Profissão de risco: israelense

23/03/2016 | Sociedade

Depois desse novo atentado em Istambul no dia 19 de março, o governo daqui deixou de lado firulas e diplomacias: “Evitem visitar a Turquia” foi o pedido divulgado na mídia. Esse último ataque em solo turco foi realizado por um homem-bomba em seu rolê em um centro de compras. Cinco pessoas morreram, entre elas três israelenses, e outras 36 ficaram feridas (israelenses também entre eles). Poucas horas depois, dois aviões de Israel pousavam em Istambul para recolher as vítimas. Detalhe simpático desse evento triste: o piloto de uma dessas naves é o brasileiro Jairo Lichewitz, que vive na suburbana Raanana há um ano e meio com a esposa Florência e três filhinhas.

Esse é o segundo ataque terrorista de grandes proporções na Turquia nos últimos dois meses[ref]http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/02/por-que-turquia-sofre-com-tantos-atentados-terroristas.html[/ref]. O New York divulgou, na segunda-feira posterior, que o terrorista seguiu um grupo de turistas israelenses por quilômetros a partir do hotel onde estávamos hospedados e esperou que começassem a sair do restaurante onde tomavam o café-da-manhã para acionar os explosivos. Isso me faz crer que ser um compatriota solto pelo mundo continua sendo perigoso, como tem sido há algumas décadas. Quase sete, para ser precisa – ou seja, desde a criação de Israel.

Vejam na Uganda o sequestro do avião proveniente de Tel Aviv em 1976, que resultou na Operação Entebbe. Ou o ataque à sede da Amia, instituição judaica em Buenos Aires, em 1994. A lista é longa, em todas as décadas, mas o meu texto não é sobre isso. E estou tomando o extremo cuidado de não citar nenhum dos ataques terroristas acontecidos na Terra Santa.

Às vezes, surge uma surpreendente boa notícia. Como na semana passada, em que foi divulgado que os atletas israelenses assassinados por terroristas palestinos há 44 anos na Olimpíada de Munique, na Alemanha, receberão uma homenagem especial nas iminentes Olimpíadas do Rio de Janeiro. Resultado da longa batalha da esposa de um deles, Ilana Romano, como foi veiculado em reportagens na imprensa brasileira[ref]http://www1.folha.uol.com.br/es…por-homenagem-na-rio-2016.shtml[/ref].

Estive recentemente em Roma com minha filha. E foi ela quem disse em voz alta para mim o que eu tinha percebido mas não queria comentar: a diferença de reações dos simpáticos romanos quando dizíamos ser do Brasil ou de Israel. A menção do primeiro provoca sorrisos e brincadeiras. Citam nomes de jogadores de futebol, o carnaval, o Rio de Janeiro. A quem dissemos que somos israelenses, recebemos um sorriso sem graça.

Fomos a uma sinagoga no Shabat que passamos na Cidade Eterna. Na porta, havia um soldado com uma metralhadora (vale dizer que o exército está por toda a cidade, medida tomada a partir dos ataques em Paris). Uma coisa amistosa. Só conseguimos entrar quando o porteiro checou que havia sido deixada uma permissão em nosso nome por um frequentador, o que havia nos convidado. Sensação esquisita essa, de estar em um lugar-alvo. Finalmente experimentei a sensação dos judeus europeus nos últimos tempos. E que, tudo indica, veio para ficar.

Uma pena essa situação com a Turquia. Porque, vejam só, por aqui não se pode viajar para nenhum país vizinho. Egito, guardado na memória dos quarentões israelenses, está invisitável (e não apenas para nós). Era o refúgio preferido de jovens mochileiros, que encontravam no Sinai os melhores e mais baratos destinos turísticos da região, acessível em uma viagem de poucas horas a partir de Eilat. Líbano e Síria, bem, não preciso comentar. Para a Jordânia ainda há israelenses que topam o desafio e quase invejo sua coragem – para mim, está fora de cogitação, pois turismo deve ser representar prazer, não medo. Agora, só voando longe. Restou-nos aqui por perto, no momento, a Grécia e o Chipre.

Quando comecei a pesquisar a viagem com minha filha, pensei em ir para a Espanha, pois é um destino interessantíssimo. Mas ando por demais envolvida, por motivos profissionais, com a história dos anussim[ref]Judeus forçados à conversão e depois expulsos pelos reis cristãos, em 1492.[/ref]. Paris está fora de questão no momento, e creio que não precise citar os ataques sofridos pela comunidade judaica por lá, essa que está em massa migrando para cá. O destino mais próximo, de custo possível e acessível do interessantíssimo Velho Mundo foi Roma dessa vez. Mas lá, também, tivemos que ouvir histórias, como o fato de o Coliseu ter sido construído com o saque de Jerusalém em 70 EC à base do suor e das lágrimas dos cerca de 300 mil escravos judeus que foram trazidos então (fala-se de 150 a 350 mil, então usei um número mediano, já que certamente também está errado).

Vou admitir: não está nada fácil ser portadora da cidadania israelense. Há muitos por aqui que recusam-se a sair do país, uma espécie de moda antiga, mas que está em voga ainda hoje. Para quem não sabe, principalmente entre os sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, sair de Israel por qualquer motivo que seja nem lhes passa pela cabeça. Hoje, outros milhares de israelenses pensam da mesma forma, mesmo sem ter passado pelas agruras do Holocausto. Sinal dos tempos.

Para meu espanto, me parece que o turismo interno futuramente será a única opção para o israelense. Mesmo assim, em termos, porque há sempre o risco de levar uma esfaqueadinha em diferentes locais, incluindo Tel Aviv e Jerusalém.

Estamos nos transformando em McGyvers, o cara que com uma pita e uma moeda de um shekel é capaz de construir um colete à prova de balas. Depois disso, nos restará virar o Homem de Ferro. Que Holywood nos ajude.


http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706610-veja-cronologia-dos-ataques-terroristas-em-paris.shtml

http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5629&Itemid=478&cod_pais=PLN&tipo=ficha_pais&lang=pt-BR

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Profissão de risco: israelense”

  • Marcelo Starec

    24/03/2016 at 21:16

    Oi Miriam! Excelente artigo!…O assunto, infelizmente, é triste, mas não é novo…Basta lembrarmos um pouco de como era a vida do judeu antes da reconstrução de Israel…Perseguido em tantos lugares, por inúmeras vezes…Tendo seus direitos mais básicos negados nos locais onde vivia – incluindo-se aí o direito à vida e a integridade física, por muitas vezes também negado!…E hoje, temos o israelense – que herdou a linha de frente do antissemitismo – o anti sionismo…Uma nova forma de antissemitismo, considerada em vários meios hoje como politicamente correta. Triste, mas infelizmente real !!!…..

    Abraços,

    Marcelo.