A minha paz e a sua guerra

30/10/2013 | Conflito; Opinião; Sociedade

Conversas com meus amigos de infância no Brasil, mais precisamente em Porto Alegre, em minha última passagem por lá, me inspiraram a pesquisar um pouco sobre um assunto que invariavelmente vem à tona tanto em Israel, quanto no Brasil: a segurança. Ou a falta dela. O fato de meus amigos brasileiros viverem uma vida de medos e incertezas, criou em mim um desejo de traçar alguns paralelos, fazer algumas comparações e chegar a algumas conclusões. Veja se você se identifica com algum dos exemplos;

No Brasil, os caixas eletrônicos estão sempre localizados em ambientes fechados, altamente protegidos por câmeras de segurança e se encontram, preferencialmente, em lugares “seguros”. Em Israel, os caixas eletrônicos estão localizados na parte interna e externa dos bancos, abertos e expostos durante as 24 horas do dia.

Em Israel, sair de casa a qualquer hora do dia ou da noite, não é um dilema. Não está sujeito a análise. Aqui, se eu preciso sair de casa as 3 da manhã, seja de carro ou a pé, eu saio e a minha consciência é tranquila. Não penso no fato de estar saindo as 3 horas da manhã para ir ao mercado comprar um suco. Eu simplesmente abro a porta e saio. Nas grandes cidades do Brasil, de modo geral, toda e qualquer saída após as 22 horas está sujeita a uma real análise da necessidade da saída, do motivo da saída, da forma e dos meios. As pessoas saem porque precisam e não porque querem. Quem não precisa fica em casa porque é um pouco mais seguro.

No Brasil, os prédios e casas possuem grades, muros, câmeras de segurança, guarda ou porteiro e planos de segurança. Em Israel, grande parte dos prédios tem a porta aberta. Quem vem me visitar, bate direto na porta do meu apartamento, no quinto andar.

Em Israel, “sequestros” estão associados a fatores externos. Alguns soldados foram sequestrados por terroristas ao longo da história e alguns israelenses foram sequestrados pelo mundo. No Brasil, sequestro tem até adjetivo: “Relâmpago”.

No Brasil, a principal causa de morte entre os jovens é o homícidio (Viva SUS 2008-2009). Em Israel, entre as causas de mortes, sequer figuram porcentagens de violência e crime. No Brasil, entre os anos 2002 e 2010, houveram em média 30 mil assassinatos por ano. 82 pessoas assassinadas por dia. Em Israel, segundo o site knesset.gov.il, entre 2000 e 2006, morreram por assassinatos em Israel, em média, 120 pessoas. Uma pessoa a cada 3 dias.

Segundo dados do departamento de reabilitação dos presos em Israel, no ano de 2010 existiam cerca de 7 mil presos em cadeias do país (sem incluir presos terroristas), cerca de um preso para cada 1.100 moradores. Segundo dados do site ospba.org, no ano de 2012 existiam 548 mil presos no Brasil, cerca de 1 preso para cada 360 moradores.

Impossível falar de (in)segurança sem relativizar os dados e os fatos. Israel investiu, em 2010, 10% de seu PIB em segurança. O equivalente a 20 bilhões de dólares. Qual segurança? Toda, mas principalmente na que diz respeito a guerra e suas tecnologias, as quais ocupam, infelizmente, lugar de destaque na ordem das prioridades israelenses. O Brasil gastou, segundo o site do governo nacional, entre os anos de 2006 e 2010, uma média de 25 bilhões de dólares por ano em defesa e segurança, o que equivale a cerca de 1% do PIB.

A questão da segurança israelense não possui nenhuma relação direta com a insegurança brasileira. No entanto, os reflexos do altíssimo investimento feito por Israel em segurança possuem efeitos no dia-a-dia e no bem estar da população, apesar de não estar relacionado a número de policiais nas ruas nem a taxa de pobreza. O principal motivo de preocupação em Israel, e reparem que não digo insegurança, são os atentados terroristas ( diminuíram muito nos últimos anos) e os episódios do conflito Israel-Palestina. De 1950 até 2012, foram 2.822  pessoas mortas em atentados terroristas em Israel, uma triste média de 39 pessoas por ano. E 2.477 civis mortos nesta mesma época durante as guerras. Média de 32 por ano. Para quem vive aqui, números tristes, lamentáveis e desnecessários. Com a chegada da paz, que em breve virá, esses números entrarão para história. Para um brasileiro consciente, os números e as porcentagens israelenses devem ser um sonho.

