Prisioneiro X foi suicidado

14/02/2013 | Cultura e Esporte

Nos últimos dias se fala muito em Israel sobre o caso do “prisioneiro X”, o australiano Ben Zygier que virou cidadão israelense e foi recrutado pelo serviço secreto Mossad. Ele morreu em 2010 na sua cela em uma prisão israelense de segurança máxima, supostamente se suicidou. Todo o caso foi mantido em segredo até a sua divulgação em uma reportagem da televisão australiana em Fevereiro de 2013.

Enquanto escrevo estas palavras, pouco ainda se sabe sobre as circunstâncias de sua morte, e em todo caso, o assunto deste texto é a língua hebraica, e não espionagem internacional. O título “prisioneiro X foi suicidado” é um jogo de palavras, pois junta a ação exclusivamente reflexiva “suicidar-se” com a voz passiva, indicando que talvez o morto não tenha decidido se matar, e sim outros decidiram por ele.

A língua hebraica tem uma estrutura muito diferente do português no que diz respeito aos verbos. Os verbos são divididos em sete grupos, chamados edifícios, e cada um deles tem um significado particular: ações que faço eu mesmo, ações que faço no lugar de outros, reflexivo, voz passiva, etc. Cada um dos edifícios tem um template próprio, e uma raíz de três consoantes é encaixada nos diferentes templates para formar significados diferentes.

Como exemplo, usarei a raiz KTB, que está relacionada à escrita. Por motivos fonéticos da língua hebraica, às vezes a letra K pode se transformar em kh (som de J no espanhol Juan, ou CH no alemão achtung!), e a letra B em V.
KaTaV = ele escreveu
KiTeV = ele endereçou (incluiu o endereço de email de alguém)
hiKHTiV = ele ditou
hitKaTeV = ele se correspondeu
niKHTaV = ele foi escrito
Além de verbos, vários substantivos podem ser formados usando a mesma raiz KTB, com templates chamados “pesos”: KToVet (endereço ou coisa escrita), miKHTaV (carta), KTuBa (contrato de casamento), KTiVa (escrita), KaTaV (jornalista correspondente), KaTaVa (reportagem, artigo), tiKHToVet (correspondência), KTiV (grafia), miKHTaVa (mesa para escrever, desk), miKHTaViot (papel de carta com desenhos que meninas colecionavam).

O mesmo processo ocorre em outras línguas semitas, como árabe e aramaico, e muitas vezes uma língua toma emprestado um edifício verbal de outra, para poder expressar novos significados e nuances. O hebraico moderno tomou do aramaico um edifício para expressar ações que são repetidas, e assim se formou shiKHTeV (ele reescreveu). Formalmente, o hebraico tem apenas 7 edifícios, enquanto que o árabe tem 10 e o acadiano (língua falada na antiga mesopotâmia) tinha 13. Assim, a mesma raiz KTB pode formar em árabe significados que não existem no hebraico, como istaKTaBa (ele pediu alguém para escrever), iKtaTaBa (ele copiou) e inKaTaBa (ele se inscreveu).

unfoldingEm seu livro The Unfolding Of Language, o linguista israelense Guy Deutscher explica como essa estrutura tão lógica de raizes com significados gerais (K-T-B = escrita, K-D-SH = santidade, K-T-L = matança, etc) e templates (edifícios para os verbos e pesos para substantivos) pode ter surgido. Evidentemente ninguém sentou e planejou conscientemente essa estrutura, isso aconteceu por meio de um processo orgânico, que durou milhares de anos. O processo é longo demais para explicar aqui, e recomendo aos amantes das línguas lerem esse excelente tour de force de Deutscher. O capítulo 6 explica como os linguistas acham que essa estrutura evoluiu, com formidável complexidade e deliciosos detalhes.

O hebraico moderno segue evoluindo e encontrando novas maneiras de expressar nuances. Juntando a voz passiva PuTaRti (fui demitido) com o reflexivo hitPaTaRti (eu me demiti), é possível formar hitPuTaRti (fui obrigado a me fazer demitir). A simples substituição da vogal a para u (em negrito no exemplo anterior) é responsável por formar a voz passiva do reflexivo, e assim podemos dizer “fui obrigado a me voluntariar” (hitNuDaVti) , “fui obrigado a me banhar” (hitQuLaCHti) e até mesmo “o prisioneiro X foi suicidado” (isso fica muito esquisito em hebraico, usei como título do texto para chamar a atenção mesmo).

Essa forma de dizer que “me causaram que eu fizesse algo a mim mesmo” não é comum, mas certamente todo falante de hebraico imediatamente entende o significado. A estrutura de raizes e templates faz com que a língua seja relativamente fácil de aprender, e por outro lado incrivelmente versátil e poderosa. Quem sabe em algumas décadas o hebraico incluirá templates para indicar os mais variados significados, como “ele seguiu escrevendo”, “ele escreveu sem intenção” ou até “ele indiferentemente escreveu repetidas vezes em curtas explosões de atividade”.

