Perdoe-me

Segundo a tradição judaica, o Yom Kipur marca o dia em que todo judeu reflete sobre seus atos e pede desculpas pelos erros que cometeu. A beleza moral desse ritual é incontestável – reflete-se com mais profundidade sobre as atitudes, preserva-se a sabedoria de que errar é parte integral da existência humana, cultiva-se a humildade de direcionarmos nossos pensamentos àqueles que sofreram por nossos equívocos e consolida-se, ao menos na teoria, uma personalidade mais justa.

Durante esse processo de introspecção e reavaliação uma série de questionamentos podem ser levantados. Por que exatamente pede-se perdão? Quando e como pedir? Pedir perdão significa comprometer-se com um novo comportamento, ou seja, com a criação de um novo “eu”? Ao perdoar deve-se esquecer o que foi feito ou simplesmente lidar com a imoralidade? Quando pedimos perdão sabemos onde está o erro e como chegamos a cometê-lo? Como diferenciar o perdão de Yom Kipur das desculpas que rotineiramente pedimos? Apesar de nem sempre pensarmos nessas e outras questões, elas são essencias para um genuino pedido de perdão.

Uma importante questão se refere a ideia de que o perdão é uma forma de interação apologética entre dois indivíduos. Na realidade, ele pode ocorrer de diferentes formas, afinal nós, seres humanos, somos exímios pecadores. O perdão pode ser direcionado aos animais, a nós mesmos, a Deus, à natureza e até mesmo a um falecido. Todas essas relações são legítimas e exigem uma reflexão particular para que o perdão verdadeiro ocorra. Em efeito, se o perdão é uma forma de diálogo entre duas partes, cabe àquele que errou encontrar a linguagem correspondente para o estabelecimento da comunicação. Caso contrário, o perdão torna-se genérico e perde a singularidade que lhe dá forma.

O filósofo francês Jacques Derrida levanta uma outra questão referente ao conceito de perdão. Segundo ele, o perdão é um paradoxo – se pedimos perdão tornamos perdoável o erro cometido. Ao torná-lo perdoável, afirma Derrida, descaracterizamos o erro e já não há mais motivo para o pedido de perdão. O paradoxo termina por afirmar que ao pedirmos perdão já não há mais pelo quê pedir perdão.

Imagine a seguinte situação. Depois de um longo dia de trabalho e sem dinheiro na carteira, Davi decide roubar maçãs na feira da frente de sua casa. Não pensou muito, apenas pegou as maçãs e as colocou em sua mochila. Ao chegar em casa, começou a refletir sobre o feito e não tardou a chegar a conclusão de que havia errado – “roubar é errado. Eu não deveria ter feito isso. Imagine se todos roubassem; a vida seria impossível”, pensou. Foi até o feirante e lhe pediu desculpas, devolveu as maçãs e prometeu não fazer isso novamente. O feirante, por sua vez, lhe disse: “Obrigado por vir até aqui pedir perdão, mas saiba que suas desculpas não tornam o seu ato menos errado. O perdão que você me pede não purifica o seu feito.” Davi quedou-se estarrecido. Não imaginava palavras tão duras. O feirante seguiu explicando seu ponto: “A questão, meu caro, é que se eu te perdoar tornarei o roubo perdoável, coisa que não é. Imagine se todos pensassem que roubar é algo perdoável.” Davi retrucou: “O que devo fazer, então?” O feirante lhe disse: “Aprenda a conviver com o seu erro enquanto eu aprenderei a conviver com o seu perdão.”

A história acima ilustra a complexidade inerente ao conceito de perdão. Ela nos demonstra que o perdão sempre tem início num processo de racionalização posterior ao ato impulsivo. Além disso, a história indica que tornar perdoável uma atitude errada é uma forma de desligitimar os valores morais sob os quais vivemos – se o roubo torna-se perdoável ele ganha respaldo moral para ser realizado. Por fim, o feirante parece explicar que não há sentido em perdoar uma atitude que é perdoável, já que, por ser perdoável, ela não caracteriza propriamente um equívoco.

