Os Judeus de Yehuda Amichai

Yehuda Amichai é um dos maiores poetas da língua hebraica. Nasceu em 1924 em Würzburg, na Alemanha, com o nome Ludwig Pfeuffer. Em 1935, quando tinha 11 anos, sua família fez aliá, e acabou se instalando em Jerusalém. Amichai se alistou ao exército britânico durante a Segunda Guerra, e serviu no Egito. Na Guerra de Independência em 1948 lutou com o Palmach na Brigada do Negev.

Yehuda_amichai

Depois que saiu do exército, Amichai estudou Literatura e Mikrá (bíblia hebraica) na Universidade Hebraica de Jerusalém. Com o incentivo de um de seus professores da universidade, publicou em 1955 seu primeiro livro “Agora e nos outros dias”. Ele fazia parte da geração de escritores e poetas que participaram da Guerra de Independência (entre eles Nathan Alterman, Haim Gouri e Natan Yonatan), e foi o primeiro deles a ganhar o prestigioso Prêmio Israel em 1982. Os juízes do prêmio explicaram que Amichai “criou com sua poesia um novo movimento na poesia hebraica” e que “causou uma mudança revolucionária na linguagem poética, uma junção da substância poética com a substância inspirada no dia a dia”.

Amichai criava camadas sutis de significados em suas poesias com o uso de palavras antigas no lugar de palavras comuns, para conferí-las conotações bíblicas. “Eu cresci em uma casa muito religiosa, então as rezas, a própria linguagem das rezas se tornou uma linguagem natural para mim”, conta Amichai. “Eu não tento, como às vezes alguns poetas o fazem, ‘enriquecer’ a poesia colocando mais material cultural ou mais material étnico dentro dela. Isso vem naturalmente.”

Em suas poesias, Amichai trata de assuntos do dia a dia, e também de assuntos filosóficos e do significado da vida e da morte. Muitas de suas poesias tratam de Deus e fazem referências à experiência religiosa, como a poesia abaixo, chamada Os Judeus. Pelo que pude verificar, esta é a única tradução ao português da poesia (que se pode encontrar na internet).

Os Judeus

Os judeus são como fotografias exibidas em uma vitrine
todos juntos em alturas diferentes, vivos e mortos
noivos e noivas, jovens de bar-mitzva com bebês.
E há imagens reconstituidas de fotografias antigas que amarelaram.
E às vezes eles vem e quebram a vitrine
e queimam as fotos. E então começa-se
a fotografar novamente e revelar novamente
e as exibir novamente com dor e sorrindo.

Rembrandt os pintou com chapéus
turcos com belezas de ouro desbotado
Chagall os pintou flutuando no ar
e eu os pinto como meu pai e como minha mãe.
Os judeus são uma reserva florestal eterna
onde suas árvores estão de pé juntinhas, e até mesmo os mortos
não podem se deitar. Eles se encostam, ficam de pé, contra os vivos
e não se pode distinguir entre eles. Apenas o fogo
queima os mortos mais rapidamente.

E quanto a Deus? Deus permanece
como o perfume de uma bela mulher que passou certa vez
frente a eles e sua face eles não viram,
apenas seu aroma permanece, tipos de perfumes,
criador dos tipos de perfumes.

Um homem judeu se lembra da suká na casa de seu avô.
E a suká lembra por ele
a caminhada no deserto que lembra
a bondade da juventude e as pedras das tábuas da lei
e o ouro do bezerro de ouro e a sede e a fome
que lembram o Egito.
E quanto a Deus? De acordo com o contrato
de divórcio do Jardim do Éden e do Templo
Deus ve seus filhos apenas uma
vez por ano, em Yom Kipur.

Os judeus não são um povo histórico
e nem mesmo um povo arqueológico, os judeus
são um povo geológico com rachaduras
e colapsos e camadas e lava ardente.
Sua história deve ser medida
em uma outra escala.

Os judeus são lixados pelo sofrimento e polidos pelos tormentos
como pedras lisas na praia.
Os judeus são superiores apenas em sua morte
como são superiores as pedras lisas às outras pedras:
quando a mão forte as joga
elas pulam duas vezes ou três
na superfície da água, antes de afundar.

Há algum tempo encontrei uma bela mulher,
cujo avô me fez a circuncisão
muito tempo antes que ela nascesse. Eu lhe disse,
você não me conhece e eu não a conheço,
mas nós somos o povo judeu,
o seu avô que está morto e eu o circuncisado e você a bela neta
de cabelo dourado: Nós somos o povo judeu.

E quanto a Deus? Outrora cantávamos
“não existe Deus como o nosso”, agora cantamos “não existe o nosso Deus”,
mas nós cantamos, nós ainda cantamos.

Tradução: Yair Mau

Quem quiser se aventurar a ler a poesia em hebraico, pode clicar aqui.

