Passando a limpo

19/07/2014 | Conflito

Por Gabriel Paciornik

Não vou explicar o conflito no Oriente Médio em poucas linhas. Nem em muitas linhas, nem em vários livros. Mas posso tentar explicar por que é tudo tão complicado.

Seja qual for a fonte, ela é quase sempre carregada de tendências políticas essas ou outras. Eu não sei por que esse conflito é especialmente polarizante. Tenho cá minhas conjecturas, mas essas são absolutamente irrelevantes, já que eu próprio tenho minha própria visão política.

O segundo motivo é que esse não é um conflito entre dois blocos monolíticos, palestinos e israelenses. É um conflito muito mais amplo e mais antigo.Os palestinos estão longe de ser um bloco só: Temos palestinos israelenses, morando em Israel. Alguns destes são pró-situação, outros são a fim de derrubar o governo, outros são neutros, outros são radicais islâmicos, outros são cristãos, e vários outros são drusos. Alguns até servem o exército.Temos palestinos morando na Cisjordânia. Vários são filiados ao Fatah, outros são neutros. Outros ainda, são filiados ao Hamas. Mesmo estes, alguns são separatistas – querem criar seu próprio movimento na Cisjordânia, separado do comando central. E lá também, há cristãos. Alguns deles são pró-Palestina, outros querem o fim do movimento. Outros são mais radicais que o próprio Hamas. Vários muçulmanos odeiam os cristãos, que tem medo dos drusos que fogem dos beduínos, que traficam drogas e sudaneses do Sinai.

Temos a faixa de Gaza, onde o Fatah apanhou “que não é vida”, onde não sobrou nenhum deles. É comandada pelo Hamas. Mas o próprio Hamas está dividido – o braço armado não fala mais com o braço político, que aliás nem sequer fica em Gaza, mas no Qatar. E não são os únicos: temos o Jihad Islâmica e pelo menos outros três grupos com poder de fogo, que competem com o Hamas quem é o mais radical. Todos são descendentes da Irmandade Muçulmana, que é um grupo radical (que não era radical) com mais de 100 anos de idade, oriundo do Egito. Hoje ele é ilegal. Seus membros vivem na marginalidade e muitos foram condenados à morte pelo novo governo do Egito.

Ah! O Egito! O Egito faz fronteira com a Faixa de Gaza. Depois da queda de Mursi, a fronteira está lacrada. Não entra e não sai nada da Faixa de Gaza. Os túneis foram destruídos e o pouquíssimo tráfico de armas que vem do Sinai entra com a ajuda dos Beduínos – que em Israel servem o exército, muitas vezes com distinção.

O Egito – ou melhor, o atual governo do Egito – morre de medo do Hamas entrar em seu território, porque são radicais e aliados à Irmandade Muçulmana, seus inimigos políticos.

E tem a Síria, de onde o Hamas vinha sendo coordenado, que está numa guerra civil faz mais de três anos. E a Jordânia, que matou de uma só vez mais palestinos do que Israel em toda sua história, mas que tem uma população de 70% de palestinos, e portanto mantém a coisa cozida em água fria. E temos o Líbano, de onde saem os ataques do Hizbollah, que é financiado pelo Irã, que é xiita, ao contrário do Hamas, que é sunita. Xiitas e sunitas se matam no Iraque, que faz fronteira com o Irã, que ajudou os EUA a defender algumas regiões do ISIS (Grupo radical islâmico sunita, que deseja montar Califado Árabe, unindo Iraque, Síria e, talvez Jordânia).

E temos os palestinos espalhados pelo mundo! Os palestinos canadenses, que se diferem dos palestinos brasileiros, que em sua maioria têm sua filiação política radical, radicais estes que não fazem a menor ideia de quem está contra quem nessa guerra.

E os Israelenses? Estão muito longe de serem monolíticos.

Temos os esquerdistas, que querem o retorno às linhas de 67, temos os direitistas expansionistas, que querem uma Israel bíblica (seja lá o que for isso), temos radicais ortodoxos, que são contra sequer a existência do Estado de Israel (por motivos bíblicos – não por motivos nacionalistas), apesar de aceitarem benefícios do governo. Temos radicais judeus. Temos muitos ashkenazim que odeiam sefaradim, e vice-versa. Temos ativistas anti-exército que servem ao exército. E aqueles que não servem. Temos ultra-nacionalistas que não servem ao exército, e aqueles que servem com distinção. Temos judeus, temos árabes (mais de 20%) e cristãos também. Temos negacionistas (que reescrevem a história de Israel esquecendo dos palestinos que estavam aqui) e temos os radicais de esquerda, que querem o retorno de toda e qualquer vila palestina, anteriores a 1947. Temos idiotas que não fazem coisa nenhuma, e aqueles que falam demais. Temos gênios que servem à humanidade, e gênios que ficam em casa reclamando.

Fora os judeus da diáspora. Alguns pró-Israel, outros contra. Muitos nunca estiveram aqui, outros têm família e vem sempre. Alguns em alto cargo no governo de seus países, alguns com influência por outros meios, mas cada qual com uma opinião a respeito do que deve ser feito.

