Que o Hamas vá se Qatar

29/07/2014 | Conflito; Economia

Muito se fala sobre a ideologia fundamentalista islâmica neste conflito entre Israel e Hamas. No entanto, há um outro termo fundamental nesta equação: o dinheiro. O sequestro e assassinato dos três jovens judeus, seguidos pela reação israelense de responsabilizar o Hamas e a prisão de vários de seus militantes não é a “causa última” da operação Margem de Proteção, mas, sim, é o pano de fundo de um processo bastante longo. Há anos o Hamas não consegue dinheiro suficiente para pagar seus funcionários em Gaza e, mais importante, fazer com que Gaza prospere. São quatro os motivos: o bloqueio, mudanças em suas alianças estratégicas, corrupção, e colocar prioridades a frente de sua população. Vamos analisar cada um deles separadamente.

O bloqueio

Em janeiro de 2006 o Hamas foi o grande vencedor das eleições legislativas palestinas. Ganhou democraticamente, mas não tardou para eclodir uma guerra civil palestina em junho de 2007, resultando na tomada da Faixa de Gaza por parte do Hamas, e a imposição de uma ditadura que já dura 7 anos.

O Hamas seguia se recusando a reconhecer Israel, não renunciou à violência e se negou a cumprir com acordos previamente assinados entre a Autoridade Palestina e Israel. Como consequência, os Estados Unidos e a União Europeia suspenderam a ajuda financeira à Faixa de Gaza, com excessão de alguma assistência humanitária emergencial. Israel impôs um bloqueio terrestre, aéreo e marítimo, assim impedindo que armas e matérias-primas para produção de armamentos chegassem ao governo do Hamas, que já lançava mísseis sobre a população civil em Israel. Não apenas armas eram impedidas de entrar, bem como todo tipo de material necessário para alimentar a economia e os cidadãos de Gaza.

Após a grande comoção internacional resultante da infame “Flotilha da Liberdade” de 2010, o bloqueio foi (levemente) aliviado, permitindo a entrada de mais produtos, e novamente aliviado depois dos acordos de cessar-fogo da última operação militar de 2012, Pilar Defensivo, para permitir a reconstrução de Gaza. Mesmo assim, desde 2007, não houve em nenhum momento abastecimento suficiente da Faixa de Gaza.

Navio Mavi Marmara, da “Flotilha da Liberdade”

Com relação à fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito a situação é mais complexa. Com a tomada de poder do Hamas em 2007, Israel e Egito concordaram em fechar o Corredor Philadelphi, como é chamada a região da fronteira que liga Kerem Shalom, em Israel, ao mar, passando pela cidade de Rafah. Esta fronteira não era exatamente hermética, com centenas de túneis permitindo o contrabando de todo tipo de bens, de concreto a gasolina, passando por carros inteiros, e evidentemente, armas e mísseis. De toda forma, o governo de Mubarak era contra a abertura de sua fronteira, pois significaria o reconhecimento de fato do poder do Hamas em Gaza.

Com a queda de Mubarak, o bloqueio egípcio foi relaxado, e a passagem de Rafah foi aberta para a passagem livre de mulheres, crianças e homens acima de 40. A subsequente eleição de Muhammad Mursi, da Irmandade Muçulmana, se traduziu em restrições ainda mais leves, pelo menos durante o período do ano em que esteve no poder. Finalmente, com o golpe de Estado e a deposição de Mursi, o bloqueio egípcio voltou com toda a força, sendo bastante mais restrito do que era na época de Mubarak. Os diversos túneis foram destruídos ou enchidos de esgoto, e hoje o contrabando de produtos do Egito a Gaza é virtualmente nulo.

O bloqueio marítimo imposto por Israel foi considerado legal pela comissão Palmer da ONU, que investigou os incidentes relacionados à “Flotilha da Liberdade”. Em diversas outras instâncias, comissões investigativas da ONU ou representantes das Nações Unidas consideraram o bloqueio como “punição coletiva”, “violação das leis humanitárias internacionais” e “crime contra a humanidade”. Israel afirma a legalidade do bloqueio, citando principalmente o Manual de San Remo de 1994, e que cumpre com os requerimentos legais de um bloqueio naval. De toda forma, é inegável que a economia de Gaza é muitíssimo prejudicada pelo bloqueio, e que uma boa parte da população de Gaza sofre de insegurança alimentar em decorrência deste.

Gostaria de terminar a seção sobre o bloqueio lembrando que ele existe porque até hoje o Hamas está comprometido com a destruição de Israel. Mais adiante veremos onde foi parar parte do concreto destinado à reconstrução de Gaza. A Autoridade Palestina não tem o objetivo de eliminar Israel, e portanto não existe bloqueio na Cisjordânia.

