Parto em Israel: fatos e opiniões

07/06/2013 | Opinião; Sociedade

Escrito por Liat Mau

Há um ano e dois meses nasceu minha primeira filha. O período de gravidez e especialmente o parto foram para mim experiências positivas e fascinantes, e foi assim que me encontrei ouvindo, lendo e me interessando por várias histórias de nascimentos, tanto em Israel como no Brasil.

Israel e o Brasil tem realidades extremamente diferentes em relação à forma como bebês nascem. Enquanto que no Brasil mais de 40% dos nascimentos são realizados através da cirurgia cesariana, e chega a 80% se levarmos em conta apenas os partos feitos por convênio médico, em Israel o índice de cesáreas é de somente 19%.

Há muitos motivos para essa diferença absurda. Na minha opinião, a alta taxa de cirurgia no Brasil é resultado das preferências pessoais da gestante, de seu nível social e das prioridades dos profissionais da medicina. Também acredito que a baixa proporção em Israel se deve principalmente ao fato de que em Israel a medicina é pública. Pessoas de qualquer nível sócio-econômico são atendidas do mesmo jeito no hospital.

Eu sempre quis ter parto normal. Mesmo se eu não quisesse, aqui em Israel não teria outra opção. Cesárea agendada de antemão ocorre apenas por motivos de saúde. Querer não é suficiente, e nenhum médico vai autorizar uma cesárea por pedido da gestante.

Gravidez

Um pouco sobre saúde pública

Aqui a saúde é publica, quer dizer, o governo subsidia para todo cidadão israelense um plano de saúde que é executado por quatro convênios. O cidadão assalariado tem entre 3 e 5% da renda mensal automaticamente enviada ao INSS de Israel. Cada um dos convênios oferece também um plano um pouco melhorado, que dá descontos maiores em remédios e exames em relação ao plano básico. O plano mais completo custa por volta de R$50 por mês. Existe seguro particular por aqui, que amplia ainda mais os benefícios, mas não são tantas as pessoas que o tem, pois a opção pública é suficiente. Os hospitais também são públicos, e cada um é tratado no hospital que fica mais perto de sua casa. Quem quer ser atendido em um hospital mais longe, pode, mas isso não é necessário, pois os profissionais são considerados do mesmo nível em todos os hospitais do país. Qualquer procedimento no hospital é totalmente gratuito. Existem também alguns hospitais particulares, porém tudo o que diz respeito à gravidez e parto não é de sua alçada, maternidades só existem nos hospitais públicos.

Engravidar

Bom, o método convencional espero que todos conheçam. Contudo, se um casal enfrenta dificuldades, depois de um ano de tentativas ele pode ser encaminhado para a clínica de fertilidade de seu próprio convênio. O tratamento é coberto pelo plano de saúde público, e o casal paga somente 15% do valor dos remédios (pode chegar a 200 reais por ciclo de tratamento). A nível de comparação, o valor de um ciclo de tratamento de fertilidade no Brasil sai em torno de 20 mil reais, não incluindo os remédios que custam em torno de 3 mil reais.

A escolha do médico

O meu ginecologista escolhi de uma lista de 5 médicos que trabalham com o meu convênio na cidade onde moro. Não tinha recomendação de nenhum deles, então escolhi um cujos horários de atendimento eram os mais confortáveis para mim. Vejo meu medico somente quando necessário, e durante a gravidez devo marcar consulta de rotina uma vez por mês. Se ocorre algum problema, devo ligar à central do convênio e eles me orientam o que fazer. Com o médico só me encontro nas consultas mesmo.

Estava a princípio receosa com a ‘famosa antipatia israelense’, mas acabei me surpreendendo com sua simpatia e profissionalismo.

Pré natal e exames

O acompanhamento de pré natal é feito mensalmente pela enfermeira do convênio, que pesa, mede a pressão e checa os níveis de proteína na urina.

Em Israel se recomenda fazer alguns exames durante a gravidez: translucência nucal, dois exames de ultrassonografia morfológica (entre as semanas 14-16 e 22-24 da gestação), curva glicêmica, ecocardiograma fetal, medida e peso do feto uma vez por mês, e cardiotoco toda semana a partir do início do nono mês. A amniocentese é gratuita para mulheres acima de 35 anos pelo plano público, porém toda gestante pode fazer este exame, com custo baixo, através de seu convênio.

Estes exames são providenciados pelo convênio de saúde por um preço de banana, tipo R$15, e às vezes pode chegar até R$60. Quem optar por fazer com um médico particular, pode receber um reembolso de até 80%.

Eu mesma fiz todos os exames! Recebi várias oportunidades durante a gravidez pra ver minha bebê e garantir sua saúde.

Preparação para o parto

Em Israel se faz parto normal. Por isso, existem cursos preparatórios para o casal nos hospitais com um custo baixo, ou cursos particulares que podem ser reembolsados.
O curso pode ser passado por uma parteira, uma fisioterapeuta ou até mesmo uma doula. Eu e meu marido fizemos o curso com uma parteira, pois ela sabe exatamente os procedimentos durante o parto. Aqui quem faz o parto é a parteira que está de plantão no hospital, e o médico de plantão assiste somente caso haja complicações.
Este foi o curso onde mais aprendi na vida (ou talvez o que mais prestei atenção). Me informei a respeito do parto natural, normal e até as complicações que poderiam ocorrer. Me preparei para o pior e esperava o melhor.

