Peace of Art, um esboço de caminho

*Por Thiago Zeitune

Há alguns dias, tive a indescritível sensação de me colocar diante da banca avaliadora da Faculdade de Design no HIT (Instituto Tecnológico de Holon) para apresentar meu projeto final de mestrado. Dentro da sala refrigerada, o calor de agosto não justificava o suor que escorria pelas minhas mãos. Ainda mais excitante do que o fim representado por concluir um passo importante na vida acadêmica, era o início de um projeto que julgava ser de enorme relevância para o contexto social israelense.

No último ano, sob supervisão do orientador, Dr. Eitan Machter, venho pesquisando o papel do ambiente virtual na criação de um diálogo de paz entre populações em situação de conflito. Isto é, como a internet e a interatividade podem contribuir para a reaproximação de grupos sociais geográfica e culturalmente segregados.

Hoje, a relação estabelecida entre israelenses e palestinos e entre a maioria de judeus e árabes é, no melhor dos casos, mediada por seus ״representantes״ nos diferentes atravanques políticos. Nas últimas décadas, as relações sociais e comerciais amistosas que judeus e palestinos costumavam manter foram praticamente extintas e a polarização sócio-política das populações árabe e judaica dentro de Israel é evidente. Uma criança nascida ou um imigrante chegado nos últimos 15 anos a essa região tiveram pouca ou nenhuma oportunidade de criar uma relação construtiva com quem é apresentado como “o outro lado”, ou “o inimigo”.

Dentro dessa realidade, encaramos o desafio de aproximar as comunidades e proporcioná-las a oportunidade de romper o ciclo vicioso do conflito. Sabíamos pela literatura que, na psique humana, uma situação de conflito é dividida em três fenômenos: racional (o que sabe-se sobre o conflito), emocional (a maneira como se experimenta o conflito) e comportamental (a postura prática adotada em relação a ele). Em um primeiro momento, ficou claro que convidar judeus e árabes para iniciar um simples diálogo virtual seria uma rua sem saída. Existe na rede uma extensa lista de exemplos de disseminação de ódio gerada a partir da abordagem do tema. Isso porque a postura extrema e dicotômica adotada dificilmente deixa espaço para que se crie algo de benéfico.

Portanto, chegamos a uma conclusão que começava a dar forma ao projeto. Era complexo mobilizar mentes e corações. Mas talvez fosse possível propor às pessoas que doassem as suas mãos por alguns minutos, judeus e árabes, israelenses e palestinos. Nos focamos em algo que os permitisse produzir coletivamente e que os conectasse enquanto criadores, escrevendo uma curta, porém renovada narrativa  entre os participantes. Adicionando a arte como componente final, nasceu o projeto “Peace of Art” (Paz/Obra de Arte).

 

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Comecei abrindo uma página no Facebook. Através dela, convidei amigos e perguntei entre eles quem teria amigos árabes e palestinos que pudessem se interessar em participar (eu mesmo não conhecia nenhum). Essa primeira etapa foi tão complicada que só reforçou a justificativa para querer ir em frente com o projeto.

A partir daí, convidei pares de usuários a produzir uma criação de arte simultânea em uma plataforma online. Ela funciona a partir de seus próprios computadores, em casa. Expliquei a proposta e ofereci um tema para cada criação, porém não os informei sobre pormenores do outro participante. Enquanto desenhavam, a interação entre os pincéis digitais era registrada em vídeo. A “obra de arte” gerada e seu processo criativo contavam a narrativa escrita nesta reunião virtual e suas nuances retratavam componentes do próprio conflito.

Desde que comecei o projeto, foram compostos 12 desenhos. A cada um, impressionava-me perceber como os sentimentos gerados pelo conflito surgiam em formas e cores diante da tela do computador. A pluralidade cultural e a maneira de interpretar o assunto proposto, a vergonha e a incerteza. A excitação, a hesitação e o êxito. Uma estranheza de saber que aquele que move o mouse do outro lado é rotulado como inimigo, mas colore com imenso cuidado a forma que a mão deste contorna. A epifania que faz cada um se questionar se há sentido em tudo que se passa a sua volta. Aquele momento em que você se pergunta “mas e se…?”.

Desde que iniciei o projeto, acredito que fui um dos que mais me beneficiei dele. Tive o prazer de conhecer personalidades inspiradoras, de diversas nacionalidades e origens, que aceitaram aventurar-se nesta experiência. Alguns deles tornaram-se amigos pessoais.

 

Thaana, uma jovem de Nazaré, me ajudou durante dias a traduzir os textos da página para o árabe. Ela, o marido e o filho estão devidamente convidados para um jantar conosco aqui, em Tel-Aviv. Dizem eles que vêm. Elisheva, uma judia francesa de Jerusalém, me ajudou a lapidar a proposta do projeto e divulgar as publicações da página. A estou devendo um café (e ela está cobrando). Rony, Shoroq, Fahad, Sofy, Or, Hasan e muitos outros. Vários se tornaram amigos meus, e entre si também, depois da participação no projeto.

Uma comunidade virtual está sendo construída perfil a perfil, desenho a desenho e já somam-se a ela mais de 3.500 pessoas que acreditam no seu direito de representar a si mesmas diante do conflito. Uma pequena e modesta história de colaboração está sendo desenhada num cantinho da imensa rede.

Links para o Projeto:

– Página no Facebook: www.facebook.com/peaceofartproject

– Canal do Youtube: http://www.youtube.com/channel/UCYq_wXzaWsSz6vJWiACigfA

 

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Peace of Art, um esboço de caminho”

  • Marcelo Starec

    15/09/2015 at 01:45

    Oi Thiago,

    Muito interessante!…Cada vez mais acredito que o diálogo e a paz é feita em primeiro lugar pelas pessoas e só muito depois por governos!…O que ocorre nos conflitos é uma visão do “outro” não como um ser humano, mas como alguém que sequer mereceria ser considerado como tal e por aí vai!…É justamente aproximando as pessoas, sem forçar mais do que seria possível em cada momento, sem falsidades e também sem se “anular” ´para dialogar, pode-se chegar a um resultado construtivo que, em algum momento, acabará por ser acompanhado pelos governos! Gostei !…

    Abraço,

    Marcelo.

    • Thiago

      19/09/2015 at 12:44

      Oi, Marcelo,

      obrigado pela crítica. Existem várias dessas iniciativas de aproximação surgindo pela rede e fortalecendo esse diálogo. Não podemos nos privar do dever de tentá-lo.

      Abraço,
      Thiago