Poesia depois de Auschwitz?

08/04/2013 | Cultura e Esporte

por Mila Chaseliov

Uma das questões mais marcantes e conhecidas depois do Holocausto foi proposta por Theodor Adorno ao afirmar que era impossível fazer poesia depois de Auschwitz.

Hoje ao pôr-do-sol começou Yom HaShoá, Dia de Lembrança do Holocausto. É um não-feriado. O país funciona quase normalmente, mas os lugares de lazer, bares, restaurantes não abrem. A rádio e a TV passam programas sobre a Shoá. Na manhã seguinte – porque o calendário Hebraico começa na noite – toca uma sirene no país inteiro e todos param o que estiverem fazendo por dois minutos, em memória dos 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto. Não é um dia comum. Difícil de explicar, mesmo que esteja tudo ótimo na sua vida o clima é triste, é uma atmosfera pesada.

Esse ano resolvi fazer algo diferente. Vi que o Teatro Khan[ref]http://www.khan.co.il/index_english.php[/ref] ia exibir um monólogo adaptado do livro de Primo Levi, “É isto um homem?” seguido de um debate. Convidei uma amiga e fomos.

O Khan é um teatro pequeno, de 250 lugares. Não há cenário, apenas a caixa cênica, preta. O ator Nir Ron – espetacular! – vestido com um conjunto simples de blazer-gravata, aliança no dedo e óculos de grau, entra em cena pela coxia, desce do palco e para em frente à platéia, no mesmo nível. A primeira coisa que ele propõe é que imaginemos que aquela caixa preta é um laboratório científico, e que ali serão feitos experimentos.

Imagem de divulgação da peça
Imagem de divulgação da peça

Quem conhece o livro sabe como é intenso o relato de Primo Levi. E a adaptação teatral não deixa nada a desejar. Toda a movimentação cênica é feita fora do palco. Ele chega a subir os degraus para “entrar em cena”, mas sempre volta ao chão. Em certos momentos, Primo-personagem senta na platéia e dá lugar a Nir-ator. E dialoga com o público, nos conta o quão difícil é pra ele imaginar esse laboratório que Primo descreve.

Ele nos questiona como nós nos preparíamos para uma viagem. O que levaríamos conosco, o que é importante? Ou, melhor, o que temos ali, naquele momento, que nos faz ser o que somos. Uma foto na carteira ou no celular? Um chaveiro dado por uma pessoa querida? Um colar?

Primo-personagem volta e começa a tirar a aliança, os óculos, e as roupas. Do paletó retira uma colher, um dos “bens” mais importante no campo de concentração. Porque sem colher não é possível comer a sopa rala.

Me lembro dessa passagem no livro, quando Primo Levi diz que pequenos pertences, uma foto no bolso, fazem parte da sua identidade. E no campo ele é somente o número 174517.

A peça vai passando por todo o texto de É Isto um Homem?, a questão da linguagem no campo, o sonho, o Inferno de Dante, a despedida de seu melhor amigo.

Quando acabou, a platéia demorou a aplaudir. Eu também. O impacto do espetáculo era tão forte que qualquer movimento naquele momento não fazia sentido. Estava perdida nos meus pensamentos. Arte na sua melhor forma.

Depois da peça, por ser Yom HaShoá, houve um debate mediado pela parlamentar Ruth Calderon, com o artista plástico Chaim Maor e a psicoterapeuta Dina Vardi, além do ator. Chaim é filho de sobreviventes e seu trabalho é todo ligado ao Holocausto. Dina lida com a questão da segunda geração, os filhos de sobreviventes.

A discussão foi muito interessante, com uma mistura de relatos acadêmicos e pessoais. Nir, o ator, contando como foi construído o texto e a montagem, me emocionou ao explicar como chegaram na concepção da encenação acontecer toda no nível da platéia. Na busca pelo personagem o diretor perguntou: qual seria a pior coisa que poderia acontecer com você, a sua shoá? Alguns dias depois ele tinha a resposta: Não conseguir – ou ser impedido – de subir ao palco.

Chaim então completou, temos aí a resposta à Adorno. É mais que possível, é necessário fazer poesia depois de Auschwitz.

 

Mila Chaseliov é formada em Comunicação pela Uiversidade Federal do Rio de Janeiro, mora em Jerusalém desde 2011 e faz mestrado na Universidade Hebraica.
Mila Chaseliov é formada em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mora em Jerusalém desde 2011 e faz mestrado na Universidade Hebraica.

