Qual é o seu mapa?

A discussão de qualquer tema relacionado ao conflito palestino-israelense é muito complicada de ser feita. Mas por quê? Por dor, por paixão, por religião, por posse, por egoísmo, por medo, enfim, por diversos motivos que nos levam sempre a querer nos diferenciar de quem está do outro lado. Buscamos sempre fortalecer a nossa narrativa e dizer que o outro lado está errado. Narrativa fortalecida significa identidade fortalecida. E no caso do conflito em questão, sempre tentam nos enquadrar em algum lado: pró-Israel, anti-Israel; pró-Palestina, anti-Palestina.

Um dos temas que mais me chama a atenção é o debate sobre os mapas. Quantas vezes ouvimos falar que os palestinos até hoje ensinam seus filhos que o mapa da Palestina é o mapa da Palestina histórica? Ou seja, Israel + Cisjordânia + Gaza. Certo. Concordo com o argumento.

No imaginário e na narrativa palestina o mapa compreende toda a Palestina histórica. Isso quer dizer que eles querem o fim do Estado de Israel? Sim e não. Há setores dentro da sociedade palestina que não aceitam a existência de Israel como também há setores que aceitam a existência de Israel. Mas é fundamental entendermos que para boa parte do povo palestino, no seu imaginário e narrativa, seu território não é somente Cisjordânia e Gaza. Afinal, centenas de milhares foram expulsos ou fugiram de suas terras em regiões que hoje são parte do Estado de Israel.

E nós, judeus israelenses? O que temos a dizer sobre os mapas? Pois é. Não se espantem mas somos muito parecidos com os palestinos. Nossos mapas escolares não excluem a Cisjordânia. Mesmo após 10 anos da saída de Gaza, muitos mapas de Israel são exatamente a…….Palestina histórica! Nossas crianças nem sempre são ensinadas de que há um problema básico de fronteiras.

Durante os dois mil anos de diáspora queríamos o retorno à Terra de Israel. Se formos incluir todas as regiões onde as 12 tribos do povo judeu viviam, as fronteiras do estado chegariam até a Jordânia e Síria. As quatro principais cidades para a religião judaica – Jerusalém, Hebron, Tsfat e Tibérias – teriam que fazer parte do estado do povo judeu. Construímos isso em nossas idéias.

Os mapas oferecidos pelo ministério do exterior israelense [1] é da Palestina histórica, o mapa oferecido pelo ministério do turismo [2] é da Palestina histórica, o mapa que é dado aos jovens judeus do mundo inteiro que vêm à Israel no Taglit é o da Palestina histórica, o mapa que aparece nos jornais da televisão dizendo a previsão do tempo é da Palestina histórica. Ou seja, no imaginário e na narrativa israelense o mapa compreende toda a Palestina histórica. Isso quer dizer que nós somos contra a criação do estado palestino? Sim e não. Há setores dentro da sociedade israelense que não aceitam a existência da Palestina como também há setores que aceitam a existência da Palestina.

Parte de nossos políticos, principalmente os do Likud e da Bait HaYehudi, dizem que é um absurdo dizer que os assentamentos nos territórios ocupados são ilegais pois afinal de contas ali também é a terra de Israel.

Pois bem, tanto aqui – Israel – quanto lá – Palestina – continuamos construindo a idéia de que os dois estados ocupam o mesmo espaço. O que se constrói é que só há lugar para um deles. Como se essas fossem as duas únicas alternativas. Obviamente isso só torna mais difícil qualquer tipo de discussão relacionada ao tema.

E você, caro leitor? Qual é o seu mapa?

 

[1] – http://www.mfa.gov.il/MFA/AboutIsrael/Maps/Pages/Topographical-map-of-Israel.aspx

[2] – http://www.thinkisrael.com/Tourism_Euk/Tourist%20Information/Pages/Maps%20of%20Israel.aspx

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Qual é o seu mapa?”

  • Mario S Nusbaum

    03/07/2016 at 00:35

    Meu mapa é o de 67 com troca de territórios. Na minha opinião o problema não é esse.

    “Há setores dentro da sociedade palestina que não aceitam a existência de Israel como também há setores que aceitam a existência de Israel”
    Os que aceitam exigem um absurdo, que equivale a o suicídio de Israel: o surreal “direito de retorno”, que não é direito nem muito menos retorno.
    Para esses tanto faz qual seria a fronteira, já que teríamos dois países palestinos.

    “Há setores dentro da sociedade israelense que não aceitam a existência da Palestina como também há setores que aceitam a existência da Palestina.” Só que nem ocorre aos que aceitam, que Israel teria o direito de decidir quem pode ou não morar na Palestina. Pois é Marcos, NÃO somos muito parecidos com os palestinos

  • Raul Gottlieb

    04/07/2016 at 18:35

    Olá Marcos

    A “Palestina Histórica” que você se refere só foi uma entidade política durante o curto período entre 1923 e 1948. Ou seja, entre a separação da Transjordânia da área do Mandato conquistado após a primeira guerra mundial e a independência de Israel. E este mandato tinha como um dos objetivos a criação de um Estado árabe e de um Estado judaico. Logo, o termo que você (e outros) usa (m) me parece inconsistente. Suspeito que quando se fala em “Palestina Histórica” se passa a ideia que houve alguma vez na história uma entidade política chamada “Palestina”, o que é falso – a não ser para o breve período citado, que incluía os judeus dentro da Palestina.