Alianças Estratégicas

Os países muçulmanos do Oriente Médio não estão todos contra Israel, nem são todos amigos. O historiador americano Daniel Pipes escreveu em 2009 a respeito de uma guerra fria na região, travada entre dois blocos. O bloco da resistência é liderado pelo Irã, e inclui Síria, Qatar, Omã, as organizações Hezbolla e Hamas, e Turquia como auxiliar importante. O bloco do status quo é liderado pela Arábia Saudita e Egito, e inclui Jordânia, Líbano, Tunísia, a organização Fatah, e Israel como semi-auxiliar. Esta é obviamente uma tremenda simplificação, pois mesmo os países de um mesmo bloco não se entendem bem, mas é uma simplificação útil de se ter em mente.

O Hamas depende de ajuda internacional para se sustentar. É muito difícil saber de onde vem o dinheiro, pois o grupo terrorista não prima pela transparência. A inteligência militar israelense estima que até 2011 o Irã contribuía com 100 milhões de dólares anuais ao Hamas, ou cerca de 20% de seu orçamento de 540 milhões de 2010. Deste mesmo orçamento, apenas 55 milhões resultaram da receita de impostos sobre mercadorias, sejam vindas de Israel ou pelos túneis na fronteira egípcia. Conclusão: o Hamas tem 90% de seu orçamento baseado em ajuda externa, e quaisquer flutuações nestas tem consequências desastrosas.

A aliança entre o sunita Hamas e os xiitas Irã, Assad (alawita, seita xiita) e Hezbolla se desfez ao longo da guerra civil na Síria. Assad reprimiu com mão de ferro a oposição sunita, e o Hamas se colocou ao lado dos rebeldes. Já na metade de 2011, o Irã diminuiu, ou até mesmo cortou, sua ajuda financeira (não se sabe ao certo), devido à recusa do Hamas a organizar protestos em favor de Assad nos campos de refugiados palestinos na Síria. Como consequência, os cerca de 40 mil funcionários do Hamas tiveram seus salários interrompidos por vários meses. Em Fevereiro de 2012 o racha tornou-se público, com a declaração do líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh: “Eu saúdo todas as nações da Primavera Árabe e saúdo o povo heróico da Síria que está lutando por liberdade, democracia e reforma”. No mesmo mês, Khaled Meshaal, líder político do Hamas exilado na Síria, transferiu seu escritório de Damasco a Doha, no Qatar, cortando definitivamente as relações com Síria e Irã.

Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani, do Qatar

De fato, o bloco da resistência se desfez em 2012, com o Qatar também se distanciando de Assad e Irã. O então emir do Qatar, Sheik Hamad bin Khalifa al-Thani, visitou Gaza em Outubro de 2012, prometendo 400 milhões de dólares para o Hamas. Hoje o Hamas depende quase que inteiramente da ajuda do Qatar, sem o qual não tem como sustentar suas operações. Para o Hamas, estas centenas de milhões de dólares são questão de vida ou morte, mas para o riquíssimo Qatar não significa muito, é um preço barato para expandir sua esfera de influência. Em junho deste ano, o Arab Bank se recusou a aceitar uma transferência qatari destinada ao Hamas, por causa da pressão norte-americana. Assim, os 40 mil funcionários do Hamas seguiram sem receber seus salários, período que se estende há mais de três meses.

Neste complicadíssimo jogo geopolítico, o comportamento do Qatar não pode ser entendido em poucas palavras. Ele é aliado dos EUA, e apenas este ano já gastou 11 bilhões de dólares em equipamentos militares, e hospeda uma enorme base militar americana. Parece contraditório, e é mesmo.

Finalmente, a Irmandade Muçulmana, outrora melhor aliado do Hamas, está na lona, sofrendo eles mesmos uma dura repressão por parte do governo egípcio de Abdel Fattah as-Sisi e de outros países do bloco do status quo, notadamente a Arábia Saudita, que os considera um grupo terrorista. Durante a meteórica ascenção de Mursi e seu um ano de governo na presidência, o Hamas pôde disfrutar do apoio egípcio, mas as-Sisi os considera como uma mera extensão de seus rivais da irmandade muçulmana, e não permitirá que o grupo volte a se fortalecer.