E isso, só hoje, porque ontem era outra história. Uma história de um conflito que tem mais de 200 anos. Cada dia diferente. Já houve palestino pró imigração judaica. Já houve palestino anti-colonização inglesa. Já houve palestino pró-colonização inglesa, e contra os Otomanos (que também, mataram gente barbaridade). Já houve inglês contra francês por disputa territorial, sem sequer consultar a população local. Houve os curdos, que quase conseguiram seu Estado depois da Primeira Guerra Mundial. E as famílias judaicas centenárias, que foram massacradas em pogroms constantes. E vilas palestinas, que foram atacadas constantemente por colonos da 2a e 3a aliah. E palestinos que apoiavam a criação do estado de Israel, e palestinos que fizeram de tudo para sabotar. E os egípcios eram ora contra, ora a favor de Israel. E houve o Rei Hussein da Jordânia, que atacou Jerusalém, e depois ficou amigo do então General Ytzhak Rabin. E armênios que se refugiaram na Terra Santa na Primeira Guerra Mundial, e estão aqui até hoje. Alguns pró-Israel, outros pró-Palestina.

Não se explica um conflito desses em poucas linhas. Suspeite de qualquer um que tente fazê-lo.

* Gabriel Paciornik é curitibano, casado e vive em Israel há 17 anos.

Comentários    ( 10 )

10 comentários para “Passando a limpo”

  • iara leventhal

    19/07/2014 at 20:52

    só uma brincadeirinha….. acho que a culpa de tudo isso é desse moço aí da foto!!!! hahahaha

  • Marcelo Starec

    19/07/2014 at 23:58

    Oi Gabriel,

    Concordo contigo que esse conflito é complicado de entender. Vou além e considero que qualquer conflito é, mas esse está mais próximo e por isso tentamos, desesperadamente, compreender e de boa fé a maioria de nós procura encontrar uma solução, que satisfaça a todos os lados e leve à paz. Entendo que, no final, é irrelevante discutir a fundo uma série de questões para se chegar à solução. Nesse sentido, creio que há que se olhar para a frente e não para trás, como normalmente se faz para tentar entender o que acontece. Os europeus, por exemplo, se mataram por muitos anos e numa intensidade enorme, até encontrarem uma fórmula que levou a paz – não interessa quem tem razão, quem está certo, mas encontrar uma solução. E essa tem de ter como principio a não aceitação do terrorismo e da intolerância (como expresso no Estatuto do Hamas, por exemplo), o pleno reconhecimento do direito à existência de Israel como um Estado Judeu e Democrático (Pois não adianta reconhecer Israel, mas ao mesmo tempo querer enfiar alguns milhões de “refugiados”, o que levaria a mais um estado islâmico na região e não a um estado para a auto-determinação dos judeus!) e de todos os demais estados e povos etc. Enfim, partir de alguns princípios básicos não negociáveis e aceitos e então buscar uma solução que possa ser viável para todos, pois ficar discutindo as origens do conflito ou quem tem razão pode ser necessário e muito interessante, em termos acadêmicos, mas jamais será o caminho para se encontrar uma solução para esse ou qualquer outro conflito.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Alex

    20/07/2014 at 00:10

    Gabriel, você descreve uma multiplicidade de conflitos, em épocas diferentes, inter-relacionados, mas que apresentados desta forma esconde o que, a meu ver, é a raíz do conflito.
    Os judeus querem, e conquistaram um Estado Judeu depois de mais de 2000anos de discriminações e perseguições; e os Árabes (não apenas os Palestinos) não aceitam a existencia de um Estado Judeu na região.
    Parece simples demais, e é.
    Todos os conflitos na região desde a fundação de Israel são consequencia deste “conflito-mãe”.
    Lamento que a imprensa em geral, e os comentaristas, não deem mais destaque a este fato.
    Discutir a intensidade das respostas militares de Israel é uma hipocrisia. Que outro país que é atacado é questionado sobre a intensidade da sua resposta?? Porque só Israel??
    Aceitar a agressão do Hamas (e de outros grupos) e criticar as respostas de Israel, é uma forma de deslegitimar a existencia de Israel. “”Eles tem direito de atacar porque nós nem temos o direito de estar lá”
    O apoio da opinião pública ao Hamas, é na minha visão, mais uma manifestação do anti-semitismo milenar. A diferença é que agora os judeus se defendem, e isto desagrada.
    A paz virá quando os Árabes aceitarem a existencia de Israel, ensinando isto para suas crianças, prendendo os seus radicais.
    Sou contra os assentamentos e a contra os atos dos radicais de Israel tambem. So que neste caso a polícia prende e vão a julgamento.

    • Thiago V. dos Santos

      29/07/2014 at 07:04

      Alex,

      Eu realmente gostaria de tentar expressar a minha opinião de outra forma, mas não consigo: os seus argumentos parecem ser propaganda pro-judaísmo.

      A pergunta que eu gostaria de fazer é a seguinte: porque apenas os judeus ganharam um território formal numa terra que é sagrada para tanto judeus quanto palestinos?

