Presidenta e generala

22/12/2012 | Cultura e Esporte.

Em um artigo do Haaretz de 25.11.2012 saiu a notícia de que a Academia de Língua Hebraica autorizou o uso do gênero feminino para todas as palavras de cargos e títulos. Recentemente apontada como vice presidente da Suprema Corte israelense, a juíza Miram Naor pediu à Academia há alguns meses que a autorizassem usar o termo “vice” (mishne – משנה) na forma feminina mishna. Inicialmente a Academia recusou, e em apelo ao seu presidente, foi feita uma enquete com juízas e advogadas para saber qual é a forma que elas preferiam: mishna ou mishnat. A maioria escolheu mishna e em um encontro de plenário da Academia finalmente autorizou-se o uso do feminino de vice, pouco tempo antes da cerimônia de juramento de Naor. No mesmo encontro de plenário decidiu-se autorizar o uso da forma feminina para todo título, incluindo primeira-ministra (roshat memshala – ראשת ממשלה), prefeita (roshat ir – ראשת עיר), major do exército (rabat seren – רבת סרן) e generala (alufa – אלופה), entre outros. O uso não será compulsório, usará quem quiser.

Em português a maior expressão dos gêneros no que diz respeito a pessoas se dá nos adjetivos, mas em hebraico também os verbos e pronomes são flexionados segundo o sexo da pessoa. Todos conhecem a situação de encontrar alguém andrógino e não saber bem o seu sexo. Em inglês não há problema algum, em português basta tomar cuidado com o uso de adjetivos, mas em hebraico o buraco é mais fundo. Você já deve saber o sexo do interlocutor antes de dizer frases do tipo “como vai”, “qual é o seu nome” e “me passa o sal”.

A lei federal número 2.749, de 1956, determinou no Brasil o uso oficial da forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres. Porém, até Dilma Rousseff ser eleita, pouco se ouviu falar de presidenta. Aqui em Israel vai depender também das mulheres que quiserem usar a forma feminina para a disseminação dos novos termos.

Uma expoente da causa feminista em Israel é Merav Michaeli, candidata do partido Avoda para as próximas eleições da Knesset. Ela costuma deixar muito homem zonzo quando se refere a eles num diálogo usando termos femininos. Em hebraico, assim como em português, quando há um homem e várias mulheres, deve-se usar a forma masculina. Não para Merav. Faltam palavras em portugues para dar exemplos típicos do uso do feminino, então pintarei de vermelho as palavras que Michaeli escolhe dizer na forma feminina: “Nós concordamos, se alguém quer usar os termos, ela pode sem problema algum fazer o que quiser!”

Merav Michaeli

Em entrevista à rádio 103fm a respeito da decisão da Academia, Merav Michaeli argumenta que quando se usa termos genéricos como presidente, general, primeiro-ministro ou professor na forma masculina, “o significado simbólico e concreto de autoridade e liderança é masculino. Isso significa que o modelo de líder, de comandante, de diretor, é um modelo masculino, e então é muito difícil para uma mulher entrar nesses lugares, pois é como fazer o papel de um homem”. Merav segue lembrando que a própra Academia foi contra a introdução do termo mishna como feminino de vice. O argumento é que a palavra já estava tomada (mishna é a base do Talmud), mas a Academia não ofereceu uma alternativa e ficou por isso mesmo. A Academia recusa ainda o uso do feminino em situações nas quais mulheres são a maioria. “A língua representa e cria a consciência”, diz Michaeli, “e isso é uma luta de poder. A questão de quem tem o poder e a liderança não é uma questão de frivolidades.”

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