Os judeus e o judaísmo em Israel – Parte I

Israel é o único país do mundo em que a maioria da população é composta por judeus. Segundo a Agência Central de Estatística de Israel, em 2010 a população israelense era de 7.695.100 habitantes. Destes, 77% se diziam judeus (20,5% são árabes, grupo social sobre o qual pretendo escrever em outra oportunidade), mas nem todos são religiosos. Para ser mais exato, quase a metade da população judaica israelense se considera secular. As distintas formas de religiosidade e identidade judaica são numerosas, tornando impossível uma análise curta sem que se generalize minimamente algumas categorias. O censo israelense trabalha com cinco categorias religiosas, além de outras étnicas, cada vez mais abrangentes e discutíveis. Neste artigo eu pretendo me ater a algumas classificações religiosas, além de como se comporta cada grupo, levando em consideração a generalização feita pelo Instituto Israelense de Democracia (IDI), e sua influência na sociedade. Antes de começar, no entanto, esclarecerei determinadas categorias para que o leitor menos familiarizado com termos judaicos possa compreender o texto mais facilmente.

 

Ocidentais e Orientais

 

A título de introdução, explicarei categorias étnico-geográficas que poucos se relacionarão com o decorrer deste texto. O objetivo é que a parte 2 seja ilustrada por tais definições.

Entende-se por ashkenazita [ [ref]Significa alemão, no dialeto iídiche. Os judeus alemães foram os primeiros que chegaram à Europa Oriental, região que concentrou a maior parte dos judeus europeus desde o século XVI até a 2ª Guerra Mundial.[/ref] ] um judeu de origem europeia, seja ela oriental ou ocidental. O termo é um tanto quanto abrangente, tendo em vista que há diversas subcategorias dentre os ashkenazitas, constituindo estereótipos e divisões que já foram maiores outrora. A grande maioria dos primeiros sionistas, que colonizaram a Palestina desde fins do século XIX, era de origem europeia (principalmente russa, polonesa, romena e alemã). Chamam-se orientais [ [ref]Mizrachi, em hebraico. Não utilizarei o termo sefaradita (espanhol em hebraico) por ser uma categoria mais religiosa do que sociológica, e menos relevante para a compreensão das diferenças existentes em Israel hoje.[/ref] ] judeus oriundos de países de maioria muçulmana, sejam do norte da África (Marrocos e Tunísia, por exemplo) da Península Arábica (Iraque ou Líbano) ou de países não árabes (Turquia ou Irã). Com exceção dos iemenitas (uma das comunidades judaicas mais antigas da diáspora) e de uma pequena parte dos iraquianos, a imensa maioria dos orientais imigrou só após a Declaração do Estado (1948), por diversos fatores. Ao chegar, portanto, a estrutura político-social do Estado de Israel já havia sido criada pelos ashkenazitas nos moldes ocidentais, de modo que os orientais, pouco civilizados aos olhos dos pioneiros sionistas, foram obrigados a se adaptar ao padrão ashkenazita.

