Palavras que ferem

22/12/2012 | Conflito, Cultura e Esporte.

Em Israel, o futebol não é tão arte assim como no Brasil. Tudo bem. O nível de um jogo,
muitas vezes, se compara ao de um campeonato regional sem luxo do Brasil. Não tem
problema. O ingresso, mesmo assim, é caro. A gente supera isso também. Os times aqui têm
donos e eles, muitas vezes, participam das decisões sobre o futebol, mesmo sem entender
nada. Isso não nos abala. A seleção israelense esteve em apenas um mundial, em 1970. Todo
israelense torce por alguma outra seleção, mesmo. A maior conquista de um time israelense
em torneios europeus foi chegar até a fase de grupos da Liga dos Campeões, não conheço nenhum
israelense que não torça para um grande time europeu. Tudo isso, até aqui, é aceitável;
circunstâncias de um país pequeno, com pouca tradição no esporte, mas com torcedores
extremamente fanáticos. Aqui, justamente, se inicia o problema.

Israel vem se deparando, nos últimos tempos, com uma onda grande de preconceito e
racismo dentro dos estádios de futebol. O fenômeno não é exatamente novo, ele já
aconteceu no passado, mas voltou agora mais forte do que nunca. Inaceitável!

O ódio, o racismo e o preconceito surgem de rivalidades locais, do fato de haver
jogadores africanos atuando em Israel e de jogadores árabes vestindo as cores dos clubes e,
às vezes, até da seleção nacional.

O torcedor israelense não conhece o limite. Ele, muitas vezes, não respeita o adversário,
não respeita o seu passado e, algumas vezes, sequer sua própria origem. O torcedor passa
por cima da fronteira que existe entre o plausível e o inimáginavel. Ele talvez pense que não
havendo violência física, tudo pode. O torcedor, aqui, perde muitas vezes o seu
sentido de “torcedor” e se transforma em um “odiador” ou num “ofensor”.

Evidente que, aqui, faço uma generalização. Não são todos os torcedores que se comportam
desta forma. Aliás, meus amigos não se comportam assim (que eu saiba). Mas eles
conhecem as torcidas que têm.

Os principais times envolvidos nos últimos capítulos são Betar Jerusalem, Macabi Tel
Aviv e Hapoel Tel Aviv, três dos principais clubes israelenses. Os cantos racistas, os hinos
preconceituosos e os gritos de ódio são uma mancha terrível para o esporte do país e para
as pessoas de bem. É triste saber que saem de dentro do povo coisas desse nível. Estas
pessoas não têm memória e certamente não receberam em casa valores básicos de respeito. Ou receberam e não souberam pôr em prática.

Dentro de uma sociedade tão complexa, com tantos motivos para “se preocupar”, o futebol
deveria ser a válvula de escape, o momento de relaxar e extravasar emoções e sentimentos
pelo seu clube, pela sua paixão. Mas não é. As pessoas vêem no futebol uma oportunidade
para extravasar a sua frustração em terceiros, em pessoas que não tem nenhuma relação
com suas vidas e com seus times. Uma triste realidade.

Como nem tudo é pessimismo e decpção, os times e as torcidas já estão mobilizados para fazer uma “blitz”contra a intolerância. Campanhas e propagandas estão sendo amplamente divulgadas, pra que possam servir de exemplo não só para o torcedor israelense, mas para o mundo inteiro. Não existe lugar para o racismo! Estou na torcida.

Abaixo seguem alguns exemplos de cânticos e de campanhas contra o racismo:

Cânticos racistas de torcdores do Beitar

Hinos de ódio dos torcedores do Hapoel Tel Aviv

Campanha do Macabi Tel Aviv contra o racismo e o preconceito

Comentários    ( 10 )

10 Responses to “Palavras que ferem”

  • Raul Gottlieb

    24/12/2012 at 21:08

    A torcida do Flamengo cantar “vai morrer” quando o técnico do Vasco teve um derrame durante um jogo entre os dois times (se é que aqueles bandos de pernas de paus podem ser chamados de times) é pior do que o canto racista das torcidas em Israel?

