O próximo racha

30/05/2013 | Política; Sociedade

Ao longo de seus 65 anos, o Estado de Israel encontrou-se mais de uma vez em meio a polêmicas em torno de questões que representavam profundos cismas em sua sociedade. As décadas de 1970 e 1980 assistiram ao ápice do ressentimento mizrachi em relação ao establishment ashkenazi, com desdobramentos políticos que influenciam o país até hoje.

Nos anos 1990 e nos primeiros anos do século XXI, a divisão se deu entre a esquerda e a direita. Ainda que não entre a esquerda e a direita como são interpretadas pelo mundo ocidental, sob o ponto de vista sócio-econômico, tratou-se de uma profunda divisão de idéias acerca do futuro dos territórios palestinos ocupados. O impasse continua e não se apresenta no horizonte uma solução.

Em ambos os casos, tivemos uma divisão quase ao meio da população judia israelense. Os dados estatísticos demográficos apontam que as populações ashkenazita[ref]Os judeus europeus.[/ref] e sefaradita[ref]Os judeus do Mediterrâneo e do Oriente Médio.[/ref] são virtualmente equivalentes no país, e os resultados das últimas eleições mostram como também se equilibram as forças políticas.

O próximo racha, no entanto, será entre a maioria e a minoria. O modelo criado pelo acerto político entre David Ben-Gurion e as lideranças ultra-ortodoxas quando da fundação do Estado de Israel, conhecido como status quo, que permitiu a manutenção do monopólio do rabinato ortodoxo sobre o casamento civil em Israel, assim como outros aspectos como o transporte público no Shabat e a isenção do serviço militar para os estudantes das yeshivot [ref]Escolas rabínicas de estudo do judaísmo.[/ref] está caducando.

Muitos imaginam que possa existir um racha entre laicos e religiosos. Isto não é verdade. O próximo racha será que os que trabalham e os que não trabalham. De um lado estarão os laicos e os sionistas-religiosos (os que usam a kipa de crochê), do outro lado estarão os ultra-ortodoxos (os que se vestem de preto). Ainda que, entre laicos e sionistas-religiosos, possam existir discordâncias – e não são poucas – acerca de itens do status quo, como a criação do casamento civil, há um consenso no que tange a necessidade do fim da isenção do serviço militar para os jovens ultra-ortodoxos e das bolsas de estudos estatais vitalícias, que permitem que toda a população ultra-ortodoxa masculina não trabalhe.

E não se trata apenas de dor-de-cotovelo. O ressentimento passa pelo comportamento rebelde dos ultra-ortodoxos perante as instituições do Estado de Israel.

Ao longo dos dois mil anos de Diáspora, o judaísmo se guiou por um valor ligado à condição de estrangeiro, fiel às leis locais dos países que os receberam[ref]Dina D’Malchuta Dina.[/ref]. Ao chegarem ao Estado de Israel, que também consideram “estrangeiro”, os ultra-ortodoxos criaram um novo paradoxo: não reconhecem o Estado como seu legítimo representante, mas usam e abusam de suas instituições, como se fossem os únicos donos da casa.

E esses usos e abusos incluem o desprezo por qualquer instituição sionista. Não bastasse não contribuírem para a sociedade e a economia ao recusarem-se a servir ao exército ou trabalhar, vemos os ultra-ortodoxos desrespeitando as mais diversas leis do país. Um caso grave é o anual churrasco na noite do Yom haShoá[ref]http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4365348,00.html[/ref]. Por ser este um dia dedicado pela lei civil à lembrança dos milhões de judeus mortos no Holocausto, o setor ultra-ortodoxo não o reconhece e, mais do que tratá-lo como um dia normal, recusa-se a respeitar a dor alheia, fazendo questão de realizar atividades alegres, como churrascos ao ar livre em locais públicos.

Também incluído nesses usos e abusos está o uso das instituições do Estado quando estas lhe favorecem: bolsas-família, verbas para o seu próprio sistema educacional – que apenas agrava o problema, ao ensinar exclusivamente as disciplinas ligadas à religião, privando os alunos de estudos de inglês e matemática, por exemplo – além de autorização do bloqueio de ruas por parte das prefeituras nos sábados e dias de feriado, entre outros.

Este uso, naturalmente, está ligado ao abuso da completa insensibilidade às instituições do Estado que contrariam suas vontades, como as recentes tensões diante do final da proibição da realização por mulheres de cerimônias judaicas religiosas no Muro das Lamentações. Sob o pretexto de protegerem o local sagrado, os ultra-ortodoxos lideraram um show de horrores, com apitaço, cusparadas e lançamento de todo tipo de objetos e fluidos diante do próprio Muro das Lamentações. Este lamentável episódio foi descrito em dois post do ConexãoIsrael.org, um do Yair e o outro do Marcelo.

Desta maneira, ainda que possamos classificar a atual tentativa legislativa de enquadrar os ultra-ortodoxos nas regras da sociedade israelense moderna como apenas um factoide de homens brancos, laicos e ricos para não resolver os reais problemas do país, podemos identificar parte da culpa como pertencente aos ultra-ortodoxos também.