Os judeus de origem ashkenazita [ [ref]Excluo desta classificação os judeus vindos da ex-URSS, sobretudo nos anos 1990, que socialmente não se enquadram nem no perfil ashkenazita nem no oriental e representam aproximadamente um milhão de habitantes.[/ref] ] têm como característica em relação à religião a proximidade com os extremos: a grande maioria dos judeus que se declaram laicos [ [ref]Novamente eu excluo os novos imigrantes da ex-URSS, por enquanto.] ou ultra-ortodoxos [1. Chamados de charedim, que significa tementes, em hebraico.[/ref] ] são de origem ashkenazita. Isto, no entanto, não significa que a maioria dos ashkenazitas sejam extremistas, mas sim que a maioria dos extremistas seja ashkenazita. Por outro lado, os orientais caracterizam-se por serem moderadamente religiosos, definidos pelo IDI como tradicionais. São judeus observantes, mas em menor número ortodoxos. [ [ref]As generalizações são realmente perigosas. Um dos maiores partidos ortodoxos da Knesset é o oriental Shas. Leia mais sobre ele aqui[/ref] ] Isto, naturalmente, se deve à relação que cada comunidade judaica tinha com a sociedade em seus países de origem. Muitos dos orientais, ao chegarem a Israel, sequer conheciam os conceitos de “judeu laico” e “ortodoxo”. Estes conceitos antagônicos surgiram após a Revolução Francesa (1789), quando o judeu pôde finalmente adquirir o status de cidadão, trazendo às comunidades judaicas o dilema de ser “judeu em casa e cidadão na rua [ [ref]Ideologia criada pelo filósofo alemão Moisés Mendelsohn, chamada em hebraico de haskalá, ou iluminismo judaico.[/ref] ]” e renunciar ao estilo de vida puramente judaico do Shtetl [ [ref]Como eram chamados em iídiche os pequenos vilarejos judaicos na Europa Central e Oriental.[/ref] ]. A haskalá terminou por ramificar o judaísmo em diversas correntes, entre elas o judaísmo laico, o reformismo, o conservadorismo, e gerar a reação dos mais religiosos, refugiando-se na ortodoxia e na ultra-ortodoxia. Os orientais, por sua vez, se encontravam em sociedades cujos paradigmas eram distintos. As sociedades muçulmanas (perdão pelo generalismo) nem integravam os judeus transformando-os em cidadãos plenos, nem os forçava a viver reclusos em guetos. Por isso desenvolveram um judaísmo moderado, com pouca influência de ideologias ocidentais.

Em Israel não se pode falar sobre correntes judaicas e negligenciar as origens geográficas de cada segmento religioso. Compreender de fato cada ramificação do judaísmo é uma tarefa ingrata, e impossível caso não se conheça a história do povo judeu. Parto do princípio, portanto, que o leitor já esteja familiarizado com alguns dos processos pelos quais os judeus passaram ao longo dos anos, para que compreenda a análise a ser feita sobre a religião judaica em Israel hoje.

 

O Status Quo de Ben-Gurion

Antes mesmo da Partilha da Palestina, [ [ref]Em 29 de novembro de 1947 uma assembleia da ONU aprovou a divisão da Palestina em dois Estados, com 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções.[/ref] ] Ben-Gurion e o partido charedi Agudat Israel firmaram um acordo denominado status quo secular-religioso. Os religiosos, reconhecendo ser minoria em um eventual futuro Estado judeu, reconheceram o caráter laico do Estado, mas negociaram a permanência de determinadas “questões vitais”, vigentes desde o Império Otomano, para que a Terra de Israel não fosse dessacralizada. Foram cinco as exigências dos charedim, que nesta época representavam cerca de 1% da população judaica: controle sobre o Shabat, kashrut, [ [ref]Leis alimentares.[/ref] ] leis familiares, educação pública judaica e sobre a definição de quem é judeu. Ben-Gurion concordou com todas, mas interviu nas duas últimas: a educação pública seria diferida em categorias (laica, ortodoxa e ultra-ortodoxa); o critério “quem é judeu” seria definido pela a halachá, [ [ref]Lei religiosa, que afirma que judeu é quem é filho de mãe judia ou convertido à religião judaica.[/ref] ] mas a imigração para o Estado de Israel obedeceria a outro juízo: filhos, netos e cônjuges de judeus teriam direito à cidadania. Isto aconteceu em 19 de julho de 1947, e se mantém até os dias de hoje [ [ref]Vale ressaltar que a Lei do Retorno foi implementada somente em 1950.[/ref] ] da seguinte forma:

a)      Shabat: O sábado, além das grandes festividades (Rosh HaShana, Yom Kipur e Simchá Torá) e festas de peregrinação Pessach (Páscoa Judaica), Shavuot (Tabernáculo), Sucot (Pentecostes) foram definidos como dias de descanso. Em 1967 foi dado às administrações municipais o poder de regular a abertura de determinados estabelecimentos nestas datas. Ainda assim, os judeus estão proibidos de trabalhar, estando as instituições sujeitas a multas.