    Suponho que o que se entoa nas torcidas no Brasil é igualmente infame aos cantos racistas de Israel e de todos os outros cantos do mundo. Além disso temos todos os anos no Brasil mortos em conflitos de torcedores. Mortos mesmo, de verdade. E todos os anos sim. Pode pesquisar.

    E o Brasil não sente vergonha disto. No Brasil estas manifestações são consideradas “naturais”.

    Porque o futebol provoca estas manifestações?

    • Bernardo K. Schanz

      25/12/2012 at 14:57

      O futebol é para muitos uma grande paixão, uma religião, um verdadeiro e as vezes único amor. E como dizem, o ódio e o amor andam juntos, muito próximos.

      Entendo o seu comentário e condeno toda e qualquer manifestação estúpida como essa que fez a torcida do Flamengo. A diferença é que aqui a intolerância surge a partir de um problema entre diferentes povos e diferentes religiões, não apenas de diferentes equipes, como aí no Brasil.

      O Brasil deveria sentir muita vergonha por uma atitude dessas.

  • Raul Gottlieb

    25/12/2012 at 17:22

    Caro Bernardo, o Brasil não tem que sentir vergonha, pois quem mata e insulta nos estádios não é o Brasil e sim alguns brasileiros. Imagine se a humanidade como um todo fosse sentir vergonha pelos desatinos cometidos pelos seres humanos. É preciso individualizar os comportamentos e distribuir méritos e deméritos, Generalizar é perigosíssimo.

    Acho mais compreensível esta intolerância que emerge da luta existencial de Israel do que a estupidez que aflora contra o vizinho que usa uma camisa de cores diferentes da tua no domingo de jogo. Aí em Israel pelo menos eles tem alguma razão dentro da irracionalidade boçal que o futebol provoca. No Brasil (e em tantos outros países, incluindo a educadíssima Inglaterra) a estupidez é completamente gratuita.

    Não estou justificando os cânticos racistas das torcidas israelenses. Estou dizendo que o fenômeno não é israelense. Ele aflora aí com contornos racistas por conta do conflito. Sem o conflito seria “somente” uma luta de vascaínos contra flamenguistas e as mesmas canções seriam usadas.

    Ou em outras palavras: nem tudo que acontece em Israel pode ser politizado.

    Um abraço, Raul

    • Bernardo K. Schanz

      25/12/2012 at 19:28

      Perfeito, Raul. Generalizar é mesmo muito arriscado e errado.
      No entanto, assim como nós aqui nos envergonhamos pelas estupideses dos torcedores, o brasileiro “de bem” poderia sim sentir-se envergonhado pela representação que tem nas arquibancadas dos estádios, se é que essa realmente os incomoda.

      Um abraço!

  • Haim

    25/12/2012 at 20:50

    Excelente matéria!!!!! Bernardo vc não termina de me impressionar, não só a matéria é pertinente a realidade vivida no Esporte Israelense como também a necessidade de procurar ídolos fora do país é triste. Muitas vezes maus costumes são importados. Um pouco por causa dessa tal Globalização! E o meio esportivo permite uma onda de idiotas em todos os Continentes!!! SE FECHA-SE a bilheteria por 6 meses como pena, pode ter certeza que as próprias instituições CLUBES iriam se encarregar de afastar os idiotas.

  • EDISON PEREIRA

    08/01/2013 at 03:42

    Shalom, Bernardo, excelente esta matéria. Realmente vivemos em um momento global onde muitos dos problemas são compartilhados. Ora vimos isso na Inglaterra, ora no Brasil, a exemplo do que ocorreu com torcedores (se é que podemos chamá-los de torcedores) do Palmeiras, onde por consequência o clube perdeu vários mandos de jogos em razão dos quebra-quebras que fizeram. Não é realidade diferente nas torcidas dos grandes clubes brasileiros, infelizmente.
    A matéria serve para se fazer uma reflexão a respeito deste problema tão atual.

    Shavua Tov

    EDISON PEREIRA
    São Paulo / Brasil

    • Bernardo K. Schanz

      10/01/2013 at 13:12

      Oi Edison! Shalom!
      Vamos ver onde isso tudo vai parar. A gente espera que a situação melhore, porque é realmente intolerável.

      Obrigado pela visita ao site
      Um abraço

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