Corrupção

Enquanto a população de Gaza sofre terrivelmente com o bloqueio, a liderança do Hamas viu a situação como uma oportunidade de se enriquecer. Desde a deposição de Mubarak até a deposição de Mursi, o contrabando de bens entre Egito e Gaza floresceu enormemente, abrindo uma oportunidade de ouro para a cobrança de impostos. Na maior parte das vezes, os impostos não chegavam aos cofres públicos, mas sim ao bolso de quem os cobrava (leia-se, alguém do Hamas). A indústria dos túneis é tão importante ao Hamas, que túneis construidos pela iniciativa privada fora de seu controle foram considerados ilegais, e apenas poderiam continuar contrabandeando pagando uma multa de três mil dólares.

Contrabando de leite em pó

Desde 2007, a Autoridade Palestina é a responsável por pagar a conta da eletricidade fornecida a Gaza. Não obstante, oficiais do Hamas tomam crédito pelo abastecimento elétrico, cobrando os pagamentos de porta em porta, e sem, obviamente, enviar a arrecadação à Autoridade Palestina. Esta prática existe há algum tempo, conforme relatado em 2010 na audiência da câmara dos deputados dos EUA, denominada “Cleptocracia crônica: corrupção dentro do establishment político palestino”.

Reporta-se que existem em Gaza mais de dois mil milionários, a maior parte membros do Hamas. Toda esta elite política impulsionou o mercado imobiliário em Gaza, fazendo com que mansões de milhões de dólares se esgotassem. O próprio Ismail Haniyeh comprou um lote a beira mar custando 4 milhões de dólares, anotando-o no nome de seu genro, e comprando diversas outras casas na Faixa de Gaza, registrando-as no nome de seus filhos.

Khaled Mashaal, que vive no Qatar, também acumulou uma vasta fortuna, nem sempre lembrando de separar o que é seu e o que é do movimento do qual é líder. Doron Peskin do YNETnews reporta que Mashaal é investidor de um grande projeto em Doha, capital do Qatar, que inclui quatro torres de escritórios e comércio e um shopping center. Opositores do Hamas no Egito estão fazendo circular pela internet fotos de Mashaal gozando de sua riqueza no Qatar: na academia, restaurante, assistindo televisão, etc.

Prioridades

O bem-estar da população de Gaza está longe de ser a prioridade do Hamas. O Hamas é uma elite política-econômica-ideológica que vê sua população como instrumento para alcançar seus objetivos: expulsar os judeus da Palestina, criar um estado teocratico, e (por que não?) enriquecer.

As dezenas de túneis encontrados pelo exército israelense, destinados a ataques terroristas nos povoados ao redor da Faixa de Gaza, custaram alguns milhões de dólares cada um, demandaram milhares de homens-horas, e utilizaram muitas toneladas de concreto. Se o Hamas estivesse preocupado em cuidar de sua população, usaria pelo menos parte do dinheiro, materiais e trabalho para construir escolas, hospitais, parques, etc, como demanda a sociedade de Gaza que encontra-se em grande número abaixo da linha da pobreza, sem acesso aos direitos sociais mais básicos. Este aspecto da sordidez do Hamas foi bastante divulgado nos últimos dias, então gostaria de contar uma história menos conhecida.

O último ano foi especialmente duro para o Hamas e para toda a população de Gaza em geral. O bloqueio conjunto de Israel e Egito acabou com o contrabando e a economia de Gaza está quase parada, com um índice de desemprego de 40%. As dificuldades de se transferir dinheiro do Qatar, hoje único financiador do Hamas, fizeram com que seus cerca de 40 mil funcionários não recebessem salário algum há mais de três meses. Contraste isso à situação dos cerca de 70 mil funcionários do Fatah em Gaza, que seguem recebendo seus salários da Autoridade Palestina, embora não trabalhem em coisa alguma desde a tomada da Faixa de Gaza em 2007.

O Hamas, com pouquíssimas cartas na manga, resolveu fazer as pazes com o Fatah em abril de 2014, e em 2 de junho foi criado um governo de união nacional, não porque acreditam que isto possa servir melhor a causa palestina, mas porque queriam que a Autoridade Palestina pagasse o salário de seus 40 mil empregados. O primeiro-ministro palestino, por sua vez, disse que não havia dinheiro para pagar os dois grupos de funcionários, e que não poderia transferir dinheiro de doações ao Hamas, e assim pôr em risco o relacionamento da Autoridade Palestina com os doadores internacionais. Três dias após a formação do governo de união nacional, em 5 de junho, o Hamas fechou os bancos de Gaza para impedir que os funcionários do Fatah recebessem seus salários, uma vez que os seus certamente não receberiam. Este incidente é conhecido como a “guerra dos caixas automáticos”.

