Pe Djora

19/06/2014 | Conflito; Opinião

São nos momentos difíceis que vemos o melhor e o pior das pessoas. Este artigo é sobre o pior. Existe uma lindíssima expressão em Israel, metade em hebraico, metade em árabe: Pe Djora (פה ג’ורה). Significa literalmente “boca de esgoto”. É o equivalente ao “boca suja” em português, só que muito mais contundente e poético.

O sequestro dos três garotos judeus no dia 12 de Junho suscitou comentários de todos os tipos, boa parte deles absurdos, ofensivos e desnecessários. Não quero dar voz aos malucos solitários por aí, estes existem aos montes, em todo lugar, inclusive — principalmente — em Israel. Os comentários que trago abaixo são aqueles amplamente divulgados pela mídia e redes sociais, e que ganharam certa tração em alguns setores da sociedade. Apertem os cintos.

Os sequestradores não são terroristas

A parlamentar Chanin Zohabi, do partido árabe Bal’ad, declarou que os sequestradores dos garotos “não são terroristas, são pessoas que não veem nenhuma possibilidade de mudar sua realidade, e são obrigados a fazer uso destes meios, até que Israel acorde e veja o sofrimento, até que sinta o sofrimento do outro.” Esta não é uma justificativa nova ao terrorismo, mas sempre que volta à tona traz consigo seu cheiro pútrido.

Zohabi voltou a ser o saco de pancadas nacional, e merecidamente. Ela foi passageira no infame navio Mármara da flotilha de Gaza, e depois barrada de se candidatar às eleições de 2013 pela comissão eleitoral da Knesset, decisão que acabou sendo revertida pelo Supremo Tribunal por ser inconstitucional. Muitos parlamentares já se manifestaram a favor de se investigar se seus comentários constituem incitação ao terrorismo.

A culpa é dos garotos

O raciocínio é o seguinte: quem é que pega carona na estrada às 22h30 no meio dos territórios ocupados?! Fazê-lo é “pedir” pra que algo assim aconteça.

A transferência da culpa do sequestro aos garotos sequestrados é absurda e preocupante. O jornalista do YNET Raanan Shaked tuitou: “Nestes momentos, o coração de todo pai em Israel diz a mesma coisa: Fuck, estes porras-loca levaram seus filhos para morar nos territórios!” A reação foi instantânea e explosiva, e Raanan acabou apagando o tuite. Um outro escreveu em seu wall no facebook: “Estou puto que tem gente burra que acha que pode pegar carona às dez e meia da noite na porra dos territórios porque “Deus vai cuidar de nós”, então por favor, que Deus cuide deles. Por que todo o país tem que sair correndo atrás de um bando de imbecis que moram no exterior?”

A direita foi à loucura, e com razão. Aliás, não só a direita, mas gente de todo o espectro político. Deve-se dizer que são poucos os que escreveram por aí esse tipo de opinião, mas pelo que pude ver, alguns conhecidos meus no facebook ouviram coisas parecidas, só que de pessoas que não foram imprudentes de deixar registrado na internet.

Falando de imprudência, a culpa do sequestro passa longe dos jovens sequestrados, mas é legítimo dizer que foram extremamente imprudentes, na minha opinião. Eu jamais faria o que eles fizeram, e se algum familiar meu o fizesse eu ficaria maluco de preocupação. Tive uma longa discussão com meus companheiros do Conexão Israel sobre culpa, responsabilidade e prudência, acabamos falando dos filósofos e da estrutura do espaço-tempo (esta última por culpa minha). Acabei persuadido de que no caso dos garotos a palavra certa é imprudência.

Aproveito para dizer que creio que os assentamentos israelenses na Cisjordânia são um obstáculo à paz, e que os sequestrados e seus familiares não deveriam morar ali em primeiro lugar. Por outro lado, foi com apoio do governo israelense das últimas 4 décadas que eles chegaram ali, então quem é culpado? O “governo”? A “ocupação”? Os “messiânicos”? (Sim, os terroristas, eu sei. Mais alguém?)