    Ao mesmo tempo noto que o mapa topográfico de Israel citado por você na referência número 1 não inclui Gaza inclui a Cisjordânia e o Golan numa cor diferente, mostrando que estes territórios tem uma diferença política com relação aos demais.

    Há dois mapas na tua referência número 2. Um deles é um mapa de peregrinações cristãs e não tem fronteiras nacionais, incluindo locais que ficam no Líbano, na Jordânia, em Israel e na Cisjordânia.

    O outro não inclui Gaza e tem cor diferente para o Golan e para as áreas sob controle da ANP na Cisjordânia. Não se pode dizer que este mapa sugira que Israel considera Gaza, o Golan ou a Cisjordânia como parte indisputada de seu território, muito pelo contrário.

    Como você não mostrou mais nenhuma fonte e como você errou nas duas fontes citadas, além de ter cometido a distração de chamar de “histórico” algo que nunca teve história, eu suspeito fortemente das demais informações do teu texto.

    Pelo menos até você resolver anexar exemplos dos mapas escolares Palestinos e Israelenses e dos demais mapas citados. Seria um belo exercício.

    Sobre qual o meu mapa, a resposta é simples: ele é um mapa onde os esquerdistas perderam a credibilidade por consistentemente embaralhar informações, embaralhar fontes e tentar criar igualdades morais entre situações manifestadamente desiguais.

    Abraço grande,
    Raul

    • Marcos Gorinstein

      06/07/2016 at 19:58

      Raul,

      Obrigado pelo seu comentário. Voltou em grande estilo.

      Interessante a sua perspectiva sobre o termo “Palestina Histórica”. O mais interessante é que vai de encontro à grande maioria dos acadêmicos e estudiosos do assunto, pelos quais tenho grande respeito pelo trabalho, independente de concordar ou não com a posição. Assim, para que sua posição tenha alguma validade, gostaria que formulasse algo mais sério sobre o tema, senão fica apenas sendo um discurso vazio.

      Quanto aos mapas apresentados você simplesmente usou do seu “achismo” para refutar as idéias. Você percebeu que o mapa do do Ministério do Exterior usa uma linha diferente para delimitar Gaza? Curiosamente a mesma linha que é usada para delimitar as fronteiras com o Egito, Jordânia, Síria e Líbano. Não quero entrar aqui na discussão sobre o Golan porque acho que não pode ser feita da mesma forma que é feita a discussão sobre os territórios ocupados da Palestina, mas a linha grossa que define fronteiras, também inclui o Golan em território israelense.

      O fato dos mapas terem cores diferentes para a Cisjordânia e Gaza, não faz com que sejam vistos como territórios independentes. Os judeus tinham uma determinada autonomia na Bessarábia mas viviam dentro de outro estado. Os Rei Hussein da Jordânia ofereceu às lideranças sionistas uma região autônoma para os judeus dentro da Palestina histórica que seria parte do território jordaniano. A oferta foi recusada porque os judeus não queriam autonomia, queriam independência.

      Já que você costuma vir frequentemente a Israel, gostaria de sugerir que tentasse entender melhor o que acontece na sociedade israelense. Seria um belo exercício.

      Sobre o seu mapa ele continua o de sempre. Não oferece nada, não propõe nada, só critica quem pretende rediscutir o status quo e buscar uma solução para o conflito em que as duas parte saiam menos insatisfeitas o possível. Isso é uma característica sempre presente em seus comentários.

      No mais, coloco abaixo o link de um artigo feito por uma professora da Universidade Hebraica de Jerusalém que explica, dentre outras coisas, como a questão do mapa é ideologizada e ensinada em Israel.

      http://www.iip.at/projects/goeab09/GOEAB_NuritPeled_Artikel.pdf

      Ah, estou sempre em colégios aqui em Israel e prometo tirar fotos dos mapas para você!

      Forte abraço.

  • Mario S Nusbaum

    11/07/2016 at 20:12

    Marcos, não vou me meter na briga de vocês, mas tenho que dizer algumas coisas sobre o artigo que você indicou.
    Fiquei assustado logo que comecei a lê-lo! Se eu não soubesse nada sobre Israel, lendo o prefácio e a introdução ficaria com a impressão de que a vida dos palestinos daí é igual a dos negros sob o apartheid, o que aliás cansei de ler/ouvir, mas sempre partindo de anti-semitas.
    Mesmo entre eles (anti-semitas) foram raros os que incluíram judeus etíopes e russos na lista dos “oprimidos”.
    “the exclusion and rejection of different ethnic groups – both Jewish and Muslim – whose
    national, territorial and cultural rights are denied” Sempre soube, por exemplo, que existem escolas em árabe. Fui enganado?

    Parei logo em seguida, e explico porque:
    Pode-se discutir se x, y e z são racismo ou não (nos EUA hoje tudo é), mas quando aparecem mentiras absurdas, o documento perde totalmente a confiabilidade. O exemplo é bobo, mas como acreditar no resto? Vamos lá: ” there are no higher education institutes that teach in Arabic, no signs in Arabic at the airport” https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/56/Urinal_in_Ben_Gurion_airport.jpg
    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/68/Ben_Gurion_Airport_Train_Station_sign.jpg
    Mas fiquei contente Marcos, sabe por que? Se ele precisou mentir para “provar” o terrível racismo israelense, é que a situação não é tão terrível assim.

  • Mario S Nusbaum

    11/07/2016 at 20:19

    Só agora reparei no cabeçalho do estudo, e nele numa palavra em particular: Viena.

Você é humano? *