Primeiro de Maio

01/05/2015 | Política, Sociedade.

O Dia Internacional do Trabalho não é feriado em Israel. Tudo segue normalmente. Não se para, nem se percebe.

Entretanto, há entidades de classe, sindicatos, movimentos sociais e juvenis que celebram a data. Passeatas, manifestações, paradas. O cidadão israelense, pagador de impostos, vítima da inflação e com perdas salariais, é representado.

Nos últimos anos, o Sindicato Geral dos Trabalhadores (Histadrut) recebe as pessoas em sua sede, rua Arlozorov, Tel Aviv. Discursos, palavras de ordem e gritos de guerra. De lá, saem até a Praça Rabin, ao lado da Prefeitura. Caminham por vias do Centro e marcam presença. Não deixam passar em branco.

Antigamente, cruzavam pela rua Allenby milhares de pessoas. Eram outros tempos. O Governo patrocionava. Dava apoio oficial. Até o mandato de Menachem Begin (1977-1983), segundo informação do colega João Miragaya, tratava-se de um feriado nacional.

Hoje, a própria Histadrut está em linha descendente. Trabalhadores vêm estruturando novas centrais sindicais, o que é ótimo. Quanto mais opções de luta, mais fortificados ficam os israelenses.

Os grupos políticos que formaram o seguro saúde Clalit (Geral), o Banco Hapoalim (Trabalhadores), rede de supermercados Supersal (SuperCesta), os clubes esportivos Hapoel (Trabalhador) viram tudo ser privatizado. As exceções ficam por conta do Hapoel Tel Aviv (Basquete), Hapoel Katamon Jerusalém (Futebol) e Hapoel Robi Shapira Haifa (Futebol), fundados por torcedores, como associações sem fins lucrativos, nadando contra a maré das agremiações particulares.

Na verdade, não houve como manter, na prática, a idéia original de se auto-prover. Contudo, inegável a importância histórica destas instituições. De companheiro para companheiro, visando cobrir toda a população.

Em 2015, de novo, pelo menos centenas estiveram refazendo o caminho das últimas vezes, entre a Arlozorov e Praça Rabin. E mesmo que fossem “apenas” dezenas. Representar. Não deixar morrer. O Dia Internacional do Trabalho, mais do que um feriado, é um compromisso, em Israel.

Link da Internacional em hebraico: http://shirimemportugues.blogspot.com/2010/05/hainternatzional.htmldia-01-de-maio-dia-do-trabalhador-00000

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Comentários    ( 13 )

13 Responses to “Primeiro de Maio”

  • Marcelo Starec

    02/05/2015 at 00:06

    Oi Nelson,
    Muito bom o artigo!…Acredito que na maior parte dos países o dia primeiro de maio atualmente não seja feriado, mas é sem dúvida um dia importante!…Israel foi fundado com bases e ideais socialistas da época e nada melhor para esses ideais do que montar cooperativas de trabalhadores (ou similares), para permitir que os benefícios do trabalho, nessa linha, fossem voltados a quem realmente trabalha, praticamente inexistia a figura do “patrão” em Israel….É claro que o País cresceu muito, remodelou-se e modificou o modelo idealizado de cooperativas geridas por uma única central…Os tempos são outros, e outros também são os desafios – mas todo o lado bom do ideal de igualdade entre todos, justiça social e uma divisão da renda – em meu entender devem ser mantidos, ainda que de um modo completamente diferente!…Uma coisa importante para Israel sempre foi todos se sentirem parte do País, estarem juntos, solidários e compartilhando um ideal…e é essa ideia,ainda que abstrata, que é um pilar de Israel, bem como de muitos outros países e jamais deve ser perdida!…..
    Abraços,
    Marcelo.

    • Nelson Burd

      06/05/2015 at 13:48

      Concordo, Marcelo.
      O desafio da sociedade atual é evoluir, se adequar à nova realidade, dentro das possibilidades.
      Eu ainda acredito que Dov Ber Borochov segue atual, em Israel.
      Ele dizia que, para construir um país, precisava-se inverter a pirâmide social judaica, que não tinha uma tradição agrícola.
      Apesar dos sindicatos operários judaicos na Europa Oriental.
      Israel tem trazido, nos últimos anos, muitos trabalhadores estrangeiros para tarefas que, ideologicamente, eram feitas por judeus, há cem anos.
      O interesse mudou?
      O orgulho hoje vem de startups. O lado empreendedor do israelense seria a nova vanguarda? Pode ser…
      Nada contra.
      A minha preocupação é com o bem estar do cidadão. Que isto seja conquistado através de seu trabalho, com dignidade.
      Seja no mundo high tech, ou nas plantações.
      Abraço.

  • Raul Gottlieb

    02/05/2015 at 23:24

    Nelson,

    Você diz que “Quanto mais opções de luta, mais fortificados ficam os israelenses.”.