Caixa automático destruído

No dia 12 de junho, os três jovens judeus foram sequestrados e o governo de Israel apontou o Hamas como responsável, embora o grupo tenha ao mesmo tempo negado envolvimento e elogiado a ação. Imediatamente uma política de repressão ao Hamas é imposta, com a prisão de centenas, inclusive de líderes do Hamas na Cisjordânia. No dia 30 de junho os corpos dos três garotos são encontrados, e uma escalada de violência culmina com centenas de mísseis lançados ao território israelense, e a operação Margem de Proteção tem início no dia 8 de julho. A sucessão de eventos parece indicar que o atual conflito é uma consequência direta dos sequestros, assassinatos e mísseis, mas isto é apenas o pano de fundo.

O Hamas já entende que não conseguirá pagar seus funcionários de forma alguma. Não há mais contrabando do Egito, não há assistência do Qatar, e a Autoridade Palestina não os ajudará. O atual conflito é o último recurso de uma organização desesperada para mudar as regras do jogo, pois já não tem muito mais o que perder.

Mesmo durante a primeira fase da operação Margem de Proteção, na qual a aeronáutica israelense atacou centenas de alvos na Faixa de Gaza, ocorria uma segunda guerra dos caixas automáticos. Novamente, o Hamas impediu que funcionários do Fatah retirassem seus salários, fechando os bancos e disparando contra os caixas automáticos, mas desta vez as circunstâncias eram muito mais delicadas. Em meio a ataques aéreos, ninguém pôde tirar dinheiro para comprar abastecimentos. Esta é a cara do Hamas. Ou nós, ou ninguém.

Colapso

Enquanto escrevo estas palavras, a operação Margem de Proteção ainda não terminou, e já é mais longa que a operação Chumbo Fundido de 2008-9. Como esta história vai continuar ainda não sabemos, mas está claro que a sociedade de Gaza está completamente falida, e espero ter mostrado acima como o Hamas é o único responsável por essa situação.

A raiz do problema não é econômica, e sim ideológica. Portanto, se os problemas financeiros de Gaza pudessem ser resolvidos em um passe de mágica, o conflito entre Israel e o Hamas persistiria. Contudo, não podemos ignorar o importantíssimo papel da economia no desenrolar dos fatos, sendo esta a chave para entendermos o porque de um conflito agora, e que tipo de cessar-fogo satisfaria as partes, pelo menos por enquanto.

Para terminar, deixo uma passagem de uma palestra de Jared Diamond, baseada em seu livro “Colapso”, onde analisa o destino de dezenas de civilizações ao longo da História, e os fatores que influenciam no sucesso ou fracasso destas. Ele escreve:

Um dos motivos que tornam o colapso provável é o conflito entre interesses de curto prazo da elite tomadora de decisão e o interesse de longo prazo da sociedade como um todo, especialmente se as elites são capazes de se isolar das consequências de suas ações. Quando aquilo que é bom para a elite no curto prazo é ruim para sociedade como um todo, há um risco real de a elite fazer coisas que derrubem a sociedade no longo prazo.


Imagens:
Caixa automático destruído, YNET
Navio Mavi Marmara, Wikipedia
Contrabando de leite em pó, Al Jazeera
Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani, Wikipedia

Fontes:
Bloqueio: ochaopt.org, wikipedia, wikipedia, wikipedia, wikipedia, NYTimes, HuffingtonPost, webjcli.org, jcpa.org, wikipedia, wikipedia, bbc, themarker.com.
Alianças estratégicas: New Republic, Business Insider, Washington Institute, DanielPipes.org, Washington Institute, NYTimes, Haaretz, Reuters, bbc, NYTimes, Al-Monitor, Estadão, Washington Institute.
Corrupção: YNETnewsYNETnews, Calcalist, IsraelToday, pcpsr.org, JPost, Washington Institute, Daily Star, ForeignAffairs.house.govChannel 4’s Unreported World (video).
Prioridades: NYTimes, YNETnews, YNET, Walla, YNET, Calcalist, TheMarker.
Colapso: TED.

Comentários    ( 16 )

16 Responses to “Que o Hamas vá se Qatar”

  • Mario S Nusbaum

    29/07/2014 at 15:50

    ” e espero ter mostrado acima como o Hamas é o único responsável por essa situação.” Excelente artigo Yair, e você mostrou sim, mas infelizmente os anti-Israel vão dizer que não, vão fingir que não “entenderam”.
    Até aí tudo bem, os únicos que tem que ser convencidos são os palestinos de Gaza, e estamos muito longe disso.

  • Sheila Tellerman

    29/07/2014 at 16:42

    Excelente artigo, Yair!!! Claro e altamente didático!! Parabéns!! Vou divulgar.

  • Raul Gottlieb

    29/07/2014 at 18:07

    Yair,

    Dias atrás, o Bernardo escreveu um texto do qual gostei muito: “Tudo o que Devia ser Dito”. Ele postulava que não havia mais nada a dizer sobre este assunto e eu concordei com ele naquele momento.