Parto

Na 38a semana da gestação fui internada no hospital por suspeita de pré-eclâmpsia. Ainda não estava em trabalho de parto, mas pelo risco de saúde a mim e à minha bebê, decidiu-se induzir o parto. Se não há complicações, somente 48 horas após o início da indução se discute a opção de uma cesárea. Já no início da indução, por sorte (ou não) comecei a sentir contrações fortes.

Fui encaminhada para a sala de parto apenas na manhã seguinte. Na sala de parto, quase todos os desejos da mulher são respeitados: se ela quer tomar anestesia, receberá; se ela quer tentar parto natural, se tentará; se ela não quer um certo procedimento, não o receberá.

As horas foram passando, a essa altura do campeonato estava há 27 horas em trabalho de parto. O cansaço já dominava, as contrações cada vez mais fortes e irregulares, e então se decidiu colocar indução artificial pela veia. Me aconselharam a tomar anestesia e aceitei. Em nenhum momento alguém mencionou uma cesária.

No momento do parto havia um clima íntimo, as luzes apagadas e um silêncio que na minha cabeça parecia como música ambiente. Estavam presentes somente meu marido, minha mãe, minha irmã e a parteira.

Trinta e quatro horas desde que cheguei à maternidade, nasceu a minha filha, de parto normal e muito emocionante.

Pós-parto

Se o parto ocorreu bem, no momento do nascimento, o bebê é colocado no colo da mãe. O pai tem a opção de cortar o cordão umbilical e após longos momentos de ‘bonding’ o bebê é pesado e embrulhado na própria sala de parto, então é devolvido para a mãe para ser amamentado. Depois de aproximadamente uma hora, o bebê é levado para o berçário, lá ele será examinado e mantido sob observação por duas horas, sempre acompanhado pelo pai. Enquanto isso, a mãe é encaminhada para o seu quarto. Tive sorte de estar na ala reformada do hospital e ter um quarto de somente duas mulheres. Na manhã seguinte, uma enfermeira explicou algumas coisas básicas de cuidados do bebê e a cada 4 horas passava alguma enfermeira para saber se estava tudo bem. Uma vez por dia um ginecologista e um pediatra de plantão examinavam a mim e a minha bebê.

O hospital oferece uma consultora de amamentação, bomba para tirar leite, leite em pó se precisar, fraldas, fraldas de pano, roupa para o bebê, roupa para a mãe, toalhas, absorventes e remédios por toda a estadia.

A mãe pode optar por deixar o bebê no berçário e buscá-lo para amamentar, ficar com o bebê durante o dia e deixá-lo no berçário à noite, ou ficar o tempo todo com o bebê. Eu optei por ficar o tempo todo, não teria coragem de deixar minha filhota recém nascida aos cuidados de outros.

Para visitas, há horários restritos, duas vezes ao dia por uma hora cada vez. A comida é servida no refeitório. Pelos corredores se encontram mulheres laícas, ortodoxas, beduínas, árabes, sudanesas, rússas, etíopes, ashkenaziot e sfaradiot. Todas mães radiantes.

O hospital não oferece nenhum conforto para o acompanhante mas também não o retira no fim do dia. Então, meu marido dormiu no chão (sim, chão chão) para me ajudar. Em alguns hospitais do país pode-se passar os 3 dias de recuperação em um hotel que pertence à maternidade, e que oferece tudo o que um hospital particular do Brasil oferece (custa em média 500 reais por noite). No hospital de Beer Sheva não tivemos esta opção.

Conclusão

Eu tive sorte que tudo ocorreu bem e tive um parto normal e tranquilo. Mas tenho certeza também que os profissionais da saúde pública que encontrei ao longo do processo auxiliaram para chegar nessa experiência maravilhosa. Eu sei que não é assim para todas as mulheres, depende muito da equipe que te atende e das circunstâncias. Mas sei também que praticamente todas, independentemente da experiência que tiveram, ainda gostariam de ter filhos por parto normal.

Acredito que no Brasil nem sempre a opção de uma cesárea é pelo conforto da mulher. Às vezes a mulher perde o direito e o privilégio de um parto normal por falta de informação e preparação. Neste caso, o seu profissional de confiança, movido pelos seus próprios interesses, pode usar de sua insegurança para a conduzir à uma cesárea desnecessária.

Hoje em dia, no Brasil, há uma maior conscientização sobre a importância do parto normal. Contudo, ainda existe um grande receio. Até mesmo uma amiga médica que trabalha em salas de parto, demonstrou-se preocupada com o risco de um parto normal nas mãos de um profissional que trabalha apenas em hospitais particulares, e que está longe de ter a prática e experiência necessárias para enfrentar qualquer complicação que possa ocorrer.

A saúde pública aqui não é perfeita, mas sem dúvida a ausência de maternidade privada em Israel possibilita o mesmo tratamento para todas as mulheres, independentemente de sua classe social, etnia ou religião. Eu vejo um valor positivo nisso.

Enfim, espero que cada mulher saiba o que é melhor para si, que possa ter o parto conforme deseja e que todos os bebês nasçam com muita saúde.


Fontes:
Veja – O parto normal em extinção no Brasil
Haaretz


Liat Mau
Ruiva, feliz, mãe da Yaara, esposa do Yair e professora de artes.
Tenho 31 anos, poucas rugas, muitas sardas.
Moro em Israel desde 2005, atualmente em Beer Sheva.

Comentários    ( 12 )

12 Responses to “Parto em Israel: fatos e opiniões”

  • Gabi

    12/02/2015 at 14:22

    Linda matéria Liat. Tive um parto parecido: meu trabalho de parto durou quase 46 horas, mas valeu cada minuto.