Certamente o ser-humano possui a capacidade de adequar-se a distintas situações. Rapidamente, nos acostumamos a analisar as redondezas do prédio antes de adentrá-lo, a viajar com as janelas do carro fechadas, consideramos algo normal e “legal” avançar o sinal vermelho na madrugada para evitar assaltos e vemos com naturalidade todas as artimanhas que realizamos para driblar momentos perigosos. Vivendo em Israel há 8 anos e visitando periodicamente o Brasil, eu me sinto confortável em afirmar: Não há nada de normal, natural ou de adequação razoável no dia a dia que um indivíduo deve encarar no Brasil. Trata-se de uma guerra não declarada e muito perigosa. Se você não vem a Israel porque pensa que o país vive uma guerra interminável, saiba que você é apenas mais um daqueles que esqueceu de olhar pela sua janela e observar o que está ao seu redor. E acredite: você já não sabe mais qual é o significado de “paz”.

Comentários    ( 11 )

11 Responses to “A minha paz e a sua guerra”

  • Zaida Farias Dos Santos

    30/10/2013 at 17:04

    Com certeza o sistema de segurança do Brasil deixa a desejar.Estamos de certa forma acostumados a lidar com vizinhos malfeitores.Já se tornou cultura no Brasil.Precisamos de mudanças em todos os setores.Quanto a Israel mesmo que não moramos lá mais gostamos de ver a luta vitoriosa pela segurança. Oramos por Shalon!

  • Roberto Miglioli

    30/10/2013 at 17:12

    Israel, cercado por inimigos, é mais seguro do que o Brasil. Falo sério.

  • Adriana Sabino

    30/10/2013 at 19:52

    Gostei da sua matéria, e a minha opinião é a mesma, até mesmo porque já estive em Israel a passeio e me senti segura.

    Abraços.

  • Raul Gottlieb

    31/10/2013 at 15:41

    Caro Bernardo,

    Muito obrigado por teu texto e por tuas brilhantes observações.

    Muitos pais relutam em “deixar” os filhos ir ao Shnat por medo da insegurança, sem atentar para o fato que eles terão com certeza o ano mais seguro de suas vidas.

    Colegas de trabalho que moram a uma quadra do morro do Pavão arregalam os olhos e te perguntam: “é seguro a tua filha morar em Israel?”.

    O brasileiro ainda não percebeu que é um povo violento e convictamente não respeitador das mais comezinhas normas da civilidade. Que é agressivo, mesmo falando mansamente e gostando dos poemas de Vinicius.

    É verdade que Israel tem na paisagem a brutalidade de uma incessante guerra existencial. Mas ela está contida, o que permite o desenvolvimento de uma sociedade admiravelmente bem organizada.

    Valeu pelo texto!
    Raul

  • Mario Silvio

    01/11/2013 at 01:09

    “O brasileiro ainda não percebeu que é um povo violento e convictamente não respeitador das mais comezinhas normas da civilidade.”
    Talvez HOJE seja Raul, mas qualquer povo seria se vivesse em um ambiente de (quase) total impunidade. Claro que ninguém é imbecil o suficiente para testar essa tese, mas a mim parece óbvio que no Brasil prevalece a lei da selva porque nossas leis, mais do que quaisquer outras, beneficiam os criminosos,

    Perguntas para o Bernardo:
    Qual é a pena em Israel para alguém que aos 17 anos assassina alguém?

    Qual é a pena em Israel para alguém que aos 11 anos assassina alguém?

    O que acontece em Israel para quem assassina alguém atirando pelas costas sem que não haja nenhuma dúvida?

    Em resumo é o seguinte: se quem mata é condenado a prisão perpétua, poucos matarão, se a pena for 30 anos de cadeia, alguns a mais, mas se nada acontecer, muitíssimos mais.