Foto de capa: http://www.satyrikon.org/wp-content/uploads/2012/10/Se-questo-%C3%A8-un-uomo.jpg

Imagem de divulgação da peça: http://www.khan.co.il/thumbnail.php?type=rect&id=214

 

Comentários    ( 21 )

21 comentários para “Poesia depois de Auschwitz?”

  • Raul Gottlieb

    08/04/2013 at 14:33

    Muito obrigado pelo texto, Milla. O Primo Levi é a meu ver quem melhor traduziu a experiência intraduzível dos campos para a literatura. Você sabe dizer quando esta peça foi concebida? Ela já foi encenada fora de Israel?

  • Artur Benchimol

    08/04/2013 at 17:08

    Belo texto, Mila. Super bem escrito. Adorei.

  • Cecilia Cohen

    08/04/2013 at 17:32

    Mila, Muito obrigada, tive a honra de ter uma palestra com Ruth e varios encontros com Chaim Maor, grandes pessoas para ter um debate. Depois de sua nota fiquei com muita vontade de ver a peca.
    Bjs

    • Mila

      08/04/2013 at 18:02

      Eu não conhecia nenhum dos dois. O Chaim mostrou seus trabalhos e fiquei super interessada! E a pesquisa dela também. A peça é incrível. tem que ficar de olho no site do Khan pra ver quando acontece novamente.

  • Flávio Stoliar

    08/04/2013 at 18:49

    Clap, clap, clap!
    Demais, como sempre!

  • Thais

    08/04/2013 at 19:58

    Mila, texto belíssimo com uma visão diferente da tradicional. Vou divulgar!

  • Raul Gottlieb

    08/04/2013 at 23:11

    Obrigado, Milla. Li o texto do J.Post. Eu sou um grande admirador da obra do Primo Levi – li todos os livros que ele escreveu e duas biografias. Na minha opinião ele foi o maior autor da Shoá, foi quem chegou mais perto de entender os mecanismos mentais que funcionaram nos campos e a partir da leitura de suas obras consegui entender um pouquinho mais sobre como funciona o ser humano.

    • Mila

      09/04/2013 at 10:41

      Eu também adoro Primo Levi.
      Você já leu Viktor Franklin? Man’s Search for Meaning. Estou lendo agora, é muito interessante também. Outra linha de texto sobre a shoá, um estudo psicológico.

  • Tamara

    09/04/2013 at 00:42

    Obrigada por compartilhar conosco esta experiência.
    Também fiquei com muita vontade de assistir..

    • Mila

      09/04/2013 at 10:43

      O prazer foi meu, saí direto do espetáculo e sentei pra escrever. Era exatamente isso que eu queria, compartilhar.

  • Adolfo Berditchevsky

    09/04/2013 at 08:39

    Milla,
    desculpe a pseuda intimidade!

    Por seu relato ,desde a intenção de “rever” Primo Levi ,ate’
    comprovar para quem não foi,’a quem não sabe direito
    o idioma que, conforme afirmou Chaim-o diretor da peça,
    ” E’ mais que possivel , e’ necessario fazer poesia depois de Auschwitz .” ,
    vivi o clima da mensagem como se estivesse na plateia.
    Obrigado!
    Adolfo

  • Léo Wainer

    09/04/2013 at 16:56

    Oi Mila
    Há alguns anos atrás apresentei um monólogo sobre um personagem que conversa com Deus antes de morrer no Gueto de Varsóvia e a sensação de estar no palco sozinho vivenciando esse tema nunca mas me abandonou e a revivi ao ler esta sua mensagem.
    Li este livro do Primo Levi há alguns meses atrás e as imagens que me ficaram ainda estão em minha cabeça…..uma delas foi a da colher……foi bom relembrar através do seu texto algo que não devemos esquecer mesmo.
    Bjo

  • Davy Bogomoletz

    20/08/2014 at 02:09

    Meus respeitos, Mila. Você pegou o sentido inteiro com muito poucas palavras. Fiquei comovido. O livro “É isto um homem?” eu tentei ler, mas não consegui. Parei pouco depois do início. Foi demais para mim. Um dia eu lerei até o fim. O mesmo aconteceu com outro livro – “A Paixão Segundo G, H.”, de Clarice Lispector. Tentei ler certa vez, não aguentei, deixei o livro na prateleira. Mas dez anos depois o peguei de novo e li até o fim. Com o livro do Levi ainda não aconteceu. Eu provavelmente não teria ido ver essa peça. O tema me abala profundamente. Demais.
    Beijos.
    Davy.

Você é humano? *