Os quatro filhos

22/04/2016 | Religião e Judaísmo.

A Hagadá de Pessach nos conta sobre quatro filhos que apresentam diferentes personalidades. Existem várias interpretações [1,2,3] para explicar a história destes quatro filhos: o sábio, o perverso, o tolo e o que não sabe perguntar. Pois bem, resolvi adicionar uma nova. Como seriam os quatro filhos da pós-modernidade?

O Sábio

O sábio é o dono da verdade. É capaz de filtrar apenas os exemplos corretos no meio de um mar de informações. Sabe selecionar bem o que sai na mídia. Na mídia dos sábios. É capaz de perceber que o perverso quer apenas ludibriar, enganar e fazer de tudo para fingir que está correto. O sábio está convencido de que o perverso só pensa em si e em sua perpetuação. O sábio entende o que é melhor para todos. Coincidentemente, o melhor para todos é o que é o melhor para si.

O sábio não erra, não se equivoca. E se, mesmo assim, surge alguma suspeita de problemas no seu lado, o sábio tem a resposta na ponta da língua: “nem se compara com o que o fez o perverso”.

O sábio entende que se o resultado não foi favorável, não foi sua atuação que deixou a desejar, foi culpa dos juízes, da mídia,dos interesses alheios, e das forças ocultas – nunca de sua própria incompetência.

O Perverso

O perverso sabe te guiar para o caminho errado. Sabe encontrar a interpretação enviesada, ocultada pelo sábio para justificar seus atos. Afinal, o sábio é corrupto, egoísta e, principalmente, cego por poder. O perverso atua de forma simples e clara, baseado na lei da equivalência: “se erro, meus erros são em prol do bem geral, já o sábio, tão ou mais perverso do que eu, só pensa em si próprio”.

O perverso acusa o sábio de mudar a regra do jogo quando está desfavorável para ele: “o sábio sabe muito, mas não sabe perder”.

Vive de acordo com uma lógica simples. Assim diz o perverso: “eu roubo, o sábio mata. Se o sábio de fato mata, como punir um pequeno crime, se o mesmo juíz ignora erros muito maiores?

O perverso adota a moderna versão dos fins justificam os meios. O perverso está tão certo de sua inocência que nenhuma justificativa o fará mudar de idéia. Sempre haverá margem para uma interpretação vitimizada. Provas concretas, mesmo que indiscutíveis aos olhos de todos, foram sabiamente alteradas para encriminá-lo.  

Os 4 filhos da pós modernidade, desenho feito por Ilan Szuster

O Tolo

O tolo pensa que o sábio pode estar certo, mas que o perverso pode não estar errado. Mera ingenuidade. Para ele, nem o perverso é tão perverso, nem o sábio tão sábio. Tolo. Não é capaz de ver claramente o caminho correto apresentado pelo sábio, nem as armadilhas do perverso. Mesmo que esteja tudo tão claro.

O tolo acha que qualquer desvio deve ser punido, pequeno ou grande, sábio ou perverso. Não acredita que deve haver uma ordem absoluta reinando, rígida e definida de bons e maus. Definitivamente, não entende muito sobre democracia, nem política.

O tolo pensa que há um interesse por trás de cada atitude. Não acredita no amor incondicional do sábio pela bondade, e do perverso pela maldade.

Ele não entende que “agir por conveniência” é na verdade defender fatos reais que são comprovadamente falsos. E que isso deve ser feito sempre que necessário para a manutenção da ordem e do progresso. Poderia ter aprendido isso com o sábio, ou mesmo com o perverso, mas como bem diz seu nome, é apenas um tolo.

Aquele que não sabe perguntar

Em época de respostas, acusações, argumentos e provas (argumentos e provas são a mesma coisa!), aquele que não sabe perguntar já não precisa mais se preocupar. Na verdade, hoje em dia ninguém mais sabe perguntar. Sabe apenas responder. E melhor, sabe responder sem ser perguntado.

Há diversos benefícios nesta mudança. Para perguntar, é preciso estar informado. Para responder, é preciso apenas ter uma crença. Perguntas podem ter efeitos colaterais, como respostas inconvenientes. Respostas são de longe a chave para nosso desenvolvimento. Hoje em dia, aquele que não sabe perguntar, pelo menos sabe responder.

Aquele que não sabe perguntar afirma que quando há uma disputa de liderança entre o sábio e o perverso, e o perverso  sábio perde. A derrota é uma vergonha geral, inaceitável, afinal, (a) o sábio perverso trapaceou, (b) o histórico do sábio perverso já mostrou provas de incapacidade para comandar e (c) não houve democracia verdadeira na decisão, e sim interesses maniqueístas do sábio perverso e dos seus aliados tolos que não sabem perguntar.

O sábio perverso  não vai descansar enquanto não desfizer essa injustiça. E para isso, até agressões são justificadas. Elas não são nada frente a agressão que significa a vitória do perverso sábio.

Estes são os quatro filhos da Hagadá de Pessach na pós modernidade. Discutem problemas atuais, desde o conflito entre israelenses e palestinos, passando por qualquer questão socioeconômica, e chegando até o impeachment da presidente Dilma.

Mas, que fique claro. Esta é uma história antiga. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Ilustração de capa: Os 4 filhos da pós-modernidade, por Ilan Szuster – meu agradecimento, e desejos de chag sameach para todos.

 

 

Comentários    ( 0 )

Você é humano? *