Por que eu voto Meretz?

02/03/2015 | Política.

Eu voto Meretz, não escondo isso de ninguém. Pelo contrário: sou filiado e faço campanha. Não sou um militante cego, no entanto. Faço críticas ao partido, como neste artigo em resposta a Ari Shavit e Marcelo Treistman. Tenho muitas críticas ao Meretz, inclusive. Pretendo dizer aqui neste artigo porque eu opto pelo Meretz, e exatamente por isso começarei pelas críticas ao meu partido, para que no fim eu possa deixá-los com uma impressão positiva.

Problemas

O discurso do Meretz é horrível. Esta já é a segunda vez que eu participo da campanha, e pela segunda vez sou indagado por eleitores de outros partidos (e até mesmo indecisos) sobre a ausência de propostas na própria campanha. Não que o Meretz não tenha propostas, pelo contrário. O partido é um dos poucos que apresenta propostas para todas as áreas, e um dos raros que revisou a sua agenda e apresentou um consistente programa de governo nos últimos dois anos. Mas simplesmente não trouxe a público estas propostas. Não é raro que, no Facebook, as propagandas do partido sejam criticadas pelos próprios eleitores. O discurso não vai bem.

O que de tão ruim há na campanha? A estratégia é equivocada em três aspectos: o primeiro, apresentar-se como o único partido de esquerda, e eleger os trabalhistas do bloco União Sionista como seu alvo principal. O Meretz começou a campanha mostrando esperança de voltar a fazer parte do governo, o que não acontece desde 2000 (veja o vídeo abaixo).

No entanto, com a iminente perda de votos para a dupla Herzog e Livni, a estratégia passou a ser assustar os eleitores: votar na União Sionista não necessariamente nos livrará do Likud, mas um Meretz forte, que jamais formará uma coalizão com Netanyahu, certamente o fará (veja os vídeos abaixo). E daí passa para críticas fortes a Livni. O argumento é verdadeiro, mas a estratégia é ruim. O Meretz não deve ganhar votos pelo o que os outros não são, e sim pelo que é.

O segundo erro de estratégia consiste em não priorizar a apresentação de seu programa de governo. O partido se contenta em definir-se como “a esquerda israelense”, em contraste com os dois últimos líderes trabalhistas, que classificam seu partido como “de centro”. Ora, se eles se definem como “de centro”, claramente é porque não é muito popular dizer-se de esquerda. Por outro lado, as propostas mais valorizadas pelo eleitor israelense são as tradicionais políticas públicas que em todo o mundo são identificadas com as esquerdas. Shas, Kulanu, União Sionista, A Casa Judaica (HaBait HaYehudi) prometem políticas de clara interferência do Estado na economia, melhora das condições sociais do cidadão israelense, sem ter um programa que chege à metade do que o Meretz propõe. O Meretz, então, erra, pois não percebe que o israelense identifica o termo “esquerda” diretamente com a política em relação aos palestinos, no qual ser de esquerda é impopular (sim, leitor, o israelense médio não acredita na paz no momento), ao invés de bater de frente com os liberais (muitas vezes disfarçados de socialistas ou social-democratas, como Shas e A Casa Judaica) e comparar suas propostas, seus feitos no passado e seu histórico totalmente livre de corrupção e até mesmo de denúncias, coisa que absolutamente nenhum partido possui.

