Plantar oliveiras para colher a paz

04/03/2016 | Conflito, Opinião, Política.

Cerca de seis meses após o atentado em Duma  a organização Rabinos por Direitos Humanos organizou um evento com moradores do vilarejo em que, juntos, plantaríamos oliveiras. Não tive como deixar a possibilidade de voltar ao vilarejo passar em branco.

Em julho, logo após o atentado cometido por extremistas judeus  em que três membros da família Dawabshe foram mortos queimados,  fui a Duma  junto com outras  dezenas  de israelenses  prestar solidariedade e afirmar que somos completamente contra atentados terroristas.

A possibilidade de ir a Duma novamente, mais uma vez demonstrava solidariedade a uma população que ainda vive constantemente sob medo e ameaça de colonos e de soldados.

Saindo de Jerusalém debaixo de um sol de inverno bem diferente do verão a época do atentado, um microônibus levava os ativistas de Jerusalém e o outro os que vinham de Tel Aviv.

A beleza da estrada mais uma vez me chamou atenção. A vegetação verde em função das recentes chuvas, esconde um pouco a paisagem pedregosa.  Os vales da Cisjordânia têm uma beleza ímpar e não consigo desgrudar o olho da janela.

Chegamos em Duma, mas não entramos no vilarejo. O terreno onde plantaríamos as árvores fica na entrada do vilarejo, o mesmo local onde seis meses antes encontrei diversos cartuchos de bombas de efeito moral que haviam sido atirados contra a população que protestava contra o assassinato.

Pás e enxadas na mão, atravessamos a estrada e nos encontramos com cerca de 20 palestinos de Duma que nos esperavam para iniciarmos a plantação.

Por cerca de duas horas estávamos todos, judeus e palestinos, cavando buracos e plantando oliveiras. Por duas horas estávamos caminhando juntos, carregando mudas juntos e dividindo as mesmas ferramentas de trabalho. Chegaram dois caminhões pequenos com mudas. No total plantamos 150 novas oliveiras.

Os moradores de Duma vinham e nos davam água, suco e chocolate. Alguns falavam hebraico e os que não falavam pediam ajuda na tradução do árabe. “Pegue um chocolate. É para adoçar um pouco a vida”.

Quando terminamos a plantação, sob a orientação dos agricultores palestinos, uma pequena cerimônia foi organizada e o coordenador da organização Rabinos por Direitos Humanos falou ao lado do prefeito de Duma contra a violência e pelo entendimento e convívio pacífico entre palestinos e judeus.

Alguns judeus que vieram conosco quiseram ir ao vilarejo ver a casa da família Dawabshe que não foi reformada. Para mim, a lembrança do último mês de julho era suficiente e preferi ficar no campo, conversando com os que também preferiram registrar na mente essa nova ida a Duma.

Plantar oliveiras com palestinos em sua terra tem um significado muito maior do que a simples plantação. As oliveiras, como sabemos, é a principal árvore da região e também é um símbolo de paz. Por milênios são cultivadas por aqui. As oliveiras também são usadas para determinar o pertencimento a terra. As plantações também são muitas vezes atacadas por colonos que as queimam por inteiro ou pelo exército que as destroem, em mais um exemplo de punição coletiva contra a população palestina que se recusa a deixar a sua terra.

Plantar oliveiras juntos significa dizer que aqui estamos e por aqui  ficaremos.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Plantar oliveiras para colher a paz”

  • Rafael Stern

    04/03/2016 at 19:08

    Mazal tov! Mabruk!
    Não adianta desejar a paz. Tem que plantar oliveiras para que um dia a pomba pegue um ramo para carregar no bico e nos avisar que as águas já baixaram.

  • Mario S Nusbaum

    05/03/2016 at 04:13

    Marcos, com toda sinceridade, acredite, não sei se admiro ou se lamento sua ingenuidade.

    ” atentado cometido por extremistas judeus em que três membros da família Dawabshe foram mortos”
    “fui a Duma junto com outras dezenas de israelenses prestar solidariedade e afirmar que somos completamente contra atentados terroristas.”
    Já lhe ocorreu que para cada dezena de judeus que é contra atentados terroristas não exista 0,0001 palestinos?

    Me desculpe, mas vou ser brutalmente franco: para cada 1000 judeus que “tentam” entender a situação dos palestinos existe, TALVEZ, um palestino que discorde de que lançar os judeus ao mar seja a melhor solução.

    • Marcos Gorinstein

      09/03/2016 at 10:49

      Mario, não sou ingênuo. Vivo, estudo e trabalho nessa e com essa realidade. Vc precisa ser mais propositivo e escrever comentários que façam sentido. Pare de procurar cabelo em cabeça de ovo. Está perdendo o rumo. Aprenda mais sobre a realidade em que eu vivo.

  • Mario S Nusbaum

    05/03/2016 at 04:25

    Me desculpe Marcos, mas após ler e reler seu texto só me restou perguntar: e?

    Não entendi onde você quer chegar, mas acho que me ajudaria entender se você pudesse nos dar exemplos de palestinos colaborando com famílias judias vítimas de atentados terroristas.

    • Marcos Gorinstein

      09/03/2016 at 10:47

      Mário, quero chegar à paz. E seu comentário é completamente sem nexo. PS- Há uma organização chamada Fórum de Famílias Enlutadas, em que famílias palestinas e israelenses, mutuamente, se apoiam. Se informe mais sobre o tema.

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