A ovelha imortal

14/02/2014 | Cultura e Esporte.

Sugerimos que o leitor escute as canções espalhadas pelo texto enquanto lê. Cada canção se refere ao parágrafo imediatamente acima.


Existe uma ovelha em Israel que é conhecida de todos. O seu criador nos conta o seguinte:

Quando eu não consigo dormir, e os pensamentos saem e entram, eu sento na minha cama e conto ovelhas (e às vezes ovelhos também). O rebanho passa sobre minha cabeça, e desaparece atrás das costas, e cada ovelha que passa é exatamente igual à ovelha que passou antes. Primeira ovelha, segunda ovelha, terceira e quarta ovelha, bolinhas de lã, todas iguais, passam a oitava e nona ovelhas. Mas quando chega a décima-sexta ovelha, eu sei que ela vai parar e passear pelo quarto, e eu percebo que esta ovelha vai ficar, e ela não tem nenhum interesse em seguir com o rebanho. Eu lhe sussurro “E então, ovelha? Anda! Deixa pelo menos uma vez eu contar todas!” Mas ela não se mexe, e é normalmente com a décima-sexta ovelha que eu adormeço.

“A décima-sexta ovelha” é um livro de poesias para crianças, escrito em 1978 por Yehonatan Gefen. No mesmo ano, Yoni Rechter compôs melodias para grande parte das poesias, e um álbum foi produzido, juntamente com Gidi Gov, Yehudit Ravitz e David Broza. Em hebraico o álbum se chama HaKeves HaShisha Asar (הכבש השישה עשר).

Gefen já era bastante conhecido em 1978. Ele tinha uma coluna semanal no jornal Maariv desde 1972; em 1974 gravou com Dani Litani o show “Ze Hakol Beintaim, Beintaim Ze Hakol” (é isso por enquanto, por enquanto é isso), que teve grande repercussão; já tinha escrito 8 livros, principalmente de poesias. Enfim, tudo isso e mais um pouco, ainda aos 31 anos, a mesma idade que eu tenho hoje, o que me faz pensar o quanto eu já alcancei na vida, ou hei de alcançar…

Yoni Rechter compôs melodias para a maior parte das poesias do livro, e assim se formou a base do álbum “a décima-sexta ovelha”. Rechter tinha 26 anos, e já tinha no currículo ter participado da maior banda israelense de todos os tempos, Kaveret, onde fora tecladista. Ele é um dos compositores israelenses mais talentosos, e ao longo dos anos compôs canções para os maiores nomes da música, como por exemplo Arik Einstein, que faleceu há poucos meses, e cuja colaboração rendeu 4 álbuns.

Gidi Gov, apesar da voz peculiar (eu diria fanha), era um dos maiores artistas dos anos 70. Ele também fora do Kaveret, onde era vocalista, o único da banda que não tocava nenhum instrumento, apenas cantava. É ele que começa cantando “Ani ohev shokolad”, um dos maiores sucessos do disco.

Yehudit Ravitz, com 21 anos, havia recém começado sua carreira artística, e o fez com pé direito. Sua canção “Slichot” havia sido escolhida a canção do ano de 1977, e no mesmo ano também participou do show “Eretz Tropit Yafa”, produzido por Mati Caspi, baseado em canções brasileiras adaptadas ao hebraico. Ela canta no álbum infantil “Hayalda Hachi Yafa Bagan” (a menina mais bonita do jardim de infância), que até hoje é um de seus maiores sucessos.

Finalmente, o também principiante David Broza é o quinto e último integrante do álbum. No ano anterior, em 1977, Yehonatan Gefen percebeu seu talento e começou então uma colaboração de muitos anos. Com a visita de Anwar El Sadat a Jerusalém em 1977, Gefen e Broza criaram “Ihye Tov”, que foi um sucesso instantâneo. Em 1983 lançaram juntos o álbum “Haisha Sheiti”, todo composto de canções espanholas traduzidas por Gefen, que é um dos álbuns mais bem-sucedidos da história da música israelense. David Broza compôs apenas uma canção da “décima-sexta ovelha”, e na minha opinião é uma das melhores: “Brakim uReamim” (raios e trovões).

Todos os cinco participantes, Yehonatan Gefen, Yoni Rechter, Gidi Gov, Yehudit Ravitz e David Broza, são pesos-pesados da música israelense, e cada um merece um texto apenas para si (aguardem). Essa junção única de tantos talentos em uma mesma produção é perceptível, fazendo de “a décima-sexta ovelha” o melhor álbum infantil que conheco. Ponto.