b)      Ponto bastante controverso, o status legal da kashrut já foi modificado em algumas ocasiões. Atualmente as leis alimentícias se expressam da seguinte forma: sem o certificado do Ministério de Assuntos Religiosos (abaixo) é proibido declarar um estabelecimento kasher; em Pessach são multados os estabelecimentos que expuserem fermento; as cozinhas e refeitórios das bases militares do Exército de Defesa de Israel (IDF), tais quais as porções recebidas pelos militares, devem ser 100% kasher e fiscalizada por um rabino oficial da instituição.

c)      Em 1951 foi estabelecido o Ministério de Assuntos Religiosos, que, entre outras funções, cobre 40% do déficit nos orçamentos aprovados para auxílio a instituições e políticas públicas religiosas.  Há também as Cortes Rabínicas, que detém a exclusividade da legislação sobre matrimônios, enterros [ [ref]Israel reconhece o casamento civil, embora não o execute. Casamentos religiosos não judaicos como cristão, druso e muçulmano são realizados no país e reconhecidos pela justiça.[/ref] ] e outros “assuntos pessoais”. Leis comerciais podem ser julgadas por cortes rabínicas, caso todos os envolvidos assim desejem. Israel, também, tem dois Rabinos-Chefes com mandatos de dez anos: um ashkenazita e um sefaradita.

d)      Os ensino fundamental e médio, em Israel, são divididos em quatro tipos de escola: judia laica, judia ortodoxa, judia ultra-ortodoxa e árabe. Nas três primeiras o ensino de história judaica e Tanach [ [ref]Bíblia.[/ref] ] são obrigatórios. Nos segundo e terceiro tipos, fica a critério de cada escola decidir se haverá o ensino de disciplinas extras como Talmud, além de determinar se os alunos homens e mulheres serão separados ou não. As disciplinas básicas, como matemática, geografia, hebraico, ciências, inglês e etc. são obrigatórias para todos.

e)      É considerado judeu pelo Estado de Israel quem é filho de mãe judia ou convertido de segundo as normas ortodoxas ao judaísmo. O curioso é que, convertidos ao judaísmo por sinagogas não ortodoxas (das correntes reformista ou conservadora) podem adquirir cidadania israelense através da Lei do Retorno, mas ao chegar em Israel não são considerados judeus. Isto influi diretamente no que diz respeito às leis familiares: um convertido ao judaísmo por reformistas não tem o direito de se casar em Israel, ou de ser enterrado em um cemitério judaico.

Algumas destas normas sofreram alterações desde 1947, porém a essência do “projeto” permanece a mesma. Algumas alterações progressistas ocorreram, como o reconhecimento do casamento civil realizado no exterior ou a permissão do comércio da carne não kasher. Outras leis aprovadas direcionaram o Estado a um caminho ortodoxo, como a liberação do exército de estudantes de academias ortodoxas, ou a proibição de mulheres portarem objetos religiosos no Muro das Lamentações, contestada por judeus liberais. Apesar de a Declaração de Independência do Estado (1948) optar por não definir absolutamente nada sobre o caráter judaico do Estado, ainda há uma discussão de grande relevância sobre o tema. Israel, afinal, deve ser um Estado judeu ou um Estado para todos os judeus? Estas duas qualificações são contraditórias ou não?

Questões a serem resolvidas

O autor que vos escreve acredita que o caráter democrático do Estado é anulado toda vez que a religião dita as regras. Isto, é claro, se dá porque toda vez que a lei religiosa é aplicada, esta se dá de acordo com a visão ortodoxa, que na maioria das vezes não dá espaço para o diálogo nem para a tolerância, à começar por rejeitar as outras correntes. O Status Quo, no entanto, não é 100% nocivo à democracia. Partindo do ponto que Israel é o único Estado de maioria judaica do planeta, não me causa insatisfação que a disciplinas judaicas como história do povo judeu ou Tanach sejam aplicadas nas escolas públicas, ou que o governo seja o responsável pelo selo de kashrut, por exemplo. Segundo o rabino Moshe Bergman, o objetivo inicial do controle sobre a kashrut era que esta fosse fornecida pelo Estado a preço de custo, de modo que todos os judeus pudessem consumir alimentos kasher sem pagar mais por isso. A desconfiança de parte dos rabinos e as leis de mercado, no entanto, criaram uma série de novos selos, mais ou menos valiosos de acordo com a interpretação de cada um, o que fez com que o selo do Estado caísse em desuso. E lá se foi uma boa influência que os ortodoxos tinham sobre o Estado…