O último erro é a total falta de agressividade. A situação em Israel não é boa. Recentes pesquisas mostraram que o número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza chega a 30% da população (dentre os quais, 920 mil crianças). Os bons índices alcançados pela política econômica de Netanyahu não são revertidos para a população: outra pesquisa mostra que quase a metade dos israelenses de classe média não conseguem fechar o mês. Além disso, nos últimos 14 anos sem Meretz no governo, o que se viu foram o fortalecimento político do Hamas, uma intifada, quatro guerras (uma com o Líbano e três com o Hamas), os terroristas alcançando um avanço bélico surpreendente (foguetes e mísseis de longo alcance, túneis subterrâneos) e, por incrível que pareça, o fracasso cai nas costas das esquerdas. O Meretz é praticamente acusado de culpado pela situação da falta de segurança em Israel, como se a decadência tivesse ocorrido quando o partido esteve no governo. O corrente status quo, mantido por Netanyahu e sua trupe, nos trouxe a esta situação de insegurança e falta de esperança, e a proposta que nunca foi posta em prática é atacada como se fosse a responsável pela situação. Esse é o tipo de golpe que o Meretz recebe e não responde. A campanha vai mal. Muito mal. Nunca vi um discurso de um partido de esquerda tão passivo e vazio como o do Meretz.

Por que voto Meretz, então?

Partido limpo

Não há absolutamente nenhum outro partido na Knesset, por exemplo, que registre na internet a lista de todos os doadores da campanha (aqui ainda não é lei). Nenhum dos parlamentares do Meretz, desde 1992, jamais foi envolvido em um escândalo de corrupção. Acusações sem provas já aconteceram, sobretudo como arma para enfraquecer o partido. Mas a falta de evidências só fortalece esta boa imagem.

Proposta de paz

Outra razão se dá pela forma como o conflito é apresentado: o Meretz é infelizmente o único partido que apresenta os acordos de paz que acarretariam na criação de dois Estados como alternativa real, como parte essencial de sua campanha, e não tem vergonha de admiti-lo 1. A União Sionista omite o tópico de sua página na internet, e não fala em solução ao conflito, apenas em falta de segurança, assim como o Likud e o Kulanu. O Yesh Atid apresentou recentemente seu plano, dando ênfase à recusa de dividir Jerusalém em qualquer circunstância 2. Os outros partidos sequer tocam no assunto 3. Ok, não é o único: a Lista Unificada também. Mas este bloco de partidos de grande maioria árabe não possui uma visão homogênea em relação ao conflito, tendo a maior parte deles uma agenda antissionista. Eu não sou a favor de um acordo que nos leve a um Estado binacional, e, apesar de que alguns destes partidos, como o Hadash 4, afirmem ser a favor de dois Estados para dois povos, suas propostas não parecem direcionar-nos para este fim. O Meretz, portanto, é o único partido que apoia abertamente a resolução do conflito com os palestinos através de negociações, e afirma exatamente qual o seu plano de paz, quais seriam os termos do acordo, incluindo as fronteiras e os passos a serem dados. O único.

Direitos civis e fim da coerção ortodoxa

Não só nisso o Meretz se diferencia: todos os seus candidatos apoiam sem nenhuma vergonha a expansão dos direitos civis, especialmente para minorias discriminadas, como árabes, homossexuais, imigrantes (legais ou ilegais) e outros grupos. Além disso, o partido se posiciona abertamente contra a coerção religiosa, defendendo a separação total entre religião e Estado (o que de forma alguma implica em antissionismo ou pós-sionismo), apoiando instituições como o casamento civil (e casamento homossexual, por consequência), transporte público nas festas religiosas e aos sábados, e o fim do monopólio ortodoxo sobre o rabinato, reconhecendo todas as correntes do judaísmo. Se há um partido que defende abertamente a democracia neste país, este é o Meretz.

Política econômico-social

Por fim, se a União Sionista pela segunda vez consecutiva apresenta uma agenda de esquerda para a política econômico-social, a do Meretz ainda se encontra mais à esquerda: o programa político do partido foi escrito pelo respeitado professor Yaron Zelicha, um dos principais críticos à extrema liberalização econômica implantada pelos governos Sharon, Olmert e Netanyahu. A plano prevê uma grande reforma tributária, com distribuição de renda considerável para as populações carentes e participação popular na distribuição do orçamento, além de grandes aumentos no incentivo a educação, saúde e qualidade de vida dos aposentados.

