Pedra firme, miolo mole

14/07/2014 | Conflito; Opinião

Chegou a hora de “cortar a grama”, de novo. Essa é a analogia feita por algumas pessoas quanto à necessidade de se realizar operações militares periódicas para conter o terror. Operações como a “Margem de Proteção” não são surpresa para os israelenses, são necessidades da vida, literalmente.

A imagem abaixo está circulando pelos blogues e redes sociais. Em tom irônico ela diz: “Vamos pegar o Hamas, e evitaremos totalmente que eles tenham capacidade de lançar foguetes! Isso funcionou perfeitamente na última vez!… Ah, peraí…” Abaixo da frase aparecem da direita para a esquerda diversas operações militares dos últimos 10 anos. A mais à esquerda é a atual operação “Tzuk Eitan”, que está sendo traduzida a outras línguas como “Margem de Proteção”, mas significa literalmente “penhasco forte”, ou “rocha forte”.

perai

O problema evidenciado pela imagem é que operações militares em Gaza não são soluções definitivas, a “grama” tem que ser periodicamente cortada.

Em sua campanha política para as eleições de 2009, Netanyahu disse que o governo de Tzipi Livni não foi longe o suficiente na operação Chumbo Fundido, e que ele como primeiro-ministro derrubaria o governo do Hamas. Nesta operação de 2014 ele aprendeu o que não sabia em 2009, e agora o objetivo é apenas devolver o silêncio à região por mais alguns meses e anos.

O que Netanyahu aprendeu? Que qualquer operação militar por parte de Israel que tenha como objetivo derrotar de vez o Hamas será mal-sucedida. Simplesmente não é possível matar ou prender todos os seus milhares de integrantes. Pelo menos, não sem que centenas de soldados israelenses e possivelmente milhares de civis palestinos morram no processo, e isto é impensável (mais pelos soldados israelenses que pelos civis palestinos, diria).

Esta realidade é bastante triste. É triste que em Israel estas operações sejam consideradas normais, rotineiras e inevitáveis, como as estações do ano. É triste que não tenhamos mais ambições de paz, hoje queremos apenas mais alguns meses de silêncio.

O escritor David Grossman escreveu o artigo “Sobre Esperança e Desespero” para a Convenção Israel da Paz promovida pelo jornal Haaretz, que fora agendada há meses, e ironicamente coincidiu com o primeiro dia da operação “Tzuk Eitan” (08/07/14). Grossman escreve:

O governo de Israel, os governos de Israel, agem como prisioneiros do desespero. Como suas vítimas desamparadas. Não me lembro jamais ter ouvido qualquer declaração séria sobre esperança de Benjamin Netanyahu, ou de qualquer um de seus ministros e conselheiros. Nem sequer uma palavra de uma visão das possibilidades que uma vida em paz possa oferecer, ou da chance que Israel tem de tornar-se parte de uma nova estrutura de alianças e interesses no Oriente Médio. Como foi que a própria palavra “esperança”, tornou-se uma palavra suja e incriminatória, vindo apenas atrás da palavra “paz” em seus níveis perigosos de radiação?

Um outro crítico de Netanyahu, o também escritor Etgar Keret, escreve justamente sobre o uso problemático da palavra paz no quotidiano israelense, em um artigo publicado em 11/07/2014, nesta última sexta-feira. Ele propõe que deixemos a palavra Shalom (paz) de lado, e que passemos a usar a palavra Pshara. O artigo foi traduzido ao português na Globo.com, e eles traduzem Pshara como “acordo”, mas não é exatamente isso. Pshara significa um acordo no qual ambas as partes necessariamente abrem mão de algo, compromise em inglês. Uma outra palavra de mesma raiz, Posher significa “morno”, que é o meio do caminho encontrado pelo acordo entre o frio e o quente. (Como não amar a língua hebraica?)

O próprio Etgar Keret acompanhou Netanyahu a uma viagem a Roma em 2011, como escritor convidado do jornal Haaretz. O relato da viagem pode ser lido em excelente prosa no artigo “Netanyahu diz que não há solução ao conflito israelense-palestino”. Segundo Netanyahu, tudo o que ele pode fazer com relação ao conflito é seguir repetindo o mantra de que “o conflito é insolúvel porque ele não é sobre território; até que Abu Mazen reconheça Israel como um estado judeu, não haverá forma de chegar a um acordo”.

Israel, com a liderança de Netanyahu, não tem nenhum plano para o final do conflito (uma solução final, se quiserem). Nenhum. É tudo re-ação, zero pró-ação. A solução do conflito depende inteiramente dos palestinos, a Israel não resta nada a fazer. Ou fraseando de um outro jeito: “O plano de Netanyahu é esperar que o problema vá embora”. Isto é a própria definição de falta de esperança, ou desespero.

Caïn, de Henri Vidal

Devemos parar de construir nos assentamentos, pois se discutivelmente eles são uma das causas do conflito, eles certamente são parte do problema de como resolvê-lo. Devemos abandonar noções messiânicas de “terra prometida”, como Leibowitz já dizia, “nenhuma nação tem o direito a terra alguma”. (E você, leitor, pare de chamar este pedaço de deserto de Terra Santa.) Devemos fortalecer os moderados palestinos, pois somente eles serão capazes de destruir o Hamas. Devemos sentar à mesa de negociações sem que os Estados Unidos segurem nossas orelhas. Não acho que o fracasso do processo de paz das últimas décadas seja responsabilidade completa de Israel, pelo contrário, o maior peso está com os palestinos, mas isto não é nenhuma desculpa para que não façamos a nossa parte, e este texto é sobre isso.

