Peregrinação e fuzuê israelense na Ucrânia

Tudo o que você quis saber e nunca teve coragem de perguntar a respeito da viagem que leva centenas de milhares de israelenses todos os anos para visitar a tumba de tzadikim[1] como Baal Shem Tov, Rabi Natan e, claro, rabi Nacham, o rabi Nachman de Uman.

Já na fila do check-in em Tel Aviv bate aquele estresse danado, com a infeliz combinação da rispidez russa com a dificuldade israelense de enfrentar uma fila. O melhor a fazer é rezar um salmo e se acalmar. Afinal, você está indo de Israel à Ucrânia com o objetivo de visitar o túmulo de “Rabi Nachman, Nachman de Uman”, como diz o refrão. O que você verá à sua volta pelos próximos dias serão repetições e mais repetições desse estado emocional, que oscila entre a lembrança de que paciência é uma virtude e a vontade de gritar. Pelo menos do “seu” lado de fora.

No “seu” lado de dentro – e quase me surpreendo a ouvir a mim mesma dizendo isso –, a experiência será outra. Uma calma de outro mundo. Ou não. Mas essa parte não depende da falta de simpatia dos ucranianos ou da pressa dos israelenses. Dependerá só de você, irmão peregrino.

Foram 3,5 horas de viagem entre Tel Aviv e Kiev, em um voo desgraçado de madrugada que, por ser econômico, não oferece nem ao menos água. Israelenses não precisam de visto, o que é ótimo, mas nem de longe significa que são bem-vindos ali. Ou qualquer outro judeu, aliás.

A Ucrânia é um país bonito. Bonito e monótono. Nessa época do ano, de quase calor (com um frio gelado à noite), tudo está verde, de um verde escuro. Dizem que, no inverno, tudo está branco, coberto por muitos centímetros de neve sólida. Há bosques e florestas infindáveis, rios caudalosos, e nenhuma flor. Nenhuma cor.

Kiev é cinza e enorme, e pela estrada há uma sucessão de vilarejos sem eira nem beira. No meio do nada, são acessadas por estradinhas de terra saindo da principal, em boas condições de rodagem. Nela, não há nada além de postos de gasolina, um atrás do outro. Inúmeros, de diferentes bandeiras. Nunca vi tantos seguidos, e não entendi o porquê. Em cada um deles, se tromba com um ônibus cheios de israelenses. Dá uma sensação doida de se estar rodando em círculos, passando sempre pelo mesmo lugar. As distâncias entre as cidades visitadas são imensas, e nenhum trajeto dura menos do que três horas sem trânsito algum.

Ucranianos não falam inglês e tampouco se esforçam para entender o que você fala. Nas lojinhas de conveniência dos postos, vi que tudo é muito mais barato do que qualquer lugar que tenha visitado nos últimos anos. Uma coca-cola custa 8 grivnia (o dólar vale 25 deles). Água, 7. Chocolates e sorvetes a partir de 3. Mas o importados custam uma fortuna no padrão local – os chocolates custavam 25 grivnia. A gasolina custava entre 18 e 21 o litro, ou seja, menos de um dólar.

Achei que encontraria uma frota em ruínas e me enganei. Penei para identificar uns poucos Ladas. De resto, só importados. Ao mesmo tempo, vi muitas casas e prédios abandonados, com paredes destruídas, e muitas paupérrimas. As mais novas levam todas telhados de cores espalhafatosas. Algo como uma alegria forçada, uma coisa meio sinistra, meio divertida (mais pro lado do humor negro).

Os bosques me impressionaram especialmente, talvez por causa do tanto de histórias judaicas que li e ouvi contar que ilustravam o antissemitismo local. Os judeus que, apavorados, escondiam-se nelas, enfrentando o famoso frio que toma o país 8 meses por ano (falam em 30 graus Celsius negativos). Não há como não imaginar a vida e a morte dos judeus que foram assassinados por lá, não apenas pelos nazistas, mas pelos colaboradores ucranianos.

Os alemães não precisaram trazer uma polícia própria para o local, pois os ucranianos colaboraram com prazer. O primeiro grande massacre da Segunda Guerra Mundial aconteceu ali, na ravina de Babi Yar, no subúrbio de Kiev, com o assassinato de 33 mil judeus em apenas dois dias de setembro de 1941. O segundo recorde também seria na Ucrânia, em Odessa: 50 mil judeus, em outubro de 1941.

Afirmam que um milhão de judeus ucranianos foram mortos no Holocausto. Hoje em dia, o país ocupa a 11ª posição no ranking de maior país judaico (o Brasil ocupa o 10º), com 63 mil judeus vivendo ali.

A primeira parada do roteiro clássico está a cerca de 3 horas da feia Kiev, percorrendo-se uma estrada em ótimas condições de rodagem. A partir da saída da cidade, só se vê imensos campos de plantação e bosque, bosques e mais bosques. Por outro lado, vi lindos campos de soja e de girassóis.

Bnei Brak? Não: Uman, na Ucrânia.
Bnei Brak? Não: Uman, na Ucrânia.

Ali descansa Rabi Itzchak Levi de Berditchev, em um cemitério cujas tumbas estão todas viradas do avesso. Coisa dos nazistas. Construiu-se uma casinha em redor de seu túmulo, onde ele é venerado com rezas e velas.