Lutamos contra o alto custo de vida / pela igualdade / contra os magnatas / fazemos a paz.
Lutamos contra o alto custo de vida / pela igualdade / contra os magnatas / fazemos a paz.

Concluindo: voto Meretz

Acredito que se o partido apresentasse suas propostas ao invés de preocupar-se em assustar os eleitores, ganharia votos. O Meretz é um partido de esquerda em todos os aspectos, coerente com a sua visão de mundo, e bastante homogêneo: todos os candidatos do partido são comprometidos com os princípios básicos do partido, e não há chances de que um candidato oportunista integre as suas duas primeiras fileiras.

Eu não voto Meretz por não haver outra opção. Eu voto Meretz por ser uma excelente opção. Infelizmente é a única. Pelo menos eu tenho uma.

Se quiser ler mais sobre as principais propostas do Meretz, clique aqui

Abaixo novas propagandas do Meretz, consideravelmente melhores que as anteriores. Ao invés de jogar contra a União Sionista, tentam mostrar seu valor. Ainda não são o ideal, mas já são bem melhores.

Notes:

  1. O Israel Nossa Casa (Israel Beiteynu) também tem um plano de paz que prevê a criação de dois Estados. O problema é que tal plano prevê o intercâmbio de populações e territórios. Em outras palavras, cidades habitadas por árabes cidadãos israelenses seriam ‘entregues’ ao Estado palestino em troca de colônias judaicas na Cisjordânia, que seriam incorporadas ao Estado de Israel. Evidentemente eu não estou de acordo com tal plano, que retira cidadania de israelenses apenas por serem árabes, sem sequer consultá-los se esta é a sua preferência.
  2. A proposta sequer foi apresentada, Yair Lapid apenas fez questão de tornar público o que não fará.
  3. Exceção feita ao partido A Casa Judaica, que toca no assunto com frequência, mas, ao contrário do Meretz, afirma que ser contra a criação do Estado palestino, propondo a anexação de parte dos terrotórios da Cisjordânia.
  4. O Hadash não se diz antissionista, e, assim como os outros partidos da Lista Unificada, apoia a criação de dois Estados. O problema é que o Hadash possui em seu website suas propostas em duas línguas: árabe e hebraico. Em cada uma destas traduções as propostas se distinguem consideravelmente, o que me faz não ter confiança nenhuma no partido.

Comentários    ( 19 )

19 Responses to “Por que eu voto Meretz?”

  • Carlos Alberto de Paula

    02/03/2015 at 17:36

    Estou contigo! Vou conhecer melhor pelas perspectivas que defende. Vou acompanhar mais de perto.

    Grande abraço, João!

  • Mario S Nusbaum

    02/03/2015 at 17:41

    “O Meretz, portanto, é o único partido que apoia abertamente a resolução do conflito com os palestinos através de negociações, e afirma exatamente qual o seu plano de paz, quais seriam os termos do acordo, incluindo as fronteiras e os passos a serem dados. O único.” Ótimo, e seria excelente se você o detalhasse aqui, mesmo que resumidamente.

  • Mario S Nusbaum

    02/03/2015 at 19:18

    Ops, desculpe, não li o especial, e obrigado pelos links.

  • Marcelo Starec

    02/03/2015 at 21:04

    Oi João,
    Parabéns pelo texto e como leitor agradeço muito pela sua sinceridade e coerência. Nunca concordei com quem se diz “imparcial” – valorizo muito quem efetivamente se coloca, assume a sua posição e explica o por que disso…Eu confesso que fico por um lado feliz por não ter esse direito de votar, pois entendo ser uma responsabilidade muito grande escolher hoje um dos partidos. É certo que eu não escolheria nenhum dos partidos que defendem um Estado binacional, pois entendo ser óbvia a inviabilidade deste pelo menos num futuro previsível – sim, o povo judeu tem o legítimo direito a sua autonomia em uma minúscula parcela do Oriente Médio (Israel) e disso eu não abro mão, sob nenhuma hipótese!…Quanto as negociações com os palestinos, acredito que estas devem incluir também todo o mundo árabe ou, pelo menos, todos aqueles que entendam que Israel tem o direito de existir como o Estado Judeu (ou do povo judeu, dos judeus etc…)….
    Abraços,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    02/03/2015 at 22:23

    João,

    Parabéns por ter se colocado com clareza. Eu avalio os quatro pontos que você colocou da seguinte forma:

    O partido limpo deveria ser uma característica de todos. Assim que a meu ver ele não conta pontos positivos para o Merets e sim muitos pontos negativos para os demais.

