Querem ‘centralizar’ o meu evento

05/12/2012 | Política

Hoje, dia 27 de outubro de 2012, fui à Atzeret[1] Rabin. Esta foi a quarta vez que eu compareci ao evento, e creio que venha ser a última. Não pense, caro leitor, que estou mudando de lado, ou que eu não veja sentido em recordar e prestar as devidas homenagens ao 1º Ministro que chegou mais próximo à paz real com os Palestinos (no meu entendimento). Não é este o motivo, longe de mim! A razão clara e infeliz se explica pelo que está se tornando este tekez[2], que lamentavelmente tenta despolitizar o seu real significado, quando na verdade o politiza cada vez mais para o lado ruim, contudo. É político para o oposto do que deveria ser. Cada vez mais este evento se dirige ao centro, o que de mais nefasto existe na política, na minha opinião. A mais alienadora de todas as influências.

Itzhak Rabin foi morto por um radical da direita religiosa. Não quero, por não considerar correto, culpar nem os religiosos nem a direita pelo seu assassinato. Tenho plena convicção de que a grande maioria dos religiosos ou dos direitistas não seria capaz de um ato destes, e tampouco o aprova. Mas tampouco serei ingênuo ou parcial, ignorando todas as manifestações que incitavam à violência e posições radicalmente contrárias às que propunha o ex-1º Ministro, feitas tanto por membros – importantes, diga-se de passagem –da direita laica quanto da direita religiosa. Não falo em culpa, prefiro o termo responsabilidade. Cada um é responsável pelos seus atos, acho que todos concordam com isso. Mas também acredito que a maioria não esperava por um ato de tamanha intolerância. Assassinato ultrapassa todas as fronteiras, inclusive descumpre com um dos dez mandamentos bíblicos.

Mas o fato ocorrido é um só: Rabin foi assassinado por ser de esquerda (ou centro-esquerda), e, ser de esquerda em Israel é ser a favor da troca de territórios por paz. Ser de esquerda é, de alguma forma, ser a favor da criação de um Estado Palestino. As discussões são em torno das fronteiras, ou, no caso mais extremo, de um Estado bi-nacional – o que define em Israel extrema esquerda, pós-sionismo, ou, simplesmente a opinião de parte da comunidade árabe. Em cartazes da oposição, Rabin foi vestido de nazista, chamado de traidor e provocou incontáveis discursos inflamados feitos por quem não concordava com a sua política. Isto foi feito por milhares de pessoas, não só por Igal Amir, seu assassino, que hoje está preso.

Depois do trágico acontecimento, todos os anos muita gente – cada vez menos, infelizmente – se reúne na Praça Itzhak Rabin[3] para prestar homenagem e recordar este triste assassinato. Gente de esquerda, em sua grande maioria. Gente de movimentos juvenis. Gente de movimentos sociais e partidos políticos de esquerda. Gente que, de alguma forma, não concorda com o que aconteceu. Gente de direita, prestando solidariedade – o que é legítimo, respeitável e louvável –, que discursa contra a intolerância no palco. Uma lição a ser ensinada, aprendida e mantida. O tekes, com o tempo, se tornou um ato por democracia e tolerância. Mas não havia deixado de ser uma manifestação da esquerda, eu pensava. Até este ano.

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Rabin vestido de nazista por segmentos da direita intolerante

Em quase todos os anos, tradicionalmente no início de novembro, eu escutei discursos de pessoas de esquerda, que criticavam os governos que sucederam ao de Rabin e não davam continuidade ao processo de paz. Que não dialogavam com os palestinos, que prosseguiam com a construção de assentamentos nos territórios ocupados, que lançavam mão de políticas racistas em relação aos palestinos, e etc. Junto a isso, também escutava discursos de pessoas que assumidamente não compartilhavam da opinião de Rabin – como a ex-chanceler Tzipi Livni, em 2009 –, mas que absolutamente condenavam o assassinato. Sempre houve de tudo. Este ano, não.

 

A verdade é que, cada vez mais, os discursos eram direcionados mais à democracia do que à lembrança de que a esquerda foi vítima de um boicote. Quando se recorda o que aconteceu, parece haver um esforço coletivo para se esquecer tudo o que se passou antes do assassinato. Rabin vestido de nazista, chamado de traidor, terrorista, discursos de incitação ao ódio e todo o tipo de barbaridade, hoje passam com indiferença. Ninguém lembra que o atual 1º Ministro Biniamin Netanyahu, por exemplo, discursou em frente a uma foto de Rabin vestido com uniforme da SS e hoje é o 1º Ministro do país. E neste tekes, acima de tudo, só se falou em irmãos judeus unindo forças, pois o sionismo não deve entrar em conflito entre si. Se todos nós amamos o Estado de Israel, por que assassinar? Por que devem os irmãos judeus brigarem entre si?

