Pessach: foi bom, e bom que se foi

Adoro essa expressão israelense que afirma “haiá tov ve tov she haiá” (“foi bom e bom que já foi”, algo assim). É a que melhor se encaixa para descrever minha sensação após mais um Pessach nessa Terra Santa.

Não que não goste da festa. Gosto sim. Da simbologia, da mesa cheia do sêder, da oportunidade de se cogitar a renovação de todos os aspectos da vida. Isso porque, diz-se, esse é o momento propício para refletir e recolher todas aquelas “migalhas” mal-resolvidas da vida e tocá-las para fora da cabeça, do corpo, da casa. Eliminar desapontamentos e rancores, limpar a alma. Gosto até da limpeza geral que se faz nos armários – tanto religiosos quanto laicos dão uma geral e aproveitam para se livrar do peso-extra. De objetos, claro, porque engordar todo mundo engorda, e então começa a batalha pós-Pessach.

É uma época especial para se estar por aqui, como muitos já sabem. Um mês antes da festa, iniciam-se as liquidações e promoções de utensílios domésticos em todo o país. E também promoções de comidas “chametz”[ref]Chametz: alimentos fermentados que são proibidos durante essa festividade.[/ref], especialmente na última semana, e quem não é religioso e não está no movimento inverso, de esvaziar a casa, pode fazer a festa. E tem que fazê-lo rapidamente, aliás, porque os supermercados não permitem a venda desses alimentos durante a semana de Pessach.

O mais louco é que o clima em todo o país fica tenso para caramba e o israelense, que já é estressado por natureza, fica mais ainda doido. Diz-se no mundo religioso que todos revivem a aflição e a ansiedade da iminência da libertação do Egito. Pode ser, não sei. Mas sei que, passado o sêder, a sensação é mesmo a de alívio.

Devo dizer, no entanto, que seguir as regras alimentares de Pessach em Israel é “piece of cake”, principalmente para os sefaraditas, que podem comer as famigeradas kitniot.[ref]Kitniot: grãos como arroz, soja ou milho.[/ref] Eu fui elevada a esse status há pouco mais de um ano, quando me casei com um e pude incluir na leve dieta de Pessach a famosa matsá com Nutella (feita com amêndoas). Você deixa de lado o macarrão com trigo, mas come macarrão de arroz ou de batata. Deixa de lado o pãozinho, mas come broa de milho ou pão de batata. Todos os laticínios já estão disponíveis em versão “casher le pessach”, assim como o Click, biscoitinho de chocolate preferido da criançada por aqui, passando por sucrilhos, bolachas recheadas, Bamba, coisa e tal. Uma baba. Ashkenazitas sofrem mais, principalmente porque são obrigados a cozinhar com um óleo melequento que não o de soja ou de canola. Ele é famoso entre os religiosos, tamanha a nojeira que é (digo isso com desconhecimento de causa – em meus tempos de ashkenazita, enterrados no passado distante, usei óleo de oliva e pronto).

Alguns restaurantes fecham, mas outros encontram soluções para manterem-se abertos. Muitos nem trocam o cardápio: deixam a cargo dos garçons dizer “não” para os pratos que não estão disponíveis. Surpreendi-me muito a encontrar, no entanto, burekas e outros salgados disponíveis em todo lugar. Dizem que é casher lepessach, e a rabanut assina embaixo. Não difere nem no gosto.

A criançada entra em férias escolares por três longas semanas, para desespero dos pais, e as estradas ficam lotadas. Comenta-se por aqui que o “chol hamoed” – essa semana enfiada entre o começo e o fim da festa, tanto em Pessach como em Sucot, em que pode-se fazer de tudo mas mantêm-se regras como não comer chametz e fazer refeições na sucá (aquela cabaninha de três paredes) – é o melhor momento do ano para… ficar em casa e fugir do trânsito. Mas ninguém aguenta. Nesse ano fui esperta, depois de ter sofrido horrores no ano passado me enfiando, com a população inteira de Israel, em um camping na beira do Kineret (Mar da Galileia). O barato é que houve promoções e casa aberta por todos os lados. O Banco Hapoalim patrocinou entrada gratuita em 40 atrações durante essa semana. Pegava-se um filão para entrar, mas pelo menos um filão de graça. Raciocínio de israelense, tudo indica.

Nesse ano, para ajudar, o sétimo e último dia de Pessach (em que é chag[ref]Festa judaica.[/ref] também, ou seja, pode-se cozinhar a parte de uma chama acesa previamente, mas não é permitido dirigir ou utilizar equipamentos elétricos, entre outros milhares de regras), foi na quinta, emendando com o Shabat. Assim, religiosos só puderam comer “chametz” no sábado à noite.

Uma de minhas cunhadas é marroquina e, assim, festejamos todos os anos o fim de Pessach com o Mimuna, uma festança em que todo mundo dança, bebe, faz as besteiras decorrentes da bebida e come massa. Muita massa. Muita, muita massa. Um monte de fritura melecada com manteiga ou com mel, bolos e outros docinhos incríveis e pesados feito uma tonelada de fardo (esse que os judeus carregavam no Egito, só pode ser). O resultado eu posso atestar hoje: tremenda dor de estômago, o que dificulta a retomada da rotina e me coloca a quilômetros de distância do ritmo insano em que o país acordou hoje, agora totalmente disposto a começar a funcionar. Ou você estava pensando que o torpor do carnaval só existe no Brasil?

Haiá tov, ve tov shehaiá.

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Pessach: foi bom, e bom que se foi”

  • Marion Vaz

    03/05/2016 at 22:42

    Adorei essa descrição do Pessach, sentimentos e atividades durante a festividade. Os artigos da Conexão oferecem uma visão mais atual do cotidiano israelense. Isso é bom.

    • Miriam Sanger

      04/05/2016 at 18:09

      Obrigada pelo comentário simpático, Marion.
      Continue nos acompanhando!
      Abraço,
      Miriam

  • Nome (Obrigatório)Salomao

    09/05/2016 at 17:16

    Carissima amiga,
    O mais bacana da narrativa é o tom de descoberta. Já se sabia de muito, mas parece que redescobrir a cada novo hag é uma surpresa. Mesmo com tanta massa e tanto melado, a vida se mede pelas histórias que se tem pra contar . Grande abraço.

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