Como os judeus lidam com a religião em Israel? Este será o tema do meu próximo artigo. A introdução sobre ashkenazitas e orientais não foi em vão, seu valor será demonstrado em breve. A continuação virá. Devo, não nego, pago quando puder.

(Leia a parte 2 aqui)

Notas

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Foto da capa retirada do site: http://farm5.static.flickr.com/4028/4394143195_b8732eb2e9_b.jpg

Foto 1: http://www.planet-wissen.de/laender_leute/israel/geschichte_des_staates_israel/david_ben_gurion.jsp

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Os judeus e o judaísmo em Israel – Parte I”

  • Ricardo Gorodovits

    17/03/2013 at 17:33

    João, como sempre, ótimo texto, direcionado a um conteúdo de extrema importância.
    Quero aproveitar para chamar a atenção para um aspecto que me parece fundamental na luta contra a apropriação de termos que acabamos por replicar e perenizar. Quando você escreve “Os religiosos, reconhecendo ser minoria em um eventual futuro Estado judeu,…” está claramente se referindo aos judeus ortodoxos. Ainda que isso tenha ocorrido poucas vezes no texto, sinal de alguma preocupação a respeito, ainda que, talvez, inconsciente, acredito ser necessário aproveitar este pequeno deslize para pontuar a respeito. Usar “religioso” como sinônimo de ortodoxo ou ultra-ortodoxo faz parte das normas correntes que, acredito, deve-se combater. Não me considero menos religioso por ser reformista, apenas o modelo de prática religiosa que sigo difere da ortodoxia. Os que defendem o entendimento da terminologia da forma exposta acima em seu texto, argumentam que são religiosos apenas aqueles que normatizam suas vidas a partir das regras religiosas, sobrepondo estas a todas as demais. O argumento perde força entretanto, quando se percebe que o conjunto de regras considerado sempre parte da halachá, normas não reconhecidas e seguidas pelos judeus liberais. A constante utilização de “religioso” como sinônimo de ortodoxo faz parte, propositalmente ou não, de um contexto de desqualificação do reformismo ou conservadorismo como prática religiosa judaica válida.
    A palavra é uma forma poderosa de se inculcar e perpetuar conceitos, como percebemos, em portugues, no uso do verbo “judiar”, que inevitavelmente carrega para o judaismo uma conotação negativa que atinge inclusive aqueles que não sabem o que é judaísmo e nunca viram um judeu na vida.
    O mesmo ocorre com a palavra “raça” associada ao gênero humano, cujo uso volta e meia aparece nos discursos anti-discriminação, que acabam, infelizmente, por ratificar um conceito equivocado, como por exemplo nas leis de cotas brasileiras.
    Em resumo, fica aqui minha sugestão de, se estiver de acordo, buscar sempre a utilização específica do grupo religioso, em lugar da generalização “religiosos” que pode levar a equívocos e que reforça um conceito que, assim suponho, você também pretende combater.
    Grande abraço, Ricardo

    • João K. Miragaya

      17/03/2013 at 21:40

      Ricardo, obrigado pela participação.

      Eu concordo 100% com o seu ponto. Utilizei o termo “religioso” para me referir ao partido “Agudat Israel”, não a todos os ortodoxos. Foi só um codinome, um simples ajetivo. Não me referi seque aos ortodoxos, apenas a uma corrente de ultra-ortodoxos existente nos primeiros anos do Estado de Israel, representada por um partido político.

      Se não ficou claro, faço questão de explicar.

      Um abraço

  • Rogerio

    13/05/2013 at 05:59

    Gostaria de receber mais comentários sobre Israel

    • Claudio Daylac

      13/05/2013 at 18:34

      Olá, Rogério.

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