não pelos titulos.
      Abraço

  • Michel - Cauton

    11/07/2014 at 21:04

    Marcelo, parabéns pelo texto.
    Obrigado por nos mostrar opiniões e realidades diferente das defendidas pela mídia viesada brasileira e pela diásporada sem auto-crítica judaica.
    abs

  • Alex rossan

    29/07/2014 at 06:58

    Dear soldiers of the Israeli Defense Forces remain strong, because this is a just war. Bravely defend your homeland’s freedom and defend yourselves. My heart and soul are with you, stay safe and return unharmed to your families! Hugs from Brasil