Peraí

29/04/2013 | Cultura e Esporte

Neste post tentarei responder a seguinte pergunta: será que brasileiros e israelenses percebem o tempo da mesma maneira? Se não, quais são as diferenças? Para não escrever apenas a minha impressão pessoal, resolvi fazer algumas perguntas a vários amigos israelenses sobre o tema de atraso. Logo vi que as respostas eram muito interessantes, e decidi fazer um estudo semi-científico sobre o assunto. Por email e por facebook passei formulários em português e em hebraico, e em apenas 48 horas juntei respostas de 121 israelenses e 209 brasileiros, mais que o suficiente para fazer uma estatística dos dados.

Atraso

A primeira pergunta do formulário dizia:

Um amigo te convidou para uma festa em sua casa. A festa está marcada para as 20h00. Que horas você escolherá chegar?

Propositadamente deixei o evento indefinido, sem especificar a proximidade do amigo, quantas pessoas foram convidadas, o dia da semana, etc. A intenção da pergunta era verificar com quantos minutos de atraso o brasileiro e o israelense planejam chegar, e os resultados podem ser vistos no gráfico abaixo.

Q1

Este gráfico confirmou minhas suspeitas de que brasileiros são muito mais atrasados que israelenses. Quase todos os 15 israelenses com quem conversei (antes de lançar o formulário pela internet) me disseram que o povo de israel é super atrasado, que não se respeitam os horários, etc. Isso se deve, na minha opinião, à uma visão super crítica que o israelense faz da sociedade onde vive, e do limitadíssimo número de países que conhecem (o ‘resto do mundo’ se define como Estados Unidos e mais alguns poucos países da Europa Ocidental).

O gráfico acima não deixa dúvida: enquanto que israelenses planejam chegar em média com 30 minutos de atraso, o brasileiro planeja chegar 45 minutos depois do horário marcado, e por causa do grande desvio padrão, atrasos de mais de uma hora não são incomuns.

O gráfico abaixo apresenta os mesmos dados de outra forma. Se todas as pessoas que responderam o questionário fossem convidados para uma festa em minha casa, qual a porcentagem que terá chegado até uma determinada hora?

cumulativo

Às 20:30, 74% dos israelenses já terão chegado, em contraste com apenas 46% dos brasileiros. O gráfico mostra que de fato, a festa em Israel começa com 30 minutos de atraso, enquanto que no Brasil leva-se quase uma hora para que a maior parte das pessoas tenha chegado.

Uma segunda pergunta dizia:

Você convidou alguns amigos para uma festa em sua casa. A festa está marcada para as 20h00. Até que hora um amigo pode chegar sem que você pense que ele chegou atrasado?

Os resultados podem ser vistos no gráfico abaixo.

Q2

Ambos os grupos desculpam atrasos grandes, embora os brasileiros sejam mais generosos. 38% dos israelenses perdoam atrasos de até cerca de meia hora, enquanto que apenas 16% dos brasileiros sejam tão estritos. Doze por cento dos brasileiros perdoam atrasos de três horas ou mais, comparando com os 5% dos israelenses que são tão generosos assim.

Conclusão:

Brasileiros, quando estiverem em Israel saiam ‘cedo’ e cheguem com meia hora de atraso a uma festa, mas não muito mais que isso. Israelenses, quando estiverem no Brasil nunca cheguem com menos de 20 minutos de atraso, é bastante provável que o anfitrião ainda estará no banho e ninguém lhe abrirá a porta.

Virada do ano

Uma última pergunta do formulário dizia:

Estamos em Abril 2013. Um amigo te diz o seguinte: “Ano passado viajei para a Espanha”. Em que meses/ano isso poderia ter sido? Escolha todas as opções que julgar corretas. As opções: Janeiro 2013, Dezembro 2012, Outubro 2012, Setembro 2012, Agosto 2012, Junho 2012, Abril 2012 e Fevereiro 2012.

Os resultados:

ano

A enorme maioria dos brasileiros está de acordo que “ano passado” é tudo o que aconteceu antes de 31 de Dezembro. Até aí, nenhuma surpresa.

Cerca de 31% dos israelenses pensam como os brasileiros, dizendo que “ano passado” diz respeito ao ano anterior no calendário gregoriano, ou como se diz em Israel, o ‘calendário civil’. Conforme recuamos mais nos meses há uma gradual subida até que em Agosto de 2012 há um ‘consenso’ de que se trata do ano passado. Isso se deve ao fato do ano novo judaico, Rosh Hashaná, cair no mês de Setembro ou Outubro (varia, mais a respeito num futuro post sobre o calendário judaico).

Muitos israelenses com os quais conversei acharam essa pergunta difícil. A resposta nunca era imediata, levavam alguns segundos para pensar, e com muita hesitação diziam algo do tipo “acho que antes de Setembro já é ano passado”. Parece que o israelense médio vê a fronteira entre um ano e outro como sendo uma época longa e imprecisa de cerca de 2 meses.

17 anos e meio

A pesquisa parou na pergunta sobre o “ano passado”, mas aproveito para falar sobre outros temas igualmente intrigantes.