    Mas agora volto atrás. Faltava dizer o que você colocou aí em cima. Fundamental e irretocável.

    Veja também a pesquisa do Pew em http://www.pewglobal.org/2014/07/01/concerns-about-islamic-extremism-on-the-rise-in-middle-east/ . A meu ver ela também explica porque o Hamas TEM que fazer esta guerra.

    Meu único pequeno reparo ao teu texto é que eu não concordo que o governo tem que construir escolas e hospitais. Isto tem que ser feito pela iniciativa privada, que faz mais barato e mais eficiente. Mas é claro que isto não muda em nada a excelência da tua análise. Parabéns!

    Abraço, Raul

    • Yair Mau

      29/07/2014 at 21:06

      Irretocável. Porém… 🙂
      Bem legal essa pesquisa do Pew Research Center.
      Obrigado, Raul! Abraços!

    • Raul Gottlieb

      30/07/2014 at 11:37

      “Irretocável, porém …” é a essência da alma judaica.

      Sem esta construção não existiria Talmud e não mais existiria judaísmo, que teria sido sepultado junto com o Templo de J’lém, Afinal, se o próprio dedo de Deus quem escreveu a Torá, o que mais havia para ser escrito?

      Abraço, Yair, muito boa a tua análise.

  • Fernando Gheiner

    29/07/2014 at 23:17

    Não posso concordar com nenhuma opinião que responsabilize uma parte unilateralmente pelo status-quo. A política da direita Israelense depende do medo e do belicismo para se manter no poder tanto quanto o Hamas precisa das péssimas condições sociais e econômicas da população para estabelecer uma ditadura teocrática. Sendo pseudo-parceiros, a sensação é que Israel contribui para as péssimas condições em Gaza, enquanto os mísseis incessantes garantem o medo.

    Quem já foi a Cuba sabe o que um bloqueio significa para um país. Cuba é uma ilha pacífica, com uma economia relativamente estável, onde não se consegue subir uma parede porque faltam insumos de construção civil. A comida tem sempre o mesmo gosto porque faltam temperos importados. Qualquer bloqueio tem um impacto crucial no desenvolvimento da região bloqueada. Nossos antepassados viveram em guetos, sabemos disso. Nenhum homem é uma ilha, muito menos uma cidade ou país. (podemos dispensar agressões ao fidel ou ao comunismo, o ponto aqui é o bloqueio e sua característica de impedir o desenvolvimento dos mais diversos setores de qualquer economia).

    Claro que cabe questionar se o bloqueio é “merecido”. Mas aí a conversa fica eterna: eles atacam porque Israel constrói assentamentos, redesenha fronteiras, controla água e eletricidade, etc; aí importam armas, que precisam ser vistoriadas e justificam um bloqueio. O ovo ou a galinha? Quem veio primeiro??? A política belicista e sem perspectivas de paz do lado Israelense é causa ou consequência da ascensão do Hamas?

    Fato é que algum dia os palestinos hão de ser livres. Para importar, comercializar, ir e vir do Egito ou de onde quiserem. Para construir parcerias ou para entrar em guerra com seus vizinhos. Enquanto o discurso for “nós” e “eles”, enquanto tivemos “culpados unilaterais”, o futuro de coexistência pacífica continuará distante.

    Longe de ser o Hamas o parceiro ideal para este futuro, ele é o interlocutor que as circunstâncias nos trazem hoje. Torço para que os Israelenses se sintam mais bilateralmente responsáveis por Gaza, e que ajudem a desenvolver condições para que caiam mais frutas irrigadas com netafim do que mísseis do IDF no outro lado da fronteira.

    E, importante: obrigado pelo aprendizado da retomada histórica recente do financiamento do Hamas!

    • Raul Gottlieb

      30/07/2014 at 12:19

      Caro Fernando,

      A tua postulação inicial: “Não posso concordar com nenhuma opinião que responsabilize uma parte unilateralmente pelo status-quo” coloca parte da responsabilidade pelo sequestro no sequestrado, parte da responsabilidade do estupro na estuprada e parte da reprovação do aluno na conta do professor (ficando com exemplos do quotidiano).

      O que fizeram de errado os cristãos de Mosul para merecer parte da responsabilidade de sua expulsão e os judeus da Alemanha nazista para merecer parte da responsabilidade por Auschwitz? Ou os teus avós por terem sido confinados em guetos? Será que eles realmente envenenaram os poços dos cristãos, criaram a peste negra e usaram sangue de crianças para fazer matsá? Foi por estas acusações que os cristãos da Europa trancaram os judeus nos guetos. Segundo você os judeus tem parte da responsabilidade por estas acusações.

