Os judeus estão chegando

17/11/2014 | Cultura e Esporte.

No começo de novembro finalmente foi lançado o programa de sátira “Os Judeus Estão Chegando”, do canal estatal 1.

Digo finalmente, porque o programa deveria ter saido há um ano, mas uma propaganda anunciando o seu lançamento gerou tamanha controvérsia que o Canal 1 acabou cedendo à pressão de alguns setores da sociedade, principalmente por parte de alguns parlamentares.

O video abaixo mostra a propaganda em questão, onde aparecem os personagens de Yigal Amir, assassino de Rabin, e Baruch Goldstein, que em 1994 matou 29 muçulmanos que rezavam na caverna dos patriarcas, em Hebron. Eles cantam uma paródia da canção infantil Ani Tamid Nishar Ani, de Uzi Chitman, dizendo:

Às vezes sou herói e às vezes assassino
Às vezes assassino e às vezes massacro…
Mas eu sou um assassino de direita,
Assassino de direita, assassino de direita

 

“É terrível que este tipo de sátira seja feita com o dinheiro dos contribuintes”, disse a parlamentar Ayelet Shaked, do partido HaBait HaYehudi. “Eles mostram os colonos como assassinos, estão manchando um setor inteiro da sociedade. Não digo que deve-se censurar, mas há limites. Esta é a renovação do Canal 1? Nem mesmo no Eretz Nehederet [programa de sátira do canal 2] chegaram a este nível. Mandei uma carta ao presidente da Autoridade Nacional de Difusão e ele me disse que investigaria.”

Funcionou. A propaganda foi retirada do ar e o programa foi enfiado no fundo de uma gaveta, para só voltar um ano depois.

Em parte das esquetes, Os Judeus Estão Chegando apresentam líderes da nação, como Ben-Gurion, Moshe Dayan, Trumpeldor, em situações completamente absurdas e inusitadas. Em muitas outras a temática é bíblica, reencenando histórias conhecidas e mostrando os patriarcas e demais personagens como oportunistas, estúpidos e agressivos.

Dois exemplos. Abraão leva seu filho Isaac para ser sacrificado, e Abraão é mostrado como um louco que escuta vozes (Deus). Na hora de descer a faca em seu filho, Isaac faz uma voz grossa com o canto da boca fingindo ser Deus: “Abraão, sou Eu, Deus, liberte agora mesmo o Isaac!” Isaac vê que seu pai foi enganado por seu truque, desviando a faca. O garoto completa: “E deixa ele ir nas festas dos Jebuseus!”

O sacrifício de Isaac

Em outra cena, o rei Salomão, tido como o mais sábio entre os homens, é mostrado como um troglodita boçal, que escuta conselhos e conversa com animais (segundo relatado em 1 Reis 4:33). Eles reinterpretam o julgamento da criança em disputa, onde desta vez a ideia de cortá-la vem de uma tartaruga, que é conselheira do rei, e no final a mãe verdadeira, quando dá seu filho para a outra mãe para que ele possa viver, recebe o bebê como castigo por querer se livrar da responsabilidade de criar seu filho.

Em entrevista ao programa “Fora da Caixa“, também do Canal 1, o roteirista do programa Yuval Fridman disse: “A intenção não é ofender. O que queríamos é dizer algo interessante sobre o texto bíblico. Ao longo de toda a História existiram diversas interpretações da Torá, que eu acho que é um texto fantástico. É interessante mexer com ele e tentar renovar, e acho que isto é legítimo. Existe a frase que a Torá tem 70 caras, então nós somos uma delas.” Na mesma entrevista, o diretor Kobi Havia completa dizendo que “este texto não pertence apenas aos religiosos, nós podemos usá-lo, e rir dele. Este é nosso direito como membros do povo judeu.”

Além da releitura de cenas bíblicas, o primeiro episódio apresentou as seguintes situações históricas do povo judeu: a revolta de Massada no ano 73, o julgamento do oficial francês-judeu Alfred Dreyfuss, burocratas do recém criado Estado de Israel discutindo o que fazer com imigrantes judeus do Norte da África (chamados de afro-judeus e shvartzes na esquete), e a execução de Eichmann após seu julgamento.

BG1
Ido Mosseri interpreta David Ben-Gurion

O programa é mais ácido e inteligente que qualquer outra coisa que vi na televisão brasileira. A atitude “in-your-face” lembra o que o Porta dos Fundos faz, o que é bastante louvável para um grupo de produtores e atores que não são novos no pedaço. Os atores são bastante conhecidos de outros programas clássicos do humor israelense, com destaque a Moni Moshonov (dos programas Ktzarim e Zehu Ze), Yossi Marshek (de HaChaim Ze Lo Hakol) e Yael Sharoni (de Ramzor). O roteirista Yuval Fridman é irmão do grande comediante Tal Fridman, membro do antigo Eretz Nehederet.