Toda mãe orgulhosa dirá que seu bebê tem “11 meses”, ou “1 ano e 4 meses” ou outra idade qualquer. Em certo momento pára-se de contar em meses, e se diz apenas o ano inteiro, ou no máximo algo como “Zezinho tem quase 5 anos”.

Em Israel, porém, pode-se ouvir de um adolescente que “tenho 17 anos e meio”. Isso soa aos meus ouvidos incrivelmente infantil. Meio ano para uma criança de 7 ou 8 anos é realmente um bom pedaço da sua vida, mas para alguém de 17 me parece exagerado. Até os 20 anos ainda é aceitável contar a idade de meio em meio ano, depois já se torna esquisito.

Peraí

O sinal que os israelenses fazem para pedir para alguém esperar é o seguinte: reúne-se as pontas dos 5 dedos da mão e mostra-se ao interlocutor. É parecido com o gesto italiano de “ma che cazzo!”, só que sem sacudir a mão.

rega

O nome do sinal é “rega” (רגע), o que significa em hebraico “um instante”.

Quando a pessoa está muito ocupada ela pode fazer o sinal sem mesmo olhar para a cara de quem está lhe falando, e isso pode parecer um tando rude para o brasileiro desavisado. A pessoa não se dá nem o trabalho de dizer “um segundinho, tô terminando um negócio e já falo com você”, apenas silêncio. Em Israel ninguém se ofende com isso, todos sabem que quem lhes mostra um “rega” está tão somente ocupado, e logo se disponibilizará.


Os formulários foram feitos usando Google Forms, é uma excelente ferramenta, e muito fácil de usar.
A análise de dados e gráficos foram feitos com programas que escrevi em Python. Quem quiser os códigos pode me mandar um email.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Peraí”

  • Mario Silvio

    29/04/2013 at 13:33

    Interessante a pesquisa. Eu chutaria exatamente isso: que os isralenses são mais pontuais que os brasileiros e menos do que americanos e europeus.
    Como sou um dos raríssimos brasileiro que fazem questão de ser pontual, dá para imaginar as situações pelas quais já passei.

  • Raul Gottlieb

    29/04/2013 at 17:39

    Yair,

    Ninguém chega 2 horas atrasado numa reunião no Brasil. Suponho que o comportamento de ambos os grupos vai ser semelhante no ambiente empresarial.

    Nenhum brasileiro ou israelense chega 1 hora depois da hora de seu voo no aeroporto ou do horário do começo do filme. Quando há uma penalidade pelo atraso todo mundo chega na hora, com exceção dos casos de força maior..

    Suspeito que isto mostre que as convenções sociais são outras e não que os brasileiros e israelenses percebam o tempo de forma diversa. No Brasil chegar na hora marcada para o começo da festa “pega mal”. A pessoa se programa para chegar 30 a 60 minutos depois da hora marcada.

    Abraço, Raul

  • Yair Mau

    30/04/2013 at 06:31

    Eu não fiz um estudo sociológico completo. Não estou afirmando que brasileiros se atrasam 2 horas em todas as situações, nem que as circunstâncias não importam (festa, reunião, voo). No caso específico de um encontro social na casa de alguém, brasileiros são muito mais atrasados. Só isso.

  • Raul Gottlieb

    02/05/2013 at 13:15

    Sim, e atrasam mais porque a convenção social no Brasil exige que eles atrasem.

    Ou seja, se chegarem na hora estarão desrespeitando as regras do seu grupo social. Minha mãe já dizia há muitos anos: quem chega cedo encontra a dona da casa de pegnoir,

    Isto é igual as calças jeans rasgadas e descoloridas que costumavam ser sinal de descuido pela aparência e pelas roupas (em favor de um hipotético cuidado maior com o interior da pessoa). Na semana passada fui comprar um jeans e só havia na loja um modelo não descolorido ou rasgado. O que era sinal de descolamento virou grife.

    Vendo por este ângulo os Brasileiros são super pontuais. Eles (e todos os demais grupos) fazem exatamente o que o grupo ordena.

  • Rebeca Bayeh

    03/05/2013 at 05:24

    Muito legal!!
    Parabéns pela ideia e desenvolvimento. Ficou realmente interessante!!
    Abraços
    Rebeca

  • Daniel

    03/05/2013 at 20:07

    Acho que os desvios-padrão dos gráficos também contêm informações interessantes: a dispersão das respostas dos brasileiros foi muito maior. Mesmo tendo mais dados de brasileiros, isso se reflete no desvio-padrão da média. No primeiro gráfico, o lado brasileiro apresentou um desvio de 2,3 min, enquanto o israelense, mesmo com pouco mais da metade dos dados, de apenas 2 min.

    Incidentalmente, isso também quer dizer que a estatística permite afirmar que as médias dos horários de chegada são realmente diferentes para brasileiros e israelenses, porque estão a vários σ de distância,

    Talvez isso tenha a ver com a sociedade brasileira ser mais variada (ou mais bagunçada), mas dá pra fazer uma análise interessante também.