      E não pense que estou exagerando ao levantar fantasmas do passado. Veja, apenas com um exemplo, este filminho em que o representante do Hamas fala sobre a mistura de sangue com Matsá. Ele é de segunda feira desta semana, não foi gravado na Idade Média: http://www.youtube.com/watch?v=nlDe1h3hJ6c Eu e você temos parte da responsabilidade sobre o que fala este energúmeno? Ora, faça-me o favor!

      E isto é apenas um exemplo. Se tiver estômago procure mais filmes, declarações e escritos do Hamas. A internet está cheia deles. É antissemitismo puro. Você realmente pensa que Israel tem parte da responsabilidade por isto? Veja que o status quo entre Israel e o Hamas emana desta mentalidade.

      Sim, a direita israelense enfatiza a necessidade da defesa preventiva violenta e a esquerda israelense é mais relutante em usar esta política. Mas o medo dos cidadãos de Israel, de todos os matizes, não deriva desta política e sim da ameaça real e concreta que emana de uma ideologia que se fundamenta no Islã pré-medieval e resgata os Protocolos dos Sábios de Sião como documento histórico (e pelo qual, segunda a tua doutrina, os judeus devem ser responsabilizados em parte).

      O bloqueio, Fernando, não é “merecido” coisa nenhuma. Ninguém postula o “merecimento” do bloqueio em Israel. O bloqueio é, isto sim, necessário e nada mais. Um país em guerra tem o direito de prevenir a entrada de materiais e pessoas no país inimigo. Isto é tão definitivo em direito internacional que, como cita o Yair, até o relatório da comissão Palmer não achou reparos ao bloqueio israelense. E veja que os relatórios da ONU nunca são favoráveis a Israel, pois a ONU está longe de ser o que deveria ter sido.

      O bloqueio naval e aéreo de Israel contra Gaza não tem relação alguma com o boicote ao comércio com Cuba que os USA lideram. Os países tem o direito de impor restrições e incentivos em seu comércio internacional. Se o Brasil não permitir a importação de carros fabricados na Argentina ou se a Argentina impedir a exportação de trigo ao Brasil, nenhum dos lados estará bloqueando o outro. Cuba é pobre porque escolheu (na marra, é certo, mas no final das contas os representantes de Cuba aceitos pela comunidade internacional escolheram) o caminho comunista que gera miséria até mesmo em gigantes como a Rússia, o que dirá em países pequenos como Cuba e Coréia do Norte.

      Esta conversa de que existe um bloqueio dos países do Ocidente contra Cuba e que é este bloqueio que causa a pobreza na ilha é uma falácia que não se sustenta. Ora, Cuba postula que o comunismo é o melhor regime possível, mas diz também que ele (o comunismo) só garante a prosperidade se mantiver relações comerciais com os países democráticos? Tem alguma coisa que não fecha aí, pelo menos no meu raciocínio de engenheiro.

      Finalmente, Gaza é regida por um regime que declarou guerra de extermínio a Israel. Esta é a causa mãe. O resto é consequência.

      Abraço,
      Raul

    • Daniel

      30/07/2014 at 19:17

      Raul,

      1- A frase “Não posso concordar com nenhuma opinião que responsabilize uma parte unilateralmente pelo status-quo” urge de uma linha de pensamento que se aplica a diversos tipos de estudos de relações entre 2 ou mais agentes. Seja na psicologia, antropologia, ciências sociais/políticas, etc… em qualquer relação, nunca existe uma ação que envolva as duas partes sem que tenham acontecido motivos provocados (propositais ou não, justificados ou não). Sem dúvida, para todos os exemplos que você usou (e se pensarmos na quantidade de motivos provocados pelas 2 partes para que se chegassem às circunstancias finais, são bastante desproporcionais em relação ao atual conflito israelo-palestino). Concordo com o Fernando quanto a esta crítica. O texto do Yair é muito bom quanto à informação, mas peca na análise política, é de certa forma parcial ao lado israelense, não busca a diplomacia, consequentemente não busca a paz.

      2- Fotos, vídeos terríveis que flagram crimes e barbáries existem aos montes e dos dois lados. Serve para perdermos nosso tempo, disseminarmos ódio entre as pessoas e aumentar a discórdia. Consequentemente não busca a paz.

