Plonter de Rami Fortis

10/02/2013 | Cultura e Esporte

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Rami Fortis nasceu em 1954 em Tel Aviv, filho de um italiano de Milão e de uma iraquiana de Bagdá. Quando jovem, comprou uma revista que ensinava a tocar violão, mostrando os acordes mais simples. Fortis tocava em seu quarto por horas, inventando músicas e letras. Um dia sua mãe entrou no quarto, pôs o violão no chão e pulou sobre ele. Rami conta que esse ato mudou a sua vida para sempre: sua mãe o havia ensinado o que é atitude rock n’ roll, que não é preciso tocar, é preciso liberar. A partir desse dia começou a escrever músicas.

Em 1973, com 19 anos, participou da Guerra de Yom Kipur. Ele fazia parte da divisão de defesa antiaérea que estava no deserto do Sinai. Em uma entrevista, ele conta:

“Entrei uma pessoa, e saí uma pessoa diferente. E durante anos pensei que isso era algo muito meu. Eu passei ali por uma ‘tempestade emocional’, eu me abalei. Pode-se chamar isso de pós-trauma, pode-se tirar disso todo tipo de coisa. Nunca cuidei disso, é como se isso fosse algo somente meu, mas eu saí bem abalado dessa história. — De que? O que aconteceu? — Não aconteceu nada, eu participei de uma guerra. Me jogaram bombas, e eu atirei em outras pessoas, eu participei desse jogo. Mas o que é importante é que eu entendi que de todas as pessoas desse país em volta de mim, eu não sou único. Uma de cada duas pessoas que eu e você conhecemos nesse país está perturbado até o fundo de sua alma por ter participado de jogos de guerra. Enquanto que outras pessoas em outros lugares do mundo tiveram o tempo de viver a vida normal. Nós não vivemos a vida normal, cada um, em seu devido tempo, foi levado a participar desse jogo. Todos pensam que saem disso como heróis, você recebe condecorações, te dão medalhas, mas a alma, nada…”

Quando saiu do exército, conseguiu trabalho com a famosa banda Tamuz, como parte da equipe de palco, carregando caixas de som, cuidando da iluminação, etc. A banda tinha menos de um ano de existência e Fortis a acompanhou para todos os lugares onde ia. Grandes nomes da música israelense surgiram ali, como Shalom Chanoch e Ariel Zilber.

Um dia Fortis estava tocando e cantando em um camarim, e Zilber gostou do que viu e o convidou a tocar no intervalo do show. A partir de então a participação de Fortis no “show do intervalo” virou algo fixo. No mesmo período, Fortis começou a fazer apresentações com sua banda Zvuv no Moadon haRock haIsraeli (clube do rock israelense). Sua banda esquentava o palco para bandas maiores e conhecidas. Foi assim que conheceu Beri Sacharof, três anos mais jovem, que tocava na banda Chalom Kosmi (sonho cósmico). Sacharof e Fortis viraram bons amigos, e anos depois formariam a banda Minimal Compact, apresentando-se na Europa, e mais tarde colaborariam em diversos álbuns conjuntos, entre eles “Sipurim Mehakufsa” e “1900?”.

Banda Zvuv. Fortis é o segundo da esquerda para a direita
Banda Zvuv. Fortis é o segundo da esquerda para a direita

O produtor musical da banda Tamuz, Rafi Malul, convidou Fortis e fazer um álbum, sem saber muito no que daria. O jovem era promissor, e fazia um tipo de música até então desconhecida ao público israelense. Malul apresentou a Fortis outros músicos, e juntos formaram a banda Maim Chamim. Samy Birnbach, recém chegado de Londres, escreveu a letra de Lamdi Oti Halaila, que foi lançada como single e foi tocada nas rádios.

Rami Fortis e sua banda juntaram em volta de si um público pequeno e fiel, que buscava protestar contra o ‘establishment’ através do punk. Esse estilo musical já era então bastante desenvolvido na Inglaterra e Estados Unidos, e Rami Fortis era o artista que representava o movimento em Israel. O público vestia roupas diferentes, com cortes de cabelo incomuns e alfinetes de segurança por todo o corpo, inclusive nas bochechas. Tudo isso era novo em Israel, e o contraste com o público ‘careta’ era gritante. Em uma apresentação no Heichal haTarbut em Tel Aviv, o público quebrou cadeiras, jogou tomates e garrafas no palco, causando grande destruição. O evento ganhou repercussão nos jornais e no noticiário da TV (só existia um canal!), e houve até mesmo discussões na Knesset (parlamento) sobre essa “juventude problemática”.

Apesar da identificação de Fortis com o movimento punk, as músicas que compunha estavam muito mais firmadas no clássico rock. Segundo Rafi Malul, a atitude era punk, mas a música era um “rock pesado de protesto”.