  • Paulinho

    01/11/2013 at 05:06

    Impunidade não é a palavra que eu usaria para o país que tem mais de 500.000 presos, a quarta maior população carcerária do mundo.
    A questão da violência é muito mais profunda, certamente.

    Excelente texto Beg! Uma correção apenas, atualmente morrem mais de 50.000 pessoas no Brasil por homicídio. Esses números superam diversos países em guerra.

    Mas eu não concordo 100% com o texto. Acho que ambos estão em guerra. A questão é que a guerra do Brasil é interna e a de Israel é externa. O conflito com Gaza ano passado, da “Operação Pilar Defensivo” só acontece em um país que não está em paz. Torço para que os acordos avancem, mas não sou tão otimista.

    Obrigado pelo texto e pelas reflexões.
    Forte abraço,
    Paulinho

    • Mario Silvio

      01/11/2013 at 18:02

      “O sociólogo Waiselfisz estima que em apenas 8% dos casos de homicídio o assassino acaba condenado.
      “Mas é um cálculo conservador, porque eu sei que o Ministério da Justiça estima que são 5%. E, com a interiorização dos crimes, que estão em cidades com menos estrutura de investigação, é possível que isso tenha diminuído”, afirmou o sociólogo.”
      Que nome você dá a isso Paulinho?

      Outras fontes corroboram os 5%:

      Para o jurista e ex-promotor de Justiça Luiz Flávio Gomes, o esforço do Ministério Público para resolver os inquéritos inconclusos é louvável, mas os números evidenciam o sentimento de impunidade no país.

      —Temos uma média de 5% de resolução Para o jurista e ex-promotor de Justiça Luiz Flávio Gomes, o esforço do Ministério Público para resolver os inquéritos inconclusos é louvável, mas os números evidenciam o sentimento de impunidade no país.

      “Dados do MP mostram que entre setembro de 2012 a agosto de 2013, mesmo período dos números divulgados pela Polícia Civil, foram recebidos 2.071 inquéritos por crimes contra a vida em Porto Alegre. Desses, apenas 489 viraram processos criminais e 106 resultaram em condenação. Já em Canoas, na Região Metropolitana, foram 9.888 inquéritos recebidos neste período, onde 1.110 deles viraram processos e 249 terminaram com condenações.

  • Mario Silvio

    01/11/2013 at 18:09

    “Não há nada de normal, natural ou de adequação razoável no dia a dia que um indivíduo deve encarar no Brasil. Trata-se de uma guerra não declarada e muito perigosa. ”
    E uma guerra em que um dos lados não está lutando. O Paulinho disse que o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, o que não quer dizer muita coisa.
    Na classificação que tem significado, a de presos em relação à população estamos no 47º lugar, Cuba no 6º, Russia no 10º

  • Paulinho

    01/11/2013 at 20:54

    Certamente tem muito crime no qual não há ninguém punido. Não só de assassinato. Quantos são punidos por desviar dinheiro público?
    A questão é que se escolhe uma parte da população específica para prender. O preso no Brasil tem cor e classe social.
    Não se resolve a violência enchendo cadeias (nem deixando de punir), mas melhorando as condições da população. Nem sempre o mais fácil é o melhor.

  • Raul Gottlieb

    04/11/2013 at 03:14

    Paulinho,

    Há uma contradição em seu último comentário:

    Você pensa que se diminui a violência “melhorando as condições da população”. Ou seja, você diz que a violência aumenta quando a situação da população piora.

    Nesta caso, é natural que a maioria da população carcerária do Brasil seja composta por membros das camadas mais pobres da população, não é mesmo?

    Logo a sua prisão não é uma questão de escolha arbitrária e sim o resultado direto da equação: “piores condições = mais crimes”.

    Não consigo concordar com isto. Eu acredito que os crimes acontecem por conta de (i) ausência de valores, (ii) ausência de polícia e (iii) ausência de justiça. A meu ver a pobreza tem um peso mínimo na criminalidade.

    NY era uma das cidades mais violentas do mundo e conseguiu reverter esta situação com a política da tolerância zero ao crime e à corrupção. As condições da população não melhoraram e o crime caiu.

    Pense nisso,
    Abraço, Raul