      3- Um dos motivos para o Hammas ser chamado de grupo fundamentalista radical se deve ao fato dele sustentar fundamentos ideológicos e ser pouco ou nada flexível quanto a concessões que vão contra os seus fundamentos ideológicos. Você descreveu alguns destes fundamentos, porém faz parte da ideologia do Likud a não existência de um Estado Palestino até a fronteira do Jordão. Radical? Talvez, mas eles aceitam negociar com Grupos que querem um Estado Palestino para dentro deste limite geográfico, Fattah, ANP, entre outros. O Hammas já cogita conversar com Israel (o Likud), caso respeitem algumas requisições (nada razoáveis, eu sei). Mas assim como muitos fatos que o Yair citou no texto dele, se somarmos a estas pequenas demonstrações de afrouxamento nestes 2 grupos “de direita” (Likud e Hammas), o papel de quem quer por fim de uma vez a todo esse sofrimento e amargura não é ficar apontando o dedo na cara do Hammas ou do Likud por seus pontos negativos. O papel de quem quer a paz é se aproveitar do momento político de extrema pressão que sofre o Hammas e certa pressão que sofre o Bibi para apoiarmos e fortalecer quem no momento aparenta querer o diálogo, querer por fim ao conflito (EUA, centro e esquerda israelense, governo egípcio, ANP..)

      4- Estou de acordo que o bloqueio é necessário no atual momento, embora negativo. Mas muito mais necessário para todas as partes, é a busca da paz e a entrega de um Estado Palestino. Com isto não temos mais bloqueio, pois não será necessário.

      Abrs!

    • Raul Gottlieb

      31/07/2014 at 12:20

      Daniel

      Tem uma frase no teu comentário (começa com “Sem dúvida”) que não fecha. Se você puder esclarecer melhor, eu agradeço.

      Sim, eu sei que tudo tem vários lados – e não apenas dois. Porém isto não quer dizer que todos os lados estão certos do ponto de vista moral.

      Focando em nosso assunto: a reação do agredido molda a ação do agressor, mas não muda a responsabilidade pela agressão.

      Se um estuprador ataca uma senhora que sabe lutar, que resiste bravamente a ponto de feri-lo mortalmente, ele continua sendo o agressor e ela a agredida, mesmo ele estando morto e ela viva ao final do assalto.

      O responsável pela sua morte é ele e não ela, independente do que vai aparecer nas fotografias ao final do assalto. Ela pode estar lépida e fagueira e ele todo destroçado, cheio de marcas roxas e sangue escorrendo. Mas ele é o agressor e ela a agredida. Quem analisa pelas fotos não vai entender isto. Tem que entrar um pouco mais fundo no que houve para poder atribuir responsabilidades (que é a palavra chave do comentário do Fernando).

      Sim, existem motivos de ambos os lados. Ela estava passando por ali e parecia desejável ao estuprador. Ela até pode ter flertado com ele, tomado umas biritas em sua companhia. Sem estes motivos o estupro não teria ocorrido. Mas estes motivos não mudam a responsabilidade pelo estupro.

      Usei o exemplo do estuprador porque tem um “ele” e uma “ela”, o que facilita a escrita. Mas o exemplo do Hamas e de Israel cai exatamente neste contexto. Sem tirar nem por. O assaltante é o Hamas.

      Leia esta nota: http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_do_liceu_de_Maalot

      Aconteceu há 40 anos. Não havia Hamas. Não foi em Gaza, não foi na Cisjordânia. Não haviam colônias. Aconteceu numa escola dentro de Israel. Ela não escondia mísseis. Ela era uma escola onde não se ensinava que um grupo de pessoas são filhos de porcos com macacos.

      Mas Maalot é apenas uma digressão para reavivar a memória. Pareceu-me importante fazer isto neste momento. Voltemos aos demais pontos do teu comentário.

      Sim, fotos e vídeos terríveis existem porque a guerra é terrível, mas o nosso lado não os produz, não os falsifica, não usa fotos da Síria como se fossem em Gaza e assim por diante. Se quiser, se informe a respeito da falsificação das imagens que os inimigos de Israel praticam.

      O Likud é um partido dentro de Israel. A posição do Likud não é a posição do Estado de Israel. O Likud nunca governou sozinho, assim como nenhum partido de Israel jamais governou sozinho. Governos que incluíam o Likud firmaram acordos com os países vizinhos e se dispuseram a negociar com os Palestinos.

      Já o Hamas é um partido que governa Gaza de forma monolítica a partir de um golpe de estado feito em 2007. Não é possível comparar o Likud com o Hamas, pois os contextos de atuação são completamente diferentes.

      O bloqueio é negativo para quem? Para a segurança da minha família que mora em Israel ele é muito positivo e eu espero que só acabe um dia depois de termos um verdadeiro acordo de não agressão com os vizinhos. Não precisamos de entendimento fraternal, apenas de um compromisso legítimo de não agressão.

