Por que eles quebraram o silêncio?

Quem nunca ouviu que o exército de Israel é o mais moral do mundo? Que a violência nos territórios ocupados é culpa dos palestinos, e que o exército só se defende das agressões? Que se não fosse pelos palestinos não haveria violência?

Durante a minha infância estudei em um colégio judaico no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. No último ano em que estudei nesse colégio, na antiga oitava série, a última série antes do atual ensino médio, tínhamos uma aula que se chamava “moledet”, que na tradução para o português significa pátria. Alunos entre 13 e 14 anos debatiam atualidades de Israel e política, sob supervisão de uma professora brasileira que havia retornado ao Brasil depois de uns anos morando em Israel.

O ano era 1993, e os Acordos de Oslo eram capa de jornais mundo afora. Nós conversávamos sobre a devolução dos territórios ocupados e a possível criação da Palestina.

Além da posição contrária da professora, que contava que seu marido havia lutado na Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel capturou e ocupou os territórios palestinos, ouvíamos repetidamente que tínhamos o exército mais moral do mundo. Que não cometíamos crimes contra a população ocupada, como se a própria ocupação não fosse um crime. O mantra da moralidade das forças militares era repetido e convertido em verdade para crianças que começavam a criar um pensamento crítico.

Escola sem partido? Não, não. Escola com partido e com partido bem definido.

Quando vim morar em Israel tinha 31 anos. Não servi o exército, nem mesmo fui chamado para comparecer em um dos postos de alistamento. Mas ouvi de muita gente que serviu que há um código de moralidade no exército. Que ensinam como tratar o “outro”. Nesse caso, o árabe.

Mas a questão não é essa: a questão é que não há moralidade na ocupação, há violência. E onde há violência, não há moralidade.

Mas há quase 14 anos isso começou a mudar. Em 2004 era criada uma organização chamada “Shovrim Shtiká”, em português, “Quebrando o Silêncio”. Uma organização que desde então vem reunindo depoimentos de ex-soldados sobre o seu serviço militar, mostrando a dificuldade de se achar a famosa moralidade de que muito se fala por aí.

Ex-combatentes que não conseguiam mais guardar dentro de si a violência cometida contra a população palestina. Jovens que abusaram do seu poder em nome da ocupação israelense e em nome da “defesa” do Estado de Israel.

Nesse mundo de valores invertidos em que vivemos, a organização de ex-soldados, que defende os direitos humanos e o fim da ocupação militar israelense, sofre uma série de ataques de partidos e personalidades políticas, e de movimentos de direita. São chamados de traidores por falarem de seu serviço militar. São acusados de fazer mal à imagem do país. O ataque ao “Quebrando o Silêncio”, e a outras ONG’s de direitos humanos, também se dá através de leis, que visam tornar difícil o financiamento e recebimento de doações para que eles possam continuar a fazer o seu trabalho. É triste como hoje falar em direitos humanos é quase um crime.

Há quase um ano, Dean Issacharof, porta-voz de o “Quebrando o Silêncio”, resolveu contar sobre a sua experiência de soldado em Hebron, em um evento em Tel Aviv. Contou que recebeu ordens para algemar (não são usadas algemas, mas aqueles lacres de plástico) um palestino que estava jogando pedras contra os soldados. O militante teria resistido à prisão, e para que conseguisse algemá-lo, Dean deu joelhadas em seu rosto e peito.

O depoimento de Dean se tornou um escândalo nacional. Políticos e militantes de organizações de direita começaram uma enorme campanha para deslegitimar Dean e, consequentemente, o “Quebrando o Silêncio”.

A ministra da Justiça, Ayelet Shaked (A Casa Judaica), interferiu e pediu que o advogado geral do governo, Avichai Mendelblit, investigasse o caso. Anexou ao seu pedido, uma carta do diretor de uma organização chamada “Reservistas no Front” e do ministro da Defesa, Avigdor Liberman, que também era a favor da investigação.

