Os irmãos Lumière e Jerusalém

17/02/2014 | Sociedade

Considerando o significado religioso e cultural de uma cidade como Jerusalém, não é surpresa que a cidade tenha sido palco de um dos primeiros locais capturados por uma câmera movimento.

Os Irmãos franceses Louis e August Lumière são considerados os primeiros cineastas do mundo: em 1895, eles filmaram com o seu cinematógrafo trabalhadores que saiam da fábrica em Lyon e teria sido o primeiro registro de uma imagem em movimento. No ano seguinte, os irmãos viajaram pelo mundo com sua nova invenção

 Jerusalém foi um de seus primeiros destinos .

Em Jerusalém, a câmera dos irmãos Lumière capturou a vida em uma cidade antiga e que estava em rápida transição. No século 19, a cidade santa cresceu. Deixando de ser uma cidade otomana de pouca importância – tendo apenas um imenso significado religioso – para se transformar em uma das principais cidades da região.

Nas duas décadas antes da chegada dos cineastas franceses, as primeiras imigrações em massa organizados de judeus sionistas da Europa para a Palestina havia começado.

Embora os números relativos à população e demografia de Jerusalém durante o domínio otomano sejam incertos, e as estimativas variem consideravelmente, é claro que, no início da primeira imigração judaica para a Palestina em 1882, a população de Jerusalém era constituída de apenas cerca de 20-30 mil pessoas. Divididos quase que proporcionalmente entre muçulmanos, cristãos e judeus.

Uma estimativa de 1882 , citada no livro “Jerusalem and Its Environs: Quarters, Neighborhoods, Villages, 1800-1948”, escrito por Ruth Kark e Michal Oren Nordheim , divide a população de 21 mil pessoas em nove mil judeus , sete mil muçulmanos e cinco mil cristãos .

Mas a partir das últimas décadas do século XIX, a população da cidade iria crescer rapidamente, especialmente a sua população judaica. De acordo com uma estimativa, a partir de 1896 – o ano de filmagem dos irmãos Lumière, a população da cidade dobrou em um tempo muito curto. E Jerusalém era agora o lar de uma esmagadora maioria judaica – de cerca de 45 mil habitantes , 28 mil eram judeus, 8.700 eram cristãos e 8.500 muçulmanos.

Sem surpresa, Jerusalém rapidamente ultrapassou as paredes antigas dos muros da cidade velha que tinham sido fechadas por séculos. Autoridades tiveram de abrir mais portas nos muros da cidade, e novos bairros foram construídos fora dos muros para acomodar a crescente população.

Também houve melhorias significativas em muitos aspectos da vida da cidade – áreas como a segurança pública, administração, saneamento e educação, graças às reformas realizadas por autoridades otomanas e filantropos judeus europeus, ansiosos para apoiar novos imigrantes judeus da cidade.

Podemos ver a evidência dessas mudanças nas cenas gravadas pelos irmãos Lumières em 1896 ? Talvez não. No entanto, podemos vislumbrar um raro momento que registra a vida diária em um tempo que já desapareceu. Os locais são familiares – o portão de Yafo, as ruas estreitas da antiga Jerusalém…

Podemos ver os membros de todas as comunidades religiosas que habitaram a cidade – eles parecem considerar os estrangeiros e sua invenção incomum com igual desconfiança ou desdém. Alguns cobrem seus rostos quando passam pela câmera.

Outros habitantes de Jerusalém eram mais curiosos sobre esta nova tecnologia, como pode ser melhor visto neste último clipe abaixo na visita dos irmãos Lumière à cidade santa. Nesta última compilação de imagens eles filmam a partir de um trem em movimento que sai para o seu próximo destino. Uma pequena multidão de espectadores curiosos acompanha a sua partida.

Espero que vocês tenham gostado das imagens.


Fonte das informações demográficas: “Jerusalem and Its Environs: Quarters, Neighborhoods, Villages, 1800-1948

Comentários    ( 10 )

10 comentários para “Os irmãos Lumière e Jerusalém”

  • Mario S Nusbaum

    17/02/2014 at 14:13

    Sensacional, e a qualidade da imagem, principalmente do segundo filme, é muito melhor do que eu esperava.
    Obrigado.

  • RITA BURD

    17/02/2014 at 20:25

    Sensacional, um documento histórico

  • Raul Gottlieb

    18/02/2014 at 09:49

    Marcelo,

    Você diz que na virada do século 20 haviam mais habitantes judeus do que não judeus em Jerusalém.

    Você não diz, mas é sabido, que na virada do século 20, a Jerusalém de fora dos muros da cidade velha era muito pequena. Logo a esmagadora maioria os 45 mil habitantes moravam na cidade velha.