Esta operação de 2014 é justa e necessária, pois a população civil em Israel não pode viver sob a ameaça de foguetes. A operação passada, de 2012, também era justa e necessária, assim como a que a antecedeu, a de 2009. Estou cansado de operações justas, quero um plano de ação. Já está mais que na hora de usarmos melhor a cabeça, e parar de batê-la contra a pedra, que parece ser bem firme mesmo.


Fontes e links:
Artigo de David Grossman,“Sobre Esperança e Desespero”, em hebraico, em inglês.
Artigo de Etgar Keret sobre Pshara, em hebraico, em português.
Artigo de Etgar Keret, “Netanyahu diz que não há solução ao conflito israelense-palestino”, em inglês.
Imagem usada no texto, facebook de Shlomit Havron.
Declaração de Netanyahu de 2009, que derrubaria o Hamas, youtube (em hebraico).
Capítulo 25 do livro “Judaism, Human Values, and the Jewish State“, de Yeshayahu Leibowitz, vale a pena ler!
Imagem de capa do artigo, Caïn, de Henri Vidal, flickr de proimos, segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Pedra firme, miolo mole”

  • Daniel

    14/07/2014 at 18:06

    Muito bom, parabéns!!

  • Natan Rolnik

    14/07/2014 at 19:19

    É isso aí! Temos que sair logo dos assentamentos para que os terroristas parem de jogar foguetes da Cisjordânia.

    OH WAIT!

  • Marcella

    14/07/2014 at 19:36

    De acordo com cada palavra.

  • Mario S Nusbaum

    14/07/2014 at 21:58

    Antes de mais nada: sou e sempre fui contra os assentamentos.

    “Simplesmente não é possível matar ou prender todos os seus milhares de integrantes. ”
    Muito provavelmente, mas imagino que seja possível impedi-los de lançar foguetes. É impossível acabar com os criminosos de qualquer país, mas nem por isso pode-se deixa-los armar-se cada vez mais sem fazer nada.

    “Devemos parar de construir nos assentamentos, pois se discutivelmente eles são uma das causas do conflito, eles certamente são parte do problema de como resolvê-lo. Devemos abandonar noções messiânicas de “terra prometida”
    OK e OK

    ” Devemos fortalecer os moderados palestinos”
    Como?
    ” mas isto não é nenhuma desculpa para que não façamos a nossa parte”
    Que seria?
    ———-
    Do Al Monitor:
    “To date, the Israeli air force attacked over 1,300 targets, including Hamas institutions, mosques, the residences of the organization’s militants and, of course, rocket-launching sites. The initial Israeli proposal — namely, “quiet will be met by quiet” — was answered with a salvo of rockets on Tel Aviv. The movement’s leaders went underground into fortified bunkers built to protect their lives, while leaving some 1.5 million residents in the Gaza Strip exposed to Israeli air force airstrikes.”
    Se nem assim os habitantes de Gaza se livram dos animais que os oprimem, acho que não há muito que Israel possa fazer.
    Quanto tempo duraria um governo israelense cujo líder morasse em Paris? Alguém consegue imaginar o líder do partido mais importante de um país vivendo sempre no exterior?
    ———–
    http://www.nytimes.com/video/world/middleeast/100000002998159/jerusalems-damaged-link.html?emc=edit_th_20140714&nl=todaysheadlines&nlid=52724668

    Como dialogar com isso?

  • Ana Maria Piazera-Davison

    15/07/2014 at 00:00

    LI o artigo, gostei muito, concordo com tudo. E fiquei muito triste. Temo que não haja mesmo mais lugar para esperanças. E esses assentamentos já custaram demais a Israel. Sou contra, sempre fui, Israel perde “moral grounds” por causa deles. Mas… fiquei triste.

  • Luiz Rechtmanl

    15/07/2014 at 09:24

    “Devemos fortalecer os moderados palestinos, pois somente eles serão capazes de destruir o Hamas”.

    Destruir em que sentido ?
    Moderados palestinos de dentro ou fora de Gaza ?
    Se forem de fora (parece que não sobraram nenhum dentro), seriam negociações que dissuadiriam o Hamas a abandonar a luta armada e os seus estatutos ?
    Com que clima o Abu Mazen, como moderado palestino, seria recebido em Gaza pelo Hamas ? Com que garantias poderia sair vivo de lá ?

    “Não acho que o fracasso do processo de paz das últimas décadas seja responsabilidade completa de Israel, pelo contrário, o maior peso está com os palestinos, mas isto não é nenhuma desculpa para que não façamos a nossa parte”.

    Acredito que a nossa parte ( a principal) seja a questão dos assentamentos. Isto é crucial de se resolver, mas não tão fácil pois envolve delimitações de fronteira. Infelizmente, Israel não tem um estadista e nem um partido político de peso na oposição, que empolgue o suficiente a sociedade israelense a apoiar em massa a devolução das terras destes assentamentos. Se isto acontecer, poderá significar paz duradoura, ou não. Dependeria do outro lado, que, cá prá nós, hoje é tão ou mais fraca do que o próprio Netanyahu.

    Um abraço, Luiz.

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