Ser de esquerda em Israel, no entanto, é uma difícil tarefa nos dias de hoje. O tiro que assassinou o 1º Ministro, metaforicamente assassinou a toda a esquerda de uma só vez. Criou a juventude das velas, gente que ia à praça para chorar a morte de seu líder. Deu ao Avodá[4] uma única segunda chance de ter o 1º Ministro, tragicamente pelas mãos do menos “preparado”, digamos assim, para assumir a tarefa de concretizar a paz. Já me cansei de escutar em Israel que “ou se é de esquerda ou se é sionista”. Ter como ideia a troca de territórios por paz é ser um traidor. Aceitar criar um Estado Palestino nas fronteiras de 1967 é uma irresponsabilidade. Vocês compreendem como isso é impressionante? Dar ao povo palestino a chance de se autodeterminar uma nação e ter um Estado é ser um traidor! E eu que pensava que era isso o que os judeus queriam na primeira metade do século e que parte do mundo negligenciava sem o menor pudor.

Eu, que fiz parte do Habonim Dror[5], sempre escutei que a tnuá[6] não era somente socialista. Era sionista socialista. Pois eu agora digo que a tnuá não é só sionista. Ela é sionista socialista. É uma comunhão de ideias que não pode vir separada. O sionismo sem socialismo não serve. Quando nós mantemos uma ocupação, que transforma os palestinos em subcidadãos, estamos não só criando um grupo social inferior, como não estamos sendo democráticos. Eles não têm cidadania. E eu não admito isso, como sionista socialista, como judeu – depois de tudo o que passamos –, e, sobretudo, como ser humano. E se isto é ser traidor, então o mundo está de cabeça para baixo, mesmo.

Rabin nos faz lembrar uma época em que estivemos um pouco mais próximos do certo: dar a um povo sem Estado, que sofre com a desigualdade social, civil e política, a chance de ter um lar. Rabin nos recorda um pouco dos ideais de esquerda. E a Atzeret Rabin nos faz o favor de ocultar tudo isso em prol de uma mentirosa comunhão de ideias entre “sionistas”. Ora, eu não sou o mesmo sionista que o líder do Bnei Akiva [7]que discursou ali. Ele não quer ceder as terras para a criação do Estado palestino, mas sim mantê-los como subcidadãos. Ele tem todo o direito de falar de democracia e de ser convidado a discursar. Mas de forma alguma ele pode simbolizar a “moral” do tekes. Alguém tem que falar sobre os assentamentos, que não param de ser construídos. Alguém tem que recordar que é possível – e que é o mais correto, na minha opinião – ser sionista e de esquerda ao mesmo tempo. O tekes é ou não é, afinal, sobre o Rabin e sua memória?

Alguém, igualmente insatisfeito como eu, me disse: “estão querendo despolitizar o tekes”. Eu não concordo. Querem politizá-lo. Querem torná-lo de centro. Querem que todos nós concordemos com algo, a fim de que não nos importemos com as diferenças que existem clara e cristalinamente dentro do Estado de Israel. Para que votar, então, nas eleições de janeiro, se somos todos irmãos, judeus e sionistas? Eu não quero me abster de escutar as pessoas que concordam comigo uma vez no ano. Eu quero poder sair do armário como esquerdista, sem que ninguém me chame de traidor. Eu quero poder criticar os assentamentos, o aumento dos impostos e dos preços em benefício dos ricos. Eu quero pedir por justiça social. E nem na Atzeret Rabin eu posso, pois os discursos são todos vazios.

Eu já estava indo embora, chateado, quando vi três jovens religiosos com cartazes ofensivos ao ato, praticamente sem ser incomodados – segundo me foi relatado, uma única mulher raivosa rasgou um deles. Os cartazes criticavam os Acordos de Oslo, a política de Rabin e os pacifistas. Quando eu vi aquilo, no caminho para casa, tive vontade de agradecer a estes extremistas de direita. Obrigado por me recordarem que nós não somos todos iguais. Obrigado por me fazerem ver que, no fundo, isso tudo que está acontecendo aqui é uma grande mentira manipuladora, mas que será descoberta no dia 22 de janeiro, nas eleições. Obrigado por me recordar que este evento não é em vão, por mais que tentem fazê-lo ser.