      Enfim, resumindo tudo: a existência de vários pontos de vista não legitima todos eles e nem sempre a responsabilidade é compartilhada. O bebê recém-nascido de uma mãe desesperada que o joga na lixeira por não poder suportar a ideia de ter que cria-lo é o responsável pelo desespero da mãe, mas não por sua morte.

      A reação do agredido molda a ação do agressor, mas não muda a responsabilidade pela agressão.

      Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      31/07/2014 at 15:06

      Oi Daniel,
      ” O Hammas já cogita conversar com Israel ”
      Gostaria que você explicasse melhor. Tudo o que eu li/ouvi até agora mostra que NÃO quer diálogo. Quem quer conversar….. conversa, não impõe condições para isso. A última façanha desse grupo assassino foi matar PALESTINOS que se manifestavam contra a guerra. Até prova em contrário, esse é a única forma de diálogo que eles conhecem e praticam.
      um abraço

    • Ana

      31/07/2014 at 18:19

      <>

      Caro Raul,em todos os exemplos que você deu (estupro, sequestro, confinamento em guetos…) fica muito claro que há uma vítima, na maioria das vezes indefesa, desarmada e desorganizada coletivamente. Fica muito claro que é de uma crueldade e relativismo absurdo dizer que a vítima precisa dividir a culpa com seu algoz. Para que esta lógica (a de não poder responsabilizar a vítima ) tivesse que ser aplicada ao discurso do Fernando, seria necessário que a vítima fosse Israel. E nem o texto do Yair coloca Israel nesta posição. Se tem alguém mais próximo de uma situação vitimizada, é a população palestina de Gaza. O que o Fernando observa é que culpabilizar apenas o Hamas (que não é nada indefeso, nem desarmado, nem desorganizado) pela miséria dessas pessoas representa uma visão por demais unilateral. Pois também há a participação nada desprezível do Estado israelense ( outro agente que não é indefeso, nem desarmado, nem desorganizado). Aí pode-se até debater quem começou o que, mas é uma discussão que não vai ter fim e que talvez não trará nem um bom fruto. Colocar-se na condição somente de vítima, quando o banho de sangue está acontecendo do outro lado, é, no mínimo, uma desatenção de sua retórica .

  • Marcelo Starec

    29/07/2014 at 23:30

    Muito bom o artigo Yair,
    Interessante ressaltar o quanto essa liderança, do Hamas, é hipócrita – amam a morte!!!…Mas não a deles!…Eles e suas famílias vivem como milionários, inclusive fora de Gaza, ou lá mesmo, mas em mansões…Realmente precisam de um “inimigo externo” para a população de Gaza não se revoltar !!!…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    30/07/2014 at 01:07

    “Quem já foi a Cuba sabe o que um bloqueio significa para um país.” Fernando, você sabe que muitos americanos (EUA) e a grande maioria dos latino-americanos é contra o bloqueio, certo? Sabe também que esse número vem aumentando. Agora, o que você acha que aconteceria se a ditadura cubana decidisse começar a lançar foguetes sobre a Flórida todos os dias?

    ” O ovo ou a galinha? Quem veio primeiro??? A política belicista e sem perspectivas de paz do lado Israelense é causa ou consequência da ascensão do Hamas?”
    Não entendi. Você tem alguma dúvida sobre se a independência americana veio antes que a brasileira? Que a II Guerra veio antes que a do Vietnã?
    Você por um acaso acha os eleitores israelenses decidiram votar na direita após vários governos socialistas no cara ou coroa?

  • Luiz Rechtman

    30/07/2014 at 02:48

    Como já comentado por mim no artigo do João há alguns dias, você demonstrou, com mais clareza ainda, da importância econômica destes túneis fechados na fronteira egípcia e, que, resultaram no aceleramento do colapso financeiro dos contrabandistas, grandes empresários e corruptos do hamas em Gaza.

    Porque “analistas” desta guerra não comentam ? Por desconhecimento ou, para não enfraquecer a “resistência” e apoio dos simpatizantes desses ladrões e assassinos do povo de Gaza.

    É algo inacreditável pelo silêncio frente a tantas provas do uso de tantos recursos em benefício de tão poucos.

    • Yair Mau

      30/07/2014 at 03:10

      Olá Luiz. Os comentaristas de Israel são excelentes, na minha opinião (não todos!, claro). Comecei a ter a ideia deste texto vendo o noticiario de Israel, onde sim se fala sobre grande parte do que escrevi a respeito. Infelizmente a mídia internacional basicamente traduz o que quer que a Associated Press passa adiante, então fica dificil. Por outro lado, é pra isso que estamos aqui! Obrigado pela visita.