Na minha opinião, o humor tem que se guiar pelo que dá graça ao público, não pelo que pode ser visto como ofensivo. Sempre alguém vai ficar ofendido. A onda do politicamente correto, que varre tantos países ocidentais, é terrível: ela engessa a cultura e nos torna burros. (Mesmo assim, melhor a cultura ocidental a outras, pois por muito menos que isso pessoas são presas nos países vizinhos de Israel. Veja, por exemplo, o caso de Bassem Youssef, do Egito.) Embora o programa tenha sido liberado para transmissão, nos primeiros segundos aparece a seguinte mensagem: “Os Judeus Estão Chegando é um programa de sátira de conteúdo satírico e humorístico [sátira de conteúdo satírico? sim, pleonasmo em hebraico é mais do que desejável]. Os criadores do programa não tem intenção de ferir ninguém. Se alguém se sentir ferido pelo conteúdo, nós nos desculpamos de antemão.” Nada pior que começar algo pedindo desculpas. Aaaahhh!!

Finalizando: Os Judeus Estão Chegando é um programa sensacional de se conhecer, pois representa o que há de mais típico na cultura israelense: o desafio à autoridade.

Confira abaixo o primeiro episódio completo (em hebraico, claro):

 

Fontes: YNET e YNET.

Imagens: Haaretz e Rashut Hashidur.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Os judeus estão chegando”

  • Marcelo Starec

    17/11/2014 at 21:00

    Oi Yair,
    Não que eu concorde com o conteúdo, mas de fato, um programa assim só é possível de passar na televisão israelense e talvez (algo similar contra os valores de outras nações) em um muito seleto grupo de países realmente democráticos até a alma!…e ainda assim tenho muitas dúvidas de que isto seria de todo possível…Não tenho orgulho de um programa assim, mas da vibrante democracia israelense que o permite!…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Marcelo Treistman

    17/11/2014 at 22:23

    Yair, belo artigo! Obrigado.

    O humor – obviamente – tem limites. Entretanto, compreendo que tudo o que está ao nosso redor deve estar apto a análise crítica.

    Ele (o humor) também é uma escolha. Pode até mesmo ser considerado como uma ideologia que se propõe a criticar os valores que enxergarmos na sociedade.

    Se o humor não desconstrói os mitos, se ele não acaba com o “status quo”, então o que temos é um mero discurso que justifica o ambiente em que se vive. Uma declaração de amor ao que existe no seu entorno. E isto, cá pra nós, não é nada engraçado.

    O humor não sobrevive sem liberdade. É por isso que não não há humoristas nos países islâmicos. Trata-se de uma perda mundial: O lider espiritual do Hamas é uma das pessoas mais patéticas que eu conheci na minha vida, mas ninguém ao seu lado vai se atrever a revelar isso em rede nacional.

    Abraços

    • Raul Gottlieb

      18/11/2014 at 12:02

      Marcelo, como assim não existem humoristas no mundo islâmico? Tudo o que eles fazem o tempo todo é contar piadas! Começando com as 72 virgens, passando pela deliciosa declaração do presidente turco que os muçulmanos chegaram na América em 1172 e que quando Colombo chegou aqui encontrou mesquitas (http://www.memritv.org/clip/en/4604.htm) e terminando pela qualificação do Islã Jihadista como “a religião do amor”.

      Não deixe de ver o filminho! É sensacional. O cara tem a desfaçatez de afirmar que o Islã nunca foi usado como uma ferramenta de colonização, exploração e subjugação.

      Eles são uma piada só! Infelizmente eles querem nos matar. Mas não todos querem nos matar. Os moderados admitem nos dar a chance de converter e só nos matarão se formos insensíveis aos seus apelos. Apenas os radicais querem matar os infiéis sem mais delongas.

  • Mario S Nusbaum

    19/11/2014 at 23:51

    A pergunta que não quer calar: a qualidade do programa não deveria ser julgada por ter ou não audiência, portanto mercado, portanto NÃO depender do dinheiro dos contribuintes? Para ser 100% honesto, minha crítica se baseia no que acontece no Brasil, onde quem é da “tchurma” recebe verbas para produzir verdadeiros lixos

    • Yair Mau

      24/11/2014 at 22:40

      Bem, o programa é do canal 1, estatal, onde não há propagandas (apenas patrocínios). Concordo que a qualidade deve ser julgada pela audiência, embora os meios de comunicação estatais tenham às vezes a liberdade de fazer coisas importantes ao público justamente por não estarem preocupados com a publicidade.

Você é humano? *