Os judeus e o judaísmo em Israel – Parte 2

(Se você não leu a parte 1, clique aqui).

No final de 2010, o Instituto de Democracia Israelense (IDI) publicou os resultados de sua pesquisa sobre religião judaica em Israel. Os dados da investigação são disponíveis para qualquer leitor que domine o hebraico, no site http://www.idi.org.il/. Recolhi parte das informações mais relevantes (no meu entender) publicadas pelo IDI para responder à pergunta final do meu artigo anterior: como os judeus lidam com a religião em Israel? Sem entrar em questões político-partidárias (me parece que já explorei bastante o tema até agora), farei uma análise pessoal dos gráficos e números apresentados, sem descartar algumas generalizações que possam parecer supérfluas. Devo advertir, não sou especialista na área.

Começaremos com o primeiro gráfico apresentado pelo IDI: ou como você se define em relação ao judaísmo?

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Percebe-se, portanto, que a grande maioria da população judaica israelense (78%) não é ortodoxa, e que os ultra-ortodoxos, estes que em sua maioria possuem um estilo de vida bastante distinto, não passam de 7% da população. Os chamados seculares, somando-se os anti-religião e os moderados, são quase 50% da população (eram mais há pouco mais de 10 anos). A aparência e a moda, como nos descreveu a companheira Mila Chaseliov, nos indica mais ou menos a que corrente o cidadão pertence, mas devido ao fato de o estudo se basear em uma autoclassificação, podemos afirmar que as aparências enganam. Nunca vi um ultra-ortodoxo que não se vista de acordo com o estereótipo (homens de preto, com barbas longas e chapéu; mulheres de saias longas, blusas com mangas longas cobrindo todo o corpo até o pescoço e um lenço ou uma peruca cobrindo a cabeça), mas certamente há gente que se veste desta forma e se considera simplesmente “religioso”. As classificações básicas são, no entanto, necessárias para compreendermos um pouco como os israelenses encaram a religião.

Classificações

Familia charedim

 Em geral, consideramos charedim (ultra-ortodoxos) todos aqueles que vivem de acordo com a halachá (lei religiosa) de forma radical. Alvos de críticas por parte do resto da população por não contribuírem com o mercado, ás vezes sendo chamados de parasitas, a maioria dos charedim homens tem permissão especial para estudar em Ieshivot (academias rabínicas) ao invés de servirem ao exército. As mulheres são automaticamente dispensadas. Recebem um auxílio do Estado relacionado ao número de filhos por casal, e são parte da parcela mais pobre da população israelense. Normalmente vivem em bairros separados, de modo que a cultura secular não os afete. Apesar de serem encontrados em quase todas as cidades do país, são muito numerosos em cidades como Jerusalém, Safed, Bnei Brak, Beit Shemesh e em alguns assentamentos na Cisjordânia como Hebron, localizados em áreas sagradas de acordo com a Torá. Muitos dos homens não trabalham por se dedicarem ao estudo da religião, tornando a renda da família ainda menor e reforçando o estereótipo. Internamente os charedim possuem diversas ramificações.

Dati 2Datim (religiosos) são, em geral, os que também levam a vida de acordo com a halachá, mas de forma moderada. Respeitam o sábado, comem kasher, rezam três vezes por dia, e etc. No entanto, diferentemente dos charedim, eles servem ao exército, participam do mercado de trabalho como qualquer secular e se encontram em todas as cidades do país, sendo mais numerosos nos assentamentos da Cisjordânia. Muitas vezes os homens trajam kipá (solidéu) de chochê, e as mulheres, em geral, vestem-se re forma recatada, cobrindo a cabeça (após o matrimônio), com saias longas e blusas que cobrem a maior parte do corpo. Eu, particularmente, tenho dificuldade de diferenciar as vestimentas de uma religiosa para uma ultra-ortodoxa (exceto pela peruca, que dificilmente as religiosas usam). Mas vale ressaltar que o papel da mulher nos dois grupos é muito distinto: as religiosas servem o exército, são votadas à Knesset e estudam nas universidades.  Na sociedade charedit isto dificilmente ocorre.

