Pague o aluguel!

18/07/2013 | Sociedade.

Ao contrário da maioria dos olim 1, moro em Jerusalém desde que cheguei no país. Depois do primeiro semestre nos dormitórios do Centro de Absorção, aluguei um apartamento com um amigo, também brasileiro. Procuramos em sites de classificados e conversamos com corretores até encontrarmos um apartamento que coubesse no nosso bolso e estivesse em boas condições.

Achado o apartamento, sentei com o proprietário para negociar o contrato e me espantei com a (falta de) formalidade dos procedimentos. A palavra “fiador” sequer foi mencionada, assinamos um contrato simples, de uma única página, xerocado de um modelo genérico, sem testemunhas, reconhecimentos de firma ou maiores burocracias. Fizemos um “depósito de segurança” – na verdade, entregamos em dinheiro vivo na mão do proprietário – equivalente a um mês de aluguel e pronto! Nos mudamos e, mensalmente, subimos a escada para pagar ao proprietário – ele mora no apartamento em cima do nosso – o aluguel.

Ao se aproximar o final do primeiro ano, comecei a procurar um novo apartamento. Dessa vez, nada de sites de classificados. Entrei em dois grupos do Facebook – “Apartamentos para aluguel em Jerusalém” e “Boca-a-boca dos apartamentos em Jerusalém” – onde são anunciados apartamentos em todas as modalidades: proprietários querendo alugar, locatários querendo sair antes da data final do aluguel e buscando quem os substitua e, a principal categoria, jovens que alugam e têm um quarto sobrando.

Era essa última a categoria que mais me interessava. E essa informalidade quase mambembe é muito interessante. Você vê o anúncio contendo informações bastante genéricas: quarto “grande” ou “pequeno” (ninguém nunca sabe informar a metragem, vai tudo no olhômetro), número de pessoas morando na casa, se guardam o Shabat ou comem comida casher, preço do aluguel, média das contas nos últimos meses, etc. Se achar interessante, manda uma mensagem particular ao “anunciante” perguntando os detalhes que julgar relevantes e uma data para ir visitar o imóvel.

Muitas vezes, você marca um horário para conhecer o apartamento e o pessoal que já mora lá. Em outras ocasiões, os atuais moradores marcam uma hora fixa (terça-feira, das oito às dez, por exemplo) e aparecem dezenas de curiosos. Esse esquema cria a oportunidade de pessoas se conhecerem, buscarem compatibilidades e definirem interesses. Havendo vontade de morar naquele apartamento, você simplesmente diz que está interessado e deixa seu telefone. No meu caso, os caras simplesmente falaram “Ok, temos seu contato no Facebook. Qualquer coisa, te mandamos uma mensagem”.

E foi assim que ocorreu: na semana seguinte, recebi uma mensagem da moça que estava saindo do quarto, perguntando se eu ainda estava interessado. Ao confirmar, ela me deu o telefone da proprietária do apartamento para que eu fosse assinar o contrato. Uma senhorinha, novamente com um monte de contratos xerocados – ainda que, dessa vez, de quatro páginas – que não me fez muitas perguntas (acho que ela confia que os moradores atuais não escolheriam um maluco qualquer pra dividir a cozinha e o banheiro) e, vendo que meus pais não moram em Israel, apenas me pediu que um amigo assinasse como meu fiador.

Sem comprovar renda – minha ou do meu fiador – e usando meu endereço anterior (do apartamento de onde sairia em três semanas), assinei o contrato. O depósito dessa vez foi através de um cheque de mil sheqalim (cerca de 500 reais) e pronto! Faltando menos de uma semana para me mudar, entrei em contato com os dois outros rapazes que já moravam aqui, lhes pedi uma cópia da chave e avisei a hora em que chegaria. Eles me receberam com café e me explicaram como funciona a casa – quem limpa o quê, quem paga as contas, essas coisas. Me deram as boas-vindas e cada um seguiu sua vida, sem se importar que um estranho agora morava em sua casa.

É desta maneira que os estudantes, longe de seus pais e impossibilitados financeiramente de morarem sozinhos, vivem. Um mercado baseado quase exclusivamente na confiança, nos acertos verbais e no bom-senso.

Que bom!

Imagem de capa: http://amyjolauber.files.wordpress.com/2011/11/money-house.jpg

Notes:

  1. Judeus que imigram para Israel

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Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Pague o aluguel!”

  • Ricardo Arcanjo

    19/07/2013 at 05:08

    Muito interessante! Ao me mudar para o Rio de Janeiro em 2009 precisei pagar por 3 anos uma extorsão chamada seguro fiança. Quando finalmente comprei meu apartamento e fui ajudar um amigo sendo fiador….não foi possível (Não aceitam que o imóvel do fiador seja financiado);

  • Alexandre

    21/07/2013 at 16:32

    E importante notar que ao contrario do Brasil, aqui voce tem 2 fatores que fazem ficar mais dificil de cometer uma fraude (ao contrario do Brasil):
    1 – muito menos cidadaos pra controlar
    2 – uma porra de um numero pra tudo – nao tem essa de identidade, cpf, etc etc
    Entao se voce nao pagar aluguel, a nao seja que fuja para o Brasil, vao te achar 🙂

  • Marcelo

    21/07/2013 at 16:33

    Alexandre, concordo com voce.
    Apesar de voce ter escrito “ao contrario do Brasil” 2 vezes, ta certo 🙂

  • Mauricio Peres Pencak

    21/07/2013 at 16:45

    Ótimo artigo! Quanta diferença para a “cultura” da desconfiança, do calote, do patrimonialismo, do cartorialismo que nos atormenta.

  • Mario Silvio

    22/07/2013 at 16:08

    Discordo Alexandre, o problema é de legislação.

    1 – muito menos cidadaos pra controlar
    E muito menos controladores, dá na mesma
    2 – uma porra de um numero pra tudo – nao tem essa de identidade, cpf, etc etc
    Entao se voce nao pagar aluguel, a nao seja que fuja para o Brasil, vao te achar
    Não precisa procurar. Aqui o cara não paga aluguel (ou prestação do imóvel) e continua
    morando no mesmo lugar, aquele no qual está inadimplente.

    Houve uma época em que pessoas viviam de financiar imóveis e aluga-los. Conseguiam ficar de 2 a 3 anos sem perde-lo e recebendo os aluguéis.

Você é humano? *