Depois é hora de visitar Israel Baal Shem Tov, o criador do Chassidismo. Fica no meio do nada. E nesse nada fica Breslav, com suas ruas sem calçadas, casas desocupadas e semidestruídas (será que desde a Segunda Guerra?), uma chuvinha insistente e um visual maravilhoso ao redor. Primeiro visitamos o que é conhecido como o manancial do Baal Shem Tov, a cujas água atribuem-se capacidades curativas. Todo mundo sai dali com garrafas e mais garrafas repletas de água. Confesso que tomei um monte dela, e trouxe um litro comigo. Vai que…

Em seguida, seguimos para sua sinagoga, que foi restaurada. Uma gracinha, toda de madeira, no meio do nada. Madeira é artigo abundante na Ucrânia. Vi um anúncio de piso de parquet na estrada que anunciava o metro quadrado por 4 dólares. Pechincha que dá quase vontade de mudar para lá. Mas não, não nessa vida.

Visitamos em seguida seu memorial. Baal Shem Tov, assim como Rabi Itzchak, está enterrado com outros sábios, seus seguidores. Ao lado do túmulo, construíram um alojamento bem razoável e um prédio que agrega salas, sinagoga, refeitório e outras instalações. A comida servida estava maravilhosa. Dormi feito uma pedra em um quarto com outras sete das mulheres que viajavam comigo. Esse foi, certamente, meu primeiro milagre ucraniano, pois pertenço à sociedade dos insones de carteirinha.

No dia seguinte, hora de ir para Uman. Viagem longa, de cerca de quatro horas. Chegamos ao gueto. A cidade pareceu, do lado de fora da janela do ônibus, bem cuidada. O bairro judaico não. Falta verde, sobra concreto. Havia chassídicos pra todos os lados. Placas em hebraico, sinagogas em construção, hotéis só para turistas judeus e israelenses, que ofereciam catering completo. Não vi um único restaurante casher, mas talvez haja.

Judeus não são bem-vindos em Uman. Há um motivo real, por conta das ondas de peregrinação que se intensificam em Rosh Hashaná, Shavuot e Sucot, quando o número de visitantes chega a 26 mil. Os voos ficam lotados e se tornam caríssimos. Não há infraestrutura para absorver essa horda de fieis. Mas há também um motivo inexplicado, que sente-se no ar. Se há alguém que duvida da existência do antissemitismo natural e de base, ele precisa passar pela Ucrânia. Em um dia reverá seus conceitos. Em um shuk local, duas das mulheres que viajavam comigo foram tocadas para fora de uma das lojas antes mesmo de abrir a boca (ambas ortodoxas, com cabeças cobertas e, assim, facilmente identificáveis). Outra foi gentilmente atacada ao tentar trocar um artigo que havia comprado e percebeu que ele estava rasgado. Sabe-se que o aluguel cobrado dos judeus em Uman é pelo menos 10 vezes mais alto do que o valor de mercado.

Na hora de voltar, é  o momento de trombar novamente com israelenses à beira de um ataque de nervos e atendentes irritadíssimos da aviação ucraniana que fizeram nosso check-in com pressa e sem trocar um único olhar conosco. No entanto, mesmo com esse panorama, é um lugar para se voltar, mas não para fazer turismo ou um “passeio romântico”, como cogitou meu marido ao ver minhas fotos. A calma que se senti por lá mantive também aqui – e este foi, para mim, outro milagre ucraniano.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Peregrinação e fuzuê israelense na Ucrânia”

  • Mario S Nusbaum

    17/08/2015 at 19:20

    Excelente artigo Miriam! Mais fotos, please. Lembrei do filme (mas não do nome dele) sobre a peregrinação.

    • Miriam Sanger

      17/08/2015 at 23:29

      Posto o quanto antes.
      Abraço e obrigada pelo comentário.
      Miriam

  • Eloi Laufer

    17/08/2015 at 20:53

    Parabéns por esta extensa crônica de viagem, gostei muito de lê-la em vista dos detalhes sobre este verdadeiro santuário de Israel Baal Shem Tov, tema contido na História do Povo Judeu, de Hans Borger. E mais interessante é saber que lá existe tanta madeira e, para desgosto da humanidade, ainda haver o racismo bem vivo num país que supúnhamos ser bastante desenvolvido…Quanto ao copo d’água, em nossos aviões, parece que só sobrou isto de forma gratuita…

    • Miriam Sanger

      17/08/2015 at 23:32

      A Ucrânia e o segundo pais mais pobre da europa. Não esperava nenhuma maravilha. E não esperava também sentir o antissemitismo tao fortemente.
      Sensação tremenda.
      Abraco,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    17/08/2015 at 20:56

    Oi Miriam!

    Muito bom!…Me senti passeando pela Ucrânia!…De fato,tenho dificuldade de visitar um lugar que é um “grande cemitério de judeus”…Os judeus eram de fato muito relevantes ali,desde que aquela terra começou a ser trabalhada…Os “donos” variavam muito – ora poloneses, ora russos ou ucranianos querendo ser um povo independente…Os judeus eram sempre acusados de estar do lado oposto ao que estava mandando (Novidade né?…rs)…mas adorei o artigo e me senti passeando por ali, inclusive visitando o tumulo do famoso Baal Shem Tov, que no meu entender foi um revolucionário na época, ao fundar o chassidismo!….

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      17/08/2015 at 23:27

      Obrigada pelo comentário. Continue nos acompanhando.
      Abraço!
      Miriam