Os tradicionalistas estão em uma fronteira separada por duas linhas tênues, que os dividem dos seculares e dos religiosos. Considerar-se tradicionalista pode significar o desejo de distinguir-se dos seculares (ser observante de alguns preceitos religiosos) ou dos religiosos (por não cumprir todas as leis, não se enquadra nesta categoria). Aos olhos de outros, considerar-se x ou y pode significar ser taxado de radical ou de anti-religioso, de modo que os tradicionalistas configuram-se sendo os mais complexos de todas estas categorias. Muitos dos judeus orientais assim se consideram, sobretudo devido ao fato de que nos seus países de origem não haver outras tantas correntes judaicas como na Europa e na América. Tradicionalistas podem ser os que cumprem quase todos os preceitos, como os que cumprem um ou dois e acreditam em algo. Por ser uma autoclassificação, fica mais difícil concluir qualquer coisa. Homens tradicionalistas podem usar kipá ou não. Mulheres podem trajar saias longas ou não. Tradicionalistas podem respeitar o Shabat, comer kasher, ou não. Ou podem comer kasher, mas não exigir que o restaurante receba o selo de kashrut. Difícil dizer.

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Discussão entre religioso e laica

Definir secular não é tarefa difícil. São judeus como eu, totalmente laicos, ou que possam ir às vezes à sinagoga, comemorar festas, fazer uma reza de Shabat, mas não se considerarem nem religiosos nem guardiões das tradições. Em geral, judeus reformistas e conservadores, em Israel, na falta de opções (como na pesquisa do IDI) tendem a considerarem-se seculares. E alguns destes são anti-religião. Outros, não.

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Mulheres tradicionalistas ou laicas esperando o ônibus em Jerusalém

 

Trad
Dois rapazes de kipá na cabeça em Jerusalém

 

Mais complexo que parece

Quando perguntados se concordam ou não com a implementação do casamento civil, em 2009, 54% dos israelenses reagiram positivamente. O número me assustou, pois num país onde 78% da população não se considera religiosa, ser a favor da separação entre a religião e o Estado me parecia uma postura lógica. Perguntados sobre a importância da manutenção de determinados rituais/práticas religiosas, os israelenses assim responderam:

Consideram importante ou muito importante:

g2

 

O que podemos concluir deste gráfico? Minha primeira impressão é a de que, mesmo para os judeus seculares, determinadas práticas religiosas são muito importantes para as suas vidas. Provavelmente isto tem relação com a sua identidade judaica ou com o seu israelismo. Cada um tem a sua explicação, mas me deixa impressionado que 90% dos entrevistados considerem o enterro religioso tão importante assim.

Em relação ao Shabat (dia sagrado), os judeus concordam com:

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Aqui já se percebe uma mudança significativa. Mais de 50% dos israelenses desejam que haja opções de lazer durante o sábado, mas para eles nem todos têm o mesmo peso. O dado torna-se mais curioso quando temos em conta que só 29% dos israelenses fazem atividades de lazer ou refeições fora de casa. 84% declararam que se encontram com suas famílias neste dia, mostrando a importância simbólica do Shabat. Além disso, 60% fazem o kidush (reza de entrada do Shabat) e 66% acendem as velas de Shabat. Por outro lado, apesar da proibição religiosa à utilização de produtos movidos a base de energia elétrica ou gasolina, 52% admitem que acessam à internet e 65% assistem televisão.

Em relação às festas, assim consideravam os judeus israelenses importante ou muito importante em 2009:

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Novamente nos deparamos com mais de 80% (85%) dos judeus israelenses dando importância a práticas associadas à religião. É evidente que comemorar Pessach (Páscoa judaica) não necessariamente é uma atitude religiosa. Muitas famílias sequer rezam em suas comemorações, e enquanto 90% dão importância a esta festa, “só” 67% deixam de comer fermento durante o período (como diz a religião). Percebemos, também, quem nem todas as festas têm a mesma importância para os israelenses. Shavuot, por exemplo, não é comemorado de forma religiosa por 80% da população judaica do país. Purim tampouco é levado a sério neste sentido, mas, por outro lado, é comemorado de forma secular pelas ruas de todo o país. Israelenses se fantasiam e consomem grandes quantidades de álcool durante esta festividade, mas qualquer semelhança com o carnaval (que já foi uma festividade religiosa) é mera coincidência. 

Em relação à kashrut (lei alimentícia), a postura dos judeus israelenses é ainda mais controversa. Vejam o que eles responderam:

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Voltamos ao princípio: mesmo que 46% dos judeus considere-se secular, 76% dos entrevistados responderam que ou sempre ou em geral comem kasher em casa. Fora de casa, no entanto, há uma pequena diferença: 30% admitem que não o fazem.

Crenças do povo

Ao serem perguntados, confirmaram os israelenses que acreditam muito ou se creem hesitando um pouco:

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O que podemos concluir além do óbvio crescimento da religião entre as novas gerações? 20% da população ateia é, de fato, um número altíssimo. Vale lembrar que no Brasil, segundo o último censo, menos de 800 mil se declararam ateus/agnósticos, Isso significa menos que 0,4% da população. Os outros números, no entanto, nos apontam uma população que, ao passo que leve uma vida secular em sua maioria, é imbuída por crenças religiosas deveras significativas, como, por exemplo, na vinda do Messias. Algumas destas crenças podem, no entanto, ser re-interpretadas e re-significadas, tornando-se uma influência moral judaica num comportamento secular.

