Os Rubro-Negros de Jerusalém

Na última sexta feira, ensolarada e congelante – 5 graus –  tive o prazer de voltar ao estádio Teddy em Jerusalém para assistir a mais um jogo do gigante Hapoel Katamon Jerusalém. Saio de casa às 14:30, pego a bicicleta e desço em direção a Malcha, onde o estádio se localiza.

O jogo contra o Hapoel Afula está marcado para as 15:00. Não havia confusão para comprar ingresso. Crianças e mulheres não pagam. Entrando no estádio,me junto a cerca de outras 500 pessoas que vão prestigiar o time, que volta a jogar em sua casa em uma sexta feira a tarde.

Depois de tantos anos fora do Brasil a saudade de coisas que fazíamos é substituída por uma nova realidade, novos hábitos e prazeres. Mas largar o futebol é difícil. Nasci e vivi no bairro da Tijuca, a menos de dois quilômetros do Maracanã. Os jogos do Flamengo eram parte da minha rotina semanal, fossem durante a semana ou no final de semana. Um evento no qual, sempre me reunia a meus irmãos e, em geral, amigos também.

Quando vim morar aqui tinha que achar um time para torcer. Foi então que para minha grata surpresa conheci o Hapoel Katamon que, além de rubro-negro como o Flamengo, é um time com posições políticas bem claras. Não podemos ainda dizer que somos uma nação, mas com o otimismo da vontade chegaremos lá.

O Hapoel Katamon Jerusalém surgiu em 2007 depois de um racha de torcedores insatisfeitos com o dono do Hapoel Jerusalém e a forma como o clube era dirigido. O objetivo é, no futuro, se juntar novamente ao Hapoel Jerusalém. Mas mudanças estruturais eram necessárias.

Para os torcedores fundadores e membros do Hapoel Katamon, times de futebol têm poder e identidade próprios e isso pode se refletir na sociedade de forma boa ou ruim e entendem que é possivel educar através do time de futebol. O clube tem fortes raízes comunitárias e não está comprometido com as leis do mercado da bola. Hasteiam bandeiras importantes contra o racismo e qualquer outra discriminação e contra a violência. Suas “escolinhas” de futebol promovem a integração de crianças árabes e judias de diversas origens.

A mercantilização do futebol pelo mundo inteiro transformou os antigos clubes que surgiram a partir de associações de bairros e de classe, como o Hapoel Jerusalém, formado pela organização dos trabalhadores. Houve um afastamento das raízes comunitárias e da sua identidade original. Os clubes passam a ser geridos e a atender a interesses bem maiores.

A proposta do Hapoel Katamon é transformar e começam a partir das suas próprias estruturas internas. A diretoria tem que ter ao menos três representantes eleitos pelos sócios. Qualquer sócio pode apresentar candidatura, desde que seja maior de 17 anos. As assembléias são abertas a todos os sócios, que têm direito a voz e voto.

Hoje, na segunda divisão do futebol israelense, o Hapoel Katamon Jerusalém apresenta uma nova proposta de organização e educação através do esporte. Além disso, busca novas formas de organização, com valores democráticos e fortalecendo as comunidades onde atua.

O crescente racismo visto em partidas de futebol pelo mundo todo também é encontrado em Israel, e propostas coletivas e democráticas como as apresentadas pelo Hapoel Katamon Jerusalém são a forma mais eficaz de combatê-lo.

Muitas vezes ouvi que futebol e política não se discutem, mas não podemos esquecer que parte da política é feita através do futebol e o Hapoel Katamom Jerusalém é um excelente exemplo de como a política deve ser feita.

NOTA: Ganhamos o jogo contra o Hapoel Afula por 4 a 2. Na próxima sexta feira tem o clássico entre Hapoel Katamon Jerusalém e Hapoel Jerusalém.

*Foto: Hapoel Katamon Jerusalém

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Os Rubro-Negros de Jerusalém”

  • Marcelo Starec

    07/12/2015 at 23:56

    Oi Marcos,

    Excelente artigo!,,,É muito interessante conhecer o Hapoel Katamon e suas importantes atitudes contra todo o tipo de preconceito – algo que com certeza merece o devido destaque!…

    Um abraço,

    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    08/12/2015 at 10:26

    Se administrarem o clube da mesma forma com as efígies nas bandeiras pregaram é certo que o clube não vai muito longe.

    E ainda correm o perigo de selecionar torcedores menos afinados com a diretoria para os paredóns “higienizadores” do Che.

Você é humano? *