As letras são geniais (obrigado, Gefen), e tratam de assuntos infantis sem tratar as crianças como idiotas. Apenas um exemplo, a terceira estrofe de “Kshenasanu Haira Levaker Et Dod Efraim” diz: “Quando viajamos pra cidade para visitar o tio Efraim, Passamos do lado de um homem com furos nas meias, Ele tinha um rosto triste, estava apoiado numa bengala, Mamãe me disse para não olhar, mas eu olhei”.

As melodias e arranjos musicais não deixam a desejar. Tem rock ’n’ roll, baladas, complexidade de instrumentação (não como a música eletrônica da galinha pintadinha), enfim. Escutem vocês mesmos e julguem.

Duas histórias pessoais:

Em 2010 fui ao show do “dia do estudante” da Universidade Ben-Gurion, em Be’er Sheva, onde eu morava na época. Artistas variados se apresentariam das 8 da noite às 5 da manhã, mas eu fui mesmo só pra ver a apresentação conjunta de Gidi Gov e Yehudit Ravitz. No meio do show eles tocaram em sequência três ou quatro músicas da “décima-sexta ovelha”, e o público foi à loucura. Todos eram jovens na faixa entre 20 e 30 anos, e cresceram escutando o álbum. Foi um pouco surreal ver os marmanjos que tinham ido beber e pegar mulher parar por uns instantes a sua caça para cantar e dançar músicas infantis.

A segunda história é mais uma reflexão. Gravei em um mesmo CD para minha filha escutar no carro dois álbuns: a “décima-sexta ovelha” e os Saltimbancos, de Chico Buarque. Ambos foram lançados na mesma época, são de extrema qualidade, e criaram gerações de crianças em Israel e no Brasil, respectivamente. Na minha consciência os dois álbuns são comparáveis, embora a décima-sexta ovelha ainda seja o predileto. Tem muito CD e DVD de música infantil por aí, grande parte de qualidade duvidosa. Eu gosto de escutar coisas de qualidade, e acho que crianças também tem o direito de não ter o ouvido tratado como penico.

“Gostei, como posso escutar e aprender as músicas? Quero comprar o CD e tocar para meus filhos”.
O álbum pode ser comprado pelo iTunes (link), Amazon (http://amzn.to/1k0LLUA), e pode ser escutado grátis no playlist do Grooveshark criado pelo Conexão Israel abaixo. Quem quiser aprender as letras (hebraico, tradução ao português e transliteração) pode fazê-lo no meu site Shirim em Português: Eich Shir Nolad, Brakim uReamimKshenasanu Haira Levaker Et Dod Efraim, Ani OhevHayalda Hachi Yafa BaganHasipur Al Haish HayarokGan SagurHakeves Hashisha Asar / Laila Tov.

HaKeves HaShisha Asar by Conexão Israel on Grooveshark

Imagens:
Imagem destacada: Flickr de biologyfishman, segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “A ovelha imortal”

  • Rafael Stern

    22/04/2014 at 23:03

    Yair, adorei o artigo! Eu também cresci escutando esse álbum, que minha mãe me apresentou e me ensinou a apreciar! Mas o primeiro lugar no pódio da minha infância continua sendo do Uzi Chitman, principalmente os vídeos “Shirim Ktanim”. Sempre adorei a voz dele, e hoje em dia, vendo os vídeos, seu olhar me passa uma ternura, uma tranquilidade. Ao contrário da maioria dos adultos que fazem programas infantis, a postura dele não me parece nem um pouco forçada. Me parece muito natural para ele estar ali, fazendo aquilo. Ele me parece respeitar muito as crianças, entender o mundo delas, valorizar sua inteligência. Algo meio Saint-Exupery. Eu ia adorar ler um artigo sobre ele aqui no Conexão. Acho que ele super merece essa homenagem.
    haShirim, haMischakim, Eifo Hem Achshav?

  • Rafael Stern

    22/04/2014 at 23:51

    Adorei a oportunidade de escutar o álbum inteiro direto. A minha música preferida é “Kmo Yam”, que eu conheci nas vozes do Uzi Chitman e da Gali Atari numa fita do Shirim Ktanim. A última música, “Layla Tov”, me emociona e me ajuda a dormir até hoje.

Você é humano? *