      Acredito que a comoção mundial pós-guerra ajudou no estabelecimento desse território, o que eu considero justo após, como você citou, séculos (ou milênios) de anti-semitismo que culminaram no extermínio de milhões.

      Não discuto a criação de Israel em si, mas critico a criação de Israel apenas e não também de um estado palestino. Como mencionei anteriormente, a criação de apenas um estado em uma região que é sagrada para dois povos, e a inibição da presença de outro estado são combustível esperado para intolerância e guerra de dois povos que já conviveram harmoniosamente no mesmo território.

    • Alex Strum

      29/07/2014 at 15:12

      Thiago, caso não tenha ficado claro vou deixar claro: sou inteiramente a favor da criação do Estado Palestino. Só acho que esta criação tem que se dar em condição de segurança para Israel.
      Você avalizaria a ocupação da casa vizinha por alguem que declara a quem quiser ouvir que pretende te destruir? Não precisa responder.
      Tenho plena consciência que a maioria dos palestinos não querem destruir Israel mas, infelizmente, eles não conseguem se sobrepor à minoria que quer e demonstra isto.
      Pegando o meu exemplo acima, voce pode querer conviver com boa parte da família que quer se mudar para ser seu vizinho mas alguns membros desta família, os que querem te destruir, dominam a casa, e o pior, com apoio de amigos que nem vizinhos seus são.

    • Claudio Daylac

      30/07/2014 at 11:42

      Olá, Thiago

      Não foram apenas que os judeus que ganharam um território formal nesta terra.
      O Plano de Partilha de Palestina, aprovado pela ONU em 1947, previa um Estado judeu ao lado de um Estado árabe.

      Infelizmente, a liderança árabe à época rejeitou a partilha, que poderia ter dado fim ao conflito há 67 anos atrás.

      Gostaria de enfatizar que o direito dos judeus ao seu Estado não provém únicamente fo Holocausto, mas sim do princípio da autodeterminação dos povos.

      Um abraço.

  • Mario S Nusbaum

    20/07/2014 at 17:38

    Gabriel,
    Você cita FATOS, e por isso não há muito o que comentar. De um modo geral, concordo com praticamente tudo o que o Marcelo e o Alex disseram, mas vou acrescentar alguma opiniões.

    “– não interessa quem tem razão, quem está certo, mas encontrar uma solução”
    Claro
    ” E essa tem de ter como principio a não aceitação do terrorismo e da intolerância (como expresso no Estatuto do Hamas, por exemplo), o pleno reconhecimento do direito à existência de Israel como um Estado Judeu e Democrático”
    Com as fronteiras de 67 ligeiramente ajustadas: grandes assentamentos trocados por terras de maioria árabe, mas dando-se a opção para eles de continuarem em Israel.

    “e os Árabes (não apenas os Palestinos) não aceitam a existencia de um Estado Judeu na região.”
    Não sei não Alex, vendo de fora acho que já foi muito pior. A impressão que tenho é que a grande maioria dos governos árabe está de saco cheio dos palestinos. Bem ou mal Israel convive com Jordânia e Egito, a Síria tem mais com o que se preocupar, o Líbano sabe o preço a pagar por apoiar terroristas anti-Israel. Na minha opinião eles todos só não mandam os palestinos para a pqop porque passaram 60 anos doutrinando o povo e agora é praticamente impossível dizer, de uma hora para outra que seus amiguinhos é que são os radicais, não Israel.

    • Alex Strum

      21/07/2014 at 16:55

      Mario, Procuro separar aspectos conjunturais do que eu chamo de raíz do problema.
      De fato hoje há convivência pacífica com o Egito, a Jordania e outros países da região. Mas as populações destes países continuam, na maioria, não querendo a existência de Israel. Isto é demonstrado pela educação que dão às suas crianças, à reação que manifestam a cada atentado contra Israel, etc. Lembro de ter lido a não muito tempo que foi feita uma pesquisa de opinião na região e mais de 50% eram contra a existencia de Israel.
      A importancia deste fato é que isto avaliza ações terroristas contra Israel. Hoje o motivo/pretexto é a ocupação da Cisjordania. Se Israel desocupar, o pretexto será outro. O limite será, na minha opinião, ou a criação de um Estado binacional com o fim do sonho sionista, ou, a lenta conversão dos povos árabes (não só os governos) a aceitarem a convivencia com Israel Judaico. Este é o conflito de fundo.
      É verdade que este conflito é sobreposto por outro: radicais x moderados, de parte a parte.
      A diferença é que Israel é uma democracia e os radicais estão sujeitos às leis e nos países árabes os radicais tem a força militar e não dão bola para as instituições.
      Essa história ainda vai demorar muito, infelizmente.

  • Kolling

    24/07/2014 at 01:38

    Aprendo muito contigo – Obrigado, Gabriel!!!

  • Rodrigo

    10/09/2015 at 05:58

    Texto bom demais… de vez em quando, topo com ele.. hoje, 2 anos depois de ler ele pela primeira vez, o encontrei novamente qdo buscava pelos últimos conflitos com os druzos no Golan..

Você é humano? *