Raanana: calmaria depois da tormenta

14/10/2015 | Conflito; Sociedade

As medidas de segurança da prefeitura e do governo, aliadas ao ânimo escaldado dos cidadãos, garantiram o silêncio na cidade, visivelmente afetada pelos ataques de ontem. A primeira resposta da população já está óbvia: o fortalecimento de um tipo de nacionalismo que não faz bem a ninguém.

“Em duas horas: dois atentados à faca na mesma avenida”. Manchete do jornal Post.
“Em duas horas: dois atentados à faca na mesma avenida”. Manchete do jornal Post.

Minha suburbana Raanana amanheceu diferente, estranhamente silenciosa e desconfiada depois dos dois ataques terroristas de ontem. Cedinho, em vez dos enxames de crianças e adolescentes caminhando para as escolas, via-se um a um, escoltados pelos pais, de carro ou a pé. Na porta de cada uma delas, uma dupla de policiais.

Um site de vendas coletivas esgotou rapidamente sua oferta de sprays de pimenta, artefato de segurança que foi adotado largamente pela população. Os israelenses foram criativos nesse tema, e houve quem circulou com uma mau disfarçada garrafa de vidro com água o tempo inteiro. Outra recomendação que rolou pelo whatsapp foi a manter um guarda-chuva ao alcance – com um desses, um cidadão raananense botou a nocaute o autor do primeiro ataque de ontem.

Essas precauções vão contra a recomendação do amado prefeito local. Ao chegar rapidamente ao local do primeiro atentado, que ocorreu bem na frente da Prefeitura, ele pediu à população que “deixasse que a polícia fizesse seu trabalho”. Ele estava obviamente se referindo à violência da população após conseguirem render o primeiro terrorista. No entanto, os próprios israelenses têm se defendido desses ataques-surpresa, com cenas de incrível coragem mas, por vezes, de nauseante violência.

Ontem à tarde foram divulgadas as primeiras medidas de segurança adotadas pela prefeitura de Raanana. Ela contratou empresas privadas para reforçar o número de seguranças nas ruas e criou uma “hot line” 24 horas, por meio das quais os cidadãos podem pedir esclarecimentos ou realizar denúncias. Funcionários da prefeitura do sexo masculino, que trabalham em diferentes áreas como jardinagem ou limpeza, foram afastados até o próximo domingo. Um festival ecológico que seria realizado no dia 15 no parque da cidade foi cancelado. Empresas também se precaveram e dispensaram seus trabalhadores árabes – hoje todas as obras da cidade (que está tomada por projetos Tama 38, de reforço de estrutura e retrofit da fachada) estavam paradas. Além disso, foram enviados seguranças para proteger jardins de infância e escolas localizadas perto de áreas em obra.

A cidade não parou por completo, mas o coração das pessoas sim.

Muitas mães preferiram manter as crianças pequenas em casa. É preciso explicar: nos jardins de infância públicos e privados, há muitas funcionárias árabes. Esse tema causou muita comoção por aqui ontem, por conta da desconfiança dos pais, que exigiram uma solução preventiva da prefeitura.

Eu fui uma das mães que “escoltou” a cria hoje para a escola, a pedido de minha filha – normalmente valente, ela também está receosa. Na caminhada de 40 minutos, percebi que todos estavam sem fones nos ouvidos e sem telefones, uma recomendação de segurança. Olhavam-se de soslaio. Dava para tocar a tensão no ar. Mas nem todas: vi muitas que caminhavam orgulhosamente com uma bandeira de Israel nos ombros. Vale citar que ontem, em frente ao local de um dos atentados, formou-se um grupo de jovens que, vestidos com a bandeira, cantavam hinos como Am Israel Chai (o povo de Israel vive).

Essa é, para mim, a parte bonita e feia dessa história toda de terrorismo. Por que, por um lado, é emocionante ver o amor dos judeus por seu país, que se manifesta em quase tempo integral. Em horas como essa, todas as desavenças internas parecem desaparecer, algo lindo de se perceber. Mas o crescimento do nacionalismo não é um bom sinal, nem aqui, nem em lugar nenhum.

Israel paga um alto preço pela impossível gestão de suas diferentes populações. No entanto, me parece muito claro que quem perde mais, nesse momento, é a árabe. Por causa de uns poucos, dois milhões de pessoas se transformaram novamente, da noite para o dia, no inimigo imprevisível que mora dentro de casa. E não faço a menor ideia de quanto tempo é necessário para que esse tipo de trauma possa ser superado.


Foto: Miriam Sanger

Comentários    ( 7 )

7 Responses to “Raanana: calmaria depois da tormenta”

  • Marcelo Starec

    15/10/2015 at 05:23

    Oi Miriam,

    Ótimo texto!…Bom, sobre a população árabe – basta lembrar que em 1948 eles (ou muitos deles) – se juntaram aos exércitos, de algum modo, para auxiliar no trabalho de “jogar os judeus ao mar” (o nome correto é infelizmente um pouco mais “feio” do que esse…). Enfim, perderam e receberam cidadania e direitos iguais, mas após 67 anos alguns deles continuam a buscar o terror contra os judeus – isso tudo apesar de estarem bem financeiramente e viverem um padrão de vida de país de primeiro mundo…Mas fazem isso conosco!…Isso faz cair por terra a ideia de que basta melhorar o seu nível de vida que o extremismo islâmico deixa de existir!…Enfim, no meu entender, cabe aos líderes da comunidade árabe muçulmana de Israel demonstrarem o real interesse em se integrar ao país – totalmente, inclusive cumprir com as suas obrigações militares e cantar o hino nacional, dentre outros e repudiarem, em alto e bom som, elementos marginais extremistas dentro desta comunidade!…Não dá para aceitar hoje em Israel uma comunidade muçulmana de 20% ou mais da população do país que recebe tanto e ainda assim parte dela recusa-se a se integrar…E quando eu digo se integrar é tão somente cumprir as suas obrigações de cidadão!…Somente isso!…Não há em Israel nenhuma restrição para a prática plena de sua religião, inclusive o direito a receber ensino islâmico nas escolas públicas!…Assim, é inaceitável termos hoje no Knesset deputados muçulmanos que não aceitam a existência de Israel, mas representam um grande número de eleitores!…Fica o desabafo!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Heloisa Pait

    15/10/2015 at 18:26

    Muito bonito o seu artigo, muito ponderado.
    O desafio de vocês é realmente muito delicado.
    Os demitidos, não fica claro, são cidadãos israelenses?

    • Miriam Sanger

      17/10/2015 at 20:56

      Olá, Heloisa.
      Referi-me a árabes israelenses, mas eles não foram demitidos. Apenas afastados temporariamente.
      Abraço e boa semana!
      Miriam

  • Mauricio Peres Pencak

    16/10/2015 at 01:52

    Gosto muito dos artigos, em particular a abordagem que detalha os elementos da vida cotidiana.
    Como outros judeus e sionistas, tenho acompanhado atentamente o noticiário sobre essa onda de ataques terroristas, pessimamente abordado pelos meios de comunicação no Brasil. Quando noticiam, buscam sempre apresentar um viés anti-Israel, com honrosa exceção da rede Record.
    Sobre o reforço do nacionalismo, considero-o FUNDAMENTAL , extremamente saudável e um dos traços distintivos de Israel.
    SHALOM!