    Direitos civis e fim da coerção religiosa contam muitos pontos positivos para o Mertes. Somando estes dois primeiros itens ele se distancia muito na frente dos demais partidos.

    A proposta de paz é inócua. Todos sabem que “it takes two to tango” e que o “lado de lá” não quer dançar conosco, independente da nossa proposta. Assim este aspecto me parece neutro com um pequeno viés negativo, pela ingenuidade.

    A política econômica-social da esquerda é um desastre no mundo todo e há muito tempo. As coisas simplesmente não funcionam conforme o planejado. Por exemplo, distribuir renda através de taxação exagerada dos mais bem sucedidos resulta na evasão destes e no empobrecimento geral. Assim que este ponto merece muitos pontos negativos.

    Assim que na minha avaliação o saldo final ficou zerado. Sou simpático ao Merets, mas ele está bem longe de ser um bom partido para governar o país.

    Talvez a propaganda dele seja mal feita porque o que tem para mostrar é problemático. Como se define a linha de pobreza, você sabe dizer? Eu li num canto destes que o mundo define como pobre quem ganha menos de 4 USD (15 shekalim) por dia. Ou seja, 450 shekalim por mês. Tirando os charedim que fazem opção por serem pobres e que têm sustento básico garantido pelas yeshivot que provém comida e moradia, me parece que não temos os 30% (2 milhões ?) de israelenses ganhando menos de 450 shekalim por mês. Não confio nem um pouco neste número pois ele não se coaduna com o que eu vejo em Israel.

    Mas mesmo assim, desejo boa sorte para o Merets. Precisamos de um partido que lute contra a coerção religiosa e os direitos civis desconectados da religião.

    Abraço,
    Raul

    • João K. Miragaya

      03/03/2015 at 10:43

      Oi Raul. Obrigado pelo comentário.

      Sobre o “desastre” da política econômico-social de esquerda no mundo todo, prefiro não entrar neste mérito. Vou me restringir a Israel: as pesquisas apontam que nos últimos seis anos, apesar de a economia estar em crescimento, a população não desfruta destes números. Grande parte da classe média não consegue fechar o mês, está endividada. Além disso, comprar um apartamento se tornou impossível para a maioria da população. O israelense médio tem saudades do passado, mesmo sabendo das dificuldades que haviam. Por isso todos os candidatos brigam para mostrar quem é o mais socialista, até mesmo os da direita. O desastre em Israel parece ser o liberalismo.

      Sobre a pobreza, saiba que os charedim são só 8% da população israelense (segundo o Instituto Israelense de Democracia), e mais de 60% deles trabalham. Há um mito (mesclado com preconceito) de que o governo banca este segmento da população, mas se você soubesse qual o tamanho da ajuda de custo que eles recebem, verá que seus netos recebem mesadas maiores. Quem engrossa a fileira dos pobres em Israel são, sobretudo, os árabes, e os judeus mizrachim que vivem na periferia. Não sei o quanto você viaja para as aldeias árabes no norte, beduínas no sul, ou para cidades como Kiriat Gat, Kiriat Malachi, Dimona ou Afula, mas é nestes lugares onde se vê a pobreza judaica. Se não quiser ir muito longe, basta ir ao sul de Tel-Aviv.

