Perdi um avô

01/12/2015 | Sociedade.

por Gabriel Toueg

Perdi um professor. Era assim que eu chamava Nahum Sirotsky, veterano jornalista que tinha mais de 70 anos de carreira. Nahum, para mim, era professor porque com ele aprendi muito sobre o jornalismo, nossa profissão comum. Em sua casa, quando eu era apenas um “foca”, do alto de sua experiência, Nahum lia e descartava textos meus, dando com seu jeito ímpar dicas de estilo que adoto até hoje, mais de dez anos depois. Aprendi com ele, sobretudo, a paixão pelo jornalismo. Ontem, perdi um professor.

Quando conheci o Nahum, eu estava perto de me formar. Tinha 23 anos e muitas ideias na cabeça quando desembarquei pela primeira vez em Tel Aviv, com três números de telefone anotados em uma agenda. Um deles era o do Nahum. Liguei receoso, achando que ele não receberia um “foca”. Mas estava enganado: ele me convidou para um café e acabei ficando dez dias hospedado em seu apartamento, visitando sua família e ouvindo fascinado suas histórias, que meses depois transformei em meu trabalho de conclusão de curso (TCC).

Ele relatava, apaixonado, episódios de coberturas, da pedrada que levara no joelho na Faixa de Gaza, de quando fora torturado por engano no Brasil, do discurso de Getulio Vargas que perdera por precisar correr para o banheiro. Enquanto eu o ouvia, tentava convencê-lo de contar as histórias em um livro, mas ele se recusava. “Sou desimportante”, dizia. Quando finalmente o convenci e ele topou me contar “causos” para meu TCC, Nahum me advertiu: “Não exagere, minta o menos possível. Não me transforme em herói nem em paradigma. Sou apenas um jornalista que tem 60 anos de profissão, que amou a vida inteira e que fez algumas coisas que ficam”.

Nahum amou a vida inteira. Amou sua mulher, a atriz Beyla Genauer. Amou o filho Yossi. Falava dos cinco netos com uma paixão rara de ver mesmo em pais que falam sobre os filhos. Amou, sobretudo, a vida que o jornalismo lhe dera, “meio por acaso”. Nahum era apaixonado pelo jornalismo, pela busca dos fatos, pelo bom texto, pela análise. Levava sempre consigo um radinho de pilha em que acompanhava as notícias de Israel, do Brasil e do mundo. Em casa, a TV ficava sempre ligada, em um volume que devia incomodar os vizinhos.

Nahum navegava na internet com a destreza de um jovem. Chegou a fazer podcast e blog. Escrevia quase todos os dias. Mais recentemente, sem conseguir enxergar, ditava textos que eram publicados em uma página no Facebook – o último texto saiu dois dias antes de morrer. Nahum era multitarefa e informado. Conversava sobre qualquer assunto com conhecimento de causa: tinha sempre o que dizer.

Acordei ontem com a triste notícia vinda pela internet nas palavras de Judith, sua neta mais velha: “Nosso avô Nahum morreu”. Ela não usou “nosso” à toa. Sabia que, para mim, além de professor, Nahum era como um avô. Era assim que nos tratávamos: ele me apresentava como um neto brasileiro que, além de neto, tinha a sorte de ter a mesma profissão que ele.

Hoje, mexendo em coisas antigas, encontrei uma carta de despedida que escrevi quando deixei Israel, em 2011. Israel, para mim, tem muito a ver com o Nahum. Aprendi muito com ele sobre o país, sua complicada política, as pessoas, o jeito de ser do israelense. Lembro de uma coletiva a que fomos juntos com o Benjamin Netanyahu, que hoje é premiê mas na época era candidato de oposição. No meio do discurso engessado, Nahum se levantou e indagou o político, que ficou bastante incomodado.

Na minha carta de despedida, eu lembrava da época em que eu digitava os textos dele e ele criticava os meus, “de como me orgulho daqueles dois ou três textos que escrevi quando estava na tua casa, que ficaram tão profissionais e, ao mesmo tempo, humanos. Aprendi o jornalismo com você. Cada dica, cada papel amassado com um texto ruim, cada entrevista que fizemos juntos”.

Num 29 de novembro, em 1947, Nahum cobriu a partilha da Palestina Britânica votada pela ONU. Tinha pouco mais de 20 anos. Por muitas vezes, ele me relatou a história daquela cobertura, com lágrimas nos olhos. Em 2015, a poucas semanas de completar 90 anos, Nahum se foi, também num 29 de novembro. O jornalismo, que anda tão manco e sem referências, perde um grande nome. Eu perco um professor e um avô. E, por mais que ele não gostasse, um herói.

Imagem de destaque: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/12/NahumSirotsky1.JPG

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Perdi um avô”

  • Fábio

    01/12/2015 at 22:25

    Caro Gabriel:

    Belo texto.

    Nahum era um sujeito legal e um grande profissional. Que descanse em paz.

    Troquei vários e-mails com ele no passado. Uma figura.

    Com um abraço, Fábio.

  • Marco Antonio Ribeiro

    02/12/2015 at 15:27

    Nahum também foi extremamente generoso comigo, ao me receber na sua CAPEL logo após minha saída de O Globo, em 1979. Quando, por problemas gerenciais, foi obrigado a fechar a empresa, repartiu comigo e com o brilhante diagramador Antoninho de Paula alguns de seus clientes da área editorial. Seu depoimento referenda e resgata a memória de um sujeito com explosões de brilhantismo.

  • Marcelo Starec

    05/12/2015 at 16:52

    Oi Gabriel,

    Muito interessante…Imaginar que Nahum, com os olhos cobertos de lagrimas, cobriu a partilha da palestina em 1947, então com pouco mais de 20 anos…Imaginem quanta experiência e conhecimento tinha esse jornalista….Pelo que entendi, ele não nos deixou um livro de memórias…uma pena….Assim, ficam essas e tantas outras interessantes lembranças relatadas aqui e em outros locais….

    Abraço,

    Marcelo.

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