Uma outra ONG, “Reservistas de Serviço”, fez um vídeo com depoimentos de ex-soldados que serviram com Dean dizendo que a sua história não era verdadeira, e que ele era um mentiroso. Dean foi chamado de mentiroso pelos ex-companheiros. Dedos eram apontados para ele.

https://www.youtube.com/watch?v=V-syYv60Vf4

Para a direita a vitória era certa e repercutiria de algumas formas:

– Caso Dean estivesse falando a verdade, deveria ser julgado e, caso condenado, deveria pagar por ter agredido um palestino que resistia à prisão. Além disso, toda a campanha de perseguição e caça às bruxas inibiria outros ex-soldados a darem seu depoimento.

– Caso Dean estivesse mentindo, seria praticamente o fim do “Quebrando o Silêncio”. A organização perderia sua legitimidade e poderia não ter forças para se reerguer.

Shaked tinha preferência por um desses cenários, e prender um soldado que agrediu um palestino poderia abrir uma ferida na ocupação israelense. São as tais Caixas de Pandora.

Duas semanas depois do pedido da ministra da justiça, no final de junho do ano passado, Dean era chamado para prestar depoimento na polícia. E quase cinco meses depois, em novembro, o processo era encerrado por falta de provas da agressão. Era o resultado que Shaked queria.

Foi apresentado o depoimento de Hassan Joulani, que também havia sido preso por Dean. Joulani diz que foi agredido por soldados da polícia de fronteira, não do exército. Também foi publicada uma foto de Joulani sendo levado preso por Dean. Nesse dia, Joulani diz que não foi agredido. O caso foi encerrado e o depoimento de Dean era tido como mentiroso.

O comandante do batalhão de Dean, Ruben, que estava ao lado dele quando a agressão aconteceu, não foi chamado para prestar depoimento sobre o caso. Mas ele também quebrou o silêncio e disse o que aconteceu no dia em que Dean diz ter agredido o palestino, corroborando a versão de Dean.

https://www.youtube.com/watch?v=kup6NobXXS8

Poucos dias depois do caso ter sido encerrado, com o suporte de outra organização israelense de direitos humanos, a B’tselem, Dean consegue provar a sua culpa. Em um vídeo filmado por um ativista palestino da B’tselem, Dean é visto conduzindo um palestino algemado e com hematomas no rosto.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=47&v=4QVAK6kqInU

A alegria de Shaked, Liberman e de grupos da direita não durou muito. Na bizarrice em que esse caso se tornou, Dean Issacharof conseguiu provar que era culpado. Conseguiu provar que havia agredido o palestino e que Hassan Joulani não havia sido vítima de sua agressão. Dean não teve que provar a sua inocência, teve que provar que era culpado.

https://www.youtube.com/watch?v=kth5TMPOUvk

Após o “erro” cometido pela Polícia e pela Justiça, que investigaram a pessoa errada, o caso de Dean foi reaberto no final do ano passado. O “Quebrando o Silêncio” exigiu que a promotoria assumisse o seu erro, o que não foi feito. Contudo, chamaram para depor, Faisal al-Natsheh, o palestino que Dean alega ter agredido. Em uma entrevista ao Canal 2, Al-Natsheh disse ter sido agredido por Dean.

O desespero da direita em deslegitimar o “Quebrando o Silêncio” mostra faces mais sujas quando o ministro de Segurança Interior, Gilad Erdan, ao ser questionado no Parlamento, admitiu que o investigador que questionou Hassan Joulani não tem o árabe como primeira língua, e que Joulani assinou documentos em hebraico mesmo sem saber o idioma.

No meio desse turbilhão de mentiras e propaganda política, o “Quebrando o Silêncio” lança um outro livreto com depoimentos de ex-soldados. “Por que eu Quebrei o Silêncio?”

São 15 depoimentos de sargentos, primeiro-sargentos, tenentes, capitães e majores divididos em duas partes: a primeira os ex-combatentes contam situações de violência que viveram. Na segunda parte eles explicam porque resolveram contar a sua experiência.

Minha ideia inicial era colocar aqui alguns trechos dos depoimentos para ficar mais fácil de imaginar a realidade da ocupação israelense. Entender como é a realidade de quem ocupa e de quem é ocupado. Como isso influencia na vida de quem está em um dos lados. Mas não vou fazer isso. Não vou colocar aqui os depoimentos que mostram como os soldados agridem fisicamente, verbalmente, moralmente a população palestina. Não vou colocar aqui o descaso de oficiais e superiores quando casos como esses eram reportados. Também não vale falar dos tiros com balas de borracha, varreduras em casas de inocentes no meio da noite, cusparadas, tapas na cara, prisões arbitrárias, destruição de casas com drones. Muito menos da influência dos colonos na atuação do exército. A regra da ocupação militar sobre uma população civil.

