Quando Apple, Israel e a Paz se encontram

por Natan Rolnik

Sabe quando você tem a sensação de estar realizando um ou mais sonhos da sua vida? No período que engloba os últimos três anos, isso tem acontecido, graças a Deus e com muito suor. Não escreverei por orgulho próprio, nem para me expor, mas sim porque o assunto central deste texto e deste site falam de um grande sonho do povo judeu: o estado de Israel e sua existência em paz.

É por ele que começarei. No dia 27 desse mês completarão dois anos que fiz aliá, exatos 3 meses após ter me casado – com uma mulher que a cada dia vejo que é melhor do que meus melhores pedidos nas minhas rezas então. Talvez nem todos os casais jovens israelenses sintam tanto esse orgulho, de poder começar a montar uma casa e criar suas famílias na terra pela qual rezamos 3 vezes por dia, durante dois mil anos. Depois das dificuldades iniciais, inerentes a toda grande mudança, sinto que estamos finalmente adaptados em vários sentidos. Ter a sensação de que um processo traumático como a aliá está entrando em harmonia é muito recompensador. Não quero desencorajar ninguém com essa forte palavra, muito pelo contrário – estando ciente das dificuldades nos preparamos melhor, e elas fazem o olê (imigrante) dar mais valor as suas conquistas.

Voltando de novo no tempo, há três anos e meio, quando eu terminava minha graduação em Farmácia-Bioquímica, resolvi tentar algo que juntava vários hobbies meus: design gráfico, programação, tecnologia e inovação. Essa combinação te faz lembrar de alguma empresa? A Apple tinha acabado de lançar a AppStore, loja de aplicativos para o iPhone, permitindo a desenvolveres independentes criar e distribuir seus produtos – os apps – pelo mundo. Após cerca de um ano de experiência, fizemos aliá. O mercado tecnológico em Israel continua em alta, e não faltam nem startups nem empresas grandes que procuram programadores nas mais diversas áreas – mas na minha cabeça, eu jamais iria “jogar fora” os 5 anos de faculdade. Após seguir o meu coração e o empurrão da minha esposa, o que era para ser hobby, acabou deixando um diploma de lado – e eu não poderia ter vindo para um país melhor nesse aspecto, que me permitisse realizar profissionalmente.

O quarto sonho é para onde estou viajando neste exato momento: a WWDC, conferência anual de desenvolvedores realizada pela Apple em São Francisco. Com um recorde de ingressos esgotados em menos de 3 minutos (!), 5.000 desenvolvedores se reunirão para ver as novidades que a empresa da maçã tem para apresentar em seus sistemas operacionais (iOS e OS X), para trocarem conhecimento entre si e com os engenheiros da própria Apple. O mesmo evento (então iniciado com as lendárias apresentações de Steve Jobs) que eu acompanhava do Brasil, em live blogs, vou poder vivenciar pessoalmente.

Voltemos à nossa terrinha. Em um grupo no Facebook voltado para os brasileiros sortudos que conseguiram as entradas para o evento, me deparei com alguém que estava na mesma situação que eu: necessitava tirar o visto americano para conseguir viajar. Quando olhei seu nome, o mesmo me chamou atenção, e resolvi trocar umas mensagens com ele.

N. F. é um brasileiro que também trabalha com iOS, como eu. No entanto nossa conversa foi pouco voltada a isso. Descobri que hoje ele vive em Ramallah – a 15 minutos da minha cidade, Modi’in, mas anos luz distante. Crescido no “gueto” de Higienópolis, e boguer “roxo” do Bnei Akiva, tive a oportunidade de trocar ideias, pela primeira vez, com um muçulmano que mora em Yehudá e Shomron, a Cisjordânia de hoje em dia.

O dialogo foi muito interessante. Conversamos sobre os problemas que o conflito traz na vida de nós dois: na paranoia da segurança do dia a dia, nas épocas de guerra, o serviço militar, os gastos excessivos com a segurança do lado de cá; e da dificuldade de locomoção entre as cidades árabes na Cisjordânia, a necessidade da invasão de casas e fechamento de estradas, do lado de lá; e vitimas dos dois lados. Falamos também sobre a ganância dos líderes e pessoas que estão no poder, discutindo se esses se aproveitam do conflito para interesse próprio. O diálogo até mostrou que, em alguns e importantes aspectos, nós estamos do mesmo lado. Ou até que nem existem diferentes lados, dependendo do ponto de vista. Nós dois queremos a paz. Como se eu já não soubesse o suficiente, conclui mais uma vez que nenhum diálogo é prejudicial. Me deixou com vontade de quero mais, de chegar logo a WWDC e poder falar pessoalmente com ele. De dar um abraço nele.