    Pergunto, luta contra de quem contra quem?

    Abraço,
    Raul

    • Nelson Burd

      03/05/2015 at 00:50

      Dos trabalhadores por seus direitos. Dos trabalhadores, por eles mesmos. Abraço.

  • Raul Gottlieb

    03/05/2015 at 11:38

    Não há direito sem obrigação.

    Ou seja, o direito de um é a obrigação de outro.

    Ao mesmo tempo, uma pessoa que emprega trabalhadores também é um trabalhador. Principalmente em Israel onde não existem proprietários de terras e de qualquer outro meio de produção que não tenha trabalhado duro para construir o meio de produção e que ainda trabalhe duro para mante-lo. O empregador é um trabalhador especial – ele é um trabalhador que assume riscos.

    Assim chegamos a conclusão que os trabalhadores lutam por direitos a serem outorgados por eles mesmos.

    Uma luta bizarra que basicaamente existe apenas na cabeça de quem ainda não percebeu que as empresas são o fruto de colaboração e não de exploração.

    Felizmente o primeiro de maio está obsoleto em Israel. Só voltará a ter promeninência quando o país entrar em curva descendente.

    Deus não permita que isto ocorra!

    • Nelson Burd

      03/05/2015 at 22:06

      A carga tributária em Israel é pesada. Abrir um negócio, mesmo que pequeno, não é fácil. Agora, evidenciar os problemas dos trabalhadores, não significa ignorar os problemas do empresários, sejam micro ou macros.

  • Raul Gottlieb

    04/05/2015 at 19:44

    Problema é diferente de luta,

    • Nelson Burd

      04/05/2015 at 20:20

      No meu ver, teve o mesmo significado. Fazer com que o cidadão que trabalha cinco dias por semana, oito horas por dia, tenha uma vida digna. É isso. Muitas famílias, onde pai e mãe trabalham em tempo integral, somam os dois salários e ainda não conseguem dar conta do recado. Situação complicada. A luta é viver dignamente, do seu trabalho. O problema é a vida existente.

  • Raul Gottlieb

    05/05/2015 at 11:58

    Querido Nelson,

    Luta e problema não têm o mesmo siginificado semântico.

    Isto é claro, apesar da bela construção que você faz acima, com a qual eu concordo.

    É um problema de todas as sociedades melhorar gradativamente a vida da população e o capitalismo é um sistema econômico que consegue entregar isto, porque entendeu que não há luta entre os agentes econômicos e sim colaboração para o alcance de interesses comuns e competição sadia.

    Assim que o primeiro de maio que celebra a luta dos proletários contra os seus supostos exploradores (os empregadores) é, a meu ver, um feriado que celebra um dos caminhos para a miséria construídos pelo homem. É uma celebração triste.

    Abraço,
    Raul

    • Nelson Burd

      05/05/2015 at 20:53

      Eu não falei em luta de classes, ou entre classes. Eu falei em luta de um grupo, um ativismo. Não é contra ninguém. É favor de todos. Pelo menos, 60% da população israelense vive esta situação complicada. Os protestos de 2011 evidenciaram isto. Reuniram lá pessoas de várias classes sociais, linhas religiosas e etc. Neste ponto, o primeiro de maio se coloca importante. Que sociedade queremos? É por ai a coisa.

  • Mario S Nusbaum

    06/05/2015 at 15:51

    “Muitas famílias, onde pai e mãe trabalham em tempo integral, somam os dois salários e ainda não conseguem dar conta do recado” Nelson, você poderia, por favor, “traduzir” isso para o Brasil? Não conheço muito sobre a situação econômica israelense, mas sei que a vida em geral (financeiramente falando) é bem melhor do que aqui. Nessa sua frase, o que significa não dar conta do recado?

    • Nelson Burd

      06/05/2015 at 16:35

      Mario, houve um aumento galopante, sob efeito dominó, que aumentou o preço dos aluguéis em Israel, na média de 35%. Em Jerusalém e Tel Aviv, o aumento foi mais sentido ainda. Os salários não acompanharam esta subida. O salário mínimo ficou defasado. A classe média, boa parte dela, baixou de padrão. É bom esclarecer que linha de pobreza em Israel e no Brasil são coisas diferentes. Salário mínimo israelense gira de mil dólares, 1.500. Segundo números oficiais, 1 terço dos israelenses estão passando a linha da pobreza. ONGs dizem que chega a 40%. O governo diz que, com 7 mil Shekalim, pode-se sustentar uma família de 2 adultos e 2 crianças. Ongs dizem que precisa-se de 11 mil. É por ai a coisa, Mario. Dar conta do recado é viver dignamente.

    • Nelson Burd

      09/05/2015 at 08:59

      Shabat Shalom.

Você é humano? *