O álbum Plonter foi lançado em 1978, e representa um marco na história do rock israelense. Até então se fazia um rock bonzinho, como o de Arik Einstein, Shalom Chanoch e Kaveret. Fortis foi o primeiro em Israel a trazer às canções um sentimento de revolta e contestação da ordem vigente. Um símbolo desse sentimento de revolta é a canção “Red Meal Masach HaTelevizia Sheli”, veja o clip abaixo.

A letra da canção Hador Haze (esta geração) exprime de forma claríssima o antagonismo entre o establishment e a geração punk jovem:

Fecharam-lhe a porta na cara
Disseram que ele usava drogas
Lhe deram nomes e mil apelidos
E sem nenhuma vergonha eles gritaram como doentes:

Essa geração é podre, parece tão patética
Essa geração é triste, essa geração é patética
Essa geração é triste

Escreveram que ele prejudica a sociedade
Que ele não tem utilidade, ele é só um acidente ruim
E somente poucos disseram: ele é excelente
E sem nenhum tato eles gritaram como doentes:
Essa geração é podre, parece tão patética
Essa geração é triste

Fizeram muitas conferências sobre ele
O desenharam, fizeram experimentos
Fecharam-lhe a porta na cara
E sem nenhuma vergonha eles gritaram como doentes:

Essa geração é podre, parece tão patética
Essa geração é triste
Sim essa geração…
Essa geração é patética
Sim essa geração…

Nem todas as canções do álbum são rock. Com o lançamento do álbum, a única canção que foi tocada nas rádios foi “Shemesh Lach Metzapim”, provavelmente o primeiro reggae escrito na língua hebraica. Fortis não se identifica com essa música, e nunca a tocou em nenhum show que fez.

A canção que melhor expressa a personalidade de Fortis é Incubator. Ela foi gravada quando ele estava sozinho no estúdio, em um ‘take’ apenas. Acompanhado apenas do violão, Fortis canta, uiva e grita, contando a história de um bebê recém nascido revoltado com o mundo.

O título do álbum, Plonter, é muito apropriado, e significa emaranhado. Muitas das canções provocam um certo desconforto no ouvinte, seja pela letra ou pela melodia incomum. Apesar de ter sido um desastre de vendas quando foi lançado, o álbum continua sendo redescoberto ainda hoje por gerações de jovens, que buscam algo de autêntico e não conformista.

Fortis segue na ativa, já são mais de 35 anos de uma bela carreira, diversos álbuns lançados solo e com colaboradores, incluindo, Beri Sacharof, Shlomi Bracha (do Mashina) e Shlomi Shaban. Ele continua fazendo rock, mas sua música há tempos não soa como a de Plonter. Fortis segue evoluindo sua concepção musical, coisa que já o fazia durante os dois anos de gravação de Plonter, e que explica a diversidade ali encontrada. Hoje suas canções são menos “ta-ta-ta-ta” e mais melódicas e até mesmo pop. As canções de destaque dos últimos anos são Tischeti Oti, Makom Barosh, e uma recente adaptação de “Nitzotzot“, originalmente lançada no álbum “1900?” com Beri Sacharof. Escute “Nitzotzot” tocada no piano por Shlomi Shaban, e Fortis mostrando a todos que tem uma voz poderosa e melódica.

Fonte e materiais extra:
Excelente documentário do canal 8 de Yoav Kutner, chamado “haalbomim”, contando a história da criação do primeiro álbum de vários artistas israelenses. Se você entende hebraico, assista o capítulo sobre Rami Fortis.

O blog Shirim em Português, de minha autoria, tem o vídeo e letra original, transliterada e traduzida de várias canções do álbum Plonter. Confira:
Red Meal Masach HaTelevizia Sheli – Rami Fortis
Dvash – Rami Fortis
Lamdi Oti Halaila – Rami Fortis
Hador Haze – Rami Fortis
Incubator – Rami Fortis
Shemesh Lach Metzapim – Rami Fortis

Para finalizar, quem gostou no Fortis pode assistir esse video. Um menino de 5 anos foi chamado para cantar com o Fortis no palco, e ele dá um show, rock n’ roll! O Fortis disse que depois disso ele já pode se aposentar.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Plonter de Rami Fortis”

  • nelson

    11/02/2013 at 02:14

    grande yair, nosso ponto de referencia.

  • Mario Silvio

    11/02/2013 at 14:42

    “Mas o que é importante é que eu entendi que de todas as pessoas desse país em volta de mim, eu não sou único. Uma de cada duas pessoas que eu e você conhecemos nesse país está perturbado até o fundo de sua alma por ter participado de jogos de guerra. Enquanto que outras pessoas em outros lugares do mundo tiveram o tempo de viver a vida normal. Nós não vivemos a vida normal, cada um, em seu devido tempo, foi levado a participar desse jogo. ”

    Acredite quem quiser, qualquer país do mundo que fosse assim teria minha solidariedade e apoio.
    É muito triste a situação de Israel.