O comediante israelense Tomer Sharon (Tomash) resume o caso, relacionando a transferência da culpa aos sequestrados com o que se diz a respeito de estupro, eu seu tuite: “ ‘Não peguem carona’ é o novo ‘garota, não use roupa provocante’ “.

Meter porrada em todos os palestinos e pronto

Os trogloditas nunca decepcionam. Sempre pode-se contar com eles para as sugestões mais horrendas, declamadas com uma naturalidade ímpar. “Vamos executar um prisioneiro palestino por dia até que os meninos sejam soltos”. Vi publicações que seguiam o mesmo nível: “risquemos Gaza do mapa”.

“Retornemos à ética de guerra judaica: Quer me matar – irá morrer! Comecemos a executar um terrorista por hora.”
Não é necessário interromper o fornecimento de água e eletricidade. Nós precisamos colocá-los na água com eletricidade.
Não precisa cortar-lhes o fornecimento de água e eletricidade. Precisa sim colocá-los na água com eletricidade.

Quantos são os israelenses que reagem desta forma? Não muitos. Certamente trata-se de uma minoria desprezível, e muito barulhenta.

A esposa de Abu Mazen foi operada em um hospital israelense alguns dias atrás. Os comentários dos leitores nos sites de notícias? Um melhor que o outro. Parece que deter a velhinha como refém era uma das opções favoritas.

Punições coletivas de todo tipo foram lançadas ao ar, nenhuma ideia nova, pois este pessoal já está imaginando a respeito há muito tempo.

Seria de se pensar que estas escórias humanas preferissem dizê-lo em anonimato, mas o contrário é a verdade. Eles estão por toda parte, são conhecidos meus, e teus também, com certeza. Para encontrá-los, basta visitar a página do facebook de alguns dos ídolos desses caras (quase sempre homens), como o ministro de defesa Moshe ‘Bugi’ Ayalon e da colorida parlamentar Miri Regev.

Campanha de desinformação

O conflito é complexo, não ache que entendeu tudo porque viu uma foto de árabes comendo docinhos em comemoração ao sequestro, publicada em um dos jornaizinhos que se encontra por aí.

Foto divulgada em redes com o lamentável título "palestinos comemoram o sequestro de três adolescentes"
Foto divulgada em jornais e redes sociais com o título “palestinos comemoram o sequestro de três adolescentes”

Como um jornal pode sentir-se confortável em publicar uma foto com este título? É um ato de imensa irresponsabilidade atribuir a “todos os palestinos” a comemoração pelo sequestro. Um pouco acima, mostrei algumas reações deprimentes do lado israelense ao sequestro dos três adolescentes. A parcela da sociedade palestina que comemorou o sequestro era maior ou menor que a parcela israelense que deseja eletrocutar toda uma sociedade?

Alguns jornais e blogs chegaram a publicar fotos de uma suposta camapnha com a “saudação dos três dedos” em que crianças palestinas participavam da comemoração no sequestro dos três adolescentes israelenses.

A jornalista israelense Sheera Frenkel do Jornal Online BuzzFeed escreveu o artigo entitulado “Um palestino acorda e encontra suas inocentes fotos do Facebook usadas como símbolo de uma campanha de ódio anti-israel”.

Ela conta a história de um jovem palestino chamado Mohammed AlQadi que foi surpreendido ao ver sua foto estampada no portal israelense Walla. Ele havia recebido mensagens iradas de amigos israelenses no Facebook, que queriam saber como alguém como ele estava apoiando o terrorismo. A jornalista israelense conta que AlQadi mora na França, estuda culinária e é um militante pacifista.

“Eu não tinha idéia do que eles estavam falando”, disse AlQadi ao BuzzFeed por telefone de sua casa em Lyon. “Descobri a minha foto sendo usada em algo que eu não tive o menor envolvimento”.