      Você acusa o partido de ingenuidade (não estou de acordo, mas aceito a crítica), mas se recusa a dar pontos positivos para o Meretz porque “partido limpo deveria ser uma característica de todos”. Quem está sendo ingênuo aqui? Não conheço no mundo um partido que em 24 anos, às vezes parte do governo, jamais estivesse envolvido em qualquer acusação de corrupção que seja. Infelizmente este é um ponto bem positivo, para os realistas como eu.

      Já o “todos sabem que o outro lado não quer dançar conosco” é um comentário que carece de base para ser tido como uma sabedoria universal.

      Se você não assistiu aos vídeos, te recomendo vê-los, pois um dos problemas da propaganda do Meretz é justamente fazer diferente do que fazem os outros partidos: não atacar a política econômica de Netanyahu, não dizer o que propõe, não vestir a camisa de um partido de oposição de esquerda. Assista aos vídeos, você verá que sua crítica não procede. Não porque você está errado, simplesmente porque não é esse o discurso do Meretz.

      Um abraço

    • Raul Gottlieb

      03/03/2015 at 22:13

      Oi João

      De fato eu ando pouco pelos bairros pobres de TLV e de Israel em geral. Mas já vi pobreza em Israel, sem a menor dúvida.

      No entanto a minha pergunta se mantém: como é definida a linha da pobreza em Israel? Você sabe? Você citou um número de 30% de pobres. Requer a dialética que esclareça de onde veio este valor.

      Eu li um artigo há um tempo onde o fulano explicava que a linha de pobreza ficava um x% abaixo da receita média da população. Este engenheiro do lado de cá do Atlântico não demorou muito a para deduzir que por esta fórmula genial sempre haverá 30% de mais pobres em Israel, como existem 30% de mais pobres em Beverly Hills e nos condomínio de Cesaréia.

      Para debater efetivamente a questão da pobreza é necessário definir o que é considerado pobre. Eu não estou negando que existem 30% de pobres em Israel – admito que pode ser, mesmo sendo contra intuitivo pela minha observação. E pode ser que o artigo que eu li era de um bobinho que estava fazendo espuma falando obviedades.

      Conheço as agruras dos casais mais jovens em Israel para comprar uma casa. É realmente um problema a ser resolvido por um governo no futuro próximo. Mas tenho certeza que o socialismo não é a solução para isto. As pessoas podem ter melancolia do passado (chadesh iameinu kekedem é a frase final das lamentações de Jeremias e esta mensagem nunca vai deixar de ser popular), mas na esmagadora maioria dos casos se conseguissem viver no passado sairiam correndo dele.

      Israel tem pobres, mas tem também um desenvolvimento fabuloso. Não preciso descrever para você a sofisticação das instalações culturais e de seus programas. A aparência geral é muita prosperidade. Eu vivi em Israel em 1960 e 1968. Não há comparação com a vida de hoje.

      Enfim, é isto. O problema que você aponta existe. Mas o socialismo não é a solução. Tirar de quem tem mais para dar para quem tem menos não é a solução. A solução é fazer os que estão abaixo da linha da dignidade (e não os x% mais pobres) avancem para além dela. E isto não é feito tirando dos que tem mais. É imoral e não funciona.

      Quanto às questões do conflito, já falamos muito e não temos mais o que falar. E sobre a honestidade, eu continuo considerando ela um pré-requisito pelo qual você não pode ganhar pontos positivos. Os desonestos devem ter pontos negativos. Aritmeticamente dá no mesmo, mas moralmente é muito diferente. Eu sou engenheiro, mas não trato apenas de números.

      Abraço,
      Raul

    • João K. Miragaya

      05/03/2015 at 18:59

      Raul,

      O projeto do Meretz não é socialista, portanto me abstenho de discutir se o socialismo é ou não a solução. A taxação das grandes fortunas foi posta em prática em diversos países (sobretudo os mais avançados) no mundo, e faz parte da agenda do partido. O imposto de renda em Israel favorece bastante aos mais ricos, e cai bem pesado na classe média. Não tanto quanto no Brasil, mas há praticamente um consenso de que algo precisa ser feito. A aprovação a esta reforma tributária é tão popular que o Likud se recusa sequer a tocar no assunto “política econômico-social” em sua campanha seu projeto econômico liberal, assim como o HaBait HaYehudi. Em Israel, socialismo tem uma conotação bastante positiva. O povo, apesar das dificuldades dos primeiros anos, se lembra com carinho dos governos do Mapai em relação à política econômico-social.