    Você não diz, mas é sabido, que o único período da vida de Jerusalém onde ela não teve judeus foi entre 1948 e 1967 quando os judeus foram expulsos de lá pelo exército da Jordânia.

    Daí eu pergunto:

    Com base em qual fato histórico os Palestinos reivindicam que a Cidade Velha de Jerusalém fique dentro de seu território e que não haja habitantes judeus nela?

    Há justiça nesta demanda?

    Agradeço a gentileza de responder e agradeço pelo texto. Belas imagens!

    Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    18/02/2014 at 09:52

    O texto fala apenas de Jerusalém, mas tal qual aconteceu nesta cidade, a população de toda a região cresceu muito após as aliot dos judeus.Muitos muçulmanos e árabes imigraram para a região tendo em vista o desenvolvimento impulsionado pelos judeus.

    Este fato singelo é completamente descartado na narrativa Palestina, onde todos os habitantes não judeus são considerados como tendo raízes milenares na região. E isto é apenas mais uma das falácias que constam da narrativa Palestina, à qual se soma a alegação que os judeus não tem uma ligação histórica com a região e outras balelas.

    Claro que isto não muda os fatos atuais – onde há efetivamente uma população não judaica que tem o direito a auto determinação e que há de consegui-la quando derrotar seus dirigentes..

    Mas a colocação das coisas numa perspectiva correta ajuda muito.

    • Marcelo Treistman

      19/02/2014 at 16:28

      Obrigado pelo comentário Raul.

      A sua pergunta é interessante: “Com base em qual fato histórico os Palestinos reivindicam que a Cidade Velha de Jerusalém fique dentro de seu território?”

      Essa pergunta não é nova. Já foi feita algumas vezes. E muitas vezes foi respondida. Veja este filme (em hebraico) – http://www.youtube.com/watch?v=7x0BaQJnHFc – com pergunta semelhante encaminhada a Yeshayahu Leibowitz – coloque o filme no minuto 50:00 para visualizar a pergunta e a resposta e a discussão que se segue.

      Abaixo, faço a transcrição (tradução direta) para o português:

      Homem pergunta a Leibowitz:

      “Senhor Leibovitz.
      Eu moro no moshav Maalot que fica aqui ao lado. Nós temos terras que há 30 anos atrás pertenciam a outra família, de outro povo, palestinos… Às vezes, eu preciso responder para o meu amigo palestino que me fala que estas terras que nós produzimos hoje o nosso sustento, pertenceu a ele e a sua família durante muitos anos… Ele afirma isso com gentileza. Ele me pede para explicar o “fato” de que agora eu sou o proprietário desta terra e é a força de trabalho dele, eu pago a ele e aos seus amigos para que eles trabalhem na terra que pertencia a sua família. Como eu explico a questão para este meu amigo árabe? Eu quero viver com ele em paz… Não quero que chegue o dia em que ele tenha pensamentos que prejudicariam a nossa amizade.

      Leibowitz responde ao homem:

      “Mais uma vez, estamos discutindo o “direito” de cada povo a esta terra. Para mim, a resposta é clara: nenhum povo possui direito de propriedade sobre qualquer palmo de terra no mundo. Eu não me relaciono nesta afirmação especificamente aos judeus e a terra de Israel ou aos palestinos e o pedaço de terra que eles chamam de Palestina.
      Eu pergunto: qual é o direito dos suecos a seu pedaço de terra na Suécia? A resposta é: eles não possuem nenhum direito a Suécia. Entretanto, os milhões de suecos que lá vivem, estão sob a consciência e sob a ligação espiritual de que a terra em que vivem pertencem ao seu povo e aos seus filhos. Está é a ligação da Suécia para com os suecos.

      Está ligação é muito mais profunda do que qualquer direito emanado por um código ou atribuído por lei. A ligação quando surge de um documento legal é possível combater, contradizer. Há pessoas que são formadas e conseguem seu sustento ao questionar direitos legais… Advogados…
      Mas como discutir acerca de uma consciência, de uma ligação espiritual?
      Note que não deve haver um conflito pessoal entre você e o seu amigo palestino. Faz parte do seu destino e do destino dele que você pertença ao povo judeu e ele ao povo palestino e que agora vocês estejam inseridos nesta situação ameaçadora em que cada um de vocês vivem sobre o sentimento e ligação espiritual de que esta terra pertence a cada povo particular.

      E então você me pergunta: e agora?

      Há duas possibilidades. Quer dizer, você deverá escolher apenas uma entre as duas possibilidades que eu vou citar. Você não pode escolher as duas possibilidades. E não há terceira possibilidade!!! Ela não existe!!!