Então  quando devemos pedir perdão? A conclusão que Derrida chega é que o perdão somente é possível diante de um ato que consideramos imperdoável. Segundo o filósofo, somente na percepção de que se trata de um ato imperdoável as normas morais são preservadas e o perdão torna-se possível. Segundo essa lógica, no entanto, surge um novo paradoxo: Por que pedir perdão por uma atitude imperdoável? Derrida afirma que o erro está em entender o perdão como um ato pontual, constituido de começo, meio e fim. O perdão, na realidade, é  um contínuo processo que tem início no reconhecimento do erro, passa pelo entendimento da relação, pelo pedido de perdão e segue em uma constante manutenção. Em outras palavras, o perdão é uma ferida que nunca cicatriza – ela é remediada, mas nunca curada. No pedido de perdão temos que aprender a conviver com nosso erro.

Dessa forma, Derrida nos brinda com uma nova interpretação do Yom Kipur. O dia em que refletimos sobre nossa condição de eternos pecadores fadados a conviver com nossa imoralidade. O dia em que o perdão não apaga o erro, mas o abraça em uma simbiose moral. Pela lógica de Derrida, ao reconhecermos nossos erros reafirmamos nossos valores e reconstruímos nossos princípios. É através de nossas imperfeições que podemos criar justiça entre os homens. A vida tem dessas coisas – às vezes temos que dar uma volta maior para chegarmos onde queremos.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Perdoe-me”

  • Rita Burd

    23/09/2015 at 15:32

    Nobru
    Neste teu balanço de 5775, balançaram também os meus conceitos. Meu Yom Kipur fez um nó na minha cabeça. Li e achei que estava sendo cruel comigo. Mudando o Yom Kipur solene, explicado e vivenciado na casa dos meus pais. O Yom K ipur da adolescente madrichá. Da adulta, sempre, em todas as etapas eu mantinha a mesma postura e identificação com o pedido de perdão e o que ele me deixava mais leve, mais judia, mais envolvida com a minha origem. Yom Kipur , realmente siginifica o Dia mais Solene, mais Tocante do ano.
    Agora entrou um filósofo, Jacques Derrida, e me deixou de cabeça para baixo. Entrou um fruteiro e explicou com suas sábias e experientes palavras que o perdão, na realidade não apaga o erro, remete para o arquivo e lá o erro fica. Guardado. O pior de tudo é que eu concordo que nós criamos um arquivo para os nossos erros, e que de vez em quando acessamos e lembramos de cada um, como se tivessem acontecido ontem.

  • Paulinho

    24/09/2015 at 20:50

    Lindo texto Nobru!
    Não sei por que, acho que nem tem muito a ver, mas lendo seu texto me lembrei do Zaratustra rejeitando agradecimentos, dizendo que as ações do ser humano não deviam se pautar numa busca por agradecimentos. Talvez as questões não tem a ver em si, mas são duas profundas reflexões sobre duas atitudes humanas comuns.
    Se o texto tivesse sido publicado um pouco antes usaríamos com certeza na atividade de Iom Kipur que fazemos todo ano.
    Lembrarei dele para ano que vem.
    Chatima tova!

  • Marcelo Starec

    27/09/2015 at 02:49

    Oi Bruno,

    O texto é realmente muito bom!…Em meu entender, é um assunto demasiado complexo!…Eu creio que reconhecer o erro, por si só, é algo importante, mas não pedir um perdão digamos “vazio”…O reconhecimento verdadeiro do erro pode levar, ou deve, a pessoa ou sociedade a não repeti-lo. Entendo que o mais importante é melhorar enquanto pessoa ou sociedade, mas para isso tem de haver um reconhecimento verdadeiro – eventualmente sem possibilidade de corrigir aquele erro, mas evitar que ele se repita. Se o erro ainda puder ser, ao menos parcialmente corrigido, melhor ainda…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Ercules Bergier

    28/09/2015 at 12:56

    Muito bom texto.

    Mas este roubo não tem nada haver com Yom kipur.
    O perdão que se pede no dia de Yom kipur não é o perdão do roubo e sim o perdão do ato com os seres humanos ,a raiva o odio que as vezes em certas ocasiões ,as pessoas manifestam sem pensar ou pensando. Atos cometidos em certas decisões familiares com amigos e pessoas estranhas.
    Yom kipur não deixa de ser um dia de reflexão aos entes falecidos.

    Abraços

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