No entanto, em um determinado momento, ele me disse o seguinte: “Anos atrás, ninguém aqui ficou feliz com a fundação do estado de Israel – a diferença é que alguns já aceitaram a realidade e outros não, lutando contra ela”. E não estarmos falando da Cisjordânia, o problema em questão é dentro da linha verde também. Apesar de saber que muitos deles querem a paz, isso reforçou minha ideia de que, digamos assim, não somos muito bem vindos na região por alguns deles, que acabam fazendo mais barulho, literalmente. Enquanto o meu passaporte demorou 5 dias para chegar com o visto, infelizmente o dele ainda não retornou da embaixada americana em Jerusalém, por causa de verificações de segurança que o tio Sam exige. O texto que eu já planejava escrever após o encontro, infelizmente não vai acontecer.

A realidade hoje é terrivelmente afetada por aqueles que querem mais destruir do que construir, por aqueles que educam para a morte e não para a vida, que educam para o terror e não educam para a paz. Eu sou prejudicado, meu amigo com o visto negado é prejudicado, e não faltam outros piores exemplos. Mas mesmo assim, não desistiremos do nosso sonho. Nosso sonho de viver em um estado democrático, judaico, que aceita a todos sem distinção, mas que vive em segurança e sem ameaças. Nosso sonho de acreditar na educação, na vida, no desenvolvimento, na inovação, na criatividade. Nosso sonho no mais judaico dos valores: na esperança. Nosso sonho milenar: a paz.

Natan Rolnik é o judeu corintiano que vive em Israel com mais aplicativos judaicos publicados na AppStore.
Natan Rolnik é o judeu corintiano que vive em Israel com mais aplicativos judaicos publicados na AppStore.

Foto de capa: www.divulgare.com

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Quando Apple, Israel e a Paz se encontram”

  • Mario Silvio

    10/06/2013 at 21:26

    “: “Anos atrás, ninguém aqui ficou feliz com a fundação do estado de Israel – a diferença é que alguns já aceitaram a realidade e outros não, lutando contra ela”. E não estarmos falando da Cisjordânia, o problema em questão é dentro da linha verde também. Apesar de saber que muitos deles querem a paz, isso reforçou minha ideia de que, digamos assim”

    O problema Natan é o silêncio ensurdecedor dos que já aceitaram a realidade. A inação dos muitos que querem a paz.

    “, não somos muito bem vindos na região por alguns deles, que acabam fazendo mais barulho, literalmente.”
    Não se trata de mais ou menos barulho, estes são os ÚNICOS que falam e agem.

  • Leo

    11/06/2013 at 00:14

    Irado o artigo Natan. Fiquei até com pena do maluco que não conseguiu viajar. Além de não conseguir viajar, ele dificilmente arrumaria um emprego numa startup israelense. E infelizmente se eu fosse responsável pela contratação, eu jamais contrataria ele.

    • Claudio Daylac

      11/06/2013 at 00:39

      Leo,

      Por que você nunca o contrataria? O currículo dele não é bom?

      Obrigado pela visita,
      Claudio

    • Natan Rolnik

      17/06/2013 at 23:25

      Leo, eu também fiquei com pena, mas deixei clara minha opinião no texto quanto a isso… E entendo o seu ponto, e aqui tento explicar para o Cláudio, de acordo com o que imagino, de que o talvez faltaria para contratá-lo seria não ter suficiente confiança.

  • Fanny

    13/06/2013 at 00:23

    Natan, você êh um cara de ouro, kol hacavod como brasileira, judia e corinthiana só tenho motivos para me orgulhar de uma pessoa(mentche) como você. Parabéns continue assim.

  • Henrique Fridman

    16/06/2013 at 20:32

    como achar os seus aplicativos? abraço