      A 1ª solução – Guerra até o último homem. Nesta guerra, todo o restante do mundo estará do lado dos árabes.

      A alternativa para perspectiva terrível que eu acabei de citar será a divisão da terra entre os dois povos. Eu sei e todos sabem: divisão de terra não é algo lógico. Sem dúvida, existirão imensas dificuldades nesta divisão. A história, o passado, não poderá ser modificado.”

      Então Raul, eu acho que a questão não é a discussão sobre fatos históricos e sobre narrativas falsas. A pergunta que deve ser feita é: Como combateremos um sentimento? Como podemos questionar a ligação de consciência e espiritual de todo um povo com uma terra?

      Você se arriscaria a responder?

  • Marcelo Starec

    18/02/2014 at 18:16

    Oi Raul!

    Achei muito interessante e pertinente a sua colocação. Gostaria ainda de acrescentar, considerando essa perspectiva histórica, que o próprio termo “povo palestino” e “refugiado palestino”, no sentido atual, é muito recente!…É fato também que a maior parte do que era chamado de “Palestina” foi transformado em Jordânia, um país árabe e islâmico, no século 20!…O pouco que restou foi dividido pela ONU em 1947, em um Estado para os judeus e outro para os árabes. Após a não aceitação, pelos árabes, de qualquer pedacinho para a autodeterminação não islâmica, atacaram o recém criado Estado Judeu, imediatamente após a sua declaração de independência, exatamente nos termos concedidos pela ONU! Houve refugiados dos dois lados! Israel absorveu todos os refugiados judeus, enquanto que os países árabes mantiveram os seus refugiados nesta condição, até hoje! E foi a partir desse ponto que se começou a construir essa lógica de “povo palestino”! Concordo com o direito a autodeterminação destes, mas também concordo com o Raul que é preciso tomar o devido cuidado para não se “atropelar” os fatos e partir para a idéia, indiscutivelmente falsa, de que toda a tal palestina era deles e os judeus seriam meros forasteiros. Ademais, o artigo do Marcelo mostra com clareza que antes da imigração judaica, lá já haviam judeus, muçulmanos e cristãos.

    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    20/02/2014 at 02:35

    Marcelo, a minha pergunta não versou sobre a ligação de um povo a uma terra ou sobre o direito à autodeterminação dos povos, que só pode ser exercida num território e sim sobre a reivindicação Palestina de que não hajam judeus na cidade velha de Jerusalém. Os Palestinos tem uma ligação com aquele lugar? Ótimo. Mas nós também temos.

    • Marcelo Treistman

      20/02/2014 at 11:06

      Raul, você perguntou objetivamente:

      “Com base em qual fato histórico os Palestinos reivindicam que a Cidade Velha de Jerusalém fique dentro de seu território?”
      Eu entendi que a sua pergunta versava sobre o direito dos palestinos a este território, razão pela qual lhe ofereci a resposta do Yeshayahu Leibowitz. Eles reivindicam este território embasados no sentimento de um povo por esta localidade. Leibowitz também afirma, que será difícil encontrar lógica na divisão de terras. Se há dois povos com sentimentos pelo território, a alternativa seria dividir o mesmo.

      Quanto a segunda parte de sua pergunta acerca da: “reivindicação palestina de que não haja habitantes judeus em Jerusalem Oriental?” entendo como algo inaceitável. Espero que o Estado Palestino se torne um Estado Democrático de fato e de direito e que faça valer os direitos humanos. Da mesma forma, acho inaceitável que em ishuvim e cidades ortodoxas dentro do Estado Democrático Judeu, haja a reinvindicação de que não haja árabes e palestinos convivendo na vizinhança, inclusive com a proibição de alguns rabinos para a venda de terras a este povo sob ameaça de “excomungação”. Espero que o meu país que é democrático de fato e de direito faça valer os direitos humanos para todos os seus cidadãos, palestinos inclusive.

  • Raul Gottlieb

    20/02/2014 at 11:14

    Amem, Marcelo.

    Porque vamos precisar de muita proteção divina para fazer os Palestinos e os Ortodoxos adotarem a democracia. Mas muita mesmo! Mas, como diz o João, é melhor ter fé do que não ter.

    • Marcelo Treistman

      20/02/2014 at 12:11

      Pois é Raul…
      Nós, que há mais de 60 anos estabelecemos uma democracia plena, ainda não conseguimos acabar com a xenofobia e a tentativa de “purificar” a nossa sociedade através do comportamento inapropriado de comunidades ortodoxas, imagina os palestinos que não possuem nenhum estado árabe de viés democrático para se inspirar… Não teremos um caminho fácil.

Você é humano? *