É um fato que a questão da igualdade na divisão do fardo[ref]Expressão usada para demonstrar a necessidade de inclusão dos ultra-ortodoxos no serviço militar e no mercado de trabalho.[/ref] pouco alterará a sociedade como um todo, sendo seu efeito muito mais simbólico, mas também é inegável que os ultra-ortodoxos não estão dispostos a ceder nem um milímetro para evitar o racha.

Foto de capa: http://uploads.static.vosizneias.com/2012/06/F120609YS03.jpg

Comentários    ( 14 )

14 comentários para “O próximo racha”

  • Raul Gottlieb

    30/05/2013 at 13:12

    Muito boa a análise, obrigado, Cláudio.

    Um dos muitos absurdos que mais me irritam dentro dos muitos que os charedim praticam é o hábito corrente de chamarem os policiais israelenses que servem a sua comunidade (pagos com os impostos dos não charedim) de “Nazis” cada vez que os policiais precisam intervir de forma mais contundente – como por exemplo, ao prender um criminoso de sua comunidade ou estabelecer a ordem numa manifestação que descambou para a violência.

    Tem algo pior que isto? Talvez sim, mas esta atitude completamente insana é a meu ver a que melhor reflete a total dissonância entre o mundo charedi e o resto do mundo. É ultrajante!

    Na foto que ilustra o texto muito provavelmente o senhor de preto está chamando o policial de nazista.

    Como contraponto às muitas manifestações que se tornam violentas no mundo charedi (há alguns anos houve uma série delas que protestou contra a abertura de um estacionamento no sábado), percebam a paz com que mais de 500 mil israelenses (pouco menos de 8% da população total do país) saíram às ruas em 2011 para protestar contra as dificuldades da classe média. Nenhuma vitrine ficou arranhada, nada aconteceu.

    Já no mundo charedi, jogar objetos nos outros, vandalizar e queimar latas de lixo, xingar os soldados de nazistas e as mulheres de prostitutas, é moeda corrente. Eu devo ter lido uma versão muito antiga da Torá, porque não tem nada disso lá. E esta nova versão deles não me agrada nada.

    • Claudio Daylac

      30/05/2013 at 14:25

      Raul,

      Ultrajante é a palavra perfeita!

      Eu não quis encher o texto de exemplos, por uma questão de fluência e estilo, mas são bons exemplos também os protestos (racistas) contra a decisão judicial que obrigava as escolas ashkenazitas a aceitaram alunas sefaraditas, além dos protestos das últimas semanas, conta a convocação militar.

      De qualquer maneira, também podem-se observar mudanças internas na comunidade charedi. Eu estudo com um cara charedi, por exemplo. Acho que há uma geração atrás isso seria impensável. E é claro que, em Jerusalém, vejo muitos charedim trabalhando. Os que não tiveram a honra de serem escolhidos para estudar (porque aí também tem coisa!) escapam do exército, mas não do mercado de trabalho!

      Enfim, um dia chegaremos lá!

      Um grande abraço.

  • Mario Silvio

    30/05/2013 at 17:18

    ” o anual churrasco na noite do Yom haShoá ”
    Eu não sabia disso! Sou a favor da proibição das músicas de Wagner, pelo menos até que o último sobrevivente do Holocausto morra. Daí dá para imaginar minha indignação contra essa barbaridade.

    “, também podem-se observar mudanças internas na comunidade charedi. Eu estudo com um cara charedi, por exemplo. Acho que há uma geração atrás isso seria impensável.”
    Ótimo! Os malucos serão cada vez menos, mas sempre existirão, como em qualquer país.

  • Uri Lam

    30/05/2013 at 17:44

    também te cumprimento pela análise, Cláudio. Fico pensando também que de um lado não há só laicos e sionistas religiosos, mas há de laicos a sionistas religiosos. Entre um e outro, em comunicação orgânica e todos circulando pelos mesmos lugares, há todo um movimento de renovação judaica que envolve novas comunidades independentes fundadas em pequenas cidades, moshavim e kibutzim; assim como comunidades alternativas, mescladas com os pequenos mas crescentes movimentos reformista, conservador, reconstrucionista e Renewal. alguns ortodoxos modernos também passam a fazer parte desta maioria orgânica que trabalha e se respeita, apesar da sua diversidade. Um exemplo é a harmonia e a troca hoje entre gente do movimento renewal, reformista e ortodoxo moderno, em jerusalém, que estao realizando muita coisa juntos, de serviços religiosos a grupos de estudos.
    no mais, kol hakavod!!!
    abraços
    rabino Uri Lam,
    Sociedade Israelita da Bahia (SIB)

    • Claudio Daylac

      30/05/2013 at 21:52

      Uri,

      Obrigado pela visita e pelo elogio.

      Saiba que eu não tive nenhuma intenção de diminuir as demais correntes judaicas, que são todas muito sérias e valorosas. Aqui em Israel, pelos mais diversos motivos, elas ainda reúnem um número reduzido de pessoas, de forma que eu não classificaria um desentendimento, por exemplo entre a minoria Renewal e a maioria laica como um racha na população israelense.

