Para além da coexistência

Eu dou aula de jiu jitsu para crianças arábes e judias em um colégio em Jerusalém que faz parte de uma rede de educação para coexistência. E há duas semanas dei início a uma nova etapa desse projeto: além de Jerusalém, abri uma nova turma em Hebron, com alunos palestinos.

Tive que mover todos os tatames de Jerusalém para Hebron, que fica cerca de 35 quilômetros de distância. A aula em Hebron foi em um campo de terra batida,o que fez com que os tatames voltassem sujos para Jerusalém.

Assim, no primeiro dia de aula em Jerusalém após Hebron, antes da aula, montei os tatames para limpá-los. As crianças de cinco anos entram na sala e veêm aquela sujeira, e então a conversa começa.

Quatro alunos esperam pelo início da aula e acompanham a limpeza dos tatames.

– Marcos, o que que são todas essas manchas nos tatames? Pergunta Boaz

– É que eu precisei levar os tatames para um outro lugar onde dou aula.

– Você dá aula em outro lugar também? Avner questiona com um olhar curioso.

– Sim. Comecei uma nova turma essa semana.

– Onde? Volta a questionar Boaz.

– Em Hebron. Conhecem?

Os quatro meninos curiosos cruzam os olhares e riem e Ahmed pergunta:

– Onde fica?

– Na Palestina. Bem perto daqui. De carro leva 30 minutos.

Então Avner toma a frente e continua a conversa

– Qual a capital da Palestina?

– Jerusalém. – Eu respondo esperando as reações.

– Mas Jerusalém é a capital de Israel também. – Boaz fala.

– Sim. É a capital de Israel e também da Palestina. – Respondi.

Mais uma vez os olhares se cruzam, a limpeza termina, o tatame seca e eles entram para começarmos a aula. Sentam ao meu lado e Avner, incansável, pergunta:

– Israel e Palestina são países amigos?

– Não muito. – Respondo delicadamente.

Então ele levanta amarrando a faixa do kimono e diz:

– Mas serão! Eu tenho certeza que um dia Israel e Palestina serão grandes amigos.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Para além da coexistência”

  • Marcelo Starec

    16/05/2015 at 21:38

    Bonito artigo Marcos e interessante também conhecer o seu trabalho “para além da coexistência” (nos Territórios)!……..
    PS: O seu trabalho em Jerusalém eu já conhecia.
    Abraços,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    18/05/2015 at 00:12

    Parabéns Marcos, mas o fundamental é saber quem viabilizou a aula em Hebron, como você conseguiu que ela acontecesse, e, mais importante ainda, como foi ela.
    Por enquanto vamos deixar de lado a diferença entre “crianças arábes e judias em um colégio em Jerusalém” e ” uma nova turma em Hebron, com alunos palestinos”, mas deixemos pendente a seguinte pegunta: haveria alguma possibilidade, por mínima que fosse, de um judeu participar da aula em Hebron?

  • Thiago Cruz

    18/05/2015 at 06:31

    A geração futura está pronta só devemos ter cuidado para não enchê-los com nossas limitações deixemos que eles cresçam juntos e sem influencia externas eles não terão esses preconceitos e radicalismo da nossa geração.

  • maria lucia

    18/05/2015 at 22:03

    SIMPLESMENTE MARAVILHOSO!!!