Ao ler os 15 depoimentos entendi que o mais importante não são as práticas violentas e opressoras. É óbvio que isso é fundamental para saber o que parte dos jovens israelenses fazem nos territórios ocupados, e como funciona a máquina para oprimir e controlar um povo há mais de 50 anos. Porém o mais importante nesse livreto são os motivos que levam os ex-combatentes a quebrar o silêncio.

Os motivos, bem como a decisão de quebrar o silêncio, são debatidos já no prefácio do livro, mostrando sentimentos de jovens israelenses que são enviados para os territórios palestinos ocupados para usar a violência como forma de controlar uma população civil, e depois, quando querem contar o que fizeram em nome do Estado, são escrachados pelo governo e chamados de mentirosos. Uma história que vem se repetindo há mais de cinco décadas. Isso, sim, vale a pena ser citado aqui:

“… O momento exato que desencadeou este processo (de quebrar o silêncio) é diferente para todos e cada um de nós: para alguns de nós, a decisão de quebrar o silêncio surgiu em um momento de clareza e, para outros, foi um processo mais longo de digerir emoções conflitantes. Para alguns, era o senso de dever cívico, e para outros, um sentimento de desconforto.”

“… O ato de quebrar o silêncio é a nossa decisão de se levantar contra a injustiça, contra o cerceamento da liberdade e contra o insensível endurecimento do coração, sempre presente na própria ocupação e em todos nós que a servimos.”

“… O ato de quebrar o silêncio é estarmos prontos para carregar o ônus da responsabilidade pelo que nós, como soldados e comandantes, fizemos nos territórios ocupados …”

“… No entanto, ao fazê-lo, exigimos que a sociedade israelense se responsabilize pelo que nos envia para fazer. A própria sociedade que nos abraça como “filhos” da nação, mas nos envia aos 18 anos para sermos governantes estrangeiros sobre os outros, sem parar de pensar o que o serviço nos territórios ocupados realmente implica. Exigimos que nossa sociedade, a sociedade israelense, ouça a nossa história – que também é sua história. Esperamos que assuma a responsabilidade e acabe com a ocupação.”

“Quebramos o silêncio porque acreditamos que é nosso dever moral falar sobre as injustiças que vimos e cometemos. Quebrar o silêncio nos obrigou a fazer perguntas sobre as coisas que a sociedade israelense nos ensinou que não há perguntas a serem feitas. Perguntas sobre o exército israelense ser o “exército moral mais do mundo”, sobre Israel como uma nação amorosa e de paz, simplesmente se protegendo do inimigo ou sobre como essas desavenças devem ser resolvidas unicamente “na família”. Quando todos esses pontos de interrogação apareceram, nos encontramos diante de um enorme abismo, minando a fé cega que moldou nossa identidade como israelenses e soldados. E ainda acreditamos que é nosso dever quebrar o silêncio.”

“… Quebramos o silêncio porque acreditamos que nenhuma mudança seria possível sem reconhecer a responsabilidade que temos em relação à realidade da ocupação – uma realidade que perturba profundamente a vida de milhões de pessoas sob nosso governo. Sem essa mudança, Israel nunca se tornará o farol da verdade e da justiça que nos esforçamos para que seja.”

Esse prefácio e todo o material do “Quebrando o Silêncio” são a própria explicação de porque o governo e a direita israelense querem tanto o fim da organização. Eles querem que as pessoas permaneçam em silêncio, que a violência contra os palestinos não seja questionada. Querem continuar construindo uma sociedade doente, sem moral e com valores extremamente distorcidos.

Para quem quiser ler os 15 depoimentos basta acessar a página da organização e baixar o arquivo aqui.

Por fim, caro leitor, se há alguma moral no exército de Israel, isso se deve aos ex-combatentes que quebraram o silêncio. Eles, sim, são motivo de orgulho.

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