A agência de notícias israelense Walla postou foto de AlQadi em destaque em seu site, junto com um artigo que provocou centenas de comentários irados dos usuários israelenses, indignados que os palestinos estariam apoiando o sequestro de três adolescentes israelenses.

israel - conexaoisrael - alqadis
Foto do pacifista Mohammed AlQadi publicada em jornal israelense de forma indevida, como simbolo de uma campanha de ódio anti-israel

AlQadi  havia postado a foto no ano passado, em apoio ao vencedor do programa de televisão conhecido como “Arab Idol”, que no show foi identificado como “concorrente número três”.

“Se você olhar para as páginas do Facebook de palestinos, há dezenas, até centenas de nós fazendo o sinal de três para apoiar o cantor. Ele era o participante mais popular do programa“, disse AlQadi. Ele escreveu para o site do Walla e exigiu que as fotos fossem removidas imediatamente — pedido que foi acatado pelo jornal depois de várias horas.

AlQadi ainda completa: -“Eu sei que há palestinos que ficam felizes quando essas coisas horríveis acontecem aos israelenses. Mas eu não acredito em violência. A violência só traz mais violência. É horrível acordar e ter sua foto associada a este tipo de coisa.”

Infelizmente a campanha dos três dedos é real, e embora muitos tenham sido envolvidos no caso sem saber, outros imbecis o fazem por livre e espontânea vontade. Albert Einstein já disse: “duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana; e eu não tenho certeza sobre o universo”.

Onde quero chegar?

Fiquei um tanto deprimido depois de escrever as linhas acima. A pesquisa por fontes não foi especialmente prazerosa, como costuma ser em outros artigos. Gostaria de passar ao leitor as seguintes mensagens.

Primeiramente, que o silêncio é de ouro. Já há vários anos que sabemos que tudo o que se diz na internet não some, fica conosco para sempre. Quer opinar? Fica à vontade, mas aguenta o tranco.

Em segundo lugar, que em Israel também temos idiotas aos montes. Surpreendo-me a cada vez em aprender o que certos judeus querem fazer a outros judeus e a membros de outros povos.

Finalmente, no caso dos três garotos sequestrados, cada um vê o que quer. (Aliás, não é sempre assim?) Um cego apalpa a tromba do elefante e diz que é uma cobra, o outro cego apalpa a perna e diz que é um tronco de árvore.

Para uns, o sequestro seria a prova de que devemos nos retirar dos territórios, para outros, é a certeza de que devemos mantê-los para todo sempre; alguns dizem que os palestinos são todos terroristas, outros que cada pessoa é unicamente especial; há aqueles que dizem que condições difíceis levam pessoas ao terrorismo e aqueles que dizem que cada um escolhe para si o destino que quer.

Para terminar: cuidado com as suas fontes; confirme a informação antes de compartilhar qualquer conteúdo que você recebe; respire antes de destilar o seu ódio. Você é o único responsável pela decisão de transformar a sua boca em “Pe Djora” e a sua escrita em uma ferramenta do ódio pelo ódio.


Gostaria de agradecer ao Marcelão Treisman, que contribuiu com a escrita deste texto, não deixem de ler seu artigo de opinião também publicado hoje.

Fontes (em hebraico)
הפייסבוק סוער סביב פרשת החטופים: מי אשם?
סערה בכנסת בעקבות דברי זועבי
Facebook de Moshe ‘Bugi’ Ayalon
Facebook de Miri Regev
ויקימילון: ג’ורה
Buzzfeed de Sheera frenkel (inglês)

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Pe Djora”

  • Mario S Nusbaum

    19/06/2014 at 16:51

    ” barrada de se candidatar às eleições de 2013 pela comissão eleitoral da Knesset, decisão que acabou sendo revertida pelo Supremo Tribunal por ser inconstitucional.” Dúvida: a lei israelense dá o direito de agir contra o país ?????? Parlamentares podem fazer apologia ao crime ??????????? Se dá, deve ser caso único no mundo.