[1] Termo hebraico para “Parada”. Dia em homenagem ao 1º Ministro Itzhak Rabin, assassinado por um judeu fundamentalista, descontente com as negociações com os palestinos em 1995.

[2] Termo hebraico para “cerimônia”.

[3] Antes chamada Reis de Israel, que recebeu o nome em homenagem ao ex-1º Ministro.

[4] Partido Trabalhista, ao qual o 1º Ministro Rabin pertencia.

[5] Movimento juvenil judaico sionista socialista.

[6] Termo hebraico para “movimento”.

[7] Movimento sionista-religioso.

 

Fotos retiradas dos sites:

Capa: http://www.nrg.co.il/online/1/ART2/284/656.html

Foto 1: http://yoashtvblog.co.il/

Comentários    ( 10 )

10 Responses to “Querem ‘centralizar’ o meu evento”

  • Yair Mau

    06/12/2012 at 20:45

    excelente! parabens pelo texto

  • Marcelo

    10/12/2012 at 11:20

    Muito bom Joao!

    A esquerda em Israel tomou o seu primeiro tiro junto com o Rabin. Mas foi assassinada mesmo, quando os primeiros misseis lancados de Gaza (devolvida) caíram em território nacional.

    A eleição do Hamas e de sua ideologia, nas sufragio que se seguiu, tambem colocaram uma forte duvida na máxima “territorios por paz” tão defendida pela esquerda israelense.

    Isto porque esta teoria (duvidosa) compreende que a liderança terrorista da Faixa de Gaza quer terra E quer paz…

    Paz, como está descrito na plataforma ideológica do partido que governa a Faixa de Gaza hoje, somente será obtida com a islamização do mundo e a consequente morte dos judeus e sua extinção das terras de Alah.

    Parabens pelo texto.

  • Rafael Stern

    23/12/2012 at 18:49

    Boa João!
    Compartilho de seu sentimento. Fui chamado de traidor e de idiota em apenas 1 mês de volta ao Rio de Janeiro, devido a dois eventos separados. Não sei se você acompanhou o que aconteceu por aqui nos últimos tempos, mas realmente me assusta os rumos que a opinião geral israelense e judaica-diásporica está tomando…..

  • João Koatz Miragaya

    24/12/2012 at 11:05

    Eu fiquei sabendo, Rafael. Eu vou aprofundar um pouco mais este tema em outro texto após as eleições. Aguarde.

  • Mario Silvio

    25/12/2012 at 22:53

    “que criticavam os governos que sucederam ao de Rabin e não davam continuidade ao processo de paz. Que não dialogavam com os palestinos, que prosseguiam com a construção de assentamentos nos territórios ocupados,”
    Curioso, aqui no Brasil ouvimos falar que Netanyahu congelou os assentamentos e mesmos assim o Abbas continuou enrolando e não queria dialogar. Não foi assim?

  • Andre Rozenbaum

    26/12/2012 at 12:55

    Agora fiquei curioso,
    Quem que organiza a programacao do tekez? QUem que escolhe que vai falar no microfone????

  • Felipinho

    28/12/2012 at 23:52

    Ótimo texto, parabéns!!!
    Parabéns também por perceber os novos significados que tentam colocar no tekez

  • João Koatz Miragaya

    29/12/2012 at 15:02

    Mário Silvio,

    Não foi assim. Os assentamentos se expandiram durante os quatro anos de governo Netanyahu, sobretudo em Jerusalém Oriental (o que Bibi não considera assentamento). O chefe da Autoridade Palestina Mahmmoud Abbas exigia uma única condição prévia para que se negociasse: o congelamento das construções. Isto só ocorreu durante nove meses, entre 2009 e 2010, e, assim mesmo, as negociações não fluíram.

  • João Koatz Miragaya

    29/12/2012 at 15:04

    André Rozenbaum,

    Algumas instituições organizam o evento hoje: o Merkaz Rabin, a família do ex-primeiro ministro, alguns movimentos juvenis (parte deles neste ano racharam com a pauta), dentre outras. Cada ano alguém pode se juntar à organização.

  • João Koatz Miragaya

    29/12/2012 at 15:05

    Felipinho, Macelo e Yair Mau,

    Obrigado.