      Sobre a pobreza, eu me baseio em uma pesquisa feita pela organização Latet, que afirma que em Israel 31,6% (2,5 milhões de pessoas, dos quais 936 mil crianças) da população é pobre. Eles definiram que pobre é a pessoa que vive em escassês em pelo menos 3 dos 5 requisitos básicos para um ser humano viver (alimentação, relação salário-inflação, saúde, moradia e educação). Considerou-se pobreza absoluta quem carece dos 5 (cerca de 13,8%). Segundo esta pesquisa, 25% das crianças israelenses vão dormir com fome todos os dias, e 36% dos estudantes do ensino médio precisam trabalhar para ajudar nas despezas de casa. A mesma organização afirmou ter aumentado em 14% o número de idosos que não compra remédios recomendados pelos médicos por não terem dinheiro. Aumentou em 72% as pessoas que sofrem de falta de comida, e em 10% o número de pessoas que busca comida no lixo.

      O Bituach Leumi (Seguridade Nacional, algo parecido com o INSS no Brasil) também faz esta pesquisa anualmente, e chegou a 18% de pobres no país. O Latet diz que respeita a pesquisa do Bituach Leumi, mas que considera também critérios subjetivos.

      As reportagens sobre as pesquisas estão aqui, em hebraico:
      http://www.themarker.com/news/1.2518103
      http://news.walla.co.il/item/2812657
      http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-4606161,00.html
      http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-4604046,00.html

      Um abraço

    • Raul Gottlieb

      06/03/2015 at 20:51

      Oi João, espero que você tenha tido um bom Purim.

      Infelizmente não consigo ler as referências em hebraico e assim fica complicado discorrer com base naquelas informações sobre o assunto “quem é pobre”.

      Porém, baseado apenas no que você escreveu dá para notar que há uma divergência muito grande (30 a 18%) entre os números de pobres do Latet e do Bituach Leumi.

      Penso que isto mostra que há muita ideologia nestes números. Não é possível dois métodos igualmente válidos apresentarem resultados tão divergentes.

      Mas é impressão. Posso estar errado.

      Para mim, se Israel tem 30% de pobres então ele faz um trabalho magnífico de escondê-los. Muitas vezes melhor que o trabalho feito pelo Brasil, que segundo o PT, tem 50% de pobres (pessoas que recebem o Bolsa Família).

      Imposto diferenciados sobre os mais ricos é normal em todos os países, com taxas crescentes para quem ganha mais. Israel já não faz isto também? Realmente não sei discorrer sobre o imposto de renda, mas se ele recai de forma mais pesada sobre a classe média / pobre, ele sem dúvida tem que ser revisto.

      Penso que a taxação de grande fortuna é uma grande sacanagem, independente se o método foi usada por todos os países do mundo. É uma questão de conceito e de justiça.

      O cara que acumulou poupança (que é chamada de fortuna quando interessa politicamente vilipendiá-la) fez uma opção de investimento enquanto o seu colega resolveu privilegiar o consumo. Não penso que um esteja certo e o outro errado. Mas penso que é errado taxar mais a pessoa que fez uma opção se privando do que a outra pessoa consumiu.

      Eu e a minha atual esposa fizemos uma opção de vida com muitas viagens. Foram muitas mesmo. Talvez umas 50-60 em 40 anos. Podemos somar a esta atividade uma enormidade de jantares e almoços em restaurantes, shows, etc.