Minha rasa conclusão a partir destes números é a de que, por mais que boa parte dos israelenses não se considere efetivamente religioso, o judaísmo é parte integrante da mentalidade coletiva em geral. Acreditar ser o povo escolhido por Deus, por exemplo, é compartilhado por quase todos os que acreditam no todo poderoso. Uma crença como esta está repleta de significado simbólico, direitos e deveres especiais. Como cada um constrói a sua identidade judaica a partir disto, tomando em conta que está dentro do único país de maioria judaica no mundo, isto já é tema para outro texto. E também para outro autor, pois eu não me arrisco a isso.

Datiot
Mulheres religiosas no centro de Jerusalém

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Os judeus e o judaísmo em Israel – Parte 2”

  • Raul Gottlieb

    05/05/2013 at 15:25

    João, você pode indicar o link completo desta pesquisa? O site do IDI tem muitas informações e eu me perdi. Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    06/05/2013 at 06:35

    O que também se vê nesta pesquisa é a religião sendo mais considerada pelos israelenses (crescimento dos que se dizem charedim e religiosos e diminuição de todos os demais).

    O que não se vê claramente nesta pesquisa é onde se encontram os religiosos não ortodoxos. Porque suspeito que em “religiosos” (datiim) estejam classificados os que no Brasil chamamos de ortodoxos e não uma pessoa como eu que sou religiosa reformista.

    E esta omissão é uma pena, porque os reformistas e os conservadores (massortim) estão crescendo em Israel de forma significativa. Existem hoje cerca de 120 sinagogas das duas denominações, com um total de aproximadamente 30 mil famílias afiliadas.

    A afiliação nestas sinagogas em Israel é algo que merece ser ressaltado, pois ela implica no pagamento de verbas para a sua constituição e manutenção, coisa que inexiste nas sinagogas ortodoxas que são integralmente mantidas pelo Estado (inclusive os Rabinos ortodoxos, que em Israel são funcionários públicos). Ou seja, em Israel a pessoa recebe para ser charedi, mas paga para ser reformista ou conservadora e ainda assim estas duas vertentes estão crescendo.

    E paga duplamente – diretamente para a manutenção de sua sinagoga e indiretamente (através de impostos) para a manutenção da sinagoga ortodoxa da esquina.

    Já os charedim não pagam impostos e ainda recebem subsídios do estado. Fica claro então que os reformistas e os conservadores estão presentes e crescentes porque o conteúdo de sua mensagem e sua espiritualidade vem atendendo cada vez mais aos anseios religiosos da população.

    Lembrando, para encerrar, mais duas coisas: primeiro que 30 mil famílias afiliadas representa um número muito maior de frequentadores, visto que muitos frequentadores não se afiliam (tal qual no Brasil e em outros lugares do mundo, existem os que imaginam que as sinagogas são mantidas por uma verba mágica que emana do Monte Sinai). Calcula-se que 6 a 8% da população judaica de Israel frequente congregações não ortodoxas.

    E em segundo lugar que a pesquisa mostra a crescente religiosidade do israelense, mesmo que ela seja disfarçada atrás dos rótulos “secular” e “tradicional”. Esta religiosidade fica manifesta através da grande aderência aos rituais e aos marcos do ciclo da vida (Brit Milá, Bar Mitzvá, etc.). Pessoalmente eu acho que a única forma de uma pessoa “secular” levar seu filho ao Bar-Mitzvá é esperando para fazer isto quando completar cem anos…

    Pensando igual ao João, mas colocando de outra forma, eu suspeito que o israelense atual se denomine “secular” ou “tradicional” porque têm uma grande aversão aos charedim. Como são eles quem dominam a religião oficial em Israel a pessoa coloca uma barreira para não ser confundida de forma alguma. Infelizmente para muitíssimos israelenses “religião” é palavrão e não a fascinante faceta cultural que mais poderosamente expressou o judaísmo ao longo dos séculos. Com isto perde o judaísmo e perdem os israelenses. Mas o resgate está acontecendo.

  • João K. Miragaya

    06/05/2013 at 14:34

    Raul, muito interessante os números citados por você. Aonde eu encontro estas informações?

    Eu não sei se fui claro, mas não afirmei que os que se autodenominam seculares o fazem por aversão aos charedim. Me referi aos tradicionalistas, que são por definição pessoas religiosas, mas que não seguem à halachá (lei religiosa). Não querem dizer-se datiim (religiosos) por refutarem ser identificados como observantes de todas as leis. A sinagoga que um tradicionalista frequênta pode ser reformista, conservadora, ortodoxa ou ultra-ortodoxa.

