E esse pó aí?

04/10/2013 | Sociedade

Hoje, enquanto limpava a casa pela terceira vez nessa semana, me peguei ruminando palavrões contra esse pó que invade a tudo aqui nessa Terra Santa. Nem sou uma paranoica com poeira – alguém assim dificilmente sobreviveria em Israel –, mas tenho tremenda birra com essa crosta marrom que insiste em cobrir tudo. “Essa mania de limpeza deve ser coisa de quem vem de países onde há ‘ajuda profissional’ em casa”, comentou comigo um amigo israelense preocupado com minha irritação frente à crosta e com um quê de inveja das minhas saudosas diaristas brasileiras, pelas quais vira e mexe eu emito suspiros sentidos. Aqui é cada um por si e, já entendi, a saída é “aumentar a tolerância” não apenas ao pó, mas à roupa que nunca é passada a ferro (não dá tempo), a pia onde sempre sobra louça da última refeição (também não dá tempo) ou à geladeira que carece de uma faxina há semanas já que simplesmente… não dá tempo (suspiros).

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Esse pó já mereceu de mim muitos momentos de reflexão, tamanha a sua insistência em fazer parte da minha vida. E não foi difícil concluir seus motivos de existir. Para começar, bem na frente do janelão da minha sala há uma obra em andamento. Bem mais que uma obra: um projeto do governo chamado Tama 38, que remodela prédios inteiros e transformou as cidades israelenses em enormes canteiros. Deixando de lado o incômodo, tanto pros moradores quanto pros vizinhos, a ideia é bacana. O governo israelense, interessado em aumentar a segurança de prédios antigos frente a tremores de terra, lançou o Tama 38 que prevê que: 1) Caso haja interesse da maioria dos proprietários do edifício, é feita uma concorrência com empresas de engenharia e de construção que; 2) Apresentam um projeto que prevê o reforço de seus alicerces, além da construção de varandas e de um quarto de segurança em cada apartamento contra explosões e armas químicas, o que há alguns anos se tornou obrigatório por lei nas novas construções. Também a fachada é toda reformulada, é incluído um elevador e garagem, se o espaço permitir; 3) Toda a reforma é bancada pela empresa responsável pela reforma que, em troca, tem direito a construir um ou dois andares de apartamentos, os quais comercializa; 4) A prefeitura, por sua vez, deixa de recolher dos moradores a “arnona”, o IPTU daqui, que por sinal é bastante caro. Depois de 1,5 a 2 anos de intenso horror, com janelas permanentemente fechadas e gritaria em árabe das 6h30 às 16h (a mão-de-obra da construção civil israelense é basicamente formada pela população árabe), o prédio se torna irreconhecível – e seu valor aumenta em 30% a 40%. Somente no quarteirão onde eu moro, em Raanana, quatro prédios estão passando pelo Tama. Aquele em que eu vivo, aliás, vai entrar nessa no ano que vem, e aí sim vou passar o dia me afogando em suspiros por uma diariasta brasileira.

Há uma outra revolução da engenharia civil rolando por aqui: a ampliação da malha viária. Eu havia notado essa intensa movimentação desde a primeira semana que cheguei a Israel, mas acreditei que tudo o que eu via fizesse parte de algum projeto que envolvesse apenas a região central do país, obviamente congestionada. Que nada. O país está em obras, porque é novo, porque cresce alucinadamente e provavelmente porque há muito dinheiro para se investir em infraestrutura. “Primeiro eles abrem a estrada com duas pistas para, dois anos depois, entender que elas não são suficientes para o tráfego que atraiu”, analisou meu amigo israelense. E haja uma poeirada de terra subindo dessa movimentação toda e pairando pelo país inteiro.

E quanto ao clima? Verdade. Sem uma gota de chuva durante quase seis meses, como comentou o Yair Mau no texto “A primeira chuva”, a terra virá pó. Parece areia da praia. Isso quando não é dia de chamssin, um fenômeno climático que sopra pro centro e norte aquele poeirão do deserto no sul, o lindo Neguev, deixando o horizonte todo amarelo. Com essa combinação, não tem como não comer pó – e, para sobreviver à guerra contra ele, haja paninho de limpeza, tolerância e suspiros, muitos suspiros.

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No lugar certo, na hora certa

Israel - COnexaoisrael - Miriam

Miriam Sanger, nascida em Recife mas de sangue paulistano, formou-se em Jornalismo em 1991 pela Faculdade Cásper Líbero Chegou a Israel em julho de 2012 e vive com a filha pré-adolescente em Raanana, no centro do país. Temas ligados a cultura, judaísmo, sociedade e comportamento a interessam especialmente. Por isso, mas não só por isso, não tem dúvidas de que está no lugar certo, na hora certa. (SP). 

 

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “E esse pó aí?”

  • Iana Abecassis

    05/10/2013 at 04:52

    Miriam cadê as diaristas de Israel? ^^

    • Miriam Sanger

      07/10/2013 at 12:16

      Elas estão por aí, Iana. São, na maioria, imigrantes ou estudantes que ganham por hora mais do que eu (faxina é um serviço pelo qual paga-se mais do que a média dos escritórios). De qualquer forma, minha pouca experiência com elas não foi muito boa: não há aqui o conceito de faxina do Brasil, de pegar no pesado, sabe como? Assim, vamos seguindo com os paninhos umedecidos (como contou a Mila no artigo Casa, Comida e Roupa Lavada) e muita, muita tolerância. Um abraço!

Você é humano? *