      Se tivéssemos poupado este dinheiro em vez de investir em prazer, gastronomia e cultura teríamos feito uma fortuna de algo como um a dois milhões de dólares. É justo taxar quem não viajou?

      Além disso, a poupança/fortuna já foi taxada nas diversas etapas de aquisição. Então taxar de novo é injusto. Por mais que eu raciocine não consigo ver uma falha moral neste pensamento.

      Sobre a nostalgia já falamos. O pessoal tem nostalgia de um passado socialista que 97% da população se recusou a viver, preferindo valorizar a individualidade à vida coletiva do kibutz.

      O ser humano é assim mesmo. Eu canso de falar com gente que tem nostalgia do judaísmo do shtetel quando as pessoas eram mais unidas e também viviam com o pé na bosta até o joelho. Quanto mais distante a pessoa está desta realidade mais nostálgica ela é. Vai entender. Chadesh iameinu kekedem, se lamentava Yermiahu. Eu não quero voltar para a idade do bronze nem por 10 minutos, mas muita gente acha que quer. Fazer o que?

      Shabat Shalom!
      Raul

  • Anonimo

    03/03/2015 at 01:52

    João,
    é uma pena que voce seja tão ingenuo (ou se finge de ). A proposta do Merets é totalmente desprezivel, e tenho certeza que se um dia esse partido subir ao poder (D´us nunca ira deixar isso acontecer) TODOS os judeus irão fugir de nossa terra. Eu acredito em d’us, sou tradicional mas odeio esquerdistas.
    Grato

    • João K. Miragaya

      03/03/2015 at 13:58

      Prezado Anônimo,

      É uma pena que você se esconda atrás de um personagem, pois eu assino meu nome e respondo pelas minhas opiniões. Infelizmente a sinceridade não parece ser sua praia. Talvez você tenha vergonha do que pensa. Eu também teria, se utilizasse o nome de deus em vão, a menos que você tenha contato direto com ele. Acho curioso que você diga que “TODOS os judeus irão fugir da nossa terra” com propriedade de quem tem uma bola de cristal das hipóteses: vê o futuro que (segundo você mesmo) não vai acontecer.

      Mas o mais triste é o seu ódio gratuito. Se você é realmente tradicional, caro Anônimo, deve conhecer a explicação talmúdica para a destruição do Segundo Templo e a morte de centenas de milhares de judeus na Rebelião Judaica (66-73 da era comum): ódio gratuito entre judeus. Sua opinião de que “a proposta do Merets (sic) é desprezível” é legítima (embora você não tenha dito qual proposta), mas seu ódio gratuito contra esquerdistas explícito desta forma poderia ser chamado “incitação”. Por questões como essa já assassinaram um primeiro-ministro. Talvez por isso você se esconda atrás de um falso nome. Estratégia conhecida.

      Não sei qual é a relevância de você acreditar ou não em deus, já que o que você propaga é o ódio.

      De nada

    • Raul Gottlieb

      03/03/2015 at 18:10

      Olá Anonimo.

      Achei bem engraçado que você mantenha dois anonimatos. O teu e o de Deus.

      A Torá nos proíbe mencionar o nome de Deus. Mas “Deus” já é uma referência a Ele e não o Seu nome.

      Ou seja, Deus não é o nome de Deus, assim que não há a menor necessidade de tirar o “e”.

      Mas é claro que assim como você pode deixar o teu nome oculto, pode continuar a escrever D’us. Ou D”s, como fazem os que se dizem mais piedosos, ou D”’ para os ultra.

      Só achei engraçado. Principalmente por você se declarar tradicional e aderir a esta novidade que é escrever Deus sem o “e”. Pode pesquisar, isto é uma novidade.

      O que eu realmente não gostei foi a tua declaração de ódio. Todos têm o direito ao pensamento. O João é uma pessoa maravilhosa e se você o conhecesse jamais o odiaria.

      O ódio indiscriminado a todas as pessoas que pensam de uma certa forma e que jamais chegaram perto de você é uma coisa terrível, que nós, os sobreviventes de Hitler, deveríamos ter uma grande sensibilidade.