    Concordo que é um erro proposital não haver na pesquisa as categorias “reformista” e “conservador”, ou pelo menos uma “liberal”. Membros das duas correntes acabam por considerarem-se seculares (em hebraico, chilonim) por falta de opção e pela semelhança dos estilos de vida. A pesquisa acaba por ser muito mais relacionada ao estilo de vida do que à religiosidade.

    Certamente Israel hoje é um país com uma população muito mais religiosa do que era há 50 anos atrás. Mas hoje, igualmente, o conceito de judaísmo laico é bem mais desenvolvido. Esta corrente conta, inclusive, com rabinos graduados, sinagogas e instituições próprias que desenvolvem trabalhos sociais de relevância singular em Israel, tal qual nenhuma outra corrente jamais quis ou conseguiu fazer.

    Eu não estou de acordo com o seu comentário sobre o bar-mitzva. Acredito que existem diversas formas não religiosas de se manifestar o judaísmo. O simbolismo dos rituais não necessariamente é religioso, por mais que possa estar inspirado em uma tradição religiosa.

    Um abraço

  • Raul Gottlieb

    06/05/2013 at 15:55

    Olá João,

    Os números me foram passados pelo movimento reformista num seminário que acabei de assistir e creio que devem estar presentes no site do IMPJ e no site do Massorti Israel.

    Eu suspeito que o fato dos religiosos israelenses que não seguem a halachá (que não é a lei religiosa, mas uma lei religiosa) se chamarem de “tradicionalistas” e não de “religiosos” está baseado em sua aversão de serem confundidos com os charedim.

    Veja que esta definição só existe aqui em Israel, onde existe a aversão aos “religiosos” por conta do viés parasitário e autoritário dos charedim e dos ortodoxos.

    Acho difícil, João, que um auto definido “tradicionalista” frequente as sinagogas de Bnei Berak ou de Mea Shearim.

    Não sei se a omissão dos reformistas e dos massortim na pesquisa é proposital ou metodológica, tendo em vista que a pesquisa é feita há muito tempo, tendo começado num momento em que estas vertentes quase não existiam em Israel.

    Sobre o BM, acho que é muito engraçado uma pessoa levar o filho à sinagoga, fazer ele ler a parashá (as vezes também a haftará), conduzir as tefilot, colocar tefilin, etc. e ainda assim se dizer “secular”. Mas se a pessoa se sente bem assim então está tudo bem!

    Abraço grande,
    Raul

  • Ricardo Gorodovits

    09/05/2013 at 00:31

    Olá João ! Mais um texto excelente, obrigado.

    Para fugir um pouco do viés trazido pelo Raul nos comentários acima, chamo a atenção para o último dos gráficos apresentados, relativo a crenças, no qual algumas coisas me preocupam bastante. A primeira, o fato de que as crenças mais presentes entre os israelenses, e em níveis altíssimos, é a de que há recompensa para atos bons e castigos para atos ruins. Nada demais se o entendimento for amplo, no sentido de que os atos positivos geram uma propagação positiva que tende a reverter de forma igualmente positiva para o perpetrador do ato, de forma natural e humana, o mesmo acontecendo no caso dos atos negativos. Mas no contexto de uma pesquisa sobre religião, temo que a crença revele uma atribuição a Deus do julgamento e retribuição adequada de nossas ações, um mecanismo de intervenção direta divina no terreno humano, que acaba por limitar nossas responsabilidades e liberdades. Outro ponto importante é o significativo percentual da crença de que judeus não observantes comprometem o povo todo, o que justifica um elemento de tensão entre observantes e não observantes, não apenas em função da influência e poder dos primeiros na vida dos últimos, mas também gerando a percepção inversa, ou seja, ao andar de carro no shabat, prejudica-se o povo como um todo. Levando-se ao extremo, todo ato para interromper a não observância acaba por justificar-se como um ato pró-povo, péssimo modelo para uma sociedade democrática.

    Abraço, Ricardo

  • kolling

    13/10/2014 at 21:19

    João!
    Obrigado por nos trazer luz a esta cultura milenar – não se aprende Teologia sem estudar sobre Israel.

    Gostaria da tua ajuda Quanto a Massonaria, ela é representativa em Israel? enfim, oq for possível tu falares a respeito, ok?

    G abc

    • João K. Miragaya

      14/10/2014 at 17:49

      Olá Kolling.

      Infelizmente meus conhecimentos sobre a maçonaria em Israel são nulos.

      Um abraço