Observações:

1 – Por mais aburdo que seja o exemplo “ele indiferentemente escreveu repetidas vezes em curtas explosões de atividade”, algo desse tipo já existe em hebraico. Os verbos desta categoria podem exprimir ações repetidas ou ações feitas sem nenhum objetivo específico, muitas vezes ambos juntos:
liklek = lambeu com várias lambidas (curtas)
richreach = fungou, cheirou algo como um cachorro
kivkev = desenhou uma linha pontilhada
zipzep = mudou de canal de tv repetidas vezes, sem prestar atenção
bizbez = gastou dinheiro sem dar muita importância
kishkesh = rabiscou num papel ou falou algo sem importância
nishnesh = beliscou alguma comida
hivhev = piscou (luz)
A lista é longa, leia mais aqui.

2 – As raízes em hebraico podem ter entre 2 e 5 consoantes, mas a grande maioria tem 3.

3 – Nem todos os verbos de um mesmo edifício tem a mesma função. Por exemplo, o edifício “nif’al” normalmente indica voz passiva, mas o verbo lehikanes significa simplesmente entrar.

4 – para podermos dizer “me causaram que eu fizesse algo a mim mesmo” é preciso que a) exista o verbo na forma reflexiva, e b) exista o verbo na forma passiva. No caso do exemplo de “prisioneiro X foi suicidado” apenas a forma reflexiva “suicidar-se” existe, e não a forma passiva.

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Prisioneiro X foi suicidado”

  • Mario Silvio '

    15/02/2013 at 15:45

    Fiquei com a impressão que é mais fácil achar uma solução para o conflito com os palestinos do que aprender hebraico.

  • Raul Gottlieb

    15/02/2013 at 20:30

    Mario, a solução para o conflito dos Palestinos ainda não foi achada. Mas hebraico muita gente fala e escreve. E ha muito tempo 🙂

    • Mario Silvio

      15/02/2013 at 21:50

      Tem toda razão Raul, mas se eu fosse obrigado a escolher uma dessa duas tarefas teria sérias dúvidas. Tenho facilidade em idiomas, mas desde que usem o alfabeto latino.
      O curioso é que eu era fluente em idish, mas esqueci praticamente tudo.

  • Pablo

    17/02/2013 at 01:21

    Parabens..v. sintetizou em algumas poucas sentenças (e chamando a atenção com um assunto atual e polemico) a natureza desta lingua magnifica que é o Hebraico. abcs

  • Amir

    17/02/2013 at 23:24

    Texto excelente!
    Muito interessante! Gostaria de ler o livro.

    Uma vez tive uma discussao com um amigo sobre a versatilidade do hebraico.

    Ele defendia e eu criticava, dizendo que era o portugues(e qualquer outra lingua) tinha uma versatilidade similar. Pois tambem temos palavras derivadas como no caso do verbo escrever.
    Escrivao, escritura, escrita, entre outros.

    Mas o exemplo do verbo LiKhToV parece vencer meus argumentos,dado a versatilidade e correspondencia com as acoes.

    Valeu pelo texto!

    • Yair Mau

      18/02/2013 at 08:09

      Obrigado!
      A raiz KTB não tem nada de especial em versatilidade. Eu a escolhi por ser um exrmplo padrão, e assim pude trazer exemplos do árabe.

      Só pra não ficar dúvida, listarei as palavras que conheço com a raiz CH-SH-B (pensamento)
      VERBOS:
      CHaSHaV (pensou), CHiSHeV (calculou), hiCHSHiV (considerou), hitCHaSHeV (levou em consideração), niCHSHaV (foi/era considerado; importante), CHuSHaV (foi calculado), CHaSHuV (importante, é “beinoni paul” do binyan kal, significa literalmente “pensado”), miCHSHeV (computadorizou)
      SUBSTANTIVOS:
      maCHSHeV (computador), maCHSHaVa (pensamento), CHeSHBon (cálculo, conta (de luz) ), CHeSHBonit (fatura), maCHSHeVon (calculadora), CHaSHaV (profissão de contador), maCHSHeVet (perícia), CHiSHuV (cálculo), miCHSHuV (informática), CHeSHBonia (ábaco).

      Para mim esse é um exercício divertido: pensar em todas as palavras derivadas de uma determinada raiz, e ver até onde seus tentáculos alcançam. Na maior parte das vezes me surpreendo com a diversidade que encontro, e sempre aprendo palavras novas.

  • Tamara

    19/02/2013 at 20:23

    Adorei, Yair.

    O hebraico é realmente apaixonante por sua lógica e versatilidade.

    E essa relativa simplicidade facilita bastante a vida dos olim chadashim!

Você é humano? *