      Abraço,
      Raul G’ttlieb (adaptando o meu nome ao teu estilo de escrita)

    • João K. Miragaya

      03/03/2015 at 20:08

      Pois é, Raul…

      Tem gente nesse mundo que não consegue conviver com as diferenças. Imagine que sem graça seria se não houvesse quem pensasse diferente… e que bom seria se este ódio gratuito não fosse tão perpetuado.

    • Raul Gottlieb

      03/03/2015 at 20:37

      João,

      Ainda não tive tempo para responder os teus comentários sobre os meus comentários. Mas ainda vou fazer, é que vai levar um tempinho.

      Mas posso te dizer de bate pronto que o Talmud diz categoricamente que o que levou à destruição do Templo foi o “sinat chinam”, o ódio gratuito entre as diversas correntes políticas e religiosas dos judeus.

      Claro que sempre vamos ter partidos e facções divergentes. Mas o ódio não pode estar presente. Esta é a fórmula do Talmud para a preservação da vida judaica, que, conforme vimos, até mesmo algumas pessoas que se dizem “tradicionalistas” ainda não entenderam.

      Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      03/03/2015 at 22:02

      100% de acordo. Foi exatamente o que eu disse ao “Anonimo” (sic).

      Não acredito que venhamos a concordar sobre o que o governo deve fazer em relação à economia do país, mas certamente isto não criará nenhuma animosidade entre nós. O ódio ao diferente já matou o suficiente neste mundo, espero o dia que o preconceito e a discriminação estejam fora da nossa sociedade. Triste constatar que isto exista dentro de todas as correntes, esquerda, direita, centro, religiosos, laicos, judeus, muçulmanos, cristãos, etc. Lamentável.

      Um abraço

  • Mario S Nusbaum

    07/03/2015 at 01:25

    Por não conhecer as nuances da política israelense eu não ia palpitar, mas como o João fez uma referência ao Brasil e era exatamente sobre as semelhanças entre algumas coisas ditas aqui e o Brasil, que eu pensei em escrever mudei de ideia.

    ” Por isso todos os candidatos brigam para mostrar quem é o mais socialista, até mesmo os da direita. ”
    Exatamente o que acontece aqui, todo mundo “é de esquerda”.
    O imposto sobre grandes fortunas foi posto em prática em diversos países, mas não diria que sobretudo os mais avançados. De um trabalho do IPEA, que foi totalmente aparelhado pelo PT:
    “O imposto sobre a riqueza instituído em vários países tem apresentado baixa participação na arrecadação e custo administrativo elevado. Por isso, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Japão e Itália optaram por não adotá-lo. ” Lendo o artigo inteiro fica claro que é um imposto “moral”, do tipo os ricos são malvados, vamos castiga-los. Se houver interesse, está em http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&id=977:catid=28&Itemid=23

    “Em Israel, socialismo tem uma conotação bastante positiva. ”
    Com exceção dos EUA e talvez da Inglaterra isso vale para a grande maioria dos países (a quase totalidade das exceções fora as duas que citei é de países que experimentaram o socialismo, mas mesmo neles existem nostálgicos).
    Como ser contra a ideia de todos mundo ter tudo o que precisa? O FATO de que é impossível é detalhe, não atrapalha o sonho.

    Saindo da economia, o “todos sabem que o outro lado não quer dançar conosco” é um comentário baseado em uma série de FATOS, como por exemplo Camp David, Taba, o estatuto do hamas, a atitude do Abbas quando Netanyahu, a pedido dele, congelou os assentamentos e muitos, muitos, mais.

  • Flávio Rabinovici

    17/03/2015 at 18:34

    Excelente artigo João!

    Kol Hakavod.

    Fico muito contente e orgulhosos quando vejo ex-bogrim do Habonim Dror escrevendo tão bem e com tamanha segurança e convicção!

Você é humano? *