Pessach e a Liberdade de ver os Outros

10/04/2015 | Religião e Judaísmo.

“Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real.”

Este trecho foi retirado do brilhante discurso do escritor norte-americano David Foster Wallace (1962-2008), um mês antes de cometer suicídio, na formatura de estudantes da faculdade Kenyon, nos Estados Unidos

O discurso de Wallace é minha Hagadá de Pessach alternativa. Desde a primeira vez que conheci o texto, todos os anos releio e busco não esquecer a sua mensagem.

Wallace nos mostra que somos física e mentalmente configurados para o egoísmo.Não sentimos a dor dos outros, a saudade que os outros sentem, muito menos suas frustrações. “A liberdade de ver os outros” seria a capacidade de superar nossa configuração padrão e buscar uma nova forma de experenciar o mundo.

A tradicional Hagadá de Pessach nos diz que: “Em cada geração as pessoas devem ver a si mesmas com se elas próprias tivessem saído do Egito.” Após ler o discurso de Wallace, o lembrete da Hagadá torna-se ainda mais claro: se não sentirmos por nós mesmos, dificilmente entenderemos o sofrimento dos outros.

Nosso conceito de “Herói” está diretamente relacionado àqueles que conseguiram superar sua configuração padrão. Heróis são os que passaram a preocupar-se mais com o sofrimento dos outros e não apenas com suas questões pessoais.

Por exemplo, Moisés, o herói da nossa Hagadá, abriu mão de uma vida luxuosa e confortável, no palácio do Faraó, ao sentir na pele a dor e a frustração de um escravo judeu que estava sendo espancado por um soldado egípcio.

Lutando contra sua configuração padrão, Moisés interviu na questão e nos brindou com o que possivelmente foi uma das primeiras definições históricas do conceito de herói.

“A liberdade de ver os outros” exige um esforço diário, o qual nem sempre estaremos dispostos a realizar. Apesar de toda a dificuldade inerente a esse esforço, Wallace acreditava que esta era a única liberdade real que poderíamos (e podemos) experimentar:

“Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.”

Desejo boas festas (Chag Sameach) a todos os nossos leitores.

 

Fontes:

Discurso de David Foster Wallace em português

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-25/despedida/a-liberdade-de-ver-os-outros

Original em inglês

http://www.theguardian.com/books/2008/sep/20/fiction

 

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Pessach e a Liberdade de ver os Outros”

  • Raul Gottlieb

    10/04/2015 at 15:22

    Muito bonito, Amir.

    E em sintonia com a cultura judaica de não valorizar os egos.

    O “herói” humano da história de Pessach não está na Hagadá.

    Moisés não figura uma única vez na Hagadá, não deixou descendência nobre, não tem monumento nem túmulo. A imagem que o judaísmo construiu dele é integralmente circunscrita à sua capacidade de escutar os outros e de servir os outros.

    A Torá coloca Deus como sendo o agente que obriga Moisés a realizar a obra de sua vida (escutar, entender o sofrimento, agir para libertar os oprimidos, construir uma sociedade livre, etc.).

    Moisés é um “eved Adonai”. Servo de Deus.

    E como tal, integralmente dedicado a servir os homens.

    Chag Sameach!
    Raul

  • Sérgio Storch

    10/04/2015 at 15:26

    Amir, obrigado por nos trazer essa pérola!
    Muito bacana quando alguém nos traz esses raios de luz que há na espiritualidade judaica, em meio a uma tendência hegemônica de ritualizar sem buscar sentido.

  • Henrique Samet

    10/04/2015 at 19:02

    Noto no texto que acompanhando o termo liberdade na maioria das vezes aparece a palavra esforço.
    Na minha opinião a convivência com um outro tem duas dimensões. Na nossa democracia implica uma relação objetiva “pois todos são iguais perante a lei”. Em tese um israelense pode subjetivamente odiar um palestino mas é obrigado pela lei a respeitar seus direitos iguais. É obrigado a ser politicamente correto. A outra dimensão é altruistica, isto é, superar voluntariamente seu egoismo.
    Nós não avançaremos civilizacionalmente esperando um altruismo coletivo. A igualdade pelo menos política, é coercitiva. É um dever, uma obrigação e um esforço. Que cada um domine seus diabos pois caso não o faça pode haver sanção legal. Quando se apresenta a superação do egoismo como uma quase santidade estamos afastando o comum dos mortais de nossa intenção. Devemos chama-lo pelo que ele é e não pelo que deve ser. Superar o medo implica em reconhecer o medo; superar preconceito implica em reconhecer o preconceito. Superar o egoismo idem. A liberdade neste caso é um esforço e mais esforço do que liberdade.

  • Marcelo Starec

    11/04/2015 at 00:57

    Oi Amir,
    Parabéns pelo belo texto!…Realmente muito interessante para uma ampla e devida reflexão!…É sem dúvida muito importante para qualquer entendimento verdadeiro compreender e ser devidamente compreendido pelo outro!…Concluindo, gostaria ainda de ressaltar aqui uma característica que a meu ver é muito relevante para o povo judeu…Nossos mais importantes líderes, ao longo da história, não eram perfeitos. Ao contrário, tinham defeitos e cometiam erros, tal como os demais humanos….
    Abraços e chag sameach,
    Marcelo.

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