    “A transferência da culpa do sequestro aos garotos sequestrados é absurda e preocupante”
    Concordo em 100%, mas….
    “:” quem é que pega carona na estrada às 22h30 no meio dos territórios ocupados?! Fazê-lo é “pedir” pra que algo assim aconteça.”.
    Quem mora no Brasil entende perfeitamente essa posição. Imagine uma jovem bonita passeando em uma Mercedes pela periferia do Rio ou SP a meia-noite. VAI acontecer algo muito grave com ela, é pura estatística,
    ” Acabei persuadido de que no caso dos garotos a palavra certa é imprudência.”
    Exato, e extrema.

    Sempre fui e continuo sendo contra os assentamentos, mas achar que sem eles haveria paz é absurdo, é ignorar a História do conflito.

    “Meter porrada em todos os palestinos e pronto”
    Não sei o que os defensores dessa tese querem dizer com meter porrada, mas acho que Israel tem que deixar muito claro que apoiar, abrigar e homenagear terroristas tem um preço. Você discorda? Grupos terroristas dependem do apoio da população local, sem isso não sobrevivem;

    ” A parcela da sociedade palestina que comemorou o sequestro era maior ou menor que a parcela israelense que deseja eletrocutar toda uma sociedade?”
    Não sei, você sabe? Mas uma coisa eu sei, praticamente NINGUÉM na sociedade palestina condenou o sequestro enquanto você e muitos outros israelenses condenam as OPINIÕES radicais do nosso lado.
    De novo: em Israel condena-se PALAVRAS, os palestinos NÃO condenam CRIMES. Percebe a diferença. A tempo: por favor não fale na condenação do Abbas quatro dias depois do sequestro.
    Se eu estiver errado Yair, peço que me indique blogs palestinos condenando EXPLICITAMENTE os animais responsáveis por mais esta barbaridade.

    Um abraço, e não esqueça, podemos não gostar, mas o mal existe. Seria muito fácil falar em Hitler, por isso vou citar Pol Pot.

    • Yair Mau

      20/06/2014 at 03:33

      Mario, o titulo “dar porrada” fui eu que dei. A ideia é simples: punição coletiva é errada. Generalizar dizendo que todos os palestinos são terroristas, ou que todos apoiam o terror, ou que todos os abrigam em suas casas é cometer uma injustiça, pois não é verdade. Alguns palestinos acham que todos os israelenses são racistas e truculentos. Existem vários assim, é verdade, mas todos não, longe disso. Os dois lados do conflito mal se conhecem, só pela midia enviesada dos dois lados. O texto do Amir sobre o curso que fez em Roma fala bem sobre isso.

      Não conheço a blogosfera palestina, nem falo árabe. O que posso supor é que um palestino médio tem menos segurança de meter a boca no trombone contra o Hamas por medo de represálias. O menino árabe de Nazaré que se fez o video em favor de Israel foi ameaçado de morte, então imagina como deve ser fora de Israel, nos territórios.

    • Mario S Nusbaum

      20/06/2014 at 17:23

      “Generalizar dizendo que todos os palestinos são terroristas, ou que todos apoiam o terror, ou que todos os abrigam em suas casas é cometer uma injustiça, pois não é verdade. ”
      Nisso estamos 100% de acordo Yair
      ” um palestino médio tem menos segurança de meter a boca no trombone contra o Hamas por medo de represálias.”
      Nisso também

  • Raul Gottlieb

    20/06/2014 at 15:17

    Muito bom o texto, Yair, principalmente pela oportunidade.

    Mas note que quando a legenda da foto diz “Palestinos comemoram…” ela não está afirmando que todos os Palestinos comemoraram o sequestro e sim apenas aqueles 3 sorridentes da foto.

    Não posso afirmar que a foto é legítima e que ela tem referência a uma comemoração pelo sequestro, mesmo sendo isto coerente com o mood da rua Palestina.

    Abraço, Raul

  • Marcelo Korn

    23/06/2014 at 12:50

    Excelente texto Yair…..

    Gostei mt, parabens por conseguir em algumas palavras explicar a deturpacao de informacao por parte dos dois lados…