      Acredito, entretanto, que jamais precisaria pensar em como rotular um desentendimento desta natureza, uma vez que todas as correntes mencionadas já optaram, há muito tempo, por ficar do lado democrático e racional do racha.

      Um abraço e bem-vindo à Conexão!

  • Sheila Tellerman

    30/05/2013 at 19:02

    PARABÉNS,Claudio!!KOL HAKAVOD pelo artigo e por todos os outros da Conexão.Para mim,morá de Ivrit na Golá,mulher judia e totalmente identificada com o meu judaísmo ,é muito importante ler os artigos de vcs,que vivem aí.
    Quando li sobre o “churrasco de Yom hashoá,meu estômago revirou.Fico pensando no que acontece a mais do que vc contou!!Um grande abraço pra vc e pra todos os “meninos”queridos da Conexão.

    • Claudio Daylac

      31/05/2013 at 17:23

      Sheila,

      Vejo a todos nós, educadores, como os responsáveis por levar adiante esta chama de luz pelo mundo.

      Um abraço saudoso.

  • Raul Gottlieb

    31/05/2013 at 02:38

    Os religiosos não ortodoxos já não são tão pequenos assim. Os charedim (ultra-ortodoxos) são cerca de 7% da população e os que se identificam com sinagogas liberais (reformistas e massortim) passaram dos 5%.

    Hoje o Haaretz noticiou uma resolução importante para os religiosos liberais: os Rabinos de comunidade não serão mais apontados pelo Ministério da Religião e sim eleitos pelos diversos distritos, podendo ser eleitos Rabinos não ortodoxos.

    Estes Rabinos recebem salário do Estado e resolvem questões civis, assim que esta é uma mudança muito significativa no status quo que deixava todas as decisões religiosas nas mãos dos partidos políticos ortodoxos.

    A meu ver as mudanças no comportamento dos charedim acontecerão fatalmente pela pressão econômica. A comunidade charedi ser’a obrigada a trabalhar a medida em que os subsídios minguarem. As mulheres serão obrigadas a deixar de cuidar exclusivamente dos filhos, os casais terão menos filhos, etc.

    Afinal de contas, nenhum parasita sobrevive ao exaurimento de seu hospedeiro, não é mesmo?

    E quando isto acontecer ficará claro que a opção deles pelo isolamento e pela dedicação exclusiva ao estudo da Torá (se é que se pode realmente chamar uma yeshivá onde se aprende a decorar textos do passado de uma casa de estudos) foi motivada pela política e não pela religião.

    Não há nada mais revolucionário no judaísmo moderno do que os charedim em Israel. Eles modificaram a prática judaica de uma forma muito mais radical do que a Reforma alemã no século 19. E por motivos nada sagrados.

  • Raul Gottlieb

    31/05/2013 at 19:54

    Leiam isto: http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4386544,00.html

    Mostra bem a distorção na cabeça dos haredim.

  • Yair Mau

    31/05/2013 at 21:51

    Recomendo o artigo de Gad Yair, professor do departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, que saiu no Haaretz (em hebraico):
    http://www.haaretz.co.il/opinions/.premium-1.1997585

    Ali, ele cita um artigo de um ortodoxo, que a respeito dos churrascos de yom hashoa responde: “e os picnics e cafés abertos em tisha beav?”. Material para se pensar a respeito

    Gad Yair termina com o seguinte parágrafo:
    “A atitude de muitos ortodoxos durante a semana mais sensível para os israelenses (entre yom hashoa e yom hazikaron), demonstra o quanto os israelenses são o ‘outro’ aos olhos do povo ortodoxo. A conclusão óbvia: Israel – três países para três povos”

  • Raul Gottlieb

    01/06/2013 at 12:36

    O ortodoxo citado tem um ponto e é preciso considerar que:

    1) A atitude dos outros não deveria influenciar a tua. Quando isto acontece fica claro que a tua identidade depende da do outro, o que evidencia um vínculo.

    2) Os cafés abertos em 9 de Av refletem a indiferença dos não religiosos (de qualquer corrente) para com o judaísmo – o que é muito ruim e que é um fenômeno provocado em grande parte pela inabilidade dos religiosos (de todas as correntes) em transmitir qual o valor de sua postura perante a vida.

    3) Não me consta que hajam picnics (ou outros festejos) provocativos em 9 de – os não religiosos simplesmente seguem suas vidas no ritmo de sempre. No entanto os haredim que festejam em Iom Hashoá e Iom Hazikaron o fazem de forma provocativa, A indiferença dos não religiosos não é uma provocação e sim o sinal de que a religião não os sensibiliza.

    Isto demonstra, a meu ver, que aos olhos dos haredim os não religiosos não sejam o “outro” e sim que sejam o “opressor”, que tem que ser desafiado.

    Já aos olhos dos demais Israelenses os haredim são efetivamente o “outro” com o qual não querem contato.

    Há uma diferença nos olhares, diferença esta que não é irrelevante.

  • Ana Maria Piazera-Davison

    01/06/2013 at 17:03

    Excelente artigo. Chegará o dia em que, inexoravelmente, o povo terá de decidir entre Israel ser um Estado para os Judeus ou um Estado para os israelenses.

Você é humano? *