Pé na estrada

Paradoxalmente, agosto é hora de fugir e de correr atrás do sol, de encarar cidades vazias e estradas cheias e de, principalmente, aproveitar o segundo mês de férias escolares trazendo marmita de casa.

Agosto está aí. O mês mais quente do ano e o mais longo também: é o segundo mês de férias escolares, no qual quem tem juízo fica em casa (para fugir do sol escaldante) para logo o perder (com as crianças dentro de casa). Mês cheio de atividades culturais pelas cidades, em que se programa o dia a partir das 7 da noite (com exceção de praias e piscinas), quando o sol começa a se pôr. Mês sem festas judaicas, com menos trânsito caótico, com mais filas no aeroporto e trânsito nas estradas.

Para mim, é hora de correr para as montanhas do norte, em busca de água e noites frescas.

Muitos amigos meus, brasileiros, não acreditam, mas Israel é uma meca do turismo, e seria ainda mais caso os hotéis não fossem tão estupidamente caros. Estradas incríveis, boa sinalização, muitas opções diferentes de hospedagem – incluindo camping1. Sim, Israel é a meca das barracas, seja pelo amor do israelense pela natureza e pelos espaços abertos, seja pelo custo reduzido da estadia. Reduzido, mas não barato: pernoitar em um camping custa entre 50 e 80 reais em média. Em uma família de cinco pessoas, a média nacional, já começa valendo quase o preço de uma pousada no litoral norte de São Paulo. “Salgadinho”, convenhamos, ainda mais  considerando a infeliz convivência com os mosquitos, os vizinhos barulhentos e o calor no mínimo intenso. Pelo menos dá para ter certeza de que não vai chover. Não chove e não choverá pelos próximo dois meses, pelo menos.

Digo pros meus amigos que aqui, no verão, vivemos a sensação do ator Bill Murray no filme O Dia da Marmota. Todo dia é igual. Você abre a janela e só vê o céu azul, sem nuvens. Não precisa nem pensar em que roupa vai usar, porque só há uma opção: ficar quase pelado.

Camping será nossa opção durante uma semana desse verão, mais uma vez. Somos seis em casa, então essa é a única alternativa viável para férias que não custe o valor de uma semana em Mônaco. Nunca achei que chegaria nesse momento da vida, em que me sinto pronta pra encarar uma barraca escaldante, inclusive porque já temos em casa tudo o que precisamos: barracas, sacos de dormir, acessórios para cozinhar. Até fogãozinho a gás. Eu e todo mundo, aliás. Mais caro do que enfrentar o camping seria optar por dias de piscina, em que se cobra entrada de 30 ou 40 reais por pessoa. Outro dia, vi uma reportagem na TV sobre o inacreditável custo de um dia de verão na piscina. Fiquei muito surpresa não só pelo preço, de fato absurdo, mas também pelo tema: em um país com tantos problemas em um mundo tão doido, fazer reportagem sobre o valor de um dia na piscina é meio irônico. Ou não?

Uma opção que muitas vezes salva a pátria de quem prefere um teto sobre a cabeça é o AirBnb, o tal site de aluguel de casas e quartos particulares. Não que seja barata, mas pelo menos não é inviável. Uso muito, aliás, e gosto especialmente de alugar casas que ficam dentro de kibutz ou moshav, pois é uma oportunidade de viver a “la israelense” – ainda hoje, para mim, Israel quer dizer kibutz (saudosista…) – por alguns dias. Gosto especialmente porque, via de regra, esse tipo de hospedagem nos dá a oportunidade de fazer caminhadas, que é outra mania nacional. Há poucos meses, levei meu pai, que estava por aqui em visita, para caminhar por uma trilha até Montfort, um castelo cruzado próximo a Naharya, cidade costeira quase encostada no Líbano. Foram várias as suas surpresas: a incrível área verde (“Israel não é um deserto?”), a trilha maravilhosa, bem-cuidada e bem-sinalizada, e o número de crianças que participava do mesmo passeio, apesar de seu razoável nível de dificuldade. Pois é, criancinhas israelenses botam o pé na trilha desde muito cedo. Acho isso o máximo, principalmente quando não sou atropelada por elas.

Outra coisa adorável do turismo israelense é a quantidade de paradas que existem à beira das estradas, com mesas e bancos de madeira. É o ápice da combinação infalível do israelense de: 1) trazer comida de casa; 2) comer ao ar livre. No verão, a gente vê isso com mais frequência por aqui, o que torna o israelense um tipo à parte. Na cidade velha de Jerusalém há, por exemplo, uma grande praça de alimentação, com restaurante e balcões de falafel. Engraçado ver que ali também se sentam aqueles que trazem a comida de casa (explicando em imagens a famosa “chutzpá”, cara de pau, local). Não o sanduíche e a aguinha apenas: em grandes embalagens plásticas, trazem carne, salada, humus, sobremesa e até a infalível garrafa térmica com café. Esse lance do café eu ainda não fiz, mas confesso que hei de adotar: dia desses, recebi de cortesia de uma família que fazia o mesmo passeio por uma trilha um simpático copo descartável com um cafezinho bem honesto. Achei um luxo. Coisas de verão israelense.


1 Para saber mais, dê uma olhadinha no link http://www.tiuli.com/camping_sites.asp (em hebraico).

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