Notas:
1 – “criador dos tipos de perfumes” são as palavras finais da benção do aroma em hebraico (bore minei bsamim).
2 – suká é a cabana que se constrói na festa judaica de Sukot, que lembra a saída do Povo de Israel do Egito.
3 – “a bondade da juventude” é uma referência à Jeremias 2:2.
4 – “não existe Deus como o nosso” são as primeiras palavras da prece em hebraico ein keloheinu

Imagens:
Capa: wikipedia
Yehuda Amichai: wikipedia

Comentários    ( 9 )

9 comentários para “Os Judeus de Yehuda Amichai”

  • Yair Mau

    09/07/2013 at 05:26

    Por trás dos bastidores:
    Em uma das cantinas da faculdade há uma placa de metal sobre o balcão. Todos os dias há uma poesia diferente pendurada nesta placa, com alguns imãs pequenos. Enquanto se está na fila ou se espera que o café fique pronto, dá tempo de se aculturar um pouco, e começar o dia com um pensamento interessante. Ontem li Os Judeus, e logo voltei para o meu computador para encontrar a poesia, e resolvi traduzí-la neste mesmo instante.

  • Marcelo Treistman

    09/07/2013 at 11:49

    Belíssimo artigo e um grande orgulho ter no ConexãoIsrael a única tradução para o poema “Os Judeus” em Lingua Portuguesa. Emocionante.

    O que você tem cantado Yair? “não existe Deus como o nosso” ou “não existe o nosso Deus”?

  • Raul Gottlieb

    09/07/2013 at 15:29

    Marcelo, penso que os dois cantares são a mesma coisa: “Não existe Deus como o nosso por que Ele nos permite considerar que não existe nosso Deus, basta sermos fiéis aos preceitos éticos.”

    Sei que o Yair vai discordar desta posição, mas isto é um problema dele, que não conseguiu mudar a minha percepção.

    O Yehuda Amichai é um dos meus heróis em literatura. Já li muita coisa dele, mas não conhecia este poema. Foi muito bom encontrar o poema aqui. Agradeço ao Yair. Excelente!

    Quando estive em Israel em maio fiz um passeio guiado em Jerusalém com os poemas de Amichai. Andávamos um pouquinho por Yemin Moshé e líamos um poema ligado ao local (muitas vezes a ligação era bem tênue). Um dos versos que li naquela ocasião não me sai da cabeça:

    O passado joga pedras no futuro
    E todas elas caem no presente.

    É de um poema chamado “Poema Temporário do Meu Tempo”. Se tiverem paciência, leiam. Este site tem um monte de poemas do Amichai em inglês: http://www.poemhunter.com/i/ebooks/pdf/yehuda_amichai_2004_9.pdf

    Ele é fantástico!

    Mais uma vez obrigado ao Yair pelo presente.

  • Sheila Tellerman

    09/07/2013 at 18:57

    Parabéns ,Yair pela tradução.Amichai foi realmente um poeta maravilhoso e eu tive o Kavod de tê-lo como professor de literatura no Machon Greenberg.
    Mais uma vez,KOL HAKAVOD pelo pelo trabalho que está sendo feito por vcs,rapazes,no Conexão.
    Saibam que indico os artigos à todos os meus alunos e inclusive já passei trabalhos para alunos que consistiam em ler um artigo e contar pra turma.Foi muito legal!!!

  • Mario Silvio

    09/07/2013 at 21:48

    SEEENNNNSACIONALLLLLLLLL! Nunca tinha ouvido falar nele, adorei vários trechos, mas um deles mexeu mais comigo: “Sua história deve ser medida em uma outra escala.”
    Muitos poderão interpretar como arrogância, como complexo de superioridade, mas não é nada disso, é mais ou menos como o lema da Salgueiro: nem melhor nem pior, apenas uma escola diferente,

  • João K. Miragaya

    10/07/2013 at 21:52

    Obrigado Sheila! Isto nos dá mais força ainda!

  • Leila Danziger

    14/07/2013 at 16:49

    Olá, Yair

    Maravilhoso encontrar o Amichai por aqui. Parabéns pela tradução.
    A Monique Balbuena, professora na Universidade de Oregon, me parece ser uma das poucas pessoas que traduziu alguns poemas dele do hebraico para o português. Há também traduções do Millôr, mas não sei de que língua ele traduziu… (do inglês, certamente) Mas mesmo que não traduzidas do hebraico, já são vias de acesso possíveis aos poemas dele, à espera de muitas outras traduções.

    Insiro o link aqui: http://www2.uol.com.br/millor/aberto/poemas/011.htm

    Tomo a liberdade de deixar aqui um outro poema do Amichai, super atento aos caminhos do coração e do desejo. A tradução é da Monique Balbuena, e saiu na revista Inimigo Rumor (ed. 7Letras) de muitos anos atrás.

    Super importante o blog de vocês. Abraços!

    AEROMOÇA

    E uma aeromoça mandou apagar todos os apetrechos de fumo
    E não especificou: cigarro, charuto ou cachimbo.
    E eu respondi no meu coração: você tem belos apetrechos de amor,
    E também não especifiquei.

    E ela disse que eu apertasse o cinto e me afivelasse
    À poltrona, e eu respondi:
    Quero que todas as fivelas na minha vida tenham a forma da sua boca.

    E ela disse: Você quer café agora ou mais tarde,
    Ou nunca. E passou por mim,
    Alta de tocar o céu.

    A pequena cicatriz no alto do seu braço
    Indicava que jamais contrairia varíola
    Seus olhos indicavam que jamais voltaria a se apaixonar:
    Pertence ao partido conservador
    Daqueles que só têm um grande amor na vida.

    (tradução: Monique Balbuena)

  • Ruth Sprung Tarasantchi

    29/07/2013 at 00:19

    Yair querido
    você sempre me surpreende, ou talvez é isto que